Entre
espelhos velados:
brincando
com reflexos
Uma
de minhas insistentes súplicas a Deus e ao meu anjo da guarda
era não sonhar com espelhos. Sei que os vigiava com inquietação.
Algumas vezes, receei que começassem a divergir da realidade;
outras, ver meu rosto neles desfigurado por adversidades
estranhas. Soube que esse temor está, outra vez,
prodigiosamente no mundo.
Jorge
Luis Borges
Escrevemos
para criar outros mundos, reinventando lugares e errâncias. Mas
como se pode engajar toda a existência na inquietude de pôr em
ordem um certo número de palavras? Pergunta-nos Maurice Blanchot
(apud COSTA LIMA, 1993: 39). Talvez pelo nomadismo que possibilita
nossa existência, que em sua própria etimologia invoca um sair
de si. Somos pássaros migrantes, sempre em fuga diante de tudo o
que nos impeça de voar. Mesmo que nossos pés precisem de um solo
e, em alguns momentos nos acostumemos com os exílios, por neles
encontrarmos alguma proteção, sonhamos com a aventura.
A
metáfora do espelho, em Jorge Luis Borges (1899-1986),
nos seus escritos sobre Os Espelhos e os Espelhos
Velados, levam-nos pensar que diante de narrativas espelhadas
é que vemos o mundo. Jogos de espelhos que se refletem nas
palavras, que adormecem levemente sobre a superfície das coisas,
no rosto de uma pessoa amada, num ideal, num desejo, enfim, na
maneira de sermos e expressarmos nossa demasiada humanidade.
Assim:
O
cristal nos espreita. Se entre as quatro
Paredes
do aposento há um espelho,
Não
estou só. Há outro. Há o reflexo
Que
arma na aurora um sigiloso teatro. (BORGES, 1987).
Talvez
o nosso primeiro espelho velado seja o rosto amado, espelho no
qual olhamos e nos confundimos com as nossas imagens e as do
outro, olhar sempre à espreita, sempre em encanto e desamparo
diante do que há por vir. Não há palavras que nos protejam
desse primeiro reflexo, as mãos se deparam vazias, sem bagagens
ou garantias, só o abismo de um jogo de sombras e projeções.
Depois descobrimos que esse rosto amado é só um rastro, que ora
nos derruba com seus reflexos e imagens escorregadias, e ora
nossas mãos somente acariciam, mas não podem conter. E quantos
rostos (im) possíveis de serem contemplados, outros que nem temos
mais como olhar, quantos que se despedaçam diante do espelho,
quantos pedaços cortando as mãos e vagarosamente deitados na
estrada, e que com o tempo já não machucam mais os pés. Quantos
que ficarão somente na lembrança... Imagens veladas, que a cada
dia desvelam e revelam um traço, um sorriso, a lembrança de uma
voz, uma maneira de olhar, um jeito capturado pela contemplação,
mas não pelas palavras. Uma cena diante da qual nunca
verdadeiramente estivemos, “lugar inabitável” de nós mesmos.
Só
o que nos atinge, marcando o corpo e a alma, é que nos faz na
vida amados e amantes. Um brincar incessante com esses reflexos
nossos e dos outros, cenas que nos embriagam, comovem.
Depararmo-nos com o mundo nesse confronto incessante e intenso,
entre o preenchimento das palavras e a fuga dos sentidos, nessa
oscilação de similitudes e diferenças, é que torna possível a
inscrição semântica da vida. Cada ser buscando as suas tintas,
cada um sentindo a dor e a alegria das palavras, essas pequenas
insígnias que tentam (re) velar o que intensamente somos,
nomeando rostos, que ao mesmo tempo seduzem, envolvem e assustam.
Talvez
no amor encontremos esse primeiro brincar de reflexos, um não-lugar
de impressões fugidias. Espaço inabitável de coisas pequenas,
jogo de espelhos velados, de imagens que se refletem e se
cortejam. Como diz poeticamente Rubem Alves:
Amo,
sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa
misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no
teu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se
revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como
peixes fugidios...Como Narciso, fico diante dele... (ALVES, 1996:
17).
Espelho
que desvela nossa “insustentável leveza de ser”, fluidez que
num instante é leve, mas que nos fere como lâmina, experimentação,
ensaísmo da leveza diante de tudo aquilo que se torna pesado em nós.
(CALVINO,
1990:
16). Estar
diante do espelho é como fazer uma subtração de todo peso e
retirá-lo “ora às figuras humanas, ora aos corpos celestes,
ora às cidades”, talvez nos lembre a literatura que revela a
vida em prosa e poesia e busca, “sobretudo (...) retirar peso à
estrutura da narrativa e à linguagem”.(Idem, Ibidem: 15).
Instante no qual podemos animar com vida as coisas viventes, a
começar por nós, “contemplar o abismo, sem ser destruído por
ele. Nas palavras de Rilke: conter a morte inteira docemente, sem
nos tornar amargos”. (ALVES1996:
97).
O
espelho possibilita confrontos, desconcerta, desenha rasuras no
rosto, impulsiona movimentos, provoca fluidez nesse “invólucro
chamado corpo”, dentro do qual não passamos de “inquilinos
solitários”. (NOLL,
1999:79).Quantos
espelhos de palavras, de pessoas, de lugares, de coisas que não
mais nos verão? Quantos reflexos não ousamos olhar? Imagens
tantas que não puderam ser sentidas profundamente pelo olhar,
tantos são os espelhos pelos quais passamos pela vida, em quantos
e de que maneira ficamos? Presos como em um quadro ou moventes
como as paisagens?
Borges
parece ter invocado em sua escrita algumas imagens para refletir
seus confrontos, entre eles: a espada, o labirinto, punhais,
tigres, tabuleiros de xadrez, a cegueira, os espelhos, as máscaras.
Elementos cortantes, ameaçadores, brumas diante de nossas
certezas, objetos diante dos quais somos surpreendidos. O
labirinto que embaralha toda e qualquer ordem ou solução;
espelhos e máscaras que possibilitam a pluralidade icônica do
que somos. Símbolos que se revelam como confrontos com
alteridades, com tantos outros que vivem dentro e fora de nós
mesmos, nesse labirinto chamado tempo.
A
escrita talvez seja um desses reflexos do espelho, que também
somos. Na escrita capturamos com o olhar, é como esculpir um
rosto sempre (in) definido e em constante fuga, que exige mais do
que imaginação, mas o laborioso trabalho do olhar. Borges era um
autor voltado para a escritura, o que fazia com que os seus olhos
fossem como uma outra pena diante da leitura, da poesia e da
escrita. Deparar-se com a cegueira foi ter que perder esses
regalos que somente os olhos percebem e podem adornar. Olhar
obsessivo, minucioso
lapidando cada palavra, dando-lhe a (in) tensidade com que foram
ditas pela primeira vez!
Os
espelhos velados, do qual nos fala Borges, revelam os fragmentos
que assombram o fantasma do uno, da palavra clara que tudo diz.
Talvez as coisas e as pessoas não sejam mais do que aquilo
que são, tanto nossas palavras quanto os nossos desejos não
conseguem preencher os sentidos, que vagam como a brisa que sopra
nos rostos, como não marcam as coisas que nos cercam, e dormem
apenas como poeira fina sobre as folhas dos livros. Quimeras que
mostram que nossa linguagem e nossas representações “não têm
como valor mais do que a tênue ficção daquilo que
representam”.
(FOUCAULT,
1999: 66). Arriscamo-nos
nas palavras, na escrita e nos desejos ao sabor da aventura,
brincando com reflexos, acordando todas as manhãs e nada dizendo,
apenas nos deparando com nossos espelhos velados, diante dos quais
arde a aurora e ao mesmo tempo se escondem as sombras do que somos
ou que sonhamos poder ser.
Que
haja sonhos é raro, que haja espelhos,
Que
o costumeiro e gasto repertório
De
cada dia ilusório
Orbe
profundo que urdem os reflexos (BORGES, 1987).
Como
diz Ítalo Calvino (1990:16),
quando o reino humano parece condenado ao peso é preciso
encontrar caminhos para trazer-lhe de novo a leveza, não fazendo
disso uma fuga para o sonho ou o irracional, mas é preciso: mudar
de ponto de observação, considerar o mundo sob uma outra ótica,
buscar outras lógicas, outros meios de conhecimento.
Diante
do silêncio de uma imagem ou mesmo de uma sombra, “sem nome e
sem rosto”, é que nos deparamos com o crepúsculo do que somos,
rasgos de loucura em nossos quadros comodamente dispostos de
similitudes. Os espelhos estão velados por não suportarmos olhar
para eles, e por sabermos que eles podem projetar vários de nós
que não caberiam num nome, num lugar ou numa representação?
Diz o poeta João Gilberto Noll:
Absolutamente,
não sei de quando nasci, nada, mas se quiser o meu nome busque na
lembrança o que de mais instável lhe ocorrer. O meu nome de hoje
poderá não me reconhecer amanhã.
(...) não me pergunte (sic) pois idade, estado civil,
local de nascimento, filiação, pegadas do passado, nada, nome
também: não (NOLL, 1989: 9).
A
loucura ronda os nossos reflexos pelo fato dos espelhos terem sido
velados ou por que diante deles há o risco do fragmento, dos
estilhaços nossos e de tantos outros refletidos em “tantas
horas de pessoas”, de lugares, “tantas coisas em tantos
tempos, tudo miúdo recruzado”, como intui Rosa (2001:200)?
A loucura é esse chamado a sermos mais do que o que
somos, a dizer mais do que o que sempre dizemos. Os espelhos
velados usurpam o nosso reflexo, numa “perseguição mágica”,
numa “memória poética” que ultrapassa a imagem refletida.
A
partir de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, obra da qual
Borges foi um leitor atento, há uma profunda relação entre a
poesia e a loucura, visto que o louco aparece como um “desvio
constituído e mantido”, na medida em que repete incansavelmente
os “sinais
da semelhança”, enquanto que o poeta aparece como aquele
ser que reencontra “os parentescos subterrâneos das coisas e
suas similitudes dispersadas”, ou melhor:
O
poeta (...) sustenta o papel alegórico; sob a linguagem dos
signos e sob o jogo de suas distinções bem determinadas, põe-se
à escuta de ‘outra linguagem’, aquela, sem palavras nem
discurso, da semelhança. O poeta faz chegar a similitude até os
signos que a dizem, o louco carrega todos signos com uma semelhança
que acaba por apagá-los. Assim, na orla exterior da nossa cultura
e na proximidade maior de suas divisões essenciais, estão ambos
nessa situação de ‘limite’ – postura marginal e silhueta
profundamente arcaica – onde suas palavras encontram
incessantemente seu poder de estranheza e o recurso de sua
contestação. Entre eles abriu-se o espaço de um saber onde, por
uma ruptura essencial no mundo ocidental, a questão não será
mais a das similitudes, mas a das identidades e das diferenças.
(FOUCAULT, 1999: 68).
Ambos
percorrem a linguagem propiciando o seu desmoronamento ou a sua
encenação numa distância incessantemente percorrida, mas jamais
recoberta. Seguem os “passos lidos”, perdem-se, encontram-se
neles e brincam com os reflexos da vida diante de seus espelhos
velados por semelhanças e diferenças. A metáfora do espelho
permite pensarmos as metáforas que criamos de nós, se é que as
inventamos ainda! Como lembra Clarice Lispector, “antes do
aparecimento do espelho a pessoa não conhecia o próprio rosto
senão refletido nas águas de um lago. Depois de um certo tempo
cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a
minha”. (LISPECTOR, 1998:33).
ALVES,
Rubem. As razões do amor. In: O
Retorno E Terno (Crônicas). 8ª ed. Campinas, SP:
Papirus, - Speculum, 1996, p.
17.
CALVINO,
Ítalo. A Leveza.
In: Seis propostas para o próximo milênio: lições
americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.16.
FOUCAULT,
Michel. As
Palavras e as Coisas:
uma arqueologia das ciências humanas. 8ª.ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1999, p. 66.
LISPECTOR,
Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
_________________.
Canoas e Marolas.
Rio de Janeiro:
Objetiva, 1999, p. 79.
ROSA,
Guimarães. Grande Sertão:
veredas.
19.ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2001, p. 200.