Política
de Cotas: Impasses e Limites
Vem
circulando em diferentes espaços um debate caloroso em torno das
políticas de cotas para negros no acesso às Universidades, ora a
favor, ora contra sua implementação. Nosso objetivo é fazer uma
breve reflexão sobre esse conjunto de políticas não a partir de
sua aplicabilidade legal (constitucionalidade, mecanismos de
controle), mas ancorados numa reflexão antropológica sobre as
questões ligadas as classificações raciais.
Partimos
do pressuposto que a classificação dos sujeitos sociais a partir
das suas pertenças raciais não traz em si nenhuma possibilidade
de equalizar as desigualdades sociais presentes na história
brasileira, pois assim como toda a classificação ela é
artificial, baseada na premissa de que a sociedade brasileira é
dividida entre negros e brancos.
Trataremos
as políticas de cotas como um conjunto de dispositivos legais que
pretendem garantir a grupos específicos, no caso os negros,
determinados benefícios diferenciados. Esse conjunto parte da
premissa que a sociedade brasileira é tanto multicultural, como
multiétnica e que as desigualdades sócios-econômicas são fruto
de uma legislação, se não racista, pelo menos favorecedora dos
grupos brancos.
Tornou-se
politicamente correto a aplicação indiscriminada dessa
classificação bipolar da população brasileira, essencializada
pré-discursivamente, reinventando as relações sociais, como se
existissem raças de forma natural na sociedade, no entanto, o ato
de classificar no Brasil possui tantos matizes diferentes que
podemos afirmar que ele “não se formula nos mesmos lugares, ele
não tem os mesmos processos de registro, ele não se difunde, ele
não se acumula, ele não se conserva nem se contesta da mesma
forma” (FOUCAULT, 1972:65).
A
classificação bipolar, que exclui, necessariamente, de suas
categorias um crisol de cores da sociedade brasileira, listadas
pelo Censo do IBGE-2000 em torno de 300 cores, segue um modelo
tipicamente norte-americano onde se define “a população parda
como non-white” (MARTES, 2003:80).
Os
Estados Unidos, principalmente após o processo de redemocratização
brasileira deflagrado nas décadas de 1970/1980, vem se
constituindo, principalmente para as elites dos movimentos
sociais, como símbolo de dominação e colonização, sendo seu
imperialismo combatido nos campos das artes, culturas e economia,
o que tem levado a um forte processo de desamericanização da
sociedade brasileira.
Exceção
feita aos Movimentos Negros que tomaram, quase que literalmente, a
the politcs of race norte-americana como paradigma para a
implementação das nossas brasileiras políticas de ações
afirmativas. Mesmo havendo diferenças substanciais na lógica das
relações e classificações raciais presentes nos dois Estado-nação,
pois enquanto “os Estados Unidos, que tende a enaltecer a pureza
racial [no Brasil] a ênfase recais sobre a mistura” (MARTES,
2003:81).
As
políticas de cotas que vemos serem ser implementadas nas
Universidades, e em alguns segmentos do serviço público,
privilegia essa classificação bipolar, argumentando ser necessário
tratar com políticas desiguais os desiguais. No entanto, quando
olhamos para as Universidades o que vemos são brasileiros, na sua
maioria mestiços, que cursam as diversas graduações
compartilhando de dificuldades econômicas e intelectuais. Sendo
que essas políticas têm causado, inclusive, um “mal estar nas
universidades [pois] a legislação que promove as políticas
afirmativas [...] se constituem num golpe contra a autonomia
universitária” (UERJ, 2004:18).
Certo
é que “o isolamento social imposto aos afros-brasileiros [...]
pode explicar problemas ligados à crise social geral” (SILVA,
1994:26), o que não nos leva, no entanto, a uma análise dessa
crise a partir do modelo bipolar de classificação. Não é
raciliazando o debate e as relações sociais, tornando-as um
combate entre “raças”, que encontraremos a saída para o
grave problema das desigualdades sociais do Brasil.
Longe
de sermos co-irmãos dos negros norte-americanos em nossa “africanidade”,
inventada a partir de uma África idílica e irreal, pois a black
subjetivity construída nos Estados Unidos está assentada num
longo processo de aparthied e racialização das relações
sociais através da valorização da ascendência-descendência, o
famoso paradigma de “uma gota de sangue negro, torna o sujeito
negro!”; contudo, em terras brasileiras essa construção da
subjetividade não encontra, nas relações sociais cotidianas, a
mesma receptividade, onde “o peneiramento social [...] é
realizado mais em termos de cultura e de status econômico do que
em termos de raça” (AZEVEDO, 1996:35).
Januário
Garcia, então presidente do Instituto de Pesquisa das Culturas
Negras (IPCN) no Rio de Janeiro, afirmava que “a massa não veio
comigo porque não sei como me comunicar com ela” (apud FRY,
1975). Será esse um impasse a resolver: não estará se
construindo políticas públicas e discursos raciais longe da
massa de brasileiros, que se encontra nos trens lotados, nas
construções civis, nas escolas de samba e botequins? Penso que
com o avanço do debate sobre as políticas de cotas já não será
mais suficiente assumir posições contra ou a favor, mas criarmos
fóruns de discussões que levem em conta o processo de
brasilidade, onde “a gente de cor sente-se, tanto quanto os
brancos, acima de tudo brasileira” (AZEVEDO, 1996:161).
Porém,
algumas posições insistem numa racialização das desigualdades,
como se as políticas de cotas estabelecessem um “conjunto de
medidas práticas, efetivas e imediatas que apontem para o fim das
desigualdades raciais na sociedade brasileira” (PRAXEDES,
2002), levando a crer que construir políticas públicas
baseadas na premissa que a sociedade brasileira é dividida em
dois grupos – brancos e negros – é uma forma capaz de
eliminar as desigualdades. Contudo, antes de conseguirem equalizar
essas desigualdades sofridas por determinados grupos sociais, essa
políticas produzem, não mais somente no plano do concreto, mas
de forma acirrada nas subjetividades dos sujeitos sociais, um novo
projeto de Nação contra ao que se vem formulando ao longo da
história.
Antes
de construir políticas inclusivistas baseadas em diferentes estatísticas,
usadas e analisadas a partir de uma determinada premissa teórica,
penso que seria mais interessante, questionar qual projeto de Nação
estaremos construindo com a implementação desse conjunto de políticas
divisionistas.
Se
uma Nação vista a partir de uma divisão natural entre brancos e
negros, onde os sujeitos se definam, ou são definidos, por
dispositivos legais (alguns propõem a classificação racial nos
documentos de identidade e certidão de nascimento) a partir de um
pertencimento racial anterior ao nascimento, sendo tratados como
esclarecidos, quando assumem sua “raça”, ou renegadores,
quando negam sua herança ascendente, formando grupos com
objetivos, hierarquias, estratificações e prestígio próprios e
independentes e, portanto, devendo ser alvos de políticas públicas
diferenciadas. Ou se um projeto de Nação onde a mistura
constitui-se o caminho para uma brasilidade para além das raças
e nacionalidades de origem, onde negros, índios e brancos se
misturam, casam-se entre si e constróem seu cotidiano pelo
encontro, independente da cor da pele ou de sua ascendência,
devendo ser, portanto, tratados por políticas universalistas.
Neste
sentido “as cotas raciais [...] nos fazem sair necessariamente
de um país que se queria misturado [...] para entrar no mundo
dividido entre raças” (MAGGIE,
2001), pois essas políticas insistem “em apresentar
explicações raciais para situações que são, fundamentalmente,
de posição social de classe” (PINTO, 1998:197).
Políticas
compensatórias, ou de ações afirmativas, se apresentam a cada
dia, não mais como a possibilidade de universalizar direitos, mas
de particularizá-los, tornando os sujeitos sociais, que vivem no
seu cotidiano para além das raças, em grupos separados que só
se encontraram numa disputa racial que está se tornando moda.
Não
há na sociedade brasileira - ou estamos muitos cegos ou
cooptados? - um grupo absolutamente branco com capacidade invejável,
liderança e usufruindo todos os benefícios do capital; e um
outro grupo absolutamente negro fora das universidades, espoliado
e massacrado pelos brancos, necessitando de políticas
especificas. Antes o que vemos é uma Nação que vive suas
desigualdades baseadas na premissa do acesso ou não a parcelas do
capital.
Apesar
da argumentação da exclusão de negros do acesso a esses bens,
verificamos que esse processo político-econômico atinge a toda a
população terceiro-mundista. No entanto, não estamos cegos ao
racismo presente da história brasileira, o que nos leva, contudo,
a sustentarmos que esse esteja ligado ao gradiente de cor que
desprivilegia os mais escuros, nada relacionado com “gotas de
sangue negro”, ou a uma classificação que coloque todos no
mesmo saco, ou melhor em dois sacos!
Um
só e rápido exemplo. No III seminário de africanidade da
Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, acontecido em
dezembro de 2004, que contou com a presença de um número
considerável de alunos e de brilhantes pesquisadores, numa das
mesas, quando ocorreu o debate entre o público e os palestrantes
sobre as dificuldades encontradas pelos alunos universitários
durante seus cursos de graduação, uma aluna, que se apresentou
como loira (e o era de fato), reclamava da falta de oportunidade
de leitura, das fracas bibliotecas e da sua incapacidade de
acompanhar, algumas vezes, o nível das aulas.
Dentro
das salas de aula dos diferentes pré-vestibulares para negros,
limitando-nos, para não errarmos estatisticamente, aos núcleos
presentes no Rio de Janeiro, vemos negros, brancos, morenos,
mulatos sentados lado-a-lado na disputa pela tão sonhada vaga na
Universidade. Não havendo nenhuma disputa desigual, visto que
todos são oriundos de escolas públicas de baixa qualidade. O que
percebemos é que há é um privilégio do grupo que tem acesso ao
controle e distribuição do capital e que se beneficia desse
capital na disputa por posições sociais.
De
forma alguma fechamos os olhos para o grave problema das
desigualdades sociais, mas racializá-las não conduz a sua superação,
antes cria uma desigualdade entre negros e brancos, fazendo com
que os brasileiros atingidos por tais desigualdades já não lutem
mais juntos, pois cada grupo tem suas especificidades, mazelas e
heranças diferenciadas. Dessa forma, uma classificação bipolar
racial, servindo para sustentar as políticas de cotas, levará
brancos e negros de todas as camadas, mas principalmente os mais
pobres, a tornarem-se adversários, favorecendo a manutenção das
estratificações econômicas e criando novas hierarquias.