O
Resgate da Utopia
Recebi
várias interpelações e comentários de amigos e colegas, alguns
céticos, outros condescendentes, referentes ao título e conteúdo
do livro. Afinal, perguntaram, qual seria o significado da utopia
em tempos sombrios que vivemos, caracterizados pelo descrédito e
desencanto com todas as ideologias, e a descrença nos partidos
políticos e na própria democracia representativa?
Respondemos
que utopia não é somente um sonho, mas também um protesto de
todos aqueles que não se conformam com as injustiças e
desigualdades; com a concentração de riquezas, poder e informação
nas mãos de poucos enquanto cresce o número de deserdados e
excluídos; com os negócios suspeitos envolvendo bilhões de dólares;
de fusões e privatizações de empresas e transações diárias
de mais de 1 trilhão de dólares, de origem e destino
desconhecidos pela população, duramente atingida pela especulação
financeira e cambial. Com o aumento do número de milionários
enquanto cresce o exército de desempregados, de sem-terra e de
desabrigados.
Contra
a lógica impiedosa dos mercados, os utopistas nos séculos XIX e
XX depositaram sua fé no Estado, virtuoso e redentor, capaz de
manter o equilíbrio na luta entre as classes sociais.
Conquistando o poder do Estado, estaria aberto o caminho de
reformas, garantindo a ordem, a segurança e o bem-estar de todos.
Tarde
demais percebemos que o Estado protege os mais ricos e continua a
oprimir os mais pobres e fracos, devido a uma aliança perversa
entre as elites tradicionais e modernas, os donos das terras e a
burguesia industrial, sustentadas e legitimadas por uma
tecnocracia que age em nome de uma suposta racionalidade científica
e lança mão de tecnologias de organização e comunicação
baseadas na microeletrônica.
O
assalto ao Estado pelo grande capital iniciou-se nas primeiras décadas
do século XX e foi interrompido por um breve período durante a
crise econômica de 1929. Muito a contragosto, os “tubarões”
de então (os Vanderbilt, Rockefeller, Carnegie, Frick, Kellogg e
outros) foram obrigados a aceitar o New Deal de F.D.
Roosevelt cujas obras públicas em grande escala visando aliviar a
situação dramática de desemprego, foram taxadas de socialistas
e anti-americanas. Passados os piores momentos da crise com os
preparativos e a mobilização de milhões de jovens para servirem
nas forças armadas durante a II Guerra Mundial, voltaram as ameaças
e pressões sobre o Estado por parte do grande capital.
Em
1951, o então presidente dos EUA, o general D. Eisenhower lançou
uma advertência e alertou sobre o “complexo
industrial-militar”, enquanto o economista J.K. Galbraith
apontava para o papel importante de cientistas e tecnólogos
identificados com/e parceiros do grande capital.
Talvez,
o coroamento desse longo processo se verifica no momento histórico
atual em que a cúpula do governo norte-americano (G.W. Bush, R.
Cheeney, C. Rice e D. Rumsfeld e outros) está estreitamente
associada com os interesses das empresas petrolíferas, e grandes
empreiteiras.
Por
outro lado, a conquista do Estado pelos movimentos revolucionários
foi duramente atingida pela derrocada do regime da burocracia
totalitária da ex-URSS, da queda eleitoral dos partidos
socialistas e o conseqüente desmantelamento gradual do Estado de
bem-estar.
Neste
contexto, a defesa da utopia equivale à convocação para a luta
por justiça social, pela democracia participativa, pelos Direitos
Humanos e por um meio-ambiente protegido e preservado. Essas
aspirações encerram um legado de todos os movimentos em prol da
utopia, ao longo dos últimos três séculos, desde os
enciclopedistas no século XVIII, os grandes utopistas, Saint
Simon, Fourier e Robert Owen, no século XIX e os movimentos
revolucionários do século XX.
Mas,
como lutar por reformas se a maioria dos “representantes do
povo” é corrupta ou cooptada pelo “mercado” e defende a
competitividade em nome de uma suposta maior eficiência e do
crescimento econômico sem distribuição de renda?
Quando
a maioria da academia e intelectuais prefere lavar as mãos e
ignorar os efeitos desastrosos de certas inovações tecnológicas
e megaprojetos de engenharia (energia nuclear, indústria espacial
e acelerador de partículas)?
Quando,
para se eleger deputado é necessário gastar 1 milhão de reais;
para senador, 2 milhões e para presidente, 50 milhões, o que
leva os candidatos a procurar recursos de empresas, privadas ou
estatais, para financiar suas campanhas. Como contrapartida desses
“auxílios”, a maioria da Câmara e do Senado se empenhará em
bloquear propostas consideradas prejudiciais às grandes corporações
e à “elite” em geral. Assistimos assim à falência da
democracia formal e representativa.
Fique
bem claro: não se trata de casos individuais – é o sistema que
é corruptor e corrompido! Como romper o círculo vicioso, após a
falência da democracia parlamentar representativa?
As
premissas do discurso e da indicação de alternativas refutam a
tese do “fim da História” e afirmam a emergência da
sociedade autogestionária e organizadora da democracia direta.
Uma demonstração cabal da viabilidade e atualidade desta tese é
a proposta apresentada por um deputado, colhendo mais de duzentas
assinaturas na Câmara e que preconiza a auto convocação dos
cidadãos para exigir a realização de plebiscito visando a
revogação de mandatos de representantes que não cumprem suas
promessas eleitorais.
Concluindo,
estamos vivenciando o fim da intermediação por partidos, “políticos”
ou líderes populistas, assumindo a sociedade o poder e o controle
com a instalação da democracia direta. Com seus avanços, haverá
um longo período de dualidade de poderes, entre o sistema
emergente e o tradicional. Mas, nunca na História se ofereceu o
poder numa bandeja de prata.
Para
os céticos e pessimistas, apontamos as conquistas recentes da
sociedade contra os poderosos de plantão, tais como o tratado de
proibição de minas terrestres; a criação da Corte
Internacional de Justiça com sede em Roma; a assinatura do
Protocolo de Kyoto (com exceção dos EUA e da Austrália); a
resistência que levou à retirada do AMI (Acordo Multilateral
sobre Investimentos) e a presença de dezenas de milhares de
manifestantes protestando contra as reuniões do FMI, do Banco
Mundial e da OMC (Organização Multilateral do Comércio) nos últimos
anos.
Acreditamos
que uma nova ordem mundial esteja emergindo, constituída pela
maioria dos atores sociais, na transição de um mundo de quase
duzentos Estados Nacionais – a maioria dos quais sem nenhuma
viabilidade econômica e política – pretendendo a soberania
territorial e política, para um mundo planetário, pluralista e
interdependente garantindo a autonomia cultural de todos os povos
e etnias.
Finalmente,
reafirmamos, contra qualquer determinismo biológico, cultural ou
racial, que os homens (e mulheres) fazem sua História, não com
todos os graus de liberdade, mas num contexto de condições e
circunstâncias herdadas das gerações que nos antecederam.
Ainda
assim, será possível transformar o cenário atual, à condição
de adquirirmos a ciência ou o conhecimento da dinâmica social, a
consciência das tarefas inadiáveis e a capacidade de agirmos
coletivamente. Será uma longa e difícil jornada, repleta de obstáculos
e contratempos, mas nada mais gratificante na vida do que caminhar
em boa companhia.