Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

 

 

Contribuição à história do marxismo no Brasil (1987-1994) [1]

I – Contextualização

Vivemos uma época de perplexidade. A militância que apostou no projeto denominado Partido dos Trabalhadores passa, quiçá, por sua crise mais grave. Muitos já aderiram a outras alternativas políticas partidárias; outros resistem e, descrentes até mesmo das organizações revolucionárias que abrem os braços para recebê-los, se somam ao MSP, movimento dos sem partido. Por seu turno, as alternativas ao petismo apresentam os problemas inerentes às dissidências que, em seu eterno recomeço, necessitam afirmar os fatores da ruptura, e, simultaneamente, apresentar-se como guardiãs de determinadas tradições a serem resgatadas. Elas apontam para o futuro, mas se alimentam do passado (em seus princípios, fundamentos e mesmo na crítica aos partidos e organizações políticas com quem disputam espaço e adeptos). Nestes momentos de crise, o estudo das experiências políticas representa uma contribuição, ainda que modesta, à superação da crise que envolve a esquerda. Como a referência maior para a esquerda revolucionária é a tradição marxista-leninista, parece-nos coerente seguir a sua trilha.

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O marxismo é uma ideologia universal e seus laços internacionais são, em muitos aspectos, determinantes. É impossível dar conta da evolução da esquerda marxista no Brasil sem relacioná-la com os acontecimentos mundiais. No transcorrer da sua trajetória o marxismo se dividiu em diversos matizes até mesmo hostis. O próprio termo original sofreu modificações passando a ser acompanhado de qualificativos, os quais dependem da ótica de quem os utilizam e a quem se referem. No embate político-teórico se tornou comum o uso de denominações como o “verdadeiro marxismo”, o “falso”, o “estrito” e “amplo”, o “ortodoxo” e “revolucionário”, o “dogmático” ou “criador”. Como escreveu Haupt, há muito que o “marxismo” no singular foi substituído pelo plural: “marxismos”.[2]

Eis o nosso ponto de partida: a natureza plural inerente ao marxismo. Embora única, a obra de Karl Marx inspirou diversas interpretações e se desdobrou em múltiplas correntes políticas e teóricas, além de se constituir em referência para práticas profundamente contraditórias. Segundo Hobsbawm (1989), a análise do marxismo deve levar em conta que: a) a obra que fundamenta os marxismos contém impasses e limitações determinadas pelo contexto histórico, o que favorece ainda mais a diferenciação na interpretação; b) seus sucessores mais ilustres acrescentaram novos elementos teóricos que enriqueceram as análises originais, mas também, em alguns casos, representam questionamentos e graus variados de ruptura; c) a evolução do marxismo foi efetivada a partir de continuidades-descontinuidades; d) seu desenvolvimento também foi influenciado pelas particularidades nacionais; e) seu crescimento e a necessidade de responder aos dilemas colocados por conjunturas históricas diferentes – no tempo e no espaço – geraram inúmeras polêmicas que aprofundaram as leituras seletivas e, no extremo, levaram ao abandono de princípios anteriormente reverenciados.

O maior feito da teoria de Karl Marx e Friedrich Engels resulta em sua fusão com a realidade social e transformação numa força política ativa e capaz de revolucionar o mundo real. Esta teoria jamais se propôs a ser “uma doutrina abstrata que enuncia problemas teóricos e empreende sua resolução”. Sua característica inovadora sempre foi “a unidade declarada da teoria e prática, da filosofia que se faz ação política e da ação política que se faz filosofia” (STRADA, 1989: 127). Foi em seu nome que os homens e mulheres do século XX fizeram revoluções e buscaram a utopia da sociedade comunista; foi em seu nome que se construiu o socialismo real, com suas excrescências autoritárias e muros imaginários e concretos como o de Berlim.

O muro foi derrubado. Estamos no ano de 1989... No apagar das luzes deste ano, as mentes e corações estavam em transe: muitos, perplexos; outros, aterrorizados diante do turbilhão que varria o Leste Europeu. A esquerda vinculada às tradições comunista e socialista se viu diante de uma situação inusitada que abalou dogmas e verdades até então incontestes. Mesmo os mais radicalmente ortodoxos não ficaram incólumes: suas concepções políticas e ideológicas e teorias explicativas da realidade social e dos processos históricos tiveram que ser repensados e, em muitos casos, mostraram-se superados.

Primeiro explodiu a rebelião dos estudantes chineses pela democracia e liberdade. Esse movimento, afogado em sangue pelo exército, sob as ordens da burocracia comunista, em 03 e 04 de junho, foi o prenúncio do que se seguiu na Europa Oriental. Entre agosto e setembro, os governos comunistas caíram na Polônia, Tcheco-Eslováquia, Hungria, Bulgária, Alemanha Oriental e Romênia – só na última houve tentativa de resistência armada. A Iugoslávia logo se fragmentaria numa guerra civil. A Albânia também sucumbiu. Restariam a China, Cuba, a Coréia do Norte e o Vietnã.

Na polêmica entre as diversas vertentes marxistas, intensificada nesta conjuntura, vários partidos, organizações e intelectuais fizeram o trajeto em direção à reconstrução e análise da evolução do socialismo desde Marx. Neste intuito, muitos resgataram as práticas e concepções teórica-políticas entre os marxistas das várias denominações e, inclusive, dos não-marxistas.[3]

Os padrões de interpretação são vários, com vertentes matizadas e dependem do enfoque do autor e da sua filiação teórica e/ou concepção política. Para uns, a crise do Leste apenas confirma teses e concepções anteriormente anunciadas. É o caso, por exemplo, das correntes trotskistas que caracterizavam a URSS e os demais países socialistas como “Estados operários burocratizados” (ou degenerados).[4] Para estes, a crise seria apenas de uma dada vertente: o stalinismo.

Outros assumem a crise como do conjunto do movimento socialista e procuram extrair todas as conseqüências e assimilar as lições. Uns e outros apostam na atualidade do marxismo e acreditam que a queda desses regimes abriu a perspectiva para a reafirmação das idéias e concepções revolucionárias, para o resgate da tradição libertária e democrática do socialismo enquanto emancipação do gênero humano. Neste campo, muitos admitem a necessidade de ir além de Marx, isto é, de reconstruir o marxismo em consonância com a realidade atual, superando seus limites, impasses e contradições, mas sem abrir mão dos princípios e do método.

Há aqueles que também consideram necessário rever Marx, porém, no sentido inverso. Para esses, trata-se de aceitar a sua superação. Em nome do combate à ortodoxia e ao dogmatismo, esta “nova esquerda” nega objetivamente os princípios fundamentais marxianos. Em geral, defendem a permanência de um fio histórico de continuidade entre Lenin-Trotsky-Stalin, buscando a gênese do stalinismo no próprio Lênin. Alguns radicalizam e fazem o retorno a Marx para responsabilizá-lo pelas atrocidades do stalinismo.

Sem dúvida estes acontecimentos tiveram influência decisiva sobre a esquerda brasileira, particularmente aquela vinculada às vertentes marxistas. No início da década de 1990 nem as organizações marxistas nem o PT eram mais os mesmos. Eles e o mundo passaram por intensas mudanças. A evolução teórica e a ação da esquerda brasileira identificada com o comunismo e o socialismo se inserem nesse contexto histórico. O caráter destas induziram à assimilação dos impactos provocados pelas mudanças ocorridas no plano internacional. A intensidade desse impacto foi maior ou menor, dependendo do grau de envolvimento e filiação das organizações, grupos e partidos marxistas no Brasil às diversas correntes que compõem o movimento comunista internacional.

Porém, ainda que esse fator tenha sido de suma importância, e, em alguns casos, determinante, não é suficiente para explicar as transformações na esquerda. Os fatores internos desencadeados pela evolução da conjuntura nacional também tiveram uma influência decisiva. A esquerda brasileira desenvolveu particularidades próprias resultantes da sua interação com a conjuntura política, econômica e social nacional. No período do regime militar aprofundou-se e consolidou-se o processo de industrialização baseado no modelo implantado por JK – com a predominância do setor automobilístico amparado no capital externo. Em torno desse setor, desenvolveu-se um parque industrial moderno, expandiu-se a rede de serviços e acelerou-se o desenvolvimento capitalista no campo

No entanto, o modelo econômico dos militares acentuou a dependência econômica e política em relação às potências capitalistas (ampliação das facilidades para a entrada do capital externo e favorecimento da legislação quanto às remessas de lucro e ao controle da força de trabalho). Os resultados sociais dessa política foram desastrosos. O Brasil acentuou a concentração de renda, as desigualdades sociais e os índices de miserabilidade. A tendência estrutural de exclusão da maioria da população em relação à riqueza produzida foi aprofundada.

O crescimento econômico amparado no endividamento externo entrou em colapso na década de 1980. A crise do capitalismo nos países centrais, relacionada ao duplo choque do petróleo nos anos 1970 e ao esgotamento do modelo taylorista-fordista nas relações de trabalho, expressava a desaceleração da economia nos anos 70. Isso resultou, entre outros fatores, no aumento das taxas de juros internacionais. A incapacidade de manter o crescimento artificial potencializou o descontentamento da burguesia industrial. O fim das altas taxas de lucro minou o respaldo que as várias frações da burguesia davam à ditadura militar.

O modelo de crescimento brasileiro tornou-se insustentável. A dívida externa tornara-se alta demais para ser paga e os juros elevados tornaram impraticável o seu financiamento. Os empréstimos externos ainda foram mantidos por algum tempo, mas mal dava para cobrir os juros a serem pagos sobre a dívida acumulada. Em 1982, diante da crise do México, os banqueiros internacionais decidiram suspender os empréstimos.

Porém, havia ocorrido uma transformação radical na sociedade. O “chão social” sobre o qual os militares transitavam estava profundamente alterado em relação aos anos 1960. Embora os resultados sociais não correspondessem ao crescimento econômico e à riqueza acumulada nesses anos, o desenvolvimento industrial consolidara o processo de urbanização e aprofundara a tendência à proletarização. A modernização da indústria concentrara um enorme contingente de operários em centros urbanos e setores chaves da economia. O setor operário passou a ter uma dimensão ímpar na história brasileira, como bem demonstrou o impacto das greves dos metalúrgicos em 1978-80 no ABCD.

O papel de vanguarda desempenhado por esse operariado emergente, localizado nas grandes e desenvolvidas unidades fabris do ramo automobilístico, decorre das suas características constitutivas: pertencerem ao setor mais dinâmico e mecanizado da indústria brasileira, alta composição orgânica de capital, seu peso econômico-político e forte concentração (no espaço da fábrica e regional).

As greves operárias a partir de 1978 inauguram um novo estágio na história política brasileira. O irromper da greve de maio na Saab Scania do Brasil, em São Bernardo do Campo, desencadeou um processo capaz de anular as ambigüidades do regime militar, colocou em xeque sua política econômica e fez com que os ventos da democracia soprassem mais fortes. O próprio ato de fazer a greve já constituía um desafio à ditadura e às suas leis. As massas ultrapassavam a fase da resistência isolada e/ou assimiladas pelo regime e forçavam-no a redirecionar seus planos.

O ascenso operário dos anos 1978-80 propiciou condições favoráveis para o crescimento da influência da esquerda marxista no interior do movimento sindical e popular. Essa esquerda, preponderantemente vinculada ao movimento estudantil, já se fazia presente nos meios culturais, nas oposições sindicais, nos movimentos sociais (como o Movimento do Custo de Vida e o movimento pela melhoria das condições de saúde na Zona Leste), na luta democrática pela anistia etc. Atuando dentro e fora do MDB, essa esquerda estava dispersa, mas em acelerado processo de reorganização.

Neste processo, que incluía o duplo esforço de superação autocrítica da política pré-1964 e a do período da luta armada, vários núcleos da esquerda revolucionária levantavam a necessidade de construir um espaço político legal, desenvolvendo as primeiras articulações por um partido socialista. Outros ainda priorizavam o espaço clandestino. Havia também a alternativa social-democrata representada por um trabalhismo que se pretendia renovado e moderno. Essa tradição se vinculava à liderança de Brizola, o qual, no exílio, havia se aproximado da Internacional Socialista. Nessa fase de rearticulações, os sindicalistas autênticos ainda não haviam se colocado a questão da organização partidária.

A autocrítica de parcela desta esquerda indicaria o caminho a percorrer: ir ao povo, ligar-se a ele. Sader (1988: 127) relata a indignação de um militante diante de outro companheiro que, num congresso de uma determinada organização marxista realizado em 1980, afirmava: “Você trocou Lênin por Paulo Freire!” Embora esse diálogo possa parecer bizarro, ele expressa a realidade de uma esquerda fragmentada e dispersa, cujo esforço de reorganização incluía as ações de pequenos grupos de militantes na periferia de São Paulo, às vezes no interior das estruturas da Igreja e/ou em iniciativas autônomas. Em muitos casos, eram militantes desgarrados e dispersados que, individualmente, buscavam novas formas de ligação com o povo, inclusive com a formação de núcleos de educação popular sob a inspiração do método de alfabetização de adultos de Paulo Freire.

Neste contexto, autores até esquecidos ou secundarizados eram resgatados. No exemplo citado, o autor de cabeceira do militante não era Paulo Freire, mas Antônio Gramsci, “cujas teses sobre a cultura popular e sobre o partido como intelectual coletivo pareciam abrir outras pistas para uma prática política” (idem). O fator decisivo nesse processo foi, sem dúvida, as greves que, iniciadas pelos metalúrgicos do ABCD, estenderam-se a outras categorias e regiões. Ao colocar-se em movimento, a classe trabalhadora atuara como catalisadora da luta democrática, passando a imprimir um conteúdo classista.

Embora entrasse em conflito com outros grupos fundadores do PT, a esquerda marxista, principalmente os grupos trotskistas, foi reconhecidamente uma das forças que contribuiu de forma significativa para que o partido se tornasse realidade. Em muitas regiões, como por exemplo, no nordeste, ela foi a principal promotora e incentivadora da proposta do PT. Sua experiência teórico-prática, acumulada nos anos de luta contra a ditadura, permitiu-lhe influir decisivamente nos embates político-ideológicos em torno da construção e dos rumos do PT.

É importante ressaltar que essa matriz é profundamente heterogênea na sua concepção sobre o projeto de construção do PT. Entre os que aderiram há os que viam-no como uma “frente classista”, com possibilidade de se transformar no partido estratégico da revolução brasileira; outros o concebiam como uma “frente de esquerda” ou uma frente ampla popular contra a ditadura militar, que poderia cumprir uma função tática fundamental – estes continuavam a conceber suas próprias organizações e grupos como o partido revolucionário ou como o embrião deste.

Entre as organizações que aderiam ao PT desde os primeiros momentos estava a Convergência Socialista (CS).[5] Outra organização que esteve presente no processo de formação do PT foi a Democracia Socialista (DS), conhecida pelo jornal Em Tempo.[6] O Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a Ala Vermelha (AV), a Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e outros grupos menores, viam o PT como um partido tático: ou seja, não comungavam a crença de que ele pudesse vir a ser o partido revolucionário. Outros decidiram se diluir no interior do PT, por considerarem-no potencialmente revolucionário. Entre os que se posicionaram frontalmente contrários à proposta de formação do PT, apesar de acabarem aderindo ao mesmo, estava a Organização Socialista Internacionalista (OSI) – também conhecida como Liberdade e Luta (Libelu).[7]

A imprensa alternativa cumpriu um papel fundamental no sentido de dar visibilidade às propostas da esquerda marxista. Um exemplo desta fase foi o ABCD Jornal. Formado em 1975 por um coletivo de jornalistas de esquerda e restrito à região do ABCD paulista, ele contou com a participação de militantes de várias organizações (inclusive do MEP, AV e CS) e desempenhou uma função de ligação com os sindicatos e os operários, angariando a simpatia e apoio entre eles e a com uma atuação importante nas greves de 1978-80.[8]

Em sua maioria, essas organizações eram pequenos coletivos de origem estudantil, principalmente no meio universitário. O PT oferecia-lhes uma excelente oportunidade de desenvolverem uma atuação mais efetiva e de ampliarem sua influência junto aos trabalhadores e às suas lideranças. Embora numericamente reduzidos estes grupos tiveram um bom desempenho político. Sua capacidade de ação era potencializada pelo fato de serem bem articulados, com uma estrutura centralizada que condensava e amplificava seus esforços. Também contribuía a experiência e a formação política-ideológica forjada nas intermináveis polêmicas entre as diversas vertentes marxistas e com os “de fora”. Eles tiveram ainda outra função fundamental: contrabalançar a influência dos setores que concebiam o PT como um projeto meramente institucional de disputa eleitoral.

A riqueza ideológica no interior do PT foi potencializada pela participação e apoio dos setores progressistas e populares vinculados à Igreja Católica (militantes de pastorais, das CEBs, dos movimentos de bairro etc.); pela contribuição de intelectuais acadêmicos e pela adesão de parlamentares oriundos do MDB. Nesse processo, os sindicalistas foram os principais componentes que permitiram ao PT evoluir como um partido de massas vinculado aos trabalhadores e incorporando dezenas e centenas de novos militantes ao seu projeto.

No início da década de 1980, a política econômica do general Figueiredo jogou o país numa profunda recessão. Esse fator, aliado à divisão do movimento sindical quanto ao projeto de construção de uma central sindical, produziu um refluxo do movimento grevista. As greves foram retomadas em 1983, inclusive com a tentativa de greve geral nacional. A tendência ascendente do movimento operário e popular se mantinha. Ainda em 1983, foi fundada a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e, no final desse ano, num comício organizado pelo PT em São Paulo, foi lançado o movimento por eleições diretas para presidente da República.

As pressões democratizantes se avolumaram e aprofundaram a erosão da base de sustentação da ditadura militar. O pacto das elites, viabilizado pela Aliança Democrática[9] garantiu a transição conservadora dentro da ordem. Com a derrota da emenda Dante de Oliveira, o foco da luta centrou-se no Colégio Eleitoral (instrumento criado pela ditadura para a eleição indireta do presidente). A morte de Tancredo Neves, que derrotara Maluf, colocou o governo sob o controle de José Sarney. Do outro lado, os grupos, partidos e organizações, dentro e fora do PT, que impulsionaram a construção da CUT, insistiram na campanha pelas diretas, rejeitaram o caminho do Colégio Eleitoral e, desde os primeiros momentos, declararam sua oposição à Nova República e às propostas de pacto social.

O ímpeto radicalizante do movimento operário durante a década de 1980 favoreceu o crescimento da esquerda, principalmente dos setores não integrados ao projeto da Nova República. Esta, apoiada num leque de forças políticas heterogêneas, não conseguiu construir uma hegemonia que garantisse a estabilidade política e econômica capaz de fazer prevalecer seu projeto “neodesenvolvimentista”. Com o país numa crise estrutural profunda, isto é, com seus valores e relações sócio-políticas do modelo nacional-desenvolvimentista em xeque e as crescentes dificuldades em implantar um modelo alternativo, logo o governo se veria envolvido numa crise de governabilidade e pressionado a adotar políticas neoliberais.

Embora desgastado pela postura radical diante da recusa em ir ao Colégio Eleitoral e da oposição ao governo Sarney, o PT seria o principal beneficiado. As eleições municipais de 1985 confirmaram a ascensão petista, com a legenda recebendo uma excelente votação nas principais capitais do Brasil. No final da década de 1980 o partido estava consolidado e tornara-se o principal partido de oposição, com condições para disputar o governo central e se colocar como projeto político alternativo.O auge do seu crescimento foi o ano de 1989. Esse ano representou um momento privilegiado de disputa de projetos para a sociedade brasileira. A vitória de Collor fortaleceu a alternativa neoliberal que, sob pressão dos círculos financeiros internacionais, almejava a abertura indiscriminada da economia, a privatização das estatais e a plena e absoluta liberdade do mercado.

Na América Latina, os anos de crise acentuaram a desigualdade social, aprofundaram a miséria e a barbárie. Em países como o Brasil, os anos 80 representaram uma “década perdida” (para a maioria da população, não para uma minoria de privilegiados que mantiveram e até mesmo ampliaram suas taxas de lucratividade). Um traço comum a todos os países do terceiro mundo foi o crescimento vertiginoso da dívida externa. O principal efeito deste período foi a ampliação do fosso existente entre os países ricos e pobres.

Neste contexto de crise generalizada da economia capitalista mundial, de bancarrota do socialismo real, de fragilização e desmonte da base política tradicional e aprofundamento dos extremos entre a riqueza e a pobreza, o neoliberalismo pareceu triunfante. A esquerda marxista e não-marxista sofreu os efeitos dessa realidade e, mundialmente, procurou se adequar aos novos tempos.

Apesar de impactados pela conjuntura internacional, as mudanças processadas pelas tendências, organizações e partidos políticos identificados com o marxismo estão diretamente relacionadas com a evolução da conjuntura nacional e, particularmente, do PT. Seu crescimento eleitoral e sua experiência frente à gestão das prefeituras acirraram as já tensas relações internas.

Nesse processo, algumas correntes petistas se dissolveram e se integraram à corrente majoritária; outras se fragmentaram e mudaram radicalmente suas posições e concepções políticas; outras saíram do partido ou foram expulsas. O reconhecimento das demais correntes enquanto tendências internas impôs a readequação às exigências da regulamentação de tendências. Mesmo a tendência majoritária, a Articulação 113, não ficou imune ao redemoinho desses anos.

A esquerda marxista externa ao PT também acusou o impacto. O Partido Comunista Brasileiro, o “partidão”, aprofundou a crise que se arrastava desde o início dos anos 80 e se fragmentou ainda mais. O Partido Comunista do Brasil mudou radicalmente sua linha política. O MR-8 aprofundou a política desenhada no período da transição democrática e a retórica stalinista que fundamenta suas concepções teóricas – mesmo assim não conseguiu manter sua unidade interna.

Essa rearticulação da esquerda marxista reflete uma dupla readequação: aos efeitos internos da evolução do processo institucional-eleitoral e às conseqüências teóricas e práticas dos acontecimentos que resultaram na queda do muro de Berlim e na desintegração da URSS. Porém, ainda que os fatores externos tenham sido de fundamental importância, eles são insuficientes para explicar a nova configuração da esquerda. Devemos considerar outros fatores internos conjunturais: a eleição de Collor, sua queda e a posse de Itamar; as eleições de 1990 e 1992; a realização do plebiscito sobre sistema e forma de governo; a revisão da Constituinte; a persistência da crise econômica e a adoção do Plano Real. Em resumo, não se pode inferir apenas à “crise do marxismo”[10] e nem tampouco unicamente aos dilemas colocados pela evolução social, econômica e política interna: ambos se relacionam e se influenciam mutuamente, em maior ou menor grau.

É neste contexto que procuramos compreender a metamorfose da esquerda brasileira, a sua evolução e dinâmica que determinaram as transformações pelas quais passou estas nos anos 1987-94. Pretendemos apreender o caráter e as conseqüências deste processo para a esquerda brasileira vinculada ao marxismo. Levando em conta as transformações estruturais e conjunturais deste período, passaremos à análise dos seus impactos sobre cada tendência, organização e partido originalmente vinculados ao marxismo. Começaremos por uma das correntes políticas-ideológicas que expressam o marxismo-leninismo entre a negação e a afirmação da tradição, mas especificamente, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB).

>>> continua >>>

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[1] Os artigos que compõem esta série são versões adaptadas da dissertação de Mestrado, Os partidos, tendências e organizações marxistas no Brasil (1987-1994): permanências e descontinuidades, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em 1998, sob a orientação de Maurício Tragtenberg. A banca de defesa foi composta, além do orientador, pelos professores Isabel Maria Loureiro e Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida. A dissertação não foi publicada em versão impressa e a iniciativa que ora adotamos visa disponibilizá-la aos militantes do movimento social, estudiosos do tema e demais interessados – afinal, a pesquisa foi financiada por dinheiro público, através de bolsa de estudo do CNPq.

[2] Haupt (1980: 347-75) analisa as origens dos termos marxismo e marxista e mostra sua evolução, da singularidade à pluralidade; ver também TRAGTENBERG (1983).

[3] Destacamos as coletâneas organizadas por BLACKBURN (1993), COGGIOLA (1994), LYRA (1992) e SADER (1995); os livros de CALLINICOS (1992), KURZ (1992), PETRAS (1995) e HOBSBAWM (1995), entre outros.

[4] Esta formulação foi elaborada por Trotsky (1980) nos anos 1930. Tony Cliff rompeu com Trotsky a partir da tese de que na URSS predominava o “capitalismo de Estado” (ver: CALLINICOS, 1992). Em geral as diversas correntes trotskistas saudaram as revoluções no Leste Europeu e viram nelas a confirmação das teses de Trotsky, embora as justificativas, entendimentos e perspectivas nem sempre sejam coincidentes. Após a queda do muro de Berlim, este debate voltou à tona. Gorender define esses regimes como “socialismo de Estado”. Para ele, a impossibilidade da burocracia utilizar de forma privada os meios de produção e de aplicar o seu espólio diretamente na economia, constitui a “diferença fundamental” em relação à burguesia. Não só a burocracia não se constituiu como classe capitalista, como seu predomínio foi resultante da contra-revolução perpetrada por Stalin. Neste ponto, sua análise de se assemelha à formulação trotskista. (GORENDER: 1994).

[5] Sobre as origens e evolução da CS e da esquerda que aderiu ao PT ver: SILVA, 1987.

[6] Formado em 1977, como uma frente jornalística com a participação de vários grupos da esquerda e de marxistas independentes, o Em Tempo terminaria por se transformar no porta-voz da DS e, posteriormente, seu órgão oficial dentro do PT. A DS foi fundada em dezembro de 1979, a partir da fusão dos grupos Centelha (MG) e da Tendência Socialista do MDB (RS) e com a adesão de militantes oriundos do Partido Operário Comunista (POC) – este, surgido da unificação da POLOP com a Dissidência Leninista do Rio Grande do Sul.

[7] Esta posição foi modificada por sua I Conferência Nacional, realizada em fevereiro de 1980. Então a OSI concluiu que o PT, apesar de nascer como uma articulação dos agentes da burguesia no interior do movimento operário, não evoluiu como “pilar da ditadura” devido “a força motriz de sua articulação” ter sido “a luta dos trabalhadores e não os partidos burgueses nem a ditadura militar”. Ver “Apêndice à Resolução” do III Congresso da OSI. In: A Luta de Classe, nº 2, set. 1979, p.27.

[8] Essa época foi muito fértil para a imprensa operária e popular. Além do ABCD Jornal e do Em Tempo, já citados, temos o surgimento de uma imensidão de jornais e revistas regionais, estaduais ou mesmo com pretensões nacionais. Ver: KUCINSKI: 1991.

[9] Coligação partidária que englobava desde o PMDB, PC do B, PCB e MR-8 até os dissidentes do partido da ditadura militar, Partido Democrático Social (PDS), herdeiro político da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). José Sarney, Presidente do PDS até a sua implosão, com a formação do Partido da Frente Liberal (PFL), foi o vice-presidente na chapa da Aliança Democrática.

[10] Hobsbawm observou com propriedade que a expressão “crise do marxismo” - tão em moda ultimamente - foi cunhada já no século passado por ocasião do Bersntein-Debate. Desde então, o marxismo passou por várias crises – e, sobreviveu.  (HOBSBAWM, Eric J. Revolucionários: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1985, p. 137). Michael Löwy cita Benedetto Croce que, em 1907 afirmou: “O marxismo está definitivamente morto para a humanidade”. Löwy ironiza: “Dez anos depois o suposto cadáver mostrava uma saúde surpreendente nas ruas de Petrogrado, antes de se estender pelo resto do mundo como um rastilho de pólvora”. Ver: Michael Löwy. “Crise do marxismo ou marxismo crítico?” In: Cadernos de Teoria & Debate. O PT e o marxismo. São Paulo, Partido dos Trabalhadores DR/SP, 1991. Assim, talvez seja mais apropriado nos referirmos a uma nova “crise do marxismo”.

   

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Referências bibliográficas

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CALLINICOS, Alex. A vingança da história: o marxismo e as revoluções do leste europeu. Rio de Janeiro, Zahar Editor, 1992.

COGGIOLA, Osvaldo (org.). História e crise contemporânea. São Paulo, FFLCH-USP; Edições Pulsar, 1994.

GORENDER, Jacob. (1994) “A dissolução da URSS: causas e conseqüências”. In: COGGIOLA, Osvaldo (org.) História e Crise Contemporânea, FFLCH-USP e Edições Pulsar, 1994, pp. 77-84.

HAUPT, Georges. (1980) Marx e o marxismo. In: HOBSBAWM, Eric J. (org.) História do marxismo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980. Vol. 1, pp. 347-75.

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KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo, Scritta Editorial, novembro de 1991.

KURZ, Robert. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992.

LÖWY, Michael. “Crise do marxismo ou marxismo crítico?” In: Cadernos de Teoria & Debate. O PT e o marxismo. São Paulo, Partido dos Trabalhadores DR/SP, 1991.

LYRA, Rubens Pinto. (org.) Socialismo: impasses e perspectivas. São Paulo, Editora Página Aberta, 1992.

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PETRAS, James. Ensaios contra a ordem. São Paulo, Scritta, 1995.

SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.

SADER, Emir. (org.) O mundo depois da queda. São Paulo, Paz e Terra, 1995.

SILVA, Antônio Ozaí da. História das tendências no Brasil (Origens, cisões e propostas). São Paulo: Proposta Editorial, 1987.

STRADA, Vittorio. Marxismo e pós-marxismo. In: HOBSBAWM, Eric J. (org.) História do Marxismo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989. Vol. 11., pp. 101-31.

TRAGTENBERG. Maurício. (1983) “Marx/Bakunin”. In: Nova Escrita Ensaio. Ano V, nº 11/12. São Paulo: Editora Ensaio, pp. 279-299.

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