Os
Gestores como classe dominante:
notas
de uma pesquisa sobre o marxismo de João Bernardo
Aproveito
esta oportunidade para dar notícia de uma pesquisa que venho
desenvolvendo sobre a obra e a trajetória teórico-política de
João Bernardo, pensador marxista português. Pelas limitações
circunstanciais utilizarei este espaço para dar nota de um
importante aspecto teórico presente na centralidade do conjunto
de sua obra: os gestores como classe dominante no capitalismo.
Os
gestores como classe dominante que se desenvolveu conjuntamente
com a burguesia na consolidação do capitalismo como modo de
produção. O capitalismo teria assim, na sua constituição histórica
a afirmação de três classes: a burguesia, os gestores e o
proletariado. Essa proposição é sugerida pela obra que João
Bernardo vem desenvolvendo nas últimas décadas num conjunto de
livros que foram editados tanto em Portugal como no Brasil, sendo
alguns deles já traduzidos para o inglês, para o francês e para
o espanhol (01).
São
necessárias algumas definições. A primeira delas, a definição
de capitalismo que centraliza a argumentação do autor:
"Capitalismo
é o único sistema econômico que assenta na produção de
mercadorias, ou seja, onde os bens são produzidos com a
finalidade única da sua venda. (...) O capitalismo implica a criação,
no processo de produção, do seu próprio mercado. Produz-se um número
crescente de bens e só a venda no mercado permite que o capital
entre em novo ciclo produtivo. Este regime implica uma concorrência
permanente para o escoamento comercial dos produtos. (...) é a própria
concorrência entre capitalistas particulares que leva à expansão
do mercado em geral. O objectivo dos capitalistas particulares não
é o de dividir entre si um mercado estático, mas sobretudo o de
expandir o mercado que cada um dispõe. Para isso procuram
permanentemente aumentar a produtividade. (...) a concorrência
inter-capitalista no mercado assenta na concorrência
inter-capitalista no próprio processo de produção; o mecanismo
fundamental da concorrência reside na luta pelo aumento da
produtividade a qual se processa inteiramente ao nível do fabrico
dos produtos. O aumento da produtividade numa dada empresa pressupõe
o conhecimento dos processos de fabrico nas restantes, (...)
exigindo-se para isso uma relação tecnológica entre as unidades
de produção. É a partir de uma base comum de inter-relação
tecnológica que as empresas vão entrar em concorrência pelo
crescimento da produtividade" (Bernardo, 1979: 20-21).
Antes,
porém, que esse processo econômico se realize integralmente é
necessário que o Estado tenha desenvolvido, ou esteja a
desenvolver, as chamadas Condições Gerais de Produção (CGP),
condições, entre outras, como a "organização do
sistema geral de ensino", "a extensão da
medicina à generalidade da população", "medicina
preventiva e a vacinação", "esgotos e novas
condições urbanas", etc (Idem, 1979: 23-36). Em suma,
condições gerais de produção que "ultrapassam os
limites de cada empresa particular e constituem uma vasta teia,
sem a qual essas empresas e o próprio capitalismo não poderiam
existir" (Idem, 1979: 36).
Com
essa definição de capitalismo, cumpre agora perceber como o
autor conceitua as classes que o compõem enquanto modo de produção.
Para João Bernardo são três as classes sociais no capitalismo.
Classes que não se determinam em si como substâncias, mas, nas
relações que realizam entre si. Além da classe explorada (o
proletariado), o capitalismo apresenta mais duas classes, formadas
historicamente diante dos "dois aspectos fundamentais do
polo explorador do capitalismo": a burguesia e os
gestores.
"(...)
a burguesia representando a parcelarização das empresas, a
privatização da propriedade do capital; e uma outra classe, que
consubstancia a integração tecnológica entre as unidades de
produção, as condições gerais de produção; em virtude das
funções predominantemente organizacionais que esta classe
desempenha, na união entre os vários processos particulares de
fabrico e, portanto, na orquestração do capitalismo como um
todo, posso chamar-lhe classe dos gestores" (Idem,
1979: 36-37, destaque do autor).
Ressalve-se
que esse gestor não é um substituto do burguês, mas, um seu
contemporâneo (Idem, 1979: 37). Destaque-se, na citação
anterior como o autor caracteriza o processo estrutural que dá
existência histórica às classes dominantes no capitalismo. O
comando pessoal da empresa privada em si, que dá definição ao
burguês como proprietário, e as relações de produção e de
mercado que impõem uma lógica de relações entre o conjunto
sistêmico das unidades produtivas, atividade que transcende as práticas
individuais dos proprietários, atividade que é transferida aos
gestores, tanto na organização global do sistema econômico a
que estão envolvidas essas unidades produtivas, como na organização
global do sistema político que organizará a estruturação no
mercado das condições gerais de produção, aqui, o papel é dos
gestores do Estado. Ainda uma ressalva. A particularização do
burguês à sua unidade produtiva não significa isolamento,
significa, como diz João Bernardo, em outro momento da sua obra, "que
cada unidade econômica veicula os aumentos de produtividade
exclusivamente ao longo da linha de produção em que diretamente
se insere" (Bernardo, 1991: 203), e essa organização é
que dá a caracterização de classe a burguesia, a unidade
produtiva deve estar em relação com as outras unidades
produtivas, concorrendo no mercado e na produção por uma ampliação
de sua capacidade produtiva. A burguesia, como classe se
constituiu pela organização particular de sua produção premida
pela concorrência com outras unidades produtivas. A classe dos
gestores condiciona sua existência histórica, inicialmente, pela
organização integrada dessas unidades particulares, em paralelo
à organização dentro do Estado das condições gerais de produção.
Entretanto, apesar de se originar também na empresa privada, os
gestores enquanto classe têm no Estado o seu "campo
privilegiado de existência", pelas funções de organização
dos inter-relacionamentos globais exigidos pela sempre ampliada
reprodução do capital.
São
possíveis algumas conclusões. Diz João Bernardo que uma visão
dicotômica dos conflitos sociais no capitalismo, parece-lhe
ultrapassada, se restringida à luta entre burguesia e
proletariado, para o autor, com o desenvolvimento do capitalismo
conferiu-se "uma importância prática cada vez maior à
inter-relação das unidades de produção e às condições
gerais de produção, condenando ao arcaísmo qualquer concepção
centrada no isolamento das empresas" (Bernardo, 1979:
57). Dessa maneira, os gestores partilham com a burguesia do "controle
dos aspectos decisivos do capitalismo", ambas, são
assim, "classes exploradoras e como tal se opõem ao
proletariado" (Idem, 1979: 59); dessa constituição de
práticas históricas, com a evolução do capitalismo, a integração
tecnológica entre as empresas tende a progredir e com isso, a função
sócio-histórica da burguesia enquanto classe tende a se reduzir
em detrimento do crescimento do controle do capital por parte dos
gestores, daí desenvolver-se dentro das estruturas do Estado,
dependendo de cada situação, uma subalternização da burguesia
como classe frente aos gestores como classe progressivamente mais
organizada. O Estado brasileiro no período 1930 – 1964, possui
uma historicidade que demonstra muito bem essa análise sugerida
pelo pensador marxista português.
Muitos
outros elementos justificam historicamente os gestores como
classe, mas, para efeitos de síntese, limito-me a mais uma rápida
apresentação do argumento do autor.
A
classe gestorial, porque se relaciona com a integração das
unidades econômicas no processo global e com a coordenação
dessas articulações, desenvolveu formas integradas de
propriedade do capital, que não é particularizada
individualmente, mas unificada por grupos mais ou menos numerosos
de gestores que, assim, detêm enquanto coletivo empresas,
conjuntos de empresas ou até a totalidade da economia num país"
(Bernardo, 1991: 205).
Em
suma, quanto mais se desenvolve a economia capitalista mais se
consolidam os gestores como classe, os que se responsabilizam
diretamente pela organização e integração desse
desenvolvimento. "São a classe capitalista que, contemporânea
da gênese deste modo de produção, expande-se e reforça-se com
o crescimento econômico, confundindo-se com ele o seu eixo de
evolução" (Idem, 1991: 216). No processo de expansão
capitalista verifica-se crescentemente a "eliminação física"
dos indivíduos burgueses provocada pela falência do seu projeto
empresarial na concorrência do mercado. Esses indivíduos assumirão
funções de chefia em qualquer âmbito administrativo presente no
capitalismo, tornam-se, portanto, gestores do capitalismo, por
muitas vezes são colaboradores nas empresas que já foram suas.
Constata-se então, o fenômeno histórico no capitalismo do declínio
progressivo da burguesia como classe dominante em detrimento de
uma expansão progressiva dos gestores como classe dominante
(Idem, 1991: 216), a burguesia definha para alimentar a outra
classe capitalista em expansão.
Quando
a hegemonia nas classes dominantes era da burguesia, fato que se
verifica com clareza até o fim da década de 1920, era
corriqueiro aos gestores, no processo de sua ascensão como
classe, estarem dispersos "por campos e instituições várias"
e serem por isso uma classe ainda incapaz de "comportamento
unificado", daí "puderam confundir-se com os
trabalhadores numa comum oposição à burguesia". Esse
momento de efetiva ambigüidade de classe, "permitiu que
grandes movimentos da classe dos trabalhadores, inicialmente
dirigidos para a destruição do modo de produção capitalista,
acabassem afinal reconvertendo-o em formas novas, acelerando assim
o seu desenvolvimento e consolidando-o" (Idem, 1991:
217). Esse fenômeno tão característico das lutas
anti-capitalistas no século XX acabava por reforçar a apropriação
da mais-valia relativa, isto é, reforçar um capitalismo cada vez
mais organizado, cada vez mais sistematizado pela classe dos
gestores. O corolário sob o ponto de vista dos trabalhadores, é
paradoxal, porque viu nascer em definitivo, no seu próprio campo
de lutas, um ex-aliado como um inimigo de classe. Dessa maneira,
parafraseando o autor, os gestores, como classe, são o efetivo
"inimigo oculto" dos trabalhadores.
Nas
959 páginas do monumental estudo que desenvolveu sobre a história
do fascismo no século XX – Labirintos do Fascismo. Na
Encruzilhada da Ordem e da Revolta (2003), entre muitas definições,
João Bernardo apresenta uma expressiva síntese historiográfica
sobre a questão da relação - gestores e capitalismo, que para
efeitos de conclusão deste pequeno artigo a considero
integralmente.
Diz
o autor que os gestores "surgem como o eixo de articulação
de todas as variantes do capitalismo moderno" (Bernardo,
2003: 307). São três as variantes do capitalismo moderno: a
variante democrática do New Deal nos EUA – um modelo de
capitalismo identificado como keynesiano; a variante soviética,
como expressão de capitalismo de Estado e a variante fascista
européia. Afirma João Bernardo, que no período entre as duas
guerras mundiais, a burguesia "mostrou-se incapaz de se
renovar e de remodelar o sistema econômico. Perante esta falência
histórica da classe que até então havia sido hegemônica foram
os gestores quem assumiu a direção dos acontecimentos, salvando
o capitalismo" (Idem, 2003: 306). Salvação essa,
demarcada naqueles três exemplos referidos acima e caracterizados
sumariamente a seguir.
No
modelo do keynesianismo do New Deal, "conservaram-se as
instituições burguesas", mas já remodeladas pelos
gestores, o imperativo político definiu-se pela manutenção da
ordem. No pós-1929, pela própria natureza da crise
macroestrutural, os trabalhadores foram crescentemente alijados,
apesar de suas lutas, dos centros decisórios – por exemplo, não
se constituiu nos EUA, a partir desse momento um forte Partido
Comunista de bases nacionais. O autor define a ação dos gestores
dentro das instituições burguesas, com os trabalhadores
crescentemente marginalizados nas mesmas como uma "modalidade
de manutenção da ordem. Num esquema: gestores + burguesia /
proletariado" (Idem, 2003: 306).
O
inverso aconteceu na União Soviética. Conforme o autor, "enquanto
o proletariado procurava a aliança dos gestores para destruir ou
transformar as relações sociais de produção, confundindo assim
a burguesia com a totalidade do capitalismo" (Idem, 2003:
307), os gestores apropriavam-se do apoio do proletariado para
apenas modificar o estatuto jurídico de propriedade, "de
maneira a desenvolver formas de apropriação adequadas ao caráter
coletivo da classe gestorial e a retirar à burguesia a
exclusividade do controlo do capital. Nesta indefinição entre
relações de propriedade e relações de produção",
afirmaram-se as "grandes derrotas do proletariado"
e os "mais macabros paradoxos do socialismo"
(Idem, 2003: 307). No esquema sugerido pelo autor, na experiência
dos socialismos ortodoxos contemporâneos dos quais a experiência
do stalinismo soviético é o grande paradigma, a equação é "gestores
+ proletariado / burguesia" (Idem, 2003: 307).
A
situação do fascismo obedeceria a um esquema híbrido. Como na
ortodoxia stalinista, o fascismo também "institucionalizou
a mobilização do proletariado sob o comando dos gestores",
no entanto, a "afinidade do fascismo com o New Deal e com
o keynesianismo resultou da manutenção das instituições
burguesas na sua aparência exterior, embora a burguesia ficasse
relegada a um lugar secundário" (Idem, 2003: 307). O
fascismo impunha à burguesia a ameaça do proletariado para
afirmar os gestores como condutores do capitalismo, ou seja, no
fascismo, os gestores mantiveram o quadro capitalista de feições
burguesas, "respeitou[-se] o quadro da ordem",
mas, acrescentou-lhe o medo da "revolta, suscitado pelos
ecos da mobilização proletária. Num esquema: gestores +
burguesia + proletariado" (Idem, 2003: 307).
Restaria
aqui, como um possível desdobramento analítico das perspectivas
apontada pelo modelo do autor, apresentar uma definição dos
gestores na organização do capitalismo brasileiro quando do período
da convencionalmente chamada Era Vargas. Mas, por agora, limito-me
à descrição parcial desse modelo, deixando essas possibilidades
interpretativas para uma outra oportunidade.