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Por
FÁBIO PRESTES DE OLIVEIRA
Advogado
e estudante de Física pela UFAM |
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Nos
Submundos da Educação
O
vampirismo social não se restringe às carreiras burocráticas. As
profissões relacionadas à Educação também colecionam seus episódios
surreais, patrocinados, sobretudo, pelas universidades federais do
país. O campo é suficientemente fértil para a proliferação de
figuras antológicas, como a máquina de produzir artigos; o docente
que critica a educação, mas não se vê como agente nocivo; e o
reprovador em massa. A seguir, comento alguns dos casos mais insólitos
envolvendo essa estranha fauna que habita o cenário educacional
brasileiro.
1.
A Máquina de Produzir Artigos
O
CNPQ mantém um banco atualizado de currículos de docentes e
pesquisadores, chamado Currículo Lattes. Trata-se de uma relação
dos títulos de grandeza e artigos publicados por cada pesquisador
ali inscrito. Relações mais extensas tendem a chamar a atenção,
e normalmente são associadas à idéia do pesquisador que apresenta
grande produtividade. Quanto mais artigos publicados, mais respeito
obtém o pesquisador, e mais bolsas de pesquisa tende a obter do
Governo Federal. Assim, a moeda de troca na comunidade científica
é o artigo publicado. Com mais artigos, maior renome, maiores
oportunidades. Ou seja, mais artigos, mais poder.
Esta
é a história de José, um pós-doutor em Física que cedo percebeu
essas estranhas relações de troca na comunidade científica. José
produz artigos em escala industrial –
seu currículo Lattes é tão extenso quanto uma lista telefônica.
Talvez seja a única coisa que saiba fazer, considerando-se sua
extrema inaptidão para lecionar. Com tamanha quantidade de artigos
publicados, José já garantiu respeito na comunidade científica.
É um carreirista. E graças aos amigos certos, conseguiu a coordenação
das bolsas de pesquisa, na universidade onde leciona. O que pouca
gente sabe é como esses artigos são confeccionados.
José
faz cálculos, redige o artigo e o publica. É algo indigesto, de
pouco valor, mas não tão inútil que não mereça publicação.
Logo depois, José faz novos cálculos mudando apenas um número, ou
a direção de um vetor, aproveita o mesmo texto do artigo original,
muda o título para abranger a pequena mudança, e consegue nova
publicação. Como o plano funcionou da primeira vez, repete a
proeza em inúmeras oportunidades, e seu respeito se consolida através
de uma brecha no controle de qualidade. José se vangloria da
quantidade de artigos publicados, mas poucos se dão o trabalho de
perceber o que realmente acontece.
José
também caça outros colegas de profissão, em busca de uma vaga
como co-autor em artigos. Em poucos momentos se preocupa realmente
com o ofício de educador. Afinal, jamais será respeitado como
professor. O caminho mais fácil para o reconhecimento é a publicação
ininterrupta de artigos, e o reconhecimento nacional, através do
Currículo Lattes.
Há
também uma segunda tática. José coordena os programas de bolsas
de pesquisa, e cada estudante bolsista irá produzir um artigo, no
qual deverá relatar os resultados de seus estudos. E aqui vem o
grande trunfo de José – cada artigo terá obrigatoriamente o
professor-orientador como co-autor. Na prática, o orientador pouco
ou nada orienta seu aluno, mas garante seu lugar ao sol ao ganhar,
de maneira um tanto gratuita, a co-autoria de um artigo. E como foi
ressaltado anteriormente, artigo publicado é moeda de troca na
comunidade científica. José engorda sua lista de artigos – fica
mais rico – à custa de seus alunos bolsistas.
A
dura realidade econômica do Brasil faz das bolsas de pesquisa um
recurso utilizado não para a aquisição de livros ou periódicos,
mas para amenizar a situação de penúria em que se encontram
muitos dos estudantes de graduação. Com efeito, o jovem enfrenta
com aflição a possibilidade de se ver repentinamente privado de
uma fonte de renda que o auxilia nas despesas familiares. José sabe
disso, e usa a situação a seu favor. Costuma fazer ameaças
veladas de retirar as bolsas de seus alunos, sempre que contrariado.
Por exemplo, a despeito de seu pós-doutorado, José dá péssimas
aulas na universidade federal, e reprova mais de 80% de suas turmas.
Os alunos se revoltam, mas os bolsistas jamais podem apoiar seus
colegas. A situação se assemelha muito à escravidão por dívidas,
que caracteriza certas regiões no interior do Brasil. O aluno que
quer manter sua bolsa enfrenta, com freqüência, chantagens de
orientadores como José.
José
é um herói, pelo Currículo Lattes.
José
é um vilão, na vida real.
2.
Doutor Jeckyl e Senhor Hyde
A
professora Maria é uma doutora em Física que leciona, ao mesmo
tempo, disciplinas técnicas avançadas e disciplinas de educação.
Enquanto leciona as disciplinas de educação, prega um
relacionamento cordial entre alunos e professores; alerta os alunos
que irão lecionar para que não sejam autoritários com seus
pupilos; recomenda textos de educadores renomados, como Paulo
Freire; e vende a imagem de uma pedagoga sempre alerta com as últimas
publicações do gênero. Contudo, quando leciona as disciplinas técnicas
avançadas, abandona o discurso da véspera e personifica o estereótipo
do docente brutal, que humilha sem trégua seus alunos em sala de
aula. Por coincidência, diversos estudantes cursavam
simultaneamente as duas disciplinas, e ficavam atônitos com a mudança
inesperada de atitude – muitas das quais no mesmo dia. Alguns
desses alunos me procuravam, com as apostilas em punho, mostrando o
que ela própria recomendava nas aulas de educação, e em seguida
relatavam casos de reprimendas tão duras que, em pelo menos um
deles, levou uma aluna ao pranto. Na apostila, trechos grifados por
ela sobre abordagens amistosas de pedagogos renomados. Nos relatos
dos alunos, farpas tão dolorosas que logo a tornaram uma das
figuras mais impopulares do departamento. Certa vez, um dos
estudantes a encontrou em um ônibus, e tentou questionar onde ela
usava os ensinamentos de educação nas aulas avançadas. Ela o
censurou em voz alta durante vários minutos – dentro do ônibus!
– proporcionando um vexame que ainda causa embaraço ao aluno,
mesmo depois de tantos anos, quando se lembra dos detalhes.
Nos
corredores da universidade, a professora Maria discute com afinco os
problemas da educação brasileira.
Na
vida real, a professora Maria é, ela própria, um problema que
aflige a educação.
3.
O Aluno Medíocre Que Se Torna o Professor Exigente
Cursei
Física com João, um amigo que apresentava inúmeras deficiências
de base. Suas dificuldades em concluir até mesmo os cálculos mais
simples eram tão pronunciadas que lhe renderam a repetência em
diversas disciplinas. Durante certo período, reprovou em várias
matérias de uma única vez, o que o levou a um estado de depressão
que preocupou seus colegas mais próximos. Depois de tantos percalços,
João finalmente concluiu o curso, e, apesar das deficiências, começou
a lecionar em escolas de nível médio da rede pública. Com seus
alunos, passou então a assumir uma postura estranha e inesperada
– não era simpático às deficiências de seus próprios pupilos,
e se tornou um reprovador em massa. De cada turma de 50 alunos, era
corriqueiro que reprovasse algo em torno de 40 jovens. Jamais
cogitava, para seus próprios estudantes, a possibilidade de carência
de base, que um dia o afligiu – costumava dizer apenas que os
garotos não queriam estudar.
Às
vezes, João ligava para mim, à noite, para perguntar detalhes
sobre algum assunto de Física que não era explicado de maneira
clara nos livros. No dia seguinte, dava aulas sobre aquele mesmo
assunto, para os garotos do nível médio. Jamais imaginei que João
poderia ter coragem de reprovar um aluno por não saber de algo que
ele próprio não entendia bem, na noite anterior. Assim, iniciei
uma peregrinação em busca de seus ex-alunos, para tentar descobrir
o que realmente acontecia em suas aulas. Estudantes de diversos anos
foram unânimes: João humilhava seus alunos, quando demonstravam
alguma dificuldade de aprendizado. O grau de dificuldade de suas
avaliações também era gritante – João era um professor
extremamente imprudente ao escolher as questões de suas provas. Os
alunos nutriam tanto ódio, que um deles me confessou que pretendia
instalar uma bomba no carro do professor, e só não concluiu o
intento porque, à época, João dirigia o carro do irmão
emprestado, e por isso nem sempre dirigia sozinho.
Nunca
tive coragem de comentar o assunto com João. Tinha pena de seus
alunos, é claro, mas reconheço que fiquei paralisado de horror.
Horror por pensar nos pais que deixavam seus filhos no colégio, aos
cuidados de gente como João, e, depois de cinco horas, retornavam
para apanhá-los, crédulos de que estavam fazendo um bem àqueles
jovens. Os garotos eram maltratados, reprovados, e os pais ainda
lhes culpavam pela reprovação, sem que desconfiassem da culpa
secreta do professor João.
Para
a sociedade, o professor João é um paladino da educação.
Na
vida real, João destrói, impune, gerações de jovens.
4.
Conclusão
Cada
um dos casos aqui relatados é verídico. José, Maria e João não
são personagens fictícios de alguma obra literária. Infelizmente,
eu os conheço, e apenas seus nomes foram alterados. Eles existem,
inspiram respeito na comunidade, e são vistos como bastiões da
educação. Na vida real, contudo, ninguém desconfia que cada um
deles destrói os alicerces da educação à sua maneira. José é
um parasita do sistema, por desprezar seu ofício de educador em
prol da atividade de articulista. A sociedade, contudo, o vê como
herói da educação – um exemplo a ser seguido, com seu extenso
currículo, e seus títulos de grandeza. Maria é autoritária e
conservadora, bruta e ríspida com jovens. Para a sociedade,
contudo, ela vende a imagem de uma educadora sedenta por reformas
educacionais. João é um professor responsável por reprovações
em massa e pelo temor traumático em centenas de jovens estudantes,
por não considerar as dificuldades que ele próprio enfrentou. Para
a sociedade, contudo, é um profissional que auxilia os jovens nessa
nobre tarefa que é ensinar.
Presumo
que cada instituição de ensino possua seu próprio José, sua própria
Maria e seu próprio João. Suas figuras serão sempre lembradas
como exemplos de dedicação, mas somente quem conviveu com eles de
perto saberá da verdadeira história.
Infelizmente,
nossos heróis nem sempre são tão heróis quanto diz o anúncio. |
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