GALIA GOLAN leciona Governança no Centro Interdisciplinar de Herzlia. É Professora Emérita da Universidade Hebraica de Jerusalém. Como uma das principais líderes do Movimento PAZ AGORA, foi uma das redatoras, em 2001, da histórica DECLARAÇÃO CONJUNTA ISRAELENSE - PALESTINA. Esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro em setembro de 2002, a convite do PAZ AGORA/BR, e no Fórum Social Mundial em janeiro de 2002, onde assinou e leu a Carta de Porto Alegre, aplaudida por cerca de 20.000 pessoas.

 

 

Olhando Mais Adiante

por GALIA GOLAN

- traduzido por MOISÉS STORCH para o PAZ AGORA/BR -

 

Vendo hoje a situação pós-intifada, pode-se sentir desanimado. O processo de paz dos anos 90 fracassou, a ocupação continuou, com sofrimentos piores do que nunca para os palestinos. A construção de assentamentos e a expansão em terras expropriadas em Jerusalém continuam. A violência dos últimos cinco anos tem desempenhado um papel devastador nas esperanças e expectativas de ambas as populações.

Mas, se nos detivermos um momento para tentar enxergar um pouco mais longe, poderemos detectar um cenário mais positivo com respeito a um movimento israelense em direção à paz, mesmo se compararmos com dez anos atrás.

1. Hoje a solução de Dois Estados é apoiada pela maioria, tanto dos israelenses quanto palestinos. O slogan 'Dois Estados para Dois Povos', que começou como bandeira de pequenos contingentes de comunistas no início dos anos '70, é declarado agora como política tanto da OLP quanto de Israel. Um governo de direita em Israel, sob Ariel Sharon, adotou a idéia de um Estado Palestino em algum lugar da Cisjordânia e Gaza. Nem mesmo Yitzhak Rabin fizera tal compromisso público.

2. O governo atual de Israel, um governo de direita, admite abertamente que é um ocupante, primeiramente de Gaza (o plano de desligamento declara que 'irá acabar a ocupação da Faixa de Gaza'), e depois mesmo da Cisjordânia, em declarações de Sharon de que 'esta é uma ocupação, que oprime e não pode continuar'.

3. Os territórios, já não são mais axiomáticos como componentes essenciais da auto-identificação de Israel para muitos direitistas, mesmo para elementos do ultra-nacionalismo israelense. A identidade étnica e referências demográficas (às vezes racistas) estão substituindo os fatores territoriais em planos propostos por políticos de direita. Assim, eles estão realmente dispostos a concessões e retiradas de áreas da Cisjordânia e a um redesenho de fronteiras para preservar a maioria demográfica judaica de Israel.

4. O argumento de segurança, especialmente a necessidade de uma profundidade estratégica para o exército, que já foi o principal fator que justificava para muitos israelenses manter os territórios ocupados, se torna mais fraco numa era de mísseis e novas doutrinas militares. Mais ainda, quando o terrorismo toma o lugar de guerras abertas como a principal ameaça aos olhos do público, o território se torna bem menos relevante e os territórios ocupados passam a ser de fato percebidos como uma ameaça, e não como proteção.

5. A cerca/muro que Israel está construindo anexa terras e prejudica a vida dos palestinos, separando famílias de seus campos, crianças e professores de suas escolas e causa outros inúmeros sofrimentos.  Mas mesmo que a demarcação da cerca/muro seja problemática, ela trouxe duas melhoras significativas.

A primeira é a restauração da linha de 4 de junho de 1967 como ponto de referência para a divisão entre Israel e a futura entidade Palestina. Esta linha, que desapareceu dos mapas israelenses nos últimos 30 anos, é agora o ponto de referência fixado pela Suprema Corte Israelense e também na mente da população para a construção da cerca/muro.

Além disto, se de fato a cerca/muro vir a ser a futura fronteira, isto é, mais uma linha política do que de segurança, isto significa que o governo de Israel, sob um primeiro-ministro direitista, está de fato disposto a conceder 91% da Cisjordânia (pois pelo traçado da cerca/muro aprovado pelo governo, com as retificações exigidas pela Suprema Corte, seriam anexados apenas 9% da Cisjordânia e Jerusalém Oriental). Embora isto possa ser inaceitável para os palestinos, é algo muito mais avançado do que qualquer coisa que a direita jamais esteve disposta a ceder, e, mais importante, uma boa indicação pública da falta de adesividade da população israelense à Cisjordânia.

6. O princípio de troca de terras (swaps) foi aceito por ambos os lados, ao menos nas conversações de Camp David, e agora é assumido de forma geral como parte de qualquer acordo, como forma de compensação por qualquer terra que seja de fato anexada por Israel. Fronteiras modificadas e trocas de terras, que já foram tabus no discurso israelense, são agora uma idéia amplamente aceita.

7. Concessões em Jerusalém, e sua designação como capital de ambos os Estados, são idéias que também entraram no pensamento majoritário israelense. Notícias vazadas sobre propostas israelenses de alocar ao controle palestino áreas de Jerusalém Oriental e dentro da Cidade Velha não despertaram, como muitos esperariam, grande alarme público, e futuras propostas tendem a assumir tais divisões, já apoiadas por pouco menos de 50% dos israelenses.

8. Pela primeira vez, o presidente dos EUA fez um compromisso oficial com a criação de um Estado Palestino e a solução de Dois Estados. Isto agora é política oficial dos Estados Unidos. Até Clinton se abstivera de assumir tal compromisso de forma pública e oficial, durante seu governo.

9. A atitude de Israel quanto ao envolvimento de terceiras partes sofreu mudanças significativas. Num passo virtualmente inédito, Israel concordou em envolver terceiras partes em procedimentos com relação aos territórios ocupados, incluindo até a participação de um país árabe, seu antigo inimigo, o Egito, na proteção indireta da segurança de Israel. A colocação da polícia de fronteiras egípcia, em vez de forças israelenses, no 'corredor Philadelphi' entre Gaza e Egito, foi agregada ao envolvimento da Inglaterra e Egito no treinamento de palestinos em Gaza, ao possível envolvimento europeu na supervisão de certos pontos de passagem e/ou do porto de Gaza, e o envolvimento europeu nos aspectos práticos do plano de desligamento, tudo isto foi ou irá além do envolvimento de terceiros, que de fato antes era praticamente limitado aos Estados Unidos.

10. O movimento dos colonos tomou um sério golpe. O sucesso do desligamento, rápido e amplamente popular, rompeu tanto a influência desproporcional dos colonos por mais de 30 anos como também o mito de que os assentamentos não poderiam ser removidos.

Além disto, uma grande cisão emergiu entre o que é considerada a maioria amplamente secular que obedece às leia no país, por um lado, e do outro a relativamente pequena minoria religiosa que se colocou contra as normas democráticas e as decisões do Estado. Isto, por si, pode ter profundas influências na política futura e na sociedade israelense.

A maior parte, senão todas estas tendências e mudanças nos últimos anos, impactou não apenas o discurso político do país, mas também a psicologia da população, de forma talvez determinante para futuros passos em direção à paz. Embora elas devam ser pesadas contra os obstáculos restantes, especialmente a disseminada desconfiança nos palestinos que resultou da Intifada, esses acontecimentos oferecem bases para a convicção de que um acordo de paz israelense-palestino - talvez como resultado doRoad Map, não esteja tão distante quanto muitos possam acreditar.

© PAZ AGORA/BR

   Reprodução permitida com os devidos créditos aos autores, à fonte e ao

PAZ AGORA/BR - www.pazagora.org

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico  

> mais de Galia Golan >

A Iniciativa de Desligamento - 10/02/2005 

 

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2005 - Todos os direitos reservados