por
GALIA
GOLAN
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traduzido por MOISÉS STORCH para o PAZ AGORA/BR
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Vendo
hoje a situação pós-intifada, pode-se sentir desanimado. O
processo de paz dos anos 90 fracassou, a ocupação continuou, com
sofrimentos piores do que nunca para os palestinos. A construção
de assentamentos e a expansão em terras expropriadas em Jerusalém
continuam. A violência dos últimos cinco anos tem desempenhado
um papel devastador nas esperanças e expectativas de ambas as
populações.
Mas,
se nos detivermos um momento para tentar enxergar um pouco mais
longe, poderemos detectar um cenário mais positivo com respeito a
um movimento israelense em direção à paz, mesmo se compararmos
com dez anos atrás.
1.
Hoje a solução de Dois Estados é apoiada pela maioria, tanto
dos israelenses quanto palestinos. O slogan 'Dois Estados
para Dois Povos', que começou como bandeira de pequenos
contingentes de comunistas no início dos anos '70, é declarado
agora como política tanto da OLP quanto de Israel. Um governo de
direita em Israel, sob Ariel Sharon, adotou a idéia de um Estado
Palestino em algum lugar da Cisjordânia e Gaza. Nem mesmo Yitzhak
Rabin fizera tal compromisso público.
2.
O governo atual de Israel, um governo de direita, admite
abertamente que é um ocupante, primeiramente de Gaza (o plano de
desligamento declara que 'irá acabar a ocupação da Faixa de
Gaza'), e depois mesmo da Cisjordânia, em declarações de Sharon
de que 'esta é uma ocupação, que oprime e não pode continuar'.
3.
Os territórios, já não são mais axiomáticos como componentes
essenciais da auto-identificação de Israel para muitos
direitistas, mesmo para elementos do ultra-nacionalismo
israelense. A identidade étnica e referências demográficas (às
vezes racistas) estão substituindo os fatores territoriais em
planos propostos por políticos de direita. Assim, eles estão
realmente dispostos a concessões e retiradas de áreas da Cisjordânia
e a um redesenho de fronteiras para preservar a maioria demográfica
judaica de Israel.
4.
O argumento de segurança, especialmente a necessidade de uma
profundidade estratégica para o exército, que já foi o
principal fator que justificava para muitos israelenses manter os
territórios ocupados, se torna mais fraco numa era de mísseis e
novas doutrinas militares. Mais ainda, quando o terrorismo toma o
lugar de guerras abertas como a principal ameaça aos olhos do público,
o território se torna bem menos relevante e os territórios
ocupados passam a ser de fato percebidos como uma ameaça, e
não como proteção.
5.
A cerca/muro que Israel está construindo anexa terras e prejudica
a vida dos palestinos, separando famílias de seus campos, crianças
e professores de suas escolas e causa outros inúmeros
sofrimentos. Mas mesmo que a demarcação da cerca/muro seja
problemática, ela trouxe duas melhoras significativas.
A
primeira é a restauração da linha de 4 de junho de 1967 como
ponto de referência para a divisão entre Israel e a futura
entidade Palestina. Esta linha, que desapareceu dos mapas
israelenses nos últimos 30 anos, é agora o ponto de referência
fixado pela Suprema Corte Israelense e também na mente da população
para a construção da cerca/muro.
Além
disto, se de fato a cerca/muro vir a ser a futura fronteira, isto
é, mais uma linha política do que de segurança, isto significa
que o governo de Israel, sob um primeiro-ministro direitista, está
de fato disposto a conceder 91% da Cisjordânia (pois pelo traçado
da cerca/muro aprovado pelo governo, com as retificações
exigidas pela Suprema Corte, seriam anexados apenas 9% da Cisjordânia e
Jerusalém Oriental). Embora isto possa ser inaceitável para os
palestinos, é algo muito mais avançado do que qualquer coisa que
a direita jamais esteve disposta a ceder, e, mais importante, uma
boa indicação pública da falta de adesividade da população
israelense à Cisjordânia.
6.
O princípio de troca de terras (swaps) foi aceito por
ambos os lados, ao menos nas conversações de Camp David, e agora
é assumido de forma geral como parte de qualquer acordo, como
forma de compensação por qualquer terra que seja de fato anexada
por Israel. Fronteiras modificadas e trocas de terras, que já
foram tabus no discurso israelense, são agora uma idéia
amplamente aceita.
7.
Concessões em Jerusalém, e sua designação como capital de
ambos os Estados, são idéias que também entraram no pensamento
majoritário israelense. Notícias vazadas sobre propostas
israelenses de alocar ao controle palestino áreas de Jerusalém
Oriental e dentro da Cidade Velha não despertaram, como muitos
esperariam, grande alarme público, e futuras propostas tendem a
assumir tais divisões, já apoiadas por pouco menos de 50% dos
israelenses.
8.
Pela primeira vez, o presidente dos EUA fez um compromisso oficial
com a criação de um Estado Palestino e a solução de Dois
Estados. Isto agora é política oficial dos Estados Unidos. Até
Clinton se abstivera de assumir tal compromisso de forma pública
e oficial, durante seu governo.
9.
A atitude de Israel quanto ao envolvimento de terceiras partes
sofreu mudanças significativas. Num passo virtualmente inédito,
Israel concordou em envolver terceiras partes em procedimentos com
relação aos territórios ocupados, incluindo até a participação
de um país árabe, seu antigo inimigo, o Egito, na proteção
indireta da segurança de Israel. A colocação da polícia de
fronteiras egípcia, em vez de forças israelenses, no 'corredor
Philadelphi' entre Gaza e Egito, foi agregada ao envolvimento da
Inglaterra e Egito no treinamento de palestinos em Gaza, ao possível
envolvimento europeu na supervisão de certos pontos de passagem
e/ou do porto de Gaza, e o envolvimento europeu nos aspectos práticos
do plano de desligamento, tudo isto foi ou irá além do
envolvimento de terceiros, que de fato antes era praticamente
limitado aos Estados Unidos.
10.
O movimento dos colonos tomou um sério golpe. O sucesso do
desligamento, rápido e amplamente popular, rompeu tanto a influência
desproporcional dos colonos por mais de 30 anos como também o
mito de que os assentamentos não poderiam ser removidos.
Além
disto, uma grande cisão emergiu entre o que é considerada a
maioria amplamente secular que obedece às leia no país, por um
lado, e do outro a relativamente pequena minoria religiosa que se
colocou contra as normas democráticas e as decisões do Estado.
Isto, por si, pode ter profundas influências na política futura
e na sociedade israelense.
A
maior parte, senão todas estas tendências e mudanças nos últimos
anos, impactou não apenas o discurso político do país, mas também
a psicologia da população, de forma talvez determinante para
futuros passos em direção à paz. Embora elas devam ser pesadas
contra os obstáculos restantes, especialmente a disseminada
desconfiança nos palestinos que resultou da Intifada, esses
acontecimentos oferecem bases para a convicção de que um
acordo de paz israelense-palestino - talvez como resultado doRoad
Map, não esteja tão distante quanto muitos possam acreditar.