Condições
para a discussão democrática de novas estratégias de Defesa e
Segurança
Deflagrado
mundialmente por novas configurações nas relações
internacionais provocadas após o final da Guerra Fria e renovado,
mais recentemente, pelos atentados de 11 de setembro de 2001, o
debate sobre novas concepções de defesa e segurança encontra a
América Latina e, conseqüentemente, o Brasil tomados pelo dilema
de adaptar-se às novas condições mundiais ao mesmo tempo em que
se tenta escapar da agenda unilateral dos Estados Unidos, país
que pretende pautar os rumos daquela adaptação em todo o
continente americano, em prol de seus próprios interesses estratégicos.
O
documento oficial resultante da “Conferência Especial sobre
Segurança”, ocorrida no México entre 27 e 28 de outubro de
2003, sob os auspícios da Organização dos Estados Americanos,
é sintomático a respeito de uma nova percepção
latino-americana relativa aos temas de defesa e segurança
(ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS, 2003). A Conferência,
organizada com o objetivo de discutir novos conceitos em torno das
questões de defesa hemisférica numa conjuntura mundial não mais
marcada pelas variáveis da Guerra Fria, elaborou uma nova série
de preocupações estratégicas continentais, sem deixar de lado o
que ainda possa persistir das chamadas “ameaças tradicionais”
(PERALTA, 2003, p.03).
No
Brasil, com o intuito de impulsionar a renovação do pensamento
sobre políticas de defesa e segurança nos marcos da nova
configuração mundial de poder, realizou-se no final de 2003 e início
de 2004, na cidade de Itaipava, um ciclo de debates organizado
pelo próprio Ministério da Defesa, ainda na gestão do então
ministro José Viegas. As discussões contaram com a presença de
parlamentares e acadêmicos especializados na questão.
No
país, tradicionalmente as questões de defesa e segurança têm
pouco espaço no debate político nacional. Além disso, preocupações
com novas estratégias com relação àqueles temas estão
sujeitas à irresistível concorrência de outras questões tidas
como urgentes no grave quadro social brasileiro. De todo modo,
consideramos relevante que o assunto possa ganhar cada vez mais
espaço nas discussões da sociedade civil e do Parlamento
brasileiro, para que se viabilizem vias democráticas de debate e
concretização de uma ainda inédita política de defesa nacional
no contexto pós-redemocratização.
Há
problemas importantes no âmbito da defesa nacional que mereceriam
maior amplitude de debate. A fragilidade das fronteiras amazônicas
é um exemplo válido. Eminentemente florestais, tornam pálidas
ou inexistentes as relações da região com os países vizinhos,
cujas trocas comerciais voltam-se predominantemente para o Oceano
Pacífico. Os graves problemas advindos da débil presença do
Estado brasileiro nas regiões de floresta amazônica, como tráfico
de drogas e armas e devastação ambiental, potencializam-se em
razão da ausência de integração estrutural significativa com
países que têm fronteiras com o território nacional na região.
Lembra
Myiamoto (2004, p.08) que “nunca houve uma política uniforme
para dar conta dos problemas concernentes à defesa e segurança
nacionais.” Prova disso é que o país não possui o seu Livro
Branco de Defesa, importante documento que outros países da América
do Sul possuem, onde se detalham as diretrizes estratégico-militares
nacionais. O que o Brasil tem à disposição, nesse caso, é um
documento de poucas páginas intitulado “Política de Defesa
Nacional”, o que, lembra Myiamoto (2004, p.07), aproxima-se de
uma carta de intenções. Observa ainda o autor a “ausência de
uma política militar global para o país”, além da “falta de
um projeto nacional, entendido este como a conjugação de esforços
entre Estado e sociedade na busca de um mesmo destino”. (MYIAMOTO,
2004, p.08).
As
questões de defesa e segurança, obviamente, devem deixar de ser
objeto de desconhecimento e desinteresse por parte da sociedade
civil, ou sociedade organizada. Para isso, é necessário que a
discussão sobre a elaboração de um “Livro Branco” ou seu
equivalente brasileiro alcance os meios de comunicação e os
movimentos sociais, como recentemente ocorreu com o atual projeto
de lei de reforma universitária. A “Política de Defesa
Nacional” deveria ser expandida num amplo projeto de estratégia,
defesa e segurança por meio do debate transparente entre os
poderes constituídos e a sociedade civil. A discussão acadêmica,
nos moldes do ciclo de debates promovido pelo Ministério da
Defesa em 2003/2004 já se mostra uma iniciativa nesse sentido,
apesar de insuficiente.
Neste
longo caminho, o primeiro passo já se apresenta bem difícil.
Grande parte da sociedade brasileira se encontra quotidianamente
às voltas com problemas imediatos de sobrevivência. Não apenas
sua atenção não se voltará para as questões de defesa e
segurança do Estado, como sua própria condição ameaça a
estabilidade institucional necessária para o tratamento eficaz
daquelas questões. Por isso, consideramos indissociável de um
amplo projeto de defesa nacional a abordagem conjunta dos
problemas sociais gerados pela alta concentração de renda no
Brasil. Diante do argumento de que os assuntos são diferentes e
devem ser abordados separadamente, sugerimos que a acintosa
disparidade social brasileira pode condenar qualquer projeto
naquele sentido que não considere o bem-estar social da população
como fator essencial de cumplicidade com os objetivos do Estado.
Um
consistente projeto de defesa nacional requer tranqüilidade
social interna. Esta, por sua vez, tem como pré-requisito uma
adequada política de distribuição de renda, o que, além de se
justificar por si só, evita o surgimento de tensões sociais
insolúveis. Tais tensões podem originar ao menos dois graves
desequilíbrios daquela tranqüilidade interna, já verificados no
Brasil: por um lado, o avanço da atuação de movimentos sociais
para além dos limites institucionais; por outro, o banditismo
gerador de guetos urbanos inacessíveis à atuação do poder público
convencional. Ambos os casos podem levar o Estado a acionar as forças
armadas como fator de coerção e restabelecimento da chamada
ordem pública. O resultado, portanto, é o desvio de contingentes
militares importantes de sua função precípua, qual seja o
treinamento e ação voltados para questões de defesa nacional. Já
Gramsci observava que
Na
noção de grande potência, deve-se considerar também o elemento
“tranqüilidade interna”, isto é, o grau e a intensidade da
função hegemônica do grupo social dirigente. [...] Por isso,
seria possível dizer que, quanto mais forte é o aparelho
policial, tanto mais fraco é o exército e que, quanto mais fraca
(isto é, relativamente inútil) é a polícia, tanto mais forte
é o exército (diante da perspectiva de uma luta internacional)
(GRAMSCI, 1999, p.34).
Ou
seja, o aparato coercitivo do Estado apresenta tanto melhores
condições para a guerra externa quanto menos tenha que se
envolver na manutenção da ordem interna. Na América do Sul a
história recente do Peru é ilustrativa a respeito. Analistas
peruanos atribuem a derrota para o Equador na guerra de
janeiro/fevereiro de 1995 em parte ao desgaste provocado nas forças
armadas do país em virtude do longo período (mais de uma década)
de conflito interno com as forças guerrilheiras do grupo Sendero
Luminoso, que envolveu o emprego constante de grupos de elite das
forças armadas preparados especialmente para uma situação de
guerra interna (GALASTRI, 2005, pp. 19-27). Deve-se levar em
conta, aqui, a superioridade militar peruana em relação ao
Equador durante praticamente todo o tempo histórico em que
existiu a divergência fronteiriça com esse país, que se inicia
já com o processo de independência das colônias espanholas (GALASTRI,
2005, p.13).
Com
relação à discussão das questões de defesa no Congresso
Nacional Brasileiro, a situação não parece favorável. Pouco
passíveis de gerar votos, tais assuntos permanecem parcamente
abordados e são objeto de escassa preocupação por parte do
Legislativo, permanecendo como esfera de atuação exclusiva do
Poder Executivo. Observa Soares que
O
Poder Legislativo tem participação reduzida sobre as questões
militares – como também sobre outras –, dado o alijamento
deste poder das grandes decisões, característica do sistema político
brasileiro. As decisões e ações decorrentes são implementadas
pelo Poder Executivo, o que é justificado pela premência com que
devem ser tomadas. Ainda mais, a racionalidade dos parlamentares
em buscar a reeleição os distancia desta temática cujo retorno
eleitoral é praticamente nulo (AVELINO FILHO, 1994). (SOARES,
2001: 279).
Outros
fatores influenciam o interesse dos parlamentares segundo a
“racionalidade” citada acima. A estrutura militar não prevê
cargos a serem ocupados por meio de nomeações, importante fator
a estimular a participação de partidos na elaboração de
projetos referentes às mais diversas áreas da administração pública.
Também o orçamento militar não permite aplicações regionais
condizentes com interesses eleitorais de representantes do
Legislativo (OLIVEIRA, 2005, p.101). Outro fator seria o fato de
que, de acordo com alguns parlamentares, não se encontraria na
sociedade a percepção de riscos militares externos ao Brasil,
devido à uma suposta ausência de hipóteses de conflito
internacional imediato ou num longo prazo previsível (OLIVEIRA,
2005, p.100). Ainda segundo Oliveira (2005, p.106), “dado que os
partidos pouco se ocupam da Defesa Nacional, os parlamentares não
são estimulados a conhecê-la e a descobrir sua importância. De
um modo geral, desconhecem as Forças Armadas.”
Todos
esses fatores em conjunto gerariam um afastamento permanente do
Poder Legislativo referente a questões de defesa nacional,
deixando ao Executivo a exclusividade no assunto, o que acaba
prejudicando a existência de uma abordagem democrática que
envolvesse amplos setores da sociedade.
Encontramo-nos,
assim, diante de um impasse para a evolução democrática do
tratamento do tema em pauta. As questões sobre novas estratégias
de defesa e segurança permanecem restritas às decisões do
Executivo e a ainda inócuas discussões acadêmicas. No entanto,
somente a ampliação dos círculos participantes dos debates
promoverá soluções consensuais e eficazes. Sem destaque na
sociedade civil e sem suscitar interesse por parte do Parlamento,
os problemas concernentes à necessidade de novas estratégias de
defesa e segurança precisarão ter seu raio de debates
paradoxalmente estendidos por iniciativa do próprio Poder
Executivo. Se este estará ou não disposto a forçar por conta própria
a abertura de trilhas democráticas para assuntos de alta política
é o que resta saber.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
GALASTRI,
Leandro de O. A Missão de Observadores Militares Equador-Peru
– MOMEP (1995-1999) e a participação do Exército Brasileiro.
2005. 141p. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) –
Unicamp, Campinas, 2005.
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Antônio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1999, v. 03.
MYIAMOTO,
Shiguenoli. A política brasileira de defesa e segurança: algumas
considerações. Ministério da Defesa. Ciclo de debates
sobre a atualização do pensamento brasileiro em matéria de
defesa e segurança. 2003-2004. Disponível em www.defesa.gov.br/enternet/sitios/ciclodedebates/textos.htm,
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OLIVEIRA,
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SP: Manole, 2005.
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logros. Boletín RESDAL, Edición Especial, ano II,
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SOARES,
Samuel A. Um novo profissional militar no Brasil pós-autoritário.
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