Nacionalismo
e classes produtoras
O
Estado-nação brasileiro tem características bem peculiares. A
primeira delas é a criação primeiro do Estado para
posteriormente termos uma nação.
A passagem da condição colonial para a independência político-administrativa
a partir de um Império, foi a linha condutora do Estado
brasileiro, que tem na manutenção e expansão do território e
no controle sobre a população os pilares de sua construção
inicial.
Tal
Estado está posto, diante da sua sociedade civil, em posição de
radical autonomia, embora inexista a intenção de fazer da política
um recurso de alavancagem ou de favorecimento da modernização
econômica, como atesta a má sorte dos empreendimentos de notáveis
homens de negócios, como Mauá, e dos intelectuais de adesão
americana que buscaram fazer da empresa econômica um lugar de
transformação do mundo, como Tavares Bastos e os irmãos Rebouças.
(...)
Para
as elites políticas do novo Estado-nação a primazia da razão
política sobre outras racionalidades se traduz em outros
objetivos: preservação e expansão do território e controle
sobre a população.
Na
reestruturação ocorrida durante o período regencial, foi
corroborada a perspectiva de que o Estado está alinhado a grupos
sociais que lhe dão sustentação, pois o novo dimensionamento do
Estado se deu em paralelo à construção da classe senhorial, que
assegurariam dois outros princípios básicos, a ordem e a difusão
da civilização.
Manter
uma Ordem significava, efetivamente, garantir a continuidade das
relações entre senhores e escravos (...). Significava ainda
garantir a reprodução das relações com o mundo exterior,
capitalista e civilizado, por meio da prevalência da Coroa,
propiciadora da associação estreita entre negócios e política
e da dominância do capital mercantil. Significava ainda mais: o
monopólio da responsabilidade pelo Soberano, exercido por meio
‘dos mais próximos’, monopolizadores também do discurso.
Significava também preservar a integridade territorial do Império,
embora preservando as diversas regiões e a preponderância da
região de agricultura mercantil-escravista, e dentro desta a
prevalência do ‘Sul’ polarizado pela Corte, depositária dos
olhos vigilantes do Soberano. (...)
Difundir
a civilização era, por seu turno, assegurar o primado da Razão,
o triunfo do Progresso, a difusão do espírito de Associação, a
formação do Povo. Ela consistia, de um lado, em romper os
limites da Casa, quebrando em parte o poder do despotés,
de maneira a transformá-lo, no caso particular da região de
agricultura mercantil-escravista, de mero plantador escravista em
elemento integrado num ‘universo mais amplo’, que era
entendido como propiciador da sua continuidade, embora numa situação
nova. (...) em garantir a adesão a uma Ordem, que se alicerçava
no nexo colonial e na existência da escravidão, de um
determinado conjunto de homens livres que não derivavam
diretamente dela (...).
As
classes dominantes souberam cumprir seu projeto de poder, o território
brasileiro tem, definitivamente, dimensões continentais. A população
foi controlada, para isso a coerção foi uma tônica, que sufocou
revoltas, impediu protestos ou qualquer tentativa de participação.
Foram mantidos e assegurados privilégios, conservando uma ordem há
muito criada. A mudanças civilizatórias foram apropriadas de
forma a produzir o mínimo de movimento possível, sempre
organizando o novo dentro do que já existia. Afinal, nosso lema não
passou a ser ordem e progresso com a República, a instituição
do Estado brasileiro foi forjada a partir deste paradigma.
Assegurar
e ampliar o território não seria possível apenas com a utilização
da coerção, qualquer tipo de poder precisa do consenso para
perdurar. Esse consenso se realizou através da adesão à Guarda
Nacional, pela lei e pela língua. É surpreendente um território
como o brasileiro ter uma língua uniforme, grupos restritos de
indígenas e imigrantes ocorrem, mas a imensa maioria fala português.
Isso mostra que o Estado cumpriu seu papel.
No
Brasil a uniformidade da língua garantiu um ponto de coesão
importante, pois o distanciamento entre os grupos sociais era
profundo. O Brasil foi, desde muito cedo uma sociedade marcada
pela exclusão, como manter o território, os privilégios e a
ordem? A língua serviu como elo entre aqueles que estavam em
campos diferentes, os incluídos, uma parcela mínima da população
que sempre esteve perto ou dentro do círculo de poder, e os excluídos,
aqueles que fazem parte da plebe e que sempre estiveram isolados.
A língua abriu espaço para um outro potente instrumento de
uniformização, a educação, com ela foi possível aprofundar e
dar significados mais precisos à comunidade imaginada.
Na
República a educação passa a ser um forte aliado para a
moldagem da nação, dentro dos mesmos limites de modificação
dentro da ordem.
Marcam a década de 1920 as mobilizações em torno da educação,
tendo sido tomadas iniciativas voltadas para a formação cívica
dos jovens, como a inclusão de instrução moral e cívica no
exame de admissão ao curso secundário (Reforma Rocha Vaz, no
governo Artur Bernardes - 1925), incluindo “noções de
civilidade, sociabilidade, trabalho, verdade, justiça, eqüidade,
amenidade no trato, gentileza, asseio, higiene, amor à família e
à pátria, altruísmo, etc.”
incorporando as preocupações, apresentadas por Igreja, militares
e educadores, com a educação moral e cívica da mocidade.
Um
primeiro elemento dessa nacionalidade era a sua oposição a existências
de grupos étnicos fechados existentes no país, era fundamental
eliminar esses focos negativos para que a brasilidade
pudesse crescer sem barreiras. Logo, o Estado implementou uma política
eficaz que garantiu a constituição da nacionalidade. Essa política
era estruturada por três frentes complementares: aplicar um conteúdo
nacional não só a educação escolar, mas a todas as instâncias
formativas; padronizar/centralizar
os conteúdos escolares; e erradicar
as minorias que colocavam em xeque a nacionalidade.
Schwartzman
vai analisar mais detidamente esse último aspecto, que
paralelamente, para ser posto em prática, contou com a efetivação
das duas outras frentes (lembrando que, acima de tudo, a constituição
da nacionalidade é uma ação pedagógica).
Entre os núcleos estrangeiros mais preocupantes estava o dos alemães,
que imprimiam na sua vida cotidiana o reforço constante da
cultura alemã, uma afronta para a brasilidade, e um problema
de segurança nacional. Como erradicar esses focos e fazê-los
participar da cultura brasileira? A resposta dada no momento foi a
ação conjunta de quatro ministérios, Guerra, Educação,
Trabalho e Justiça, que deveriam organizar ações para dissolver
esses grupos. Essas ações eram um misto de coerção e consenso,
o uso da força (através da lei, principalmente) era contrabalançado
com a inserção “pacífica” de elementos de fora dentro
dessas comunidades (através da escola e da religiosidade -
catolicismo brasileiro), que procuravam abrir o espaço para os
brasileiros. O uso da força não é desmedido porque o governo
mantém importantes relações comerciais com a Alemanha, assim, a
questão política da nacionalidade é importante, mas as relações
econômicas também são e devem ser preservadas.
Contudo,
essas minorias precisavam ser eliminadas afinal, elas rompiam a
necessária homogeneidade da sociedade e produziam valores
que não necessariamente faziam parte do universo desejado pelos
grupos dominantes, provocando uma desconfortável ruptura nos padrões
que devem compor a sociedade. A reprodução e continuidade de um
tipo único de nacionalidade garantia a hegemonia social.
“Nacionalizar o país era unificar o que estava
decomposto(...)” era “(...)transformar
a nação em um todo orgânico, uma entidade moral, política e
econômica cujos fins se realizariam no Estado”.
Por
mais autoritários que tenham sido os métodos para a elaboração
destas novas relações entre Estado e sociedade, posteriormente,
com a constituição de 1946, para a sua continuidade, com a
implementação de medidas ainda autoritárias (a subordinação
pelo Estado das organizações classistas, o impedimento dos
analfabetos e dos segmentos hierarquicamente inferiores das forças
armadas ao voto), estavam dadas as condições da ocidentalização.
A manutenção da hegemonia
não poderia mais prescindir da conquista da sociedade
civil e do reconhecimento ativo desta ao grupo dominante.
Uma relação de poder muito mais difícil de ser mantida, pois
necessita de um investimento político/ideológico constante, mas
com maior possibilidade de sucesso, justamente pelo mesmo motivo.
O Estado age como educador:
“Missão
educativa e formativa do Estado, cujo fim é sempre criar novos e
mais elevados tipos de civilização, adequar a ‘civilização’
e a moralidade das mais amplas massas populares às necessidades
do desenvolvimento continuado do aparelho econômico de produção,
procurando elaborar também fisicamente novos tipos de
humanidade.”
A
curso dessa ação educativa deveria indicar a preparação da
sociedade para a sustentação do desenvolvimento econômico
vivenciado. O caminho que este desenvolvimento deveria seguir não
era unânime, afinal desde o início do século XX, a despeito das
metidas controladoras e excludentes daqueles que geriam o Estado,
a sociedade havia se diferenciado, e criado grupos que tinham
propostas próprias para a condução desse processo. Hélio
Jaguaribe escreveu um ensaio revelador em 1958,
período que ele caracterizava como uma “revolução
nacional”, pois toda a sociedade estava mobilizada para o
desenvolvimento nacional e o nacionalismo era palavra de ordem.
O
autor chamava atenção para a pluralidade do debate. Qual
desenvolvimento, qual nação e qual nacionalismo deveria ser
implementado? Não havia um discurso homogêneo e a identificação
dos seus conteúdos era difícil e complexa devido ao leque de opções
político-ideológicas que faziam uso corrente dessas idéias. Da
extrema direita à extrema esquerda, contraditoriamente, todos
tinham um projeto de desenvolvimento, de nação e sustentam-se no
nacionalismo.
Contudo,
Jaguaribe apontava dentro deste debate uma falsa oposição entre nacionalismo
e o entreguismo, que na verdade escondia a amplitude e
implicações das escolhas que deveriam ser feitas. Para
esclarecer essa falsa oposição o autor parte para uma análise
do processo de formação do nacionalismo (e por conseguinte dos
projetos de nação) no Brasil. Segundo ele, apenas no século XX
o Brasil tem uma configuração nacional, apesar de sua história
iniciar-se muito antes.
Como resultado, o nacionalismo entra em cena também neste
mesmo século, não como um movimento monolítico e uniforme, mas
com representações diferenciadas, fragmentadas e descontínuas
em várias “áreas” da realidade social: a cultural: o
movimento modernista e seus desdobramentos. A econômica: via
pregação do monopólio estatal. A política: a demanda por
democracia, o fortalecimento da União e do município. E a de
relações internacionais: com a busca de autonomia em relação
à guerra fria.
Assim,
o nacionalismo
se construía enquanto projeto político para a sociedade sofrendo
os efeitos de sua formação recente. Pois se caracterizava como
uma reação ao entreguismo histórico vivido pelo Brasil.
E o debate/embate entre nacionalistas e entreguistas então,
acontecia no bojo da formação/escolha do projeto de nação que
o país iria assumir. Logo, o discurso nacionalista hegemônico
seria o resultado desse enfrentamento. No entanto, o autor
esclarecia o quanto era reducionista essa análise, pois limitava
o nacionalismo
dentro de uma perspectiva que não o esclarecia, já que
polarizava o horizonte de forma tal que tudo que fugia ao senso
comum nacionalista era necessariamente entreguista.
A
proposta de Hélio Jaguaribe era diferenciar não o nacionalismo
do entreguismo, pois partia de uma perspectiva reducionista e
limitada. Mas identificar dentro dos nacionalismos
existentes naquele momento histórico os modelos calcados no
corporativo e no cosmopolitismo. O primeiro era sinônimo das
limitações que emperravam o crescimento nacional e o segundo era
a base para a sustentação de uma nação autônoma e integrante
de um mundo desenvolvido e moderno. A segunda vertente era a saída
mais apropriada para o Brasil, deveria, no entanto, ser trabalhada
adequadamente para sair da vala comum das ideologias e se “(...)
converter em projeto socialmente deliberado e controlado(...)”.
Dentro
da sociedade brasileira qual grupo teria condições de assumir
essa tarefa, sendo a vanguarda, a condutora e realizadora desse
projeto? A partir de meados da década de 1940 as classes
produtoras
se disponibilizam e se articulavam nessa direção, se
mobilizando, para o crescimento do Brasil. Os benefícios
auferidos por todo esse processo de engajamento não se limitavam
a uma classe social, mas ao país, ou melhor, a nação
brasileira que seria a grande favorecida.
Procuramos
interpretar a realidade brasileira e, com os nossos conhecimentos,
cooperar com o poder na busca das soluções que satisfaçam às
suas exigências, sempre objetivando amenizar os impactos no campo
político, social e econômico, a fim de preservar a estrutura
nacional de maiores estremecimentos.
(...)desejamos
que V. Ex.a. (o presidente Juscelino Kubitschek) faça os homens
das classes
produtoras
o seu exército de vanguarda na execução dos seus planos de
desenvolvimento e promova as necessárias modificações das leis
que nos impedem de lutar plenamente como soldados, na mais
grandiosa das batalhas - a batalha para dar ao povo melhores condições
de vida.
O
arrebatamento dessas citações em prol da nação brasileira, do
povo brasileiro é muito significativo. Demonstra o respeito que
esses dois elementos merecem por parte das classes produtoras,
que, como no discurso indica, é aquela que os protege, no caso do
povo, e os fecunda, no caso da nação. Por que ocorre esse fenômeno?
A
análise do discurso desses sujeitos políticos coletivos e a
reflexão teórica permite a compreensão da nação como um
processo dialético. Não há dúvidas de que a nação – como
aliás qualquer outro processo social – é um ‘constructo’,
obra produzida socialmente e, portanto historicamente localizável,
não se tratando, em absoluto, de um dado de ‘natureza’.
Não podemos tentar encaixar um modelo indiferenciado para
entender a experiência brasileira de formação da nação, até
porque ela não é uma “entidade” que existiu sempre.
Certamente,
ao analisar a “nação”
do projeto político das classes
produtoras vamos identificar algumas das características
que o Estado sustentava, mas neste primeiro momento podemos nos
fixar sobre um ponto relevante, que dá margem à algumas reflexões:
Como se estabelece a relação entre as frações que se
auto-intitulam classes
produtoras e o povo que o Estado reconhece, os
trabalhadores? As classes
produtoras também fazem parte do povo, pois trabalham,
mas a sua posição no mundo da produção é superior, na medida
em que são elas as responsáveis pela direção e organização
da produção. Essa função confere a essa classe
uma responsabilidade maior, ao dirigir e organizar a produção,
estão também dirigindo e organizando os trabalhadores. Partindo
dessa auto-imagem, as classes
produtoras se colocam ao lado do Estado, já que elas também
são responsáveis pelos trabalhadores. Essa
responsabilidade se desdobra em dominação? No mundo do trabalho
e produção a resposta é sim. Mas, não podemos dicotomizar as
relações econômicas das relações políticas, ideológicas,
simbólicas (etc...). Assim, essa dominação se estruturava de
que forma nessas outras relações?
Como isso era representado no discurso por elas elaborado?
Ao
longo da análise das fontes fui percebendo que esta caracterização
da própria imagem, classes
produtoras, estava estruturada numa estratégia de promoção/reconhecimento
interno e externo. O nome expressava a intenção de serem
reconhecidas, tanto pelos seus próprios membros quanto do
restante da sociedade, como a parte da sociedade brasileira
responsável pelo crescimento/desenvolvimento do país, num
discurso que deixava claro que eles eram os que tinham o mérito
de produzir, e gerar a riqueza da nação.
(...)
os “produtores”, aqueles que garantiam o funcionamento efetivo
do país, sendo responsáveis pelo crescimento econômico
nacional, logo sustentadores do bom andamento de governos e do
Estado, que tinham o papel de organizar e repassar para toda a
sociedade esse crescimento, e, sustentadores também, da outra
parcela da sociedade, os trabalhadores, que tinham sua função na
produção, subordinada aos “verdadeiros produtores”, os
detentores do capital.
A
expressão classes
produtoras é um dos eixos de estruturação do projeto
político que este grupo social pretendia para o Brasil. Por mais
que as associações e os eventos promovidos por estas declarassem
ter o objetivo primeiro de discutir sobre as questões da produção,
ou econômicas, eles acabavam interferindo e opinando sobre a política
local, nacional e internacional, principalmente no que se refere
ao governo federal.
Interferência justificável, pois como qualquer grupo integrante
da sociedade as classes produtoras deviam se
posicionar e agir sobre o mundo que ela fazia parte, assim seu
espaço social seria afirmado, evidenciado e, portanto, seus
interesses protegidos.
Por
força dos óbices oriundos do campo político, que dificultam ou
perturbam a vida das empresas, somos levados, nós classes
produtoras, a atuar também na espera política. Se essa atuação,
muitas vezes, é a conseqüência de uma imposição dos
acontecimentos, é ela, também, um direito nosso, pelo relevante
papel que desempenhamos na vida econômica do País, e pelas
amplas possibilidades que temos, como cidadãos, de influir na
decisão dos prélios políticos.
Sem
participar das lutas políticas deflagradas no País, temo-nos
empenhado num movimento de pacificação e desarmamento dos espíritos
com o elevado objetivo de proporcionar ao novo Governo um clima de
tranqüilidade que lhe permita dedicar-se à solução dos
intrincados problemas do setor econômico.
Projetando
sua atenção além das fronteiras de seu peculiar interesse como
classe, por isso mesmo que como cidadãos e como democratas se
comportaram, não poderiam os participantes deste conclave
limitar-se ao estudo de problemas econômicos. Temas políticos e
sociais têm hoje a primazia, não só porque desse campo fluem as
maiores dificuldades que a Nação defronta, como porque a condição
primeira para que se possa superar os óbices à normalidade monetária,
equilíbrio cambial, desenvolvimento econômico e conseqüente
elevação do nível de renda ‘per capta’, é contar o País
com um governo honesto, enérgico, justo, atuante e bem orientado,
ou seja, capaz de inspirar respeito ao povo e confiança às
demais nações. Por isso mesmo, ao debate de temas sociais e políticos
da atualidade, com primazia sobre os econômicos, dedicou-se esta
Reunião Plenária.
Um
procedimento de classe, mas justificado pelo bem comum que é a nação,
afinal não é conveniente o individualismo, numa sociedade
marcada muito recentemente pelo discurso cooperativista do Estado
Novo, os grupos sociais deviam interagir para a comunidade e não
voltados para questões particulares.
No
momento em que, num clima de profundas transformações mundiais
de ordem econômica, social e política, o Brasil se prepara para
reestruturar suas instituições de governo, entenderam a
Agricultura, a Indústria e o Comércio nacionais constituir seu
dever trazer a contribuição de sua experiência e do seu
patriotismo para que, nos rumos a serem traçados à vida do país
nos setores de suas atividades, sejam adotadas soluções que
atendam aos justos anseios e interesses da coletividade, da qual são
partes integrantes.
Aliando
uma retórica bem articulada aos interesses de classe se construía
uma proposta que não estava completamente fechada, mas com
sentido ideológico definido, para si e para a sociedade
brasileira.
Estamos
vivendo o momento histórico em que se encerra o ciclo das
transformações desencadeadas pela Revolução de 30 e um novo
ciclo deverá ter começo. Graças à perspectiva que nos oferece
o decurso do tempo, poderemos hoje interpretar o real sentido político-econômico
desse período que vem de 30 até nós, e do qual a personalidade
marcante foi, sem dúvida, o Presidente Vargas.
Antes
de 30, apresentava, ainda, a economia brasileira características
nitidamente coloniais e o nacionalismo de Vargas constituiu uma
reação no sentido da emancipação econômica brasileira. A reação
contra o colonialismo que caracterizou o período posterior a 30,
teve, é natural, a toda reação, os seus exageros, atingindo o
seu ponto culminante na solução estatista dada ao problema do
petróleo.
As
condições nacionais e internacionais, hoje, muito diversas das
reinantes em 1930, quando se iniciou essa revolução, exigem dos
responsáveis pela direção política de nosso país, uma revisão
dos valores ideológicos predominantes nessa época já
ultrapassada, a fim de que se tracem as diretrizes ditadas pelos
interesses e pelas necessidades gerais.
O
país conta agora, com poderoso parque industrial e um mercado
interno muito mais amplo, e não é mais tolerável esse apego aos
velhos chavões que, décadas atrás, constituíam uma atitude
revolucionária. As idéias que envelheceram pelo seu
desajustamento às realidades novas, penetraram, entretanto, nas
massas, em virtude do longo tempo de sua pregação e de sua prática,
tornando-se uma força sentimental e emocional, que o político
imediatista explora como alavanca eleitoral, sem a menor consideração
com os reais interesses do povo. Uma vez que seria penoso e
arriscado a inovação de métodos e normas que as novas circunstâncias
estão a indicar, os nossos dirigentes limitam-se à repetição
de fórmulas feitas. A continuidade desse anacronismo significa a
estagnação, e mais do que a estagnação a decadência da vida
econômica nacional.
O
Brasil não era mais um país preponderantemente agrário-exportador,
os setores secundário e terciário cresciam juntamente com a área
urbana do país, tornando-o outro, o que implicava em novas
posturas a serem adotadas, em novas frentes se firmar e garantir a
condução segura dessa mudança. Esses grupos se mostravam
conservadores, pois continuavam adotando as mesmas estratégias de
ação,
mas reconstruíram suas práticas, seu discurso,
metamorfoseando-se para garantir o status quo, assim, o
mundo novo não ficava fora do controle ou assustador.
Os
conservadores forjaram sua práxis política consciente como
resposta a um movimento que rompia com uma ordem existente e que
era dada como natural, assim durante muito tempo não havia motivo
para formulações ou proposições explicitas de um mundo
efetivo, a vida e todas as suas implicações aconteciam num ritmo
e dentro de padrões a muito assegurados. As transformações que
foram sendo formuladas dentro deste mundo, num movimento próprio
das sociedades humanas, produziram uma alternativa a ele e esta
teve que ser prontamente detida, num sentido de auto-preservação.
A materialização dessas transformações está dada na gênese
do capitalismo, que ao mesmo tempo em que é produto deste mundo
anterior impõe a sua derrubada ou reestruturação. As transformações
na vida material foram articuladas às transformações das relações
sócio-políticas e das práticas simbólicas, criando um conjunto
variado de elementos novos que foram lentamente produzindo uma
nova existência. Contudo, esse movimento lento e quase imperceptível,
por quem o viveu, passou a se processar mais rapidamente, até
pela “acumulação” de dados novos, desenvolvendo uma
velocidade maior na medida em que se processavam mudanças, até o
ponto em que a pressão imposta pelo novo rompeu definitivamente o
tecido cada vez mais gasto de uma existência anterior. Está
longe porém a fatalidade deste movimento, até porque o corpo
social que o realizou não necessariamente estavam compromissado
e/ou satisfeito com suas conseqüências e, quando estas começam
a se efetivar as resistências e oposições passam a ser
elaboradas formalmente. O conservadorismo como estrutura
consciente de pensamento segue essa lógica de formação, pois
ele é reação à transformação, uma reação bastante
peculiar, posto que se caracteriza pela apropriação de elementos
novos, mas dentro de uma perspectiva anterior. As transformações
são formadas por uma dialética de ruptura/continuidade, isto é,
o novo se faz no anterior, mas é novo, logo supera aquele que o
produziu; os conservadores se mobilizaram e se especializaram na
apropriação e/ou evidenciação da continuidade em detrimento da
mudança.
A
nação brasileira deveria, portanto, se moldar nos princípios da
ordem, sob a gerência segura daqueles que tinham condições
morais, históricas e práticas para sua implementação. A partir
da década de 1940 e até a década de 1960 as classes
produtoras vão se projetar como o grupo social perfeito
para cumprir essa necessidade.