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Por EVA PAULINO BUENO Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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O
teatro Takarazuka no contexto teatral japonês
Imagine
ir a um teatro em que todos os personagens – masculinos e
femininos – são interpretados por mulheres. Pareceria estranho?
Esdrúxulo? Esquisito? Ou brilhante?
Muitas
pessoas, infelizmente, achariam que isto é no mínimo irregular. No
entanto, no Japão, na cidadezinha de Takarazuka, na região do
Kansai, existe uma escola acoplada a um teatro que só tem mulheres
atrizes. É o famoso Takarazuka Revue, que tem peças
apresentadas todos os dias no teatro principal, além de troupes que
se apresentam em outras cidades do Japão e do mundo.
Tudo
começou em 1914, quando o empreendedor empresário Kobayashi Ichizo,
presidente da Hankyu Railways Corporation, teve a brilhante idéia
de capitalizar com o crescente interesse dos japoneses pelas idéias,
modas, estilos e arte dos países ocidentais. Ele também percebeu
que uma das maneiras de fazer com que o público utilizasse as
linhas de transporte da sua companhia de trens, a Hankyu Railways
Corporation, seria dar-lhes uma razão para tomar os trens. A
pequena cidade deTakarazuka, além de ficar mais ou menos entre
Osaka e Kobe, os dois maiores centros populacionais da região do
Kansai, também contava
na ocasião com várias fontes de águas quentes, coisa que sempre
atraiu os japoneses
aos seus “onsen”. Assim, ele criou a escola de teatro que só
treina mulheres, e só apresenta peças em que mulheres fazem todos
os papéis.
Mas
um teatro que só admite pessoas de um gênero, em si, não é
novidade alguma. A arte de interpretar personagens em um teatro foi
prerrogativa masculina por muitos séculos. No Japão, ainda hoje, o
tradicional teatro Noh – ou Nô – só tem atores, e o Bunraku,
teatro de bonecos, só tem manipuladores homens. O que faz da
Takarazuka Revue um teatro diferente é que nele, além do fato de
que só as mulheres aparecem no palco, ele é um desenvolvimento
cultural relativamente novo.
Isto
não quer dizer que as atrizes estejam num ambiente puramente
feminino, já que o Takarazuka Revue tem funcionários, costureiros,
e instrutores homens. Aliás, de acordo com muitas pessoas com quem
discuti este assunto quando estive no Japão, o Takarazuka Revue é
completamente dominado pela ideologia patriarcal. Para começo de
conversa, uma das exigências para as jovens que querem ser atrizes
do Takarazuka Revue é que elas sejam virgens durante o tempo em que
trabalhem com a companhia. Enquanto estiverem ali, de acordo com as
ordens (não sabemos até que ponto são cumpridas ao pé da letra),
as mulheres não têm relações sexuais, e nem romances.
Logicamente, não podem se casar.
Não podem ter filhos. O Revue se promove como “entretenimento
familiar”, e embora algumas das histórias do repertório
contenham cenas de amor, e inclusive beijos entre os personagens,
nenhuma cena de caráter abertamente sexual é mostrada no palco.
Para resolver este problema técnico, quando a história tem cenas
desta natureza, o palco fica na penumbra, e só se ouvem as vozes
das atrizes, descrevendo o que está supostamente acontecendo na
cena.
A
oportunidade para interpretações de androginia, de sexo entre
mulheres, são evidentemente muitas. Assim como são muitas também
as negações por parte das atrizes, muitas das quais insistem que
representar um homem não é ser homem. Eu acrescentaria que
representar uma mulher também não transforma ninguém em mulher.
*
A
companhia Takarazuka tem cinco troupes de 80 membros cada uma. Os
nomes das troupes são Hana (flor), Tsuki (Lua), Hoshi (Estrela),
Yuki (Neve), and Sora (Cosmos). Cada uma destas troupes tem uma
atriz principal que faz o papel masculino (otokoyaku), e outra que
faz o papel feminino (musumeyaku). As demais atrizes da troupe também
estão divididas de acordo com sua possibilidade de fazerem papéis
femininos ou masculinos.
E
qual é o sistema de aprendizado destas artistas?
Exatamente
como o aprendizado a que se submetem as gueixas, as integrantes do
Takarazuka também passam por uma rigorosa seleção, e um ainda
mais rigoroso treinamento. Depois do primeiro ano, as “calouras”
são designadas para um ou outro gênero, dependendo da sua altura,
porte, voz, maneira de andar. Os instrutores têm que ter a matéria
prima básica para trabalhar em moldar as atrizes em “homens” ou
“mulheres”.
O
papel de otokoyaku (masculino) em geral é o que atrai mais atenção,
e são estas as atrizes que recebem mais cartas das fãs (quase
todas são fãs mulheres). Para aprender a ser “homem”, a
aspirante passará por muitas classes estudando postura, voz,
trejeitos masculinos, enquanto que as candidatas a musumeyaku se
dedicam a aprenderem a ser “mulheres”. Não “mulheres”
genericamente, mas mulheres que se adaptam aos papéis que têm que
representar nas peças. Em geral, sao mulheres mais que mulheres,
quase uma caricatura de feminilidade.
Isto
é muito interessante se compararmos o teatro de Takarazuka com, por
exemplo, o teatro Noh, em que somente homens representam todos os
papéis. Noh, que vem sendo continuamente representado no Japão
desde o século XIV, na minha opinião é o teatro na sua forma mais
pura, em que a audiência tem que participar com 80% da imaginação
para completar a ação que se desenvolve num palco extremamente
simples e nunca mudado de uma peça a outra. O cenário consiste de
um corredor que leva ao “palco”. Ao fundo, há três árvores
tradicionais japonesas. E é só isto, para todas as peças. Em Noh,
os atores principais (shite) usam as máscaras de “mulher
jovem”, “homem velho”, “demônio”. Os outros personagens vêm
sem máscara, e o público contribui na caracterização ao
acreditar no que vêem descrito.
Na
minha experiência pessoal, adquirida ao assistir a duas peças de
teatro Noh, esta experiência artística é quase uma experiência
religiosa, além de cultural e lingüística. Não é por nada que o
Noh começou como peças de caráter religioso, que se destinavam a
ensinar aos membros da audiência algumas doutrinas e algumas
atitudes de caráter moral visando sustentar o status quo do poder e
da obediência cega dos vassalos. O Noh era também o teatro da
aristocracia, e tal continua sendo o caso hoje, quando a maioria dos
japoneses jamais assistiu uma peça, e a maioria realmente não
entende a língua, que é um japonês arcaico. De todas formas,
mesmo hoje, quando o teatro pode estar circundado por uma cidade
ultra-moderna, Noh exerce uma influência que separa os crentes dos
descrentes. Em outras palavras, ou você acredita, ou não acredita;
ou você entra no espírito da coisa e “vê” a realidade teatral
desenrolada diante de você, ou se isola do evento e fica se
concentrando em detalhes como o fato de que a suposta “mocinha”
da história é mais alta que todos os demais personagens, e que o
tempo que leva pra “mocinha” andar de um lugar ao outro no palco
seria quase suficiente pra se construir outra Babilônia, que a
maioria da audiência caiu em sono profundo antes do fim do primeiro
ato, que as suas pernas estão adormecidas por estar sentada nos
calcanhares more mais de duas horas, etc. Enfim, Noh é um exercício
de concentração, disciplina, e, muitas vezes, pedidos fervorosos
aos deuses que ajudem você a agüentar até o fim da performance.
Tais
perigos, ao que tudo indica, não afetam a audiência da Takarazuka.
As histórias são muito mais “modernas”, e contêm danças,
cantos, figurinos interessantes, tramas mirabolantes. De fato, foi
exatamente esta tentativa de promover um teatro mais “ocidental”
que moveu os primeiros anos da companhia. Os intelectuais japoneses,
daquele tempo e de agora, ainda não têm uma opinião unânime
sobre a Takarazuka, se é arte ou meramente kitch. É necessário
que se diga que os intelectuais japoneses também não estão de
acordo sobre o treatro Noh também. Alguns o consideram um
anacronismo inútil, já que a maioria absoluta dos próprios
japoneses que assistem estas peças nem sequer entendem o japonês
arcaico falado nas peças. Outros acham que o Noh representa um dos
últimos redutos de um “japonesismo” puro e fundamental. Outros
acham que, assim como os quimonos, a cerimônia do chá, a prática
da ikebana e uma vaga atração à figura dos samurais, Noh é um
reduto de um nacionalismo antiquado, reacionário, e até racista.
*
Um
domingo qualquer, durante os quatro anos em que passei no Japão,
fui jantar na casa de um colega da universidade, o qual mora na
cidade de Takarazuka. A esposa, muito elegante e gentil, recebeu a
todos os convidados usando um quimono lindíssimo, e o anfitrião
usava um terno também muito elegante. A comida foi maravilhosa,
servida em incontáveis pratos, com deliciosos molhos, nomes
diferentes, impronunciáveis. O casal tinha morado nos Estados
Unidos por uns cinco anos, e ambos tinham mantido uma essência que
só posso dizer que é japonesa: hospitalidade, elegância, fineza.
Ali
pelas tantas, os convidados começaram a falar do Takarazuka Revue,
que aliás não fica muito longe da casa dos nossos anfitriões.
Enquanto o marido e a esposa foram à cozinha buscar mais uns
quitutes, uma das convidadas, japonesa casada com um americano, e
muito religiosa (cristã), se pronunciou “horrorizada” com a
mera idéia do Takarazuka. Para aquela senhora aquele teatro era uma
coisa “suja”, “indecente”. Assim que os anfitriões voltaram
à mesa, nós perguntamos o que eles achavam do Revue. O dono da
casa, extremamente simpático e culto, riu, e disse que ele
pessoalmente só foi uma vez ver o teatro, mas que a sua esposa era
chegada nas peças. A senhora sorriu e confirmou. Quando perguntamos
porque ela gostava tanto do Takarazuka, ela explicou que gostava de
ver como mulheres podiam interpretar tantos tipos humanos. “Além
do mais”, ela continuou, “quando vou ver uma peça, tenho a
oportunidade de ver tantas outras mulheres japonesas juntas, todas
se divertindo com um passatempo inocente, sem se preocuparem com
nada da vida real”.
Talvez
ela tivesse razão. Num país em que as mulheres têm tantos
afazeres domésticos e vivem em função da família por tantos
anos, enquanto a maioria dos empregos fora de casa são ainda quase
que totalmente ocupados por homens, o Takarazuka Revue talvez
funcione como uma ilusão necessária. Talvez, tal como os
espectadores do Noh fazem com os atores homens, elas jamais esqueçam
que as pessoas que estão representando aqueles diversos papéis são
todas mulheres. Também funciona como uma projeção dos desejos que
todas elas têm, de um dia poderem todas participar em nível de
igualdade com os homens, de serem capazes de serem “homens”, ou
“mulheres”. Mas talvez, ainda mais interessante, seria se as
mulheres japonesas entendessem a questão do gênero num nível
muito mais sofisticado, ao reconhecerem que os papéis que nos são
dados representar na vida são mais uma questão de cultura do que
de biologia.
*
Não.
Não pude ir ver uma peça do Takarazuka. O mais próximo que
cheguei foi um domingo em que passei perto do Revue, por acaso, a
caminho da casa de uma colega aniversariante. Uma multidão de
meninas, mocinhas e mulheres adultas, e até algumas senhoras de
meia idade, gritavam alucinadamente um nome. De repente, da porta de
um carro saiu uma pessoa alta, magra, vestindo um terno azul escuro.
Ela jogou beijos para a multidão, deu autógrafos, posou para
fotos, e depois entrou no teatro, acompanhada de dois homens que
pareciam seus guarda-costas. Ou seriam duas outras atrizes menos
famosas que pareciam guarda-costas? Naqueles rápidos momentos, ela
parecia um ser de outro planeta, nem homem, nem mulher.
Transcendente. Talvez tenha sido isto o que atraía as fãs.
Eu
gostaria de ter assistido a peça em que a atriz participava. Mas os
bilhetes para o espetáculo, além de bem caros, tinham sido todos
vendidos. De uma outra vez, quem sabe?
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