Duas
armadilhas que ameaçam a esquerda brasileira
“O
direito à revolução é o único "direito histórico"
real, o único
sobre o qual repousam todos os Estados modernos sem exceção”[1]
Friedrich
Engels
O
marxismo interpreta os debates de tática política
caracterizando, em última análise, cada posição em função da
intensidade das pressões de classe. Há mais de cem anos que a
esquerda socialista conhece as conseqüências devastadoras da força
de cooptação dos regimes democrático-liberais. Primeiro a
social democracia, depois o eurocomunismo, depois os sandinistas e
petistas. Estas pressões nocivas se manifestam agora no Brasil, não
só na esquerda do PT - que foi o porta-voz da estratégia da
“democratização da democracia” nos últimos dez anos - mas
dentro até da oposição de esquerda que já rompeu com o governo
Lula.
Diante
da atual crise política, assistimos nos últimos dois meses ao
confronto de dois blocos burgueses. Não são socialmente homogêneos,
mas ambos são, politicamente, burgueses, pela suas alianças políticas
e pelos seus programas. Um articulado em torno do Governo
Lula/Palocci – PT e PCdoB à frente, aliados a Meirelles, Furlan,
e os partidos mercenários da base parlamentar, e tendo como satélites
a CUT e a UNE, e até a atual direção da FIESP – e outro
encabeçado pela oposição parlamentar, dirigida pelo PSDB e PFL,
com seus aliados, o PPS de Roberto Freire, o PDT de Jefferson
Perez, a Força Sindical, e até o PV de Gabeira. A pressão do
regime democrático – portanto, do eleitoralismo – tem sido tão
grande que, diante da crise política aberta há dois meses,
estamos vendo as forças que foram majoritárias na esquerda se
dividir, praticando o seguidismo aos dois blocos. A maioria da
esquerda se alinhou como um vagãozinho atrás da locomotiva do
Governo Lula, como ficou claro nas eleições internas do PT. A
esquerda, devastada pelos mais de trinta meses do Governo Lula,
tem demonstrado pouca capacidade de construir uma intervenção
expressando a independência de classe dos trabalhadores. Duas
armadilhas ameaçam, portanto, a esquerda brasileira: capitular ao
governo Lula ou capitular à oposição burguesa.
No
PT, do Campo Majoritário até a Articulação de Esquerda e DS,
passando pelo Movimento PT, todos saíram na defesa de Lula. Não
estão dispostos a defender a investigação até o fim, porque
temem, com razão que se revele até que ponto Lula estava
envolvido na “conjuração financeira” organizada por Delúbio.
Argumentar como fazem os líderes do PT e do PCdoB que a burguesia
se expressa somente pelo PSDB e PFL não é sério. Ninguém
ignora que a classe dominante brasileira não se expressa somente
através destes partidos. A democracia liberal é, entre outras
razões, um conforto para os capitalistas porque lhes permite,
também, uma expressão plural através de diferentes órgãos de
imprensa, e de variadas organizações patronais. A burguesia
brasileira conviveu - alegremente - com o Governo Lula nos últimos
dois anos e meio. E defende uma solução negociada – a pizza do
acordão que poupe Lula e Palocci – preocupada com que a crise não
contamine a economia, ou seja, que o mal estar difuso e o desprestígio
crescente tanto do governo quanto do Congresso não transborde em
ações de massas.
O
PCdoB aderiu a uma estratégia “autista” e abraçou a fantasia
do golpe. A construção imaginária de uma conspiração não
resistiu à visita de John Snow, representante de Bush que esteve
no Brasil há menos de um mês, e repetiu que o Governo Lula é
uma maravilha. Seria muito estranha uma cabala burguesa no Brasil
para derrubar um suposto governo popular, contrariando o Governo
Bush. Basta comparar a posição de Washington diante de Chávez,
para concluir que a posição do imperialismo americano não é
pela derrubada de Lula.
O
grande desafio da esquerda socialista é a construção de um
terceiro campo, de oposição de esquerda. Enquanto governo e
oposição de direita se engalfinham no Congresso, este terceiro
campo tem a vocação de acumular forças nas ruas. Até agora,
porém, todas as manifestações de rua, tanto a favor, quanto
contra o governo foram ações de vanguarda, ou seja, passeatas
que mobilizaram alguns milhares. Mas, comparativamente, as ações
de apoio ao Governo foram um fiasco. Pressionados pela convocação
do Conlutas de uma marcha para o dia 17 de agosto, as direções
da CUT e da UNE chamaram o dia 16 em Brasília, com a óbvia intenção
de medir forças, e não juntaram mais do que cinco mil.
Habituados a mentir e manipular, impunemente, não tiveram pudores
e anunciaram dezenas de milhares. No dia seguinte a Conlutas, com
o apoio do PSTU, PCB e PSOL reuniram um pouco mais do que o dobro,
e com uma força e moral, incomparavelmente, superior. Algumas
semanas depois foi a vez da Força Sindical - com o apoio de toda
a oposição burguesa - ir ás ruas, agora em São Paulo. Não
foram além de alguns poucos milhares, e ainda passaram a vergonha
de ser denunciados pelos próprios trabalhadores presentes, que
confessaram aos jornalistas que tinham sido levados das fábricas
pelos próprios patrões.
Que
a Força sindical e os partidos burgueses tenham sofrido um
insucesso na tentativa de manifestação de rua não parece uma
grande surpresa. Os seguidos malogros do PT e seus aliados em
realizar ações de apoio a Lula, contudo, não é um aspecto
menor da crise política, e merece ser destacado. O PT manteve
durante os últimos vinte anos um, digamos, “monopólio das
ruas” no Brasil. Depois das Diretas, em 1984, as maiores ações
de rua foram comandadas ou influenciadas, incontestavelmente, pelo
partido de Lula. Claro que a UNE esteve à frente das primeiras
manifestações do Fora Collor. Mas, sendo rigorosos, só o MST
conseguiu romper o cerco, em 1997, realizando uma ação de
vanguarda muito significativa – umas 50.000 pessoas – em apoio
à marcha nacional sobre Brasília quando do primeiro aniversário
do massacre de Eldorado dos Carajás. A crise do Governo Lula e do
PT são agora tão graves que, até mesmo em São Bernardo, a
manifestação de apoio a Lula abortou. Ninguém ignora que são
profissionais na organização de eventos e puseram o aparelho na
rua. Distribuíram centenas de milhares de panfletos, divulgaram
no Tribuna Metalúrgica – jornal diário dos metalúrgicos
durante uma semana – colocaram carros de som passando vários
dias seguidos, enfim, apostaram em uma demonstração de toda a
região do ABC, um grande ato de desagravo e, jogando em casa,
colheram um fracasso monumental: não eram mais do que mil
pessoas.
Um
dos elementos chaves da conjuntura que vivemos, portanto, é que
bases sociais de sustentação ao Governo Lula, mesmo nos “bastiões”
mais tradicionais, não param de diminuir. Nas grandes fábricas,
nas refinarias, nas universidades, entre a juventude e os
professores, enfim, nos setores em que esquerda conquistou maior
influência nos últimos vinte e cinco anos, o PT está
desmoronando. O PT tende a manter, porém, influência em
segmentos das camadas médias acomodadas, e entre as massas mais
miseráveis beneficiadas pelo programa Bolsa família. O
comparecimento de quase trezentos mil nas eleições internas de
setembro não contraria esta análise: predominou o voto de
cabresto e a manipulação do aparelho. No calor da maior crise de
sua história não houve qualquer debate, qualquer esforço – ao
que parece, infelizmente, nem mesmo das correntes de esquerda –
de construir um evento com um mínimo de dignidade, para quem se
reivindica da causa da igualdade e liberdade humana.
Entre
os que se opuseram ao curso do que foi o Governo Lula/Palocci,
surgiram propostas como a antecipação de eleições, Assembléia
Constituinte e a perspectiva de impeachment. Tentaremos demonstrar
que esta polêmica tática tem implicações estratégicas.
Democratizar a democracia?
Os
defensores da estratégia da "democratização da
democracia", título de um livro de referência organizado
pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, esgrimem três
argumentos principais. Diante da crise política brasileira de
2005, que colocou em cheque o governo Lula e o próprio Congresso
Nacional, dividem-se em várias propostas táticas com um
denominador comum, a procura de uma saída nos limites do regime
democrático. Afirmam, alguns, que não restaria aos socialistas
alternativa melhor diante da necessidade da investigação até o
fim, que considerar o impeachment pelo Congresso. Outros não
admitem a legitimidade do Congresso para julgar Lula, mas sugerem
a proposta de eleições antecipadas ou, pior ainda, de Assembléia
Constituinte. Elas corresponderiam à atual relação social e política
de forças, já que não se abriu ainda no Brasil, ao contrário
de outros países da América do Sul, uma situação revolucionária.
Seria necessária, nessas circunstâncias, uma palavra de ordem
plausível, viável, compreensível, ou seja, democrática. Democrática,
mas, acrescentam, radical.
É
verdade que não se abriu uma situação revolucionária no
Brasil, mas a bandeira de eleições antecipadas não irá
encurtar o caminho. Não é verdade que os socialistas têm que
levantar sempre uma palavra
de ordem de poder positiva em seu programa de agitação política
– poucas idéias para muitos - que corresponda à consciência média
dos trabalhadores. Na verdade, fora de uma situação revolucionária,
as palavras de ordem sobre a questão do poder são,
invariavelmente, negativas, ou seja, variações de: Contra, Nenhuma ilusão,
Basta, Abaixo. A arte da palavra de ordem – e a sorte da
campanha – dependem do grau de exasperação das massas, e do
maior ou menor tino dos marxistas. Pode-se pedir a queda de uma
parte do governo burguês de plantão, ou todo o governo. Pode-se
considerar que a palavra de ordem contra o governo deva ser mais
cuidadosa – Nenhuma
confiança ou Chega - ou mais incisiva – Fora
– porém, sempre pela negativa. Finalmente, estas palavras
de ordem podem ser para a agitação, para ampliar uma opinião
que já existe entre os trabalhadores, mas ainda não é majoritária,
ou para a ação, quando está aberta a possibilidade de derrubá-lo.
Mas, não houve experiência revolucionária que não confirmasse
que o processo de mobilização de massas se
inicia pela recusa da ordem política de dominação.
A
alternativa de poder pela positiva, quando em situações não
revolucionárias, é sempre propagandística – muitas idéias
para poucos – ou seja, uma explicação longa da necessidade dos
trabalhadores construírem através de seus instrumentos e
organismos de luta, uma saída anticapitalista. Por isso
defendemos um Governo socialista dos trabalhadores, e confessamos
que é ultra-propagandística. Só alguém que chegou ontem de
Marte ignora que não há hoje no Brasil organismos dos
trabalhadores que possam dar materialidade à fórmula, porque os
instrumentos de luta, CUT e UNE, foram destruídos pelo PT e pelo
PCdoB, que os amordaçaram, burocratizaram, e estatizaram. É
verdade que toda a esquerda russa, inclusive os bolcheviques,
defendia depois de fevereiro de 1917 a bandeira de Constituinte,
porque, afinal, as massas tinham deposto uma tirania secular, mas
não foi a bandeira de eleições que foi levantada para
desmascarar a impotência de Kerensky. Todos sabemos que foi Pão,
Paz e Terra, todo o poder aos sovietes. Não há nem segredo,
nem atalho: só em situações revolucionárias é que as
palavras de ordem de poder que chamam as organizações dos
trabalhadores a assumirem o governo podem ser abraçadas pelas
massas. Aliás, esta é uma das características chaves de uma
situação revolucionária.
É possível usar a bandeira
de eleições antecipadas contra o regime democrático?
O
segundo argumento apresentado para justificar a estratégia
democratista tem sido a defesa incondicional da palavra de ordem
de eleições antecipadas como bandeira democrática que adquire,
ou podem adquirir, um caráter transicional. O equívoco desta
formulação é o incondicional.
É muito diferente agitar Constituinte contra uma ditadura, e
levantar eleições antecipadas em um país que tem calendário
eleitoral regular há vinte anos. Na luta contra um regime tirânico
a bandeira de eleições pode adquirir um conteúdo revolucionário.
Não há “abre-te sésamo” em política marxista. Seria muito
mais simples se existissem fórmulas mágicas e universais, mas não
há. A revolução não vem com um manual de uso, com tudo
previsto e explicado. O papel de todas as palavras de ordem, à
exceção das diretamente anticapitalistas como expropriação, é
condicionado pelas circunstâncias concretas. A burguesia prevê,
manipula, age, se antecipa, elabora plano A e plano B. A tradição
marxista-revolucionária sempre defendeu a atualidade das
reivindicações democráticas - em especial nos países periféricos
onde a revolução por fazer será a simultaneidade de várias
revoluções - mas nunca confundiu reivindicações democráticas
com a defesa da reforma do regime democrático.
Os
defensores da bandeira das eleições antecipadas ou da Assembléia
Constituinte, no entanto, não aceitam os limites impostos pela
relação de forças que, já sabemos e estamos todos de acordo, não
é revolucionária. Acusam de ultimatismo aqueles que não estão
de acordo com a bandeira de eleições, seja para o parlamento, ou
para uma Constituinte. Argumentam que a tradição socialista
legitima o uso de palavras de ordem democráticas contra os
limites do regime democrático. É verdade que a tradição
socialista recomenda o uso de palavras de ordem democráticas, mas
para denunciar o regime, não para reformá-lo. Ou então se pensa
que o presidencialismo brasileiro não pode absorver as eleições
antecipadas. Desde quando a exigência de eleições antecipadas
– seja lá para o que for – poderia pôr em cheque o regime
democrático? Por quê precisaríamos acenar com eleições
antecipadas como saída para a crise, se essa bandeira não surgiu
em nenhum setor organizado das classes trabalhadoras, e não há
razão alguma para crer que o resultado eleitoral pudesse ser
favorável? Ou será que alguém acredita que as dimensões ainda
pequenas dos atos que vieram ocorrendo até agora se explicam
porque não foram convocados pedindo eleições
já? Quando e em que país aconteceu alguma experiência
revolucionária a partir da exigência de eleições antecipadas?
Nem a revolução mexicana que começou em 1910 contra o direito
de reeleição de Porfírio Diaz – que estava no poder desde
1876 – levantou a exigência de eleições.
O
argumento a favor das eleições antecipadas não desmoronou
ainda, somente porque nenhum setor burguês defende seriamente o
impedimento de Lula – à exceção de César Maia, mas de forma
exploratória e francamente minoritária – como ficou claro
depois da reunião dos partidos no final de agosto que fechou o
acordo em torno ao primeiro relatório da CPI e a lista dos 18
deputados que foi encaminhada para o Conselho de ética. O perigo
da bandeira de eleições antecipadas é que ao apresentar uma saída
democrática – uma saída sem uma delimitação de classe –
apresenta um programa que permite uma frente comum entre a oposição
de esquerda e a oposição de direita. Queremos lutar contra a
corrupção, entre outras razões, porque se não valorizarmos a
luta contra a corrupção, a
oposição burguesa não vacilará em tomar essa bandeira e
disputar as nossas bases sociais.
Lutamos
contra o governo Lula – agente escondido até o momento atrás
do PT – mas que foi quem instrumentalizou a compra dos partidos
mercenários. Uma política
marxista, porém, não pode aceitar uma frente com a oposição
burguesa contra o governo Lula. Qualquer unidade na ação com
PSDB, PFL, PPS, PV, PDT e seus aliados como a Força Sindical
seria um gravíssimo erro. Este critério não precisa ser uma lei
universal, e não é. Fizemos unidade na ação com setores
burgueses nas Diretas, e defendemos eleições imediatas para a
presidência, porque havia uma ditadura no país. Quando do Fora
Collor defendemos eleições gerais. Fizemos unidade na ação
contra Collor – Quércia subiu no palanque – porque a
perspectiva aberta pelo processo de luta que culminou com o Lula-lá
em 1989 estava aberta. A questão de quem dirige a mobilização não
é secundária, é essencial. Quércia não dirigia o Fora Collor.
Ao contrário das Diretas, a direção escapou de mãos burguesas.
A UNE encabeçou até o final de agosto de 1992 e, depois, em
setembro, quando as mobilizações rua deram um salto de qualidade
e deixaram de ser somente estudantis, Lula e o PT se readequaram e
dirigiram. A política unânime da burguesia, depois que ficou
insustentável manter Collor, era a posse de Itamar, e o PT
capitulou. No entanto, nesta crise, a esquerda socialista não
deve se aliar a nenhum dos dois campos em disputa. Combatemos os
dois, porque nem queremos a recuperação do governo, nem queremos
que seja derrubado pela oposição burguesa.
Os
socialistas reconhecem que no Brasil há uma revolução democrática
por fazer, porque há tarefas democráticas pendentes. Distingue,
todavia, aquelas palavras de ordem democráticas que podem ameaçar
o regime democrático daquelas que podem ajudar a fortalecê-lo.
É sabido que a luta por uma segunda independência pode assumir
um caráter transicional, ou seja anticapitalista, assim como a
luta pela reforma agrária. Pode, mas não há garantias fora do
processo real de mobilização do proletariado e seus aliados
sociais. Até estas palavras de ordem estarão condicionadas à
dinâmica de classe do processo de luta. O conteúdo social
anticapitalista dependerá da entrada em cena do movimento dos
trabalhadores de forma independente. Senão, nem isso.
Aceitamos,
portanto, que existem reivindicações democráticas progressivas.
Mas, de novo, eleições antecipadas? O que há de revolucionário
em defender eleições no Brasil, em 2005, vinte anos depois do
fim da ditadura? Já temos eleições de dois em dois anos e, se há
algo progressivo na atual crise, é justamente a conclusão que,
mesmo parcialmente, alguns milhões estão retirando da crise, e
se perguntando se é possível mudar o Brasil com um voto na urna.
Durante vinte e cinco anos os setores organizados esperaram o
Lula-lá. Depois de mais de trinta meses de governo, a paciência
começa a se esgotar. Milhões já perceberam que este governo é
reacionário, e se perguntam se, neste regime - com a necessidade
de campanhas eleitorais milionárias, alianças no congresso - não
seria inevitável o que aconteceu. Por quê o papel da oposição
de esquerda deveria ser o de diminuir estas conclusões, e propor
como saída, novas eleições?
Em
um regime democrático-liberal – presidencialista ou
parlamentar, ou os híbridos que combinam elementos de ambos – o
instrumento de antecipação eleitoral tem sido um clássico
recurso de estabilização de crises com a promessa da alternância
através do voto, destinado à preservação das instituições, e
aprisionando o mal-estar social nos limites do regime. Não
surpreende, portanto, que alguns na oposição burguesa, como o líder
do PSDB, tenham aproveitado a crise para defender o
parlamentarismo. A proposta de Constituinte é ainda mais
aventureira, porque transfere para o futuro Congresso poderes para
revisar a Constituição em vigor por maioria simples. Alguns
acreditam que o chamado à Constituinte, pelos poderes acrescidos
desta Assembléia em relação ao Congresso Nacional poderia
despertar um entusiasmo revolucionário entre as massas. Mas,
quais são as mínimas garantias de que a composição desta
Constituinte não seria igual ou ainda pior que o atual Congresso?
Por quê deveríamos diminuir o risco de uma revisão
constitucional reacionária? Esta não tem sido a orientação
estratégica fundamental da burguesia nos últimos quinze anos,
inconformada com os poucos direitos impostos pela pressão de
massas nos anos oitenta?
Não
é difícil demonstrar que a bandeira de eleições antecipadas não
está entre as palavras de ordem democráticas que debilitam o
regime democrático no Brasil, mas o fortalecem. Não faz sentido
atribuir à antecipação de eleições uma qualidade transicional,
se não é preciso refletir muito para concluir que, se viesse a
ocorrer, não há milagre capaz de impedir a reeleição da
maioria dos atuais deputados, se é que a composição do
Congresso não seria ainda pior. Ou alguém se ilude sobre a
possibilidade de Roberto Jefferson ser eleito deputado, e com uma
votação ainda maior? As eleições são o mecanismo que absorve
– dentro das fronteiras da democracia - a ruptura política com
o governo de plantão. Por quê lutar agora, se poderemos votar
daqui a alguns meses? Qual o sentido de mobilizações para
derrubar o governo, revolucionariamente, se podemos corrigir o
presidencialismo, e adotar o excelente recurso plástico do
parlamentarismo e convocar eleições? “Que o povo decida, mas
através do voto, dentro da lei e da ordem, reelegendo amanhã os
seus carrascos de ontem.” Evidentemente, o capital prefere que
os calendários eleitorais não sejam alterados e mantenham um
curso previsível. Não gostam de improvisações. Eleições têm
os seus inconvenientes, porque as pressões populistas - a
camuflagem demagógica necessária à hipnose eleitoral - exigem
mais gastos. No Brasil, aprendemos nos últimos vinte anos que os
anos ímpares, em que não há eleições, são os anos em que os
governos, nas diferentes esferas – municipal, estadual e federal
- fazem os ataques mais duros, para poder flexibilizar nos anos
pares. Não deve escapar à análise marxista, portanto, que uma
mudança no calendário com antecipação das eleições só poderá
acontecer sob a pressão de uma crise séria, ou seja, uma concessão
burguesa à preservação das ilusões populares na eficácia da
democracia. Mas, isso não significa que seja a nossa política.
Porque mesmo sob improvisação, a antecipação das eleições é
uma saída que permite a recuperação do regime democrático.