Teoria
da jabuticaba, I: prolegômenos
No
contexto da produção sociológica, categoria das obras “inúteis
e inacabáveis”, estou interessado em formular e propor
formalmente à comunidade acadêmica, uma “teoria da
jabuticaba”. Explico rapidamente do que se trata e volto
depois aos meus prolegômenos, já que esta teoria deveria
merecer, no Brasil, elaboração mais sofisticada, tendo em
vista sua relevância teórica na vida intelectual do país e
sua importância prática para a própria organização da
nacionalidade.
Teoria
da jabuticaba é tudo aquilo que só existe no Brasil, como essa
saborosa fruta selvagem da respeitada família das mirtáceas (myrciaria jaboticaba). Isso significa, para ser rápido, pertencer a
uma família de “explicações sociais” única e exclusiva
neste planeta Terra, situação inédita no plano universal, que
consiste em propor, defender e sustentar, contra qualquer outra
evidência lógica em sentido contrário, soluções, propostas,
medidas práticas, iniciativas teóricas ou mesmo teses (em
alguns casos, até antíteses) que só existem no Brasil e que só
aqui funcionam, como se o mundo tivesse mesmo de se curvar ante
nossas soluções inovadoras para velhos problemas humanos e
antigos dilemas sociais.
Como
já disse um ministro do ancien
régime, pensando nas propostas geniais que volta e meia
pipocavam com estridência nos meios da oposição (hoje situação),
“para cada problema complexo, existe uma solução simples, em
geral equivocada”. Pois a teoria da jabuticaba pertence,
justamente, a essa família das respostas rápidas a problemas
complicados que, aparentemente, se conformam ao chamado senso
comum, mas que no fundo derivam de concepções equivocadas
sobre a origem desses problemas e apontam para soluções mais
errôneas ainda. Nem por isso essas soluções “geniais”
deixam de ser apresentadas como a mais perfeita resposta “indígena”,
isto é autônoma, a problemas supostamente universais, enchendo
de justo orgulho seus formuladores e promotores.
Pois
bem, vejamos em primeiro lugar o estatuto do “fenômeno”
antes de entrar em seus fundamentos epistemológicos.
Infelizmente, se é verdade que ela existe, de fato, trata-se de
uma teoria extremamente rara et pour cause. Uma pesquisa rápida na Internet – via Google
“normal” – revelou a existência de apenas oito “reações”
a essa menção entre aspas, dentre cerca de 33
possibilidades virtuais, mas aparecem respostas repetidas,
como uma pesquisa mais acurada se encarregou de comprovar. De
fato, uma investigação mais focada nessa expressão – via
Google Scholar – deu zero resultado (“Your
search – “teoria da jabuticaba”
– did not match any
articles”), o que não deveria surpreender além da
conta. Afinal de contas, essa temática ainda não existe
enquanto objeto de preocupações acadêmicas e a teoria ainda
precisa ser construída (e testada).
Não
seja por isso: estou decidido a “desenterrá-la” enquanto
conceito respeitado e respeitável e mesmo a propor sua elevação
à categoria de recurso heurístico, para casos evidentemente
complicados, como ocorrem ser os problemas sociais do Brasil.
Aliás, dos oito retornos na pesquisa Google, dois se referem a
um texto anterior meu, sobre o “fim do desenvolvimento”
(artigo publicado na revista eletrônica Intellector,
disponível no link www.revistaintellector.cenegri.org/pauloralmeida.pdf,
ou então em meu próprio site:
www.pralmeida.org/05DocsPRA/1353FimDesenv.pdf),
no qual argumento que o Brasil já é, para todos os efeitos práticos,
um país desenvolvido, bastando agora melhorá-lo socialmente (não,
sinto muito, mas isto não é uma demonstração da referida
teoria).
Uma
pesquisa mais acurada sobre os fundamentos epistemológicos da
teoria da jabuticaba certamente revelaria seus traços
fundamentais, no contexto da formação social brasileira,
contribuindo, quiçá, ao desenho de uma proposta explicativa
abrangente – no sentido da Verstehen
weberiana –, podendo inclusive contribuir para o oferecimento
de algum “tipo-ideal” de explicação “jabuticabal”, em
perfeita sintonia com o que se espera de uma verdadeira teoria
do conhecimento. Antes que isso se faça, vejamos rapidamente
quais seriam os contornos conceituais da teoria da jabuticaba,
para oferecer em seguida alguns exemplos práticos de como ela
se apresenta no Brasil (e daqui para o mundo).
Essa
“teoria” – concedamos-lhe aspas, por enquanto, já que
alguns poderiam objetar ao seu estatuto “científico” – se
apresenta, antes de mais nada, como uma anomalia
lógica. Isto é: ela se refere a algum evento real, a algum
processo efetivamente existente, mas ela introduz uma
irregularidade ou anormalidade nesse processo, ao formular
proposições que são aparentemente factíveis ou até mesmo
necessárias, mas que contrariam profundamente a lógica formal,
quando não a trajetória normal daquele processo ou evento.
Nota de dicionário: segundo o Aurélio,
anomalia, em astronomia, se refere a “qualquer desigualdade
periódica na trajetória normal de um planeta”, o que me convém
inteiramente, sendo o planeta, no caso da “minha” teoria,
este nosso Brasil. A “teoria da jabuticaba” também
contraria a lógica, mas ela tem toda a aparência de algo
normal, de solução absolutamente adequada ao problema que
tenciona enfrentar.
A
“teoria” em questão constitui, em segundo lugar, uma contradição
nos termos, uma vez que ela consagra o próprio problema que
pretende resolver. Ou seja: o que ela proclama não é a solução
do problema, mas sua eternização ou perenidade, pois a solução
desse problema a inviabilizaria enquanto “teoria”, isto é
(ainda segundo o dicionário), um conjunto de princípios
fundamentais ou de proposições sobre um domínio qualquer de
conhecimento. Para que ela seja “teoria” e adquira com isso
a devida respeitabilidade é preciso que o aglomerado de
banalidades lógicas que ela pretende promover seja aceito
enquanto “solução genial” a angustiantes problemas da
nacionalidade.
A
“teoria”, finalmente, é absolutamente
indígena, autóctone, legitimamente nacional, como a própria
fruta que lhe dá o nome, constituindo mais uma dessas nossas
contribuições originais para o bem-estar da humanidade. Ela
pode, talvez, rivalizar com o “jeitinho”, a
“caipirinha”, a “broa de milho” (um ministro da cultura
chegou a propor sua universalização) e outras tantas invenções,
como por exemplo, no campo da ética política e da
contabilidade partidária, a normalização do “caixa 2” e
dos chamados “recursos não contabilizados”, que devem
deixar boquiabertos de admiração nossos vizinhos imediatos e
outros observadores estrangeiros.
Interrompo,
pelo momento (prometendo voltar em outra ocasião), esta
tentativa de sistematização de propostas sobre este campo novo
de conhecimento prático – mas que ainda requer, volto a
alertar, algum teste para sua validação empírica – para
propor um conjunto de exemplos, nos mais diversos campos da
inventividade nacional, destinados a ilustrar esta discussão
inicial sobre a “teoria da jabuticaba”, esperando receber
depois contribuições de gente mais sábia do que eu, ou de
simples curiosos na matéria, leitores eventuais desta digressão
utópica e interessados, como eu, em desvendar as razões do
sucesso da referida teoria neste nosso Brasil. Vejamos alguns
poucos casos nos quais se poderia aplicar a nova doutrina que
aqui vem proposta em caráter preliminar.
Bolsa
escola: Trata-se, obviamente, da genial solução encontrada
para “reter” as crianças nas escolas e “obrigá-las”
– aqui obviamente no sentido alegórico – a aprender alguma
coisa, contra a prestação regular, geralmente de caráter
mensal, de algum tipo de contribuição financeira, que se
dirige à mãe do aluno visado, como contrapartida para o esforço
de enviá-lo à escola, em lugar de ajudar no orçamento
familiar mediante algum tipo de trabalho informal ou de
simplesmente ficar na rua jogando bolinha de gude (não
considero alternativas mais enriquecedoras). Esse programa,
quando introduzido em caráter experimental, depois testado em
escala mais ampla no Distrito Federal, chegou a ser incorporado,
em escala modesta, pelo governo federal, tendo sido inclusive
oferecido, pelo seu principal propagandista, à comunidade
internacional, como se um “bolsa escola universal” fosse
algo de que devêssemos nos orgulhar e vangloriar.
Ele
é, no entanto, um perfeito exemplo da teoria da jabuticaba,
pois que incide sobre um problema real – a ausência dos
bancos escolares de crianças de famílias carentes – e propõe
a solução aparentemente lógica: pagar pela freqüência. Que
o programa seja apresentado como solução provisória,
emergencial e com um horizonte finito de aplicação (isto é,
tendencialmente dispensável) pode ser aceito por qualquer mente
aberta e propensa a aceitar second best solutions. Que ele seja considerado como a trouvaille
genial capaz de nos conceder um prêmio Nobel de economia (ou da
paz), sendo, como tal, digno de exportação, constitui,
precisamente, o paradigma acabado do que se requer como teste prático
da citada teoria.
Parece
evidente, com efeito, que em qualquer país normal o objetivo básico
a ser alcançado pela política macroeconômica seja uma dinâmica
econômica suscetível de fornecer emprego e renda em níveis
suficientes à maior parte dos cidadãos, que podem assim prover
às suas necessidades básicas, inclusive a manutenção dos
filhos nas escolas públicas com o adequado provimento de
material escolar. A anomalia é justamente esta: o bolsa escola
não é algo de que devemos nos orgulhar, mas a confissão
estarrecedora de nossas piores mazelas econômicas e sociais,
uma excrescência assistencial que transforma pais e mães em
dependentes crônicos da mesada dos filhos.
Tal
como concebido – e eventualmente desativado por não se sabe
qual razão imperiosa de racionalidade fiscal – o bolsa escola
tinha tudo para se perpetuar como programa de transferência de
renda por motivos aparentemente nobres e compreensíveis nas
condições brasileiras. Mas ele constitui a confissão de um
fracasso, não o retrato de um estado desejável de “inclusão
social”. O surpreendente, justamente, é que ele seja
apresentado, orgulhosamente, como programa exemplar. É tudo o
que se requer de um modelo acabado de “teoria da
jabuticaba”.
Bolsa
família: Trata-se de uma derivação ou substituição do
anterior, ou melhor, uma consolidação de diversos programas
sociais, tendente a conceder auxílio a famílias vivendo com
menos de meio salário mínimo. No Brasil se conseguiu tirar um
número da cartola – 11,5 milhões de famílias – e se
persegue ardorosamente o objetivo de incluir todas elas no
mensalão governamental. É um outro nobre objetivo, o de fazer
com que cada brasileiro tenha três refeições por dia, café,
almoço e janta, nessa ordem e com essa simplicidade cartesiana.
Não se cogitou de investimentos em infra-estrutura e educação,
não se cogitou de promover o emprego e a formação técnico-profissional,
ainda que esses objetivos figurem entre os elementos declarados
do programa. O elemento novo em relação ao programa anterior
é, justamente, essa vontade deliberada de incluir o maior número
possível de brasileiros “assistíveis”, não o de tornar
“desassistíveis” o maior número de pessoas por via de
capacitação profissional e inclusão no mercado de trabalho,
que não comparece em absoluto, tendo sido substituído pelo símbolo
mágico do “cartão magnético”. Ao contrário: o mercado
foi declarado incapaz de resolver os problemas sociais do
Brasil, uma curiosa excepcionalidade em dez mil anos de história
civilizada.
A
“teoria da jabuticaba” entra, precisamente, por esse viés
assistencialista que o programa inevitavelmente carrega consigo,
como se o objetivo maior das três refeições diárias tivesse
necessariamente de passar pelas mãos do governo, no caso o
brasileiro. Ao proclamar que o combate à fome é um “objetivo
estratégico” do país, as autoridades responsáveis não se dão
conta de que, ao fazê-lo, eles estão na verdade confirmando o
fracasso do Brasil enquanto sociedade e enquanto nação, pois a
alimentação diária é algo tão básico e elementar que
sequer mereceria figurar entre os “objetivos estratégicos”
de qualquer nação, só ocorrendo neste país por uma dessas
manifestações recorrentes da “teoria da jabuticaba”. Não
estou obviamente considerando aqui aspectos políticos ou
diretamente eleitorais do programa em apreço, mas apenas sua
“lógica jabuticabal”.
Reserva
de mercado para jornalistas: Não é só uma excrescência,
é uma perfeita aberração, em tudo e por tudo contrária ao
bom senso, à lógica econômica, à boa gestão das empresas de
mídia e às necessidades dos leitores e consumidores de informações
jornalísticas. Infelizmente, escrevo esta rubrica da “teoria
da jabuticaba” – tendo já uma antiga birra contra a
obrigatoriedade de diploma de jornalista para trabalho em jornal
– no exato momento em que uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (Brasília) cassou uma decisão
que declarava inconstitucional uma decisão de primeira instância,
que se opunha à obrigatoriedade do diploma de jornalista. Não
conheço outro país que imponha essa condição para o exercício
da profissão, que deveria estar ao alcance de qualquer
profissional, com ou sem diploma, medianamente instruído nas
artes da língua e disposto a se aperfeiçoar na prática diária,
não nos bancos das faculdades de jornalismo, que são uma outra
faceta dessa guilda de defensores do mercado fechado que é
formada pelos sindicatos de jornalistas. Essa exigência absurda
preenche todos os requisitos para se qualificar de pleno direito
como membro distinguido da família da “jabuticaba”.
Muitos
outros exemplos poderiam ser arrolados em apoio desta minha
construção tentativa de uma teoria da jabuticaba – e estou
aguardando contribuições voluntárias de leitores atentos –
mas esses poucos bastam para chamar a atenção sobre como é
rica e variada a nossa galeria de modelos ideais da referida
teoria. Seria preciso, a partir de agora, continuar a obra de
formalização conceitual da teoria em questão, propor alguma
estrutura explicativa convincente sobre as razões de porque ela
encontrou um terreno particularmente fértil no Brasil –
certamente que outros países terão suas particularidades e
bizarrices nacionais, sendo os Estados Unidos um grande
candidato a galardão nessa área – e prosseguir a obra de
compilação de exemplos patentes e reconhecidos da referida
teoria (com vários outros incógnitos e não sabidos). Estou
seguro de que a teoria se sustenta totalmente com base na vasta
experiência nacional em matéria de bizarrices econômicas e de
surrealismos jurídicos. As bases estão lançadas: falta agora
completar a cartografia do modelo. Mãos à obra!