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Por MARIA JOSÉ DE REZENDE
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Por
que políticos como Severino Cavalcanti são desastrosos para o país?
Entre
conchavos, acordos, ameaças, mentiras, chantagens, quebra de
decoro, negociatas, xingamentos, medos, iras e irresponsabilidades
de todos os matizes e naturezas, assistiu-se, no dia 30 de agosto de
2005, a um fato que merece destaque, ou seja, a determinação e a
coragem de um parlamentar que, no plenário, ousou dizer claramente
o que significava o fato de o país ter (naquele momento)
como presidente da Câmara dos deputados um político oligarca como
Severino Cavalcanti. Enquanto muitos políticos – os quais
carregavam, em tempos anteriores, a bandeira da ética e se
vangloriavam de pertencer a uma esquerda que mudaria a face do país
– sentiam-se absolutamente favorecidos e confortáveis com a, até
então, presença, no comando da Câmara, de alguém empenhado em
abafar todos os crimes cometidos contra as instituições democráticas
e o Estado de Direito, irrompe a intervenção de um deputado que não
se mostrava interessado em contemporizar com a trágica atuação de
Severino Cavalcanti (PP-Pe) no comando da Câmara. Atuação essa
que durou sete meses e foi interrompida com a renúncia no dia 21 de
setembro de 2005.
Fernando
Gabeira (PV-RJ) falando diretamente ao ex-presidente daquela casa
legislativa apostrofou-o com as palavras: “Sua presença na presidência
da Câmara é um desastre para o Brasil. Eu, se pudesse, o levava ao
Conselho de Ética da Câmara. Ou V. Excelência começa a ficar
calado ou vamos iniciar um movimento para derrubá-lo” (GABEIRA,
2005, p. 6).
Cabe
perguntar: por que a mera presença de Severino Cavalcanti como
presidente da Câmara representava uma tragédia para o país? Todos
que conhecem os efeitos perversos do processo de oligarquização do
poder, que tem persistido no Brasil ao longo de séculos, sabem o
significado da fala do deputado Gabeira que ousou trazer a público
uma questão que tem vindo à tona nesse momento com muita força,
mas que tem atravessado, firmemente as duas décadas de
redemocratização do país: a resistência à mudança por parte de
inúmeros políticos, independentemente, de possuírem ou não
coloração de esquerda, de direita ou de centro.
Políticos
como Severino Cavalcanti e seus asseclas, apoiadores diretos ou
indiretos – considerando-se apoiadores indiretos todos aqueles que
tentavam beneficiar-se do modo como o ex-presidente da Câmara
conduzia e administrava, através do retardamento, da desqualificação
das constatações das CPIs e do engavetamento, os processos de
cassação – têm sido impossibilitadores da formação, no país,
de uma vida política democrática, já que eles destroem a crença
dos indivíduos numa atuação política capaz de levar à modernização
institucional. De fato, a presença de Severino Cavalcanti em tão
importante cargo político foi um desastre porque varreu, durante os
meses que durou o seu mandato, do horizonte as possibilidades de
vencer as poderosíssimas “força(s) de resistência à mudança”
(FURTADO, 1997, p. 288), que se perpetuam no país ao longo de décadas
e impedem a renovação da prática política.
A
entrevista de Severino Cavalcanti publicada no dia 30 de agosto de
2005, no jornal Folha de S. Paulo, revela a densidade dos
bloqueios antidemocráticos que estão cristalizados no modo de agir
e de pensar de uma parte dos políticos no Brasil. Ao descrever as ações
criminosas de muitos deputados como males menores que merecem, no máximo,
algum tipo de advertência, (quem sabe ele estaria pensando numa
cartinha de repreensão que alertasse os deputados a terem mais
cuidado com os seus atos ilícitos para não serem pegos), o
ex-presidente da Câmara deixou claro que não considera problemáticas
as ações políticas que têm dificultado, cotidianamente, o
florescimento de práticas voltadas aos interesses coletivos, aos
interesses democráticos da nação. Quando indagado por um repórter
se não havia uma espécie de desconforto, de sua parte, ao presidir
a Câmara numa conjuntura em que o seu próprio partido tem membros
denunciados como recebedores de dinheiro irregular, Cavalcanti
justificava da seguinte forma o episódio: “O dinheiro que eles
receberam, segundo informações que eles me deram há pouco tempo,
foi para pagar serviços profissionais de um ou dois advogados dos
processos que existem contra o deputado Ronivon Santiago, do Acre. O
dinheiro entrou foi para pagar os processos juntamente (sic) a esses
advogados” (CAVALCANTI, 2005, p.6).
Além
de vir a público para justificar enormes quantias de dinheiro
recebidas por diversos deputados, segundo têm exposto as Comissões
Parlamentares de Inquéritos, o ex-presidente da Câmara procurou
também em sua entrevista desmoralizar inteiramente a política e a
própria sociedade. Ele disse com todas as letras que essa última não
se importa com falta de decoro, com corrupção e/ou com toda e
qualquer bandalheira cometida pelos parlamentares. Aliás, no seu
entender, quanto mais indecente for a prática do político, mais a
sociedade o elege e o perpetua nos cargos públicos. Ao ser indagado
pelo repórter se, a seu ver, a sociedade aceitaria o abrandamento
das punições aos deputados envolvidos com corrupção, Severino
Cavalcanti respondeu: “Isso é outra coisa. Hugo Borghi
(ex-deputado federal) fez as maiores falcatruas com algodão no
tempo do Getúlio Vargas. Foi para as urnas e teve uma votação
surpreendente. A sociedade é a mesma” (CAVALCANTI, 2005, p. 6).
Essa
fala de Severino Cavalcanti é uma prova irrefutável de que uma
parte dos dirigentes age visando sedimentar os alicerces de um modo
de governar, voltado, irremediavelmente, para a perpetuação de
retardamentos políticos. A tentativa de co-responsabilizar a
sociedade pelos crimes cometidos por deputados é uma forma de
naturalizar a corrupção política e a corrupção material. Ele
disse que a sociedade é corrupta e, portanto, ela não deseja nada
diferente do que aí está. Manoel Bomfim (intelectual e deputado
federal na primeira década do século XX) fez uma das discussões
mais importantes do pensamento social brasileiro para refutar
inteiramente esse tipo de argumento dos dirigentes. No livro O
Brasil nação, de 1931, ele pesquisou as ações políticas dos
dirigentes ao longo de, aproximadamente, cem anos. Nessa obra ele
demonstra que os bloqueios sociopolíticos têm sido gerados e têm
obtido substancialidades em razão de um modo de agir, não da
sociedade como um todo, mas sim dos seus setores dirigentes. Ele
afirmava: “Aprendi, então, como os nossos dirigentes são
incapazes de compreender e realizar a democracia, como temem a
liberdade, que nunca conheceram; aprendi como se mostra a degradação
de uma classe por definição de escol; como se organiza o Estado
para a exclusiva injustiça, até a torpeza e o roubo; como é
preciso não ser honesto, nem sincero, nem apto. Vi como evolui a
corrupção, como se consagra a infâmia e a ignorância” (BOMFIM,
1931, p. 10).
E
de que modo ganhava terreno a infâmia, a torpeza e a corrupção?
Através da prevalência de um jogo político estabelecido entre os
setores dirigentes que definiam as mais abomináveis estratégias
para inibir toda e qualquer mudança política substancial. Severino
Cavalcanti em sua entrevista deixa claro que não deseja qualquer
mudança. Para ele e para muitos outros componentes do legislativo,
as coisas estão muito bem como estão. Por que lutar contra a
torpeza se a sociedade também é torpe? É um exercício de
generalizar à sociedade como um todo um comportamento de uma parte
dos políticos brasileiros. Vindo de um político que ocupava um
cargo qual o que ele ocupou, esse tipo de argumento é, no mínimo,
um desserviço à nação, já que naturaliza os atos ilícitos e
potencializa a descrença nas instituições democráticas. Manoel
Bomfim procurou identificar, ao longo do século XIX, quem eram os
carrascos da democracia naquele momento,
hoje pode-se dizer que Severino Cavalcanti e todos aqueles partidos
(PFL, PSDB, PMDB, PP, entre outros) que o elegeu para ocupar tal
cargo na Câmara e também aqueles que se beneficiam de suas operações
voltadas a não levar adiante os processos de cassação (PP, PTB,
PT, PL, PMDB, PFL),
são também carrascos da democracia.
Isso
já seria motivo mais do que suficiente para entender por que o
deputado Fernando Gabeira afirmou que a presença de Severino
Cavalcanti na presidência da Câmara era um desastre. Para a
democracia brasileira foi mais do que um desastre, foi uma
hecatombe, uma tragédia incalculável, uma vez que se tentou
institucionalizar oportunismos através de práticas políticas
voltadas para interesses pessoais e corporativos nem um pouco
comprometidos com quaisquer valores republicanos e democráticos.
A
entrevista de Severino Cavalcanti revelou que ainda estão presentes
na política brasileira, como uma marca indelével, o servilismo, a
condescendência, a abjuração e o oportunismo. Para viabilizar-se
no poder, ele não via qualquer problema em estabelecer práticas,
acertos e acordos que degradam a vida política brasileira. O
rebaixamento da atividade política ganhou um notório defensor que
afirmava que práticas de corrupção política e material poderiam
ser punidas com uma simples censura. Todavia, não se pode deixar de
assinalar que uma parte expressiva da bancada do PT (até dias atrás
supostamente preocupada com a ética e com a decência na política)
não veio, ao longo de sete meses,
a público discordar do modo de agir de Severino Cavalcanti.
Calam-se, salvo raríssimas exceções, diante de um processo que
arrasa as possibilidades de firmação dos valores democráticos e
do Estado de direito. E o faz também por servilismo, condescendência
e oportunismo.
Severino
Cavalcanti sugeria um modo de agir para a Câmara dos deputados que
interessava sobremaneira a alguns políticos do PT envolvidos nas
denúncias. Isso ajuda a desmoralizar e a degradar a vida pública
porque cristaliza nos indivíduos e nas instituições vícios que
impedem o desenvolvimento de capacidades democráticas, já que
eterniza tanto a desvalorização dos interesses coletivos quanto a
corrupção política que é a fonte da corrupção material. A
servidão política expressa nas negociatas, nos acordos e nas omissões
parece, hoje, cuidadosamente cultivada por parte expressiva dos
dirigentes. Não interessa punir, investigar. Interessa encobrir,
mentir, mascarar, negar.
Os
acontecimentos recentes somados à entrevista de Severino Cavalcanti
evidenciam que Manoel Bomfim tinha razão quando afirmava que não
é suficiente dizer que o servilismo, a corrupção política, a
corrupção material, o personalismo, o oportunismo, a abjuração,
a condescendência, o clientelismo resultam inteiramente de uma dada
cultura política. Tais características resultam, antes de mais
nada, de um modo de governar que alimenta ano após ano, década
após década, procedimentos
que não possibilitam que outras atuações políticas floresçam e
dêem frutos.
O
modo de agir da maioria dos políticos brasileiros alimenta tragédias
como foi a presença de Severino Cavalcanti na presidência da Câmara
durante sete meses. Não se deve esquecer que este político chegou
a tal cargo na mesa diretora da Câmara pelas mãos tanto de políticos
e de partidos reconhecidamente fisiológicos, oportunistas,
condescendentes e personalistas quanto de políticos e de partidos
que se definem como combatentes desses arcaísmos políticos
reinantes no cenário nacional. Não é por um acaso, mas em vista
de uma dada configuração política, que o PFL e o PSDB foram os
grandes responsáveis pela eleição de Severino Cavalcanti. Eles
ajudaram a compor o quadro de aprofundamento das dificuldades democráticas
que se abateram sobre o país nos últimos tempos.
A
renúncia, do mandato de deputado federal e do cargo de presidência
da câmara, de Severino Cavalcanti no dia 21 de setembro de 2005 foi
a fórmula encontrada por ele para evitar uma cassação que iria
implicar na suspensão de seus direitos políticos por vários anos.
Ele afirmou que nas próximas eleições pretende retornar aquela
casa legislativa. Aliás, em seu discurso de renúncia ele disse que
certamente voltará.
Ele parece não ter qualquer dúvida quanto a essa possibilidade de
retorno.
Se isso, de fato, ocorrer, ficará claro que por muitos anos ainda,
a política brasileira estará repleta de políticos com as características
de Severino.
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