RESENHA:
Maria
Aparecida Abreu. Hannah Arendt e os limites do Novo.
Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004 (168p.)
Maria
Abreu apresenta uma reflexão inovadora e ousada sobre um tema
central da teoria política de Hannah Arendt (1906-1975), a saber,
o da ação. O livro recém lançado que resultou da dissertação
de mestrado defendida no Departamento de Ciência Política da
USP, explora e define com clareza conceitos centrais da teoria política
arendtiana. Abreu define e sistematiza nos cinco capítulos
conceitos como poder, autoridade, pluralidade, labor, trabalho,
permitindo ao leitor uma clara apreensão da relação destes
conceitos no interior da obra de Hannah Arendt.
Sua
análise, que está centrada no modelo de ação arendtiana, tem
por objetivo, ao mesmo tempo em que caracteriza e localiza o lugar
da ação, evidenciar os seus limites no que tange a emergência
da “criatividade institucional”, visto que Arendt não deixa
claro quais os passos a serem dados para a estruturação de um
Estado que vá além da sua fundação originária. Nesse sentido,
o livro começa identificando que a ação está inserida dentro
do conjunto de atividades que se divide entre Vita Activa e Vita
Contemplativa. Apresenta-nos que a ação é uma atividade que não
tem finalidade, não tem um fim pré-determinado, possui apenas
como sentido a liberdade dos que agem. A ação, que é imprevisível
e espontânea, possui efetivação no espaço público e este é,
ao mesmo tempo, o resultado da ação. Para que a ação se
concretize, todavia, é necessária a comunicação entre os
agentes, seres diferentes, singulares, cuja condição é a
pluralidade. A ação política, em suma, expressa a forma pela
qual o ser humano manifesta a sua capacidade para originar algo. O
produto da ação dos homens em concerto é o poder, cujo locus
é o espaço público.
Identifico
como o ponto original e instigante da análise de Abreu a discussão
que a autora empreende sobre dois aspectos da teoria de Hannah
Arendt, aspectos esses que oferecem as bases para explorar os
limites do novo: “a política sem conflito” e a “política
sem interesse”. Em sua análise, Abreu mostra que a pluralidade
– condição humana da ação – é associada simultaneamente
à igualdade e à diferença, mas esta não abarca as gradações
da diferença entre os seres humanos. Isto é, os agentes são
plurais porque são humanos, independentemente do conteúdo de sua
ação ou de seu discurso. Então, os agentes se comunicam para se
revelarem por meio de discursos e opiniões diferentes, não
importando o quanto são diferentes os conteúdos dos discursos e
da própria ação. Sendo assim, somente a pluralidade dos
agentes, sem relação com “referências objetivas”, é que dá
sentido à comunicação; é para revelar suas singularidades que
os homens se comunicam, revelando quem são.
A pluralidade de que fala Arendt é a de seres humanos que
se revelam no espaço político para mostrarem suas
singularidades, mas esta revelação não é determinada ou
motivada pelas referências objetivas. As referências objetivas
assumem lugar secundário na teoria de Arendt, o que resulta na idéia
de que oposição entre os discursos é irrelevante para a filósofa
alemã. Abreu demonstra, assim, que
na equalização dos discursos acontece a equalização da
diferença dos sujeitos, e a conseqüente isenção da
esfera política de referências objetiva, que acaba por deslocar
as questões conflituosas para a esfera do social.
A
autora ainda revela que o modelo de política de Arendt dissolve a
conflituosidade inerente ao político, em favor de um espaço público
no qual seja preservada a diversidade dos discursos e a
possibilidade da ação desinteressada, isto é, sem finalidades,
na qual o ator não tem em mente qualquer fim específico. Os
conflitos significam uma ameaça à ação, pois pode torná-la
instrumental e podem banalizar o discurso.
Com
base nesses dados, Abreu revela que ao transferir o conflito para
esfera do social, Arendt estabelece uma distinção radical entre
a esfera social e a esfera política, apontando que na teoria da
autora alemã o “conteúdo” da ação é um assunto que
corresponde à esfera do social, o que significa dizer, a esfera
dos assuntos econômicos. É justamente nesta altura que Abreu
demonstra seu desacordo com relação à teoria de Arendt, pois no
seu entender a separação entre as esferas do social e do político
enfraquece a noção de justiça no âmbito da política. A justiça,
em Arendt, está associada ao resultado de um julgamento que
observa ou não as instituições jurídicas, portanto, a noção
de justiça não está ligada à noção distributiva de justiça,
pois a distribuição de bens pertenceria à esfera econômica e não
à esfera política. Sendo assim, a miséria, por exemplo, não
seria objeto da política.
Nesse
sentido, os atores arendtianos, ao entrarem no espaço político,
devem estar destituídos de seus interesses, tendo em vista apenas
a liberdade como interesse comum. A autora conclui, portanto, que
ao afastar da política o conflito, o interesse e a vontade,
Hannah Arendt enfraquece a noção de justiça e a noção de lei,
sendo isso contraditório numa teoria que objetiva abarcar a República,
cuja forma de governo pressupõe instituições bem estruturadas.
Abreu mostra ainda que com a separação entre o social e o político
Arendt prescindiu de uma noção de justiça, enfraquecendo o
papel das leis, cuja legitimidade e força são baseadas no pacto
fundador do corpo político em que são formadas. Embora a fundação
de um corpo político seja um exemplo da criação do novo, seu
papel na teoria de Arendt é o de estabilizar o mundo e não o de
transformá-lo. Dessa maneira, as instituições devem apenas
limitar e não guiar a ação; elas mais parecem uma referência
de estabilidade situada no passado do que qualquer perspectiva de
criatividade política para o futuro.Sendo assim, o novo estaria
sempre limitado pelas referências do passado.
Para
enfrentar esta questão, a autora realiza uma análise eficiente
da obra de Hannah Arendt, proporcionando ao leitor uma panorâmica
da problemática da possibilidade do novo. Nessa perspectiva, ela
contempla em seu estudo as semelhanças e os distanciamentos teóricos
entre Arendt e autores como Maquiavel e Rousseau, ao mesmo tempo
em que dá um tratamento esclarecedor para a relação existente
entre a noção do julgar de Hannah Arendt e a crítica da
faculdade do juízo de Kant, lançando luzes ao juízo estético
kantiano como fonte para o julgar arendtiano.
Considerando
que no atual contexto brasileiro a obra de Hannah Arendt tem
recebido ampla divulgação nas várias áreas das Ciências
Humanas, por meio de teses, artigos, livros, e muitas vezes sua
teoria política tem sido abraçada acriticamente, o trabalho de
Abreu representa uma excelente oportunidade para todos aqueles que
de modo geral duvidam de tudo o que aparece como apanágio para
todo e qualquer mal. Seu livro, sem dúvida, representa um esforço
minucioso e bem articulado, com fundamentação suficientemente
elucidativas para demonstrar que a teoria da ação de Arendt
esbarra em limites concretos impostos pela sociedade democrática
contemporânea, que anseia por instituições capazes de
referenciar as relações entre grupos de interesses divergentes.
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HANNAH
ARENDT E OS LIMITES DO NOVO
Maria Aparecida Abreu
Coleção Invenção & Crítica
Coordenada
por Gabriel Cohn
O livro
O
pensamento de Hannah Arendt inquietou e inquieta, ao
conjugar de forma original e contundente política e
poesia. De fato, a ousadia de seu trabalho consiste na adoção
de uma perspectiva ímpar do humano na esfera social e política,
demarcando os papéis de ator e contemplador que este
humano assume na vida privada e coletiva, estabelecendo
assim os limites da ação e as bases da liberdade no
processo democrático.
Maria
Aparecida Abreu adentra-se de forma sagaz nesse
pensamento, para esquadrinhar, num ensaio de grande beleza
estilística, os fundamentos filosóficos que Arendt
utiliza para articular sua perspectiva do fenômeno político.
Assim, HANNAH ARENDT E OS LIMITES DO NOVO aponta os
modelos de atuação do homem dentro e fora das instituições
públicas, pensando, a partir daí, como se configuram a
pluralidade, o conflito, a justiça, a vontade, a
autoridade e a liberdade.
Terceiro
volume da Coleção
Invenção & Crítica, o livro reafirma as
posturas ideológicas de Hannah Arendt, permitindo afinar
o entendimento do leitor contemporâneo sobre o juízo
apressado que muitos críticos tiveram de seus textos, ao
apontarem o teor aristocrático e desinteressado de sua
teoria política.
Colocando
no eixo da cena o diálogo que Hannah Arednt trava com a
filosofia de Rousseau e Machiavel, Maria Aparecida Abreu
recupera de forma brilhante o conceito de “novo”, ao vê-lo
despontar na defesa irrestrita da liberdade, evidenciando
o vigor e a atualidade de um dos pensamentos mais
instigantes do Século XX.
A autora
Formada
em Direito e Ciência Política, Maria Aparecida Abreu
prepara seu doutorado em Política pela Universidade de São
Paulo.
A coleção
Coordenada
pelo sociólogo Gabriel Cohn, a Coleção
Invenção & Crítica reúne três vertentes do
pensamento contemporâneo: a pesquisa, a reflexão e a crítica.
Publica obras que as conjuguem de diversas maneiras, num
campo que vai da filosofia às ciências, com amplo espaço
para a ensaística de qualidade e relevância.
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