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Por
DANIEL AARÃO REIS Professor
de História Contemporânea - Universidade Federal Fluminense / Núcleo
de Estudos Contemporâneos |
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Entre
fogueiras e reformas
Já
ninguém tem dúvidas sobre o sistema corrompido e corruptor que foi
montado pela direção do PT para dar sustentação ao governo Lula.
Também não é possível duvidar da responsabilidade política dos
mais altos dirigentes do PT e do Governo, incluindo-se, é claro, o
Presidente da República. Não estou falando do conhecimento
minucioso dos chamados “detalhes sórdidos”. Mas de
responsabilidade política. Cabe, sempre, aos maiores dirigentes,
assumi-la.
Os
generais presidentes do período da ditadura militar foram responsáveis
pela tortura praticada nos porões dos DOI-CODIs, embora não
participassem diretamente do trabalho sujo, ou sentissem nas mãos o
visgo do sangue derramado. O mesmo para JK, pelos desmandos
praticados na construção de Brasília, embora possa não ter
aumentado a fortuna pessoal com as obras faraônicas então
empreendidas. Getulio Vargas foi responsável pela deportação de
Olga Benário Prestes e pelas unhas arrancadas dos comunistas pela
famigerada polícia especial, que seviciava presos indefesos nos
calabouços do Estado Novo. Truman, presidente dos EUA, o foi também
pela bomba de Hiroshima, embora não tenha acionado o botão que lançou
o fogo mortal sobre a infeliz cidade japonesa.
Responsabilidade
política, é disso que se trata. Vale para as glórias e para as
misérias de qualquer governo. O governante que escolhe assumir
apenas as glórias, fugindo às misérias, faz vão intento de
escapar do juízo dos contemporâneos e dos pósteros.
Diante
da amplitude e das dimensões dos dutos e condutos delatados e
descobertos, impõe-se a conclusão de que se trata de algo que não
foi inventado pelo PT e por Lula. Tampouco é provável que as
condenáveis e malsinadas práticas tenham neles os mais poderosos e
principais agentes. A rigor, não passam dos últimos que chegaram, parvenus
inexperientes. Quase se poderia dizer, embora seja cruel, trapalhões
de primeira viagem.
A
mixórdia toda evidencia um sistema político não apenas permeável
e tolerante, mas que encoraja a corrupção. Há torneiras
escancaradas, jorrando corrupção a fluxos contínuos e maciços, e
é sintomático que delas pouco se fale até o momento.
A
instituição da reeleição é uma delas. Desde que foi instaurada
no país, e apesar das críticas que se fizeram quando aprovada, e
dos métodos empregados para aprová-la, disseminou-se por toda a
parte, alimentando ambições destrutivas. Basta o fulano ser
eleito, já no dia seguinte à eleição, começa a tratar da reeleição,
abusando de métodos nada ortodoxos, quando não de fraudes, e nesta
faina empolgam-se todos, da extrema-direita à extrema-esquerda.
Outra
brecha, imensa, é a possibilidade de mudar de partido político. O
fulano quer mudar de legenda? Pode, claro, mas deixe o mandato com o
partido. É simples assim, e aí estaria bloqueado um poderoso fator
de corrupção. Ou alguém não sabe dos argumentos que se utilizam
para promover o tráfego, e o tráfico, de deputados pelos mais
distintos partidos?
Por
que não exigir um vínculo mais duradouro aos partidos como condição
para uma pessoa almejar ser candidato a posto eletivo? Contribuiria
para reforçar o parlamento e os partidos, diminuindo a dança de
siglas que confunde os analistas mais experientes.
E
a fidelidade partidária, tão comum nas democracias mais
tradicionais, por que não exigi-la, com a decorrente perda do
mandato para os que não acompanhassem as decisões partidárias,
sempre e quando estas fossem consideradas “questões de princípio”?
Haveria
muito a dizer também do financiamento das campanhas, um dos
problemas maiores do sistema. Por que não ampliar o horário
gratuito e público, com restrições claras, e sanções explícitas,
ao abuso de dinheiros nas campanhas eleitorais? Por que não impor a
prestação de contas on-line?
Estas
propostas podem ser aceitas ou recusadas, o que importa é
discuti-las, tentando mudar o foco do debate. Não se deseja
empurrar nada para baixo do tapete. Que as CPIs, a Polícia Federal
e a Justiça cumpram suas funções, identificando e punindo os
responsáveis diretos pelos escândalos da vez. Quanto aos responsáveis
políticos, nada de golpes. Deixem ao eleitorado a função de
formular a avaliação política no momento apropriado, ou seja, nas
eleições. É assim que funciona a democracia. Os responsáveis políticos
são avaliados politicamente através de eleições.
A
sociedade precisa deixar as fogueiras de lado, ouvir menos os Catões
tropicais que proliferam sempre nestas horas de crise, estas
impolutas figuras, destilando velhos ressentimentos, sempre a
anunciar catástrofes e a dar lições de pureza à terra de Macunaíma.
É preciso avaliar o sistema político existente, identificar os
problemas, formular reformas para melhorar a democracia que o país
já conseguiu construir e da qual não deve abrir mão para
acompanhar discursos moralistas e golpistas.
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