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Depois
da queda...
O
cataclismo que se abateu sobre o PT com a revelação de
improbidades, tráfico de influência e corrupção entre seus
dirigentes teve um
impacto arrasador nos seus militantes que confusos e desnorteados,
se interrogam sobre o futuro político do governo Lula e, por extensão,
do país. As promessas de transformação social contidas nos
discursos e mensagens messiânicas de sua liderança carismática
ficaram reduzidos ao assistencialismo da “bolsa família” e do
“fome zero”.
Concomitantemente,
o PT transformou-se em mais um desses partidos folclóricos que
povoam o cenário político, celebrando alianças espúrias e
tornando-se uma máquina eleitoral através da qual distribuía
milhares de cargos ocupados na burocracia do Estado.
Diante
a extensão e profundidade da crise, soam estranhas as declarações
de ex-militantes frustrados e abatidos, como as de Frei Beto (FSP,
25/7/2005)... “é hora de começar de novo, renovar a esperança
e, sobretudo, não permitir que tudo fique como dantes”. Também,
Francisco de Oliveira, ex-ideólogo do PT, proclama “temos de
inventar novas formas de atividades políticas”, mas não
esclarece quem seriam os seus atores.
É
impossível minimizar a amplitude e profundidade do fracasso do PT e
o significado histórico dessa derrota sem sua inserção no
contexto universal da dinâmica política caracterizada pela
derrocada trágica dos partidos da “esquerda”. O colapso da
ex-URSS e o subseqüente desmoronamento dos antigos partidos
comunistas foram acompanhados por derrotas do partido socialista
francês, do social-democrata alemão e dos socialistas e comunistas
na Itália. Frente ao assalto do neoliberalismo e incapazes de
manter o equilíbrio no conflito entre o capital e a massa de
trabalhadores, os antigos dirigentes dos partidos de “esquerda”
foram cooptados pelos conservadores neoliberais e abriram mão da
proposta de transformar os métodos de administração da economia e
de reorientar o desenvolvimento social e cultural da sociedade.
Ao
renegar a democracia interna e desprezar a participação popular, a
“esquerda” desenraizada tornou-se presa fácil da “direita”
neoliberal, e conservadora que conta com o apoio poderoso do capital
transnacional.
Qual
seria o significado do “recomeçar”, se não for o resgate da
democracia direta e participativa fundada na autogestão e
solidariedade de todos os cidadãos? O socialismo não pode ser
reduzido à mera nacionalização dos meios de produção.
Recusando a histórica divisão de trabalho entre os que
pensam e os que fazem, os intelectuais – os tecnocratas, e os
trabalhadores manuais, a única alternativa humanista é a superação
da tendência à burocratização que perpetua as desigualdades e
injustiças.
A
democracia direta, baseada na autogestão, prevê a possibilidade de
destituir quem exerce o poder por delegação e de revogar mandatos
de quem não cumpre as promessas eleitorais e as decisões
coletivas, resultado de referendo ou plebiscito.
Mas,
há uma lição mais profunda a ser resgatada da crise e queda do
PT. Ao longo do século XX, a ideologia e as práticas políticas
referentes à transformação do método de gerenciar a economia e
reorientar o desenvolvimento social e cultural da sociedade estavam
baseadas na crença do papel central do “partido”, revolucionário
ou reformista na conquista do Estado, com seu poder de coerção e
sua capacidade de realizar as políticas públicas, objetivando o
desenvolvimento e a inclusão dos marginalizados.
As
experiências históricas, tanto dos partidos revolucionários
quanto dos reformistas, mostraram que, uma vez conquistado o poder,
os “líderes” portadores da consciência de classe foram
cooptados e corrompidos pelas elites, tornando-se instrumentos de
dominação e reproduzindo seus padrões de consumo de luxo e
desperdício.
Ocupando
as posições de mando político, o partido de “esquerda” passa
a engrossar e reforçar os objetivos das elites cujo maior interesse
não é mais o projeto nacional de desenvolvimento, substituído
pelos cânones do mercado financeiro e dos bancos internacionais.
Os
interesses “comuns” na manutenção do status quo reúnem
uma coalizão poderosa de banqueiros, empresários, tecnocratas e a
maior parte da mídia, todos sem nenhuma vocação de alterar as
regras do jogo parlamentar. A
Câmara e o Senado são compostos em sua maioria por políticos
preocupados fundamentalmente com sua reeleição, a prática de
nepotismo e a manutenção de seus feudos eleitorais regionais,
inviabilizando qualquer tentativa de reformas políticas e
estruturais.
Outro
fator importante de sustentação do regime são as forças armadas,
tradicionalmente conservadoras, sempre prontas de intervir na política
para “salvar” a pátria. Fechadas à semelhança de uma
estamento medieval têm resistido aos sopros da modernidade para
ampliar sua visão do mundo e seus currículos para a formação de
seus quadros de oficiais, tornando-os aptos para a discussão sobre
seu novo papel nos cenários nacional e internacional.
Os
partidos políticos – 27 na atual legislação – representam em
vez de anseios e aspirações populares, os interesses de dezenas de
milhares de políticos profissionais – vereadores, deputados
estaduais e federais, senadores, prefeitos, governadores, todos
empenhados a reeleger-se e continuar a beneficiar-se das vantagens
do mandato.
Como
enfrentar essa frente formidável que parece um obstáculo
intransponível no caminho das reformas? O empoderamento da
sociedade não se fará com as migalhas jogadas pelos donos do poder
e, tampouco pelos “revolucionários”, transformados de minorias
em autocratas, uma vez conquistado o poder. O fracasso nas tarefas
históricas do PT, que levou ao desânimo e desencanto às fileiras
de militantes, significaria o fim da utopia?
A
resposta não virá das cabeças iluminadas de intelectuais e filósofos
– ou do partido portador da consciência – mas da intervenção
direta da sociedade, ao construir as bases de seu poder
contrabalanceador ao das oligarquias.
Deputados
e senadores em sua maioria não representam seus eleitores, mas os
interesses próprios e os de seus patrocinadores. Num país com
grande parte de sua população pobre e em estado de indigência, os
vencimentos e regalias dos “representantes do povo” constituem
privilégios que estimulam a perpetuação no poder mediante
comportamento e atividades nem sempre lícitos ou legais.
Por serem “donos” de uma parcela do poder, não recuam de
atos de corrupção, conivência com ilícitos, tráfico de influência,
clientelismo e nepotismo, construindo ao mesmo tempo verdadeiras
dinastias dentro os diversos escalões do governo.
Por
isso, as propostas de reforma política eleitoral, embora urgentes e
indispensáveis, têm poucas chances de serem aprovadas, por estarem
sujeitas à deliberação dos atuais representantes para os quais
constituem uma ameaça às carreiras políticas profissionalizadas.
Exige-se a redução do número de partidos, a proibição de
mudança de legenda, uma vez eleito, o voto distrital, o
financiamento público das campanhas vedando o aporte de recursos
por entidades privadas, que inevitavelmente cobrarão o retorno de
seus investimentos sob forma de favores e acesso facilitado a obras
públicas que lhes proporcionam ganhos consideráveis.
Um
exemplo da pusilaminidade e inoperância do Congresso é a CPI do
Banestado que arrastou-se por anos procurando levantar os nomes dos
responsáveis pela remessa de bilhões de dólares para o exterior.
Entretanto, seus resultados nunca foram divulgados com o argumento
da divergência nos relatórios finais do presidente e do relator da
CPI. Infere-se, porém,
que os ditos relatórios implicariam a revelação à sociedade de
nomes das elites empresariais e políticas envolvidas.
Como
sair do labirinto?
O
sistema político, formalmente democrático, rígido e fossilizado,
se auto-perpetua através da corrupção, falta de transparência e
manipulação da população com o auxilio da maioria dos meios de
comunicação. Alianças oportunistas e desvinculadas de princípios
éticos e políticos claros, são constantemente celebradas e
refeitas pelas elites conservadoras, atadas e submissas aos ditames
e interesses do capital nacional e internacional.
Por
outro lado, verifica-se a emergência de estruturas e instituições
contestatórias, nacionais e internacionais, comunicando-se e
interagindo por meios de comunicação eletrônica. Seu objetivo
precípuo é a mobilização da sociedade civil e seu engajamento na
defesa dos Direitos Humanos, do meio ambiente, da justiça social e
da democracia. A questão da democratização do processo de tomada
de decisão relacionada às condições de vida e de trabalho da
população está levando à integração das questões e problemas
ambientais e sociais numa luta comum pelos direitos humanos básicos.
Neste
processo de mobilização de cidadãos a agirem em busca de
crescente eqüidade econômica, um meio ambiente limpo e o bem-estar
social, o fator central não é um sistema democrático formal, mas
a construção e o esforço contínuo de instituições democráticas
específicas. A questão principal que surge é como criar instituições
democráticas capazes de estimular e induzir um processo de
desenvolvimento socialmente eqüitativo e ecologicamente sustentável
e, ao mesmo tempo, conseguir manter o controle e definir os limites
políticos das relações de mercado, desiguais, desestabilizantes e
corruptores.
Hipotetizamos
que o exercício de poder em sociedades complexas não pode ser
reduzido a meras manipulações técnicas e administrativas,
ignorando-se as aspirações dos atores sociais – os cidadãos.
Por isso, um dos problemas centrais das sociedades contemporâneas
reside na criação de um sistema de governabilidade democrática em
que prevaleçam relações de confiança recíproca entre os cidadãos
e o poder público, em todas as esferas, desde as relações
interpessoais até as institucionais. Trata-se do nascimento de um
novo padrão de atuação política - a democracia participativa.
Iniciada em nível local, se estenderá progressivamente pela
sociedade mediante “redes” que convergem na constituição de um
novo sistema complexo e dinâmico, baseado na autogestão, autonomia
cultural e política e interdependência, próprias de uma sociedade
democrática, em nível nacional e internacional.
A
modernidade neoliberal provocou a desarticulação da luta pelos
direitos humanos e a invasão do mundo de trabalho, gradualmente
transformado em mundo de pobreza, marginalidade e exclusão.
Os
movimentos em prol da emancipação de toda a humanidade e da
conquista plena da cidadania procuram resgatar a natureza e a dinâmica
indissoluvelmente interligadas de três dimensões, desde os
direitos básicos à uma existência materialmente assegurada até
à liberdade, a participação democrática e a justiça social. É
a concretização do conjunto dessas três reivindicações que
constitui o paradigma alternativo ao modelo neoliberal.
Essas
tarefas ultrapassam o âmbito estreito de programas de caridade e de
assistencialismo filantrópico tais como desenvolvidos por muitas
ONGs e pelo próprio poder público.
Na
retrospectiva das últimas duas décadas, percebemos o avanço
paulatino da sociedade civil nas confrontações sobre as esferas de
decisão, inclusive a alocação de recursos orçamentários. Assim,
é possível prever um longo período de poder dual em que as
autoridades e instituições tradicionais procurem manter o status
quo na defesa dos interesses das classes proprietárias e da própria
tecnocracia a elas aliada. Por outro lado, as múltiplas organizações
da sociedade civil adquirem saber e experiência no manejo e na
defesa das causas públicas, conquistando maior autonomia e confiança
em sua capacidade de gerir seus destinos, no processo de transformação
social e política. |