Por JOSÉ PROVETTI JUNIOR

Bacharel em Filosofia pela UERJ, Mestrando em Cognição e Linguagem pela UENF, Presidente e professor de Idioma Internacional Neutro – Esperanto do Clube de Esperanto de Campos dos Goytacazes e membro do Núcleo de Estudos da Antigüidade – UERJ.

 

Reflexões Sobre o Conceito de Mente

 

Dentre os avanços científicos ocorridos desde o século XIX até a decodificação do genoma humano, um dos mais complicados e que resiste a inúmeras tentativas de solução é o problema da mente humana.

Relegada ao abandono pelos psicólogos comportamentalistas como algo inacessível de pesquisa, segundo o método científico, e, mesmo após o imenso esforço mundial empreendido na chamada “Década do Cérebro” no final do século XX, por lingüistas, filósofos, psicólogos, pedagogos, engenheiros computacionais, semióticos e neurocientistas, o problema do que é a mente, suas relações com ela, o corpo, para com outras mentes e o que convencionamos chamar “realidade”, não logrou sucesso. Persistem as dificuldades instauradas por Descartes no século XVII.

Algumas pessoas alheias a estas questões e apegadas às necessidades de suas áreas atuação questionam da utilidade de tamanhos esforços para a solução de uma questão tão abstrata e aérea de filosofia e em que isso reduzirá a miséria do planeta, o subdesenvolvimento dos países do 3º mundo e as demais realidades contemporâneas?

Num rápido sobrevôo, indicamos que tal solução possibilitaria a solução do problema lingüístico entre as nações, o porque determinada língua usa tal ou tal som  para indicar algo e outra, um outro, o problema das neuropatologias, as relações da mente sobre o corpo nas áreas de psicosomatização, o desenvolvimento de novas terapias, menos agressivas à saúde de pacientes acometidos por doenças várias, o problema da possibilidade do conhecimento, da educação, dos processos bioéticos, a recuperação de lesões e outras.

Compreender a mente, mais que realizarmos novas descobertas no sistema solar, é uma questão de coerência metodológica científica que, do infinitesimal ao macro, tendenciosamente ignorou a si mesmo.

A proposta deste artigo é refletirmos sobre isso que chamamos de mente.

Ela é apresentada como fato dado, como conceito simples, parece ser desnecessário qualquer apresentação ou comentário sobre o que significa seja em extensão ou compreensão, seguindo os estudos e propostas de seu funcionamento e inter-relação com o corpo (caso sejam distintos), de maneira alheia ao que é em si.

Buscamos o significado da palavra mente em diversas línguas e consultando os dicionários constatamos o que segue: Em Português vem do Latim significando intelecto, pensamento, entendimento, espírito (SÉGUIER, LELLO & LELLO, 1966). Em Francês – existem três palavras para designar mente, quais sejam: sprit, âme e idée. A primeira significa: espírito, alma, faculdade de conceber de um modo vivo e rápido e de se exprimir de uma maneira engenhosa e picante. A segunda: alma, espírito, vida. A terceira significa: idéia, imagem, recordação. (VINHOLES, 1950). Em Idioma Internacional Neutro - Esperanto existe três palavras para designar mente, quais sejam: menso, intelekto e imago. A primeira significa: mente, entendimento e espírito, no sentido da parte pensante do espírito, o intelecto que contrasta com o corpo. A segunda: inteligência, intelecto, faculdades intelectuais e mentais. A terceira: imaginação no sentido de senso mais amplo do que fantasia, a qual tem apenas alguma qualidade de espécie de imagem. (BRAGA, 1965). Em Inglês, chama-se mind, significando: espírito (como intelecto), mente, cérebro, pensamento. (HOUAISS & CARDIN, 2002). Em Grego, não há uma palavra específica para mente, mas o dicionário indica como possibilidade à palavra que designa inteligência. Para esta, indica como sinônimos, as palavras: diánoia(as), noûs(ou), sýnesis e pneyma(atos).  No caso de nosso estudo, levaremos em consideração

 

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a palavra  noûs(ou) que significa: inteligência, pensamento, reflexão. Noûs(ou) – noeo(noos) – noesis(eos), significam: faculdade intelectiva, pensar, inteligência, pensamento. (PEREIRA, 1990). É digno de nota que em Grego não há verbete específico para “mente”, indicando o dicionário “inteligência” como aproximação como acima assinalamos. Haveria razões para crermos que os antigos helenos não tinham uma percepção própria da experiência do que denominamos “mente”? Por quê? Acreditamos ser algo a ser pesquisado, visto em Latim, já haver termo específico para mente, conforme observamos mens (tis), significa: a mente, o espírito (em oposição a corpus), a inteligência, intenção. (FARIA, VIEIRA, AUTRAN et alii, 1967).Para não limitarmos nossa abordagem à análise comparativa de acepções nas línguas descritas, consultamos os dicionários de filosofia de José Ferrater Mora (2001), André Lalande (1999), Denis Huisman (2001), Nicola Abbagnano (1999) e Hilton Japiassu e Danilo Marcondes (1993), nos quais constatamos que apenas no volume destes dois últimos encontramos uma definição significativa de mente e no de Abbagnano, parcialmente. Este nos informa que mente é o mesmo que intelecto, espírito, no sentido de conjunto das funções superiores da alma, vontade.  Já Marcondes e Japiassu informam: sinônimo de “espírito”, “intelecto”, “consciência”, utilizado geralmente em um sentido mais positivo e experimental. Designa o conjunto de faculdades ou poderes racionais do homem tais como o pensamento, a percepção, a memória etc.

Para encerrar as premissas de nossa análise, consultamos o dicionário técnico de psicologia de Álvaro e Nick (1979), segundo eles, mente é o sistema total dos processos mentais ou atividades psíquicas de um indivíduo. No contexto psicológico, mente não acarreta implicações de ordem metafísica sobre a essência ou natureza do sistema e limita-se a destacar as relações entre os fenômenos tal como se definem através de atos ou comportamento, mas reconhecendo que se revestem de uma qualidade particular (mental) que os distingue de algum modo, dos processos caracterizadamente fisiológicos. Mente é, pois, a soma total das estruturas permanentes e hipotéticas às quais foram atribuídas determinadas propriedades que explicam os fenômenos e processos observados através do comportamento do indivíduo, quer se considerem tais processos relacionados ou não com determinantes somáticas.

Observamos que em sua maioria, as definições sobre o conceito de mente, nas línguas vernáculas, se limitam a descrever os efeitos ou qualidades disso que nominamos mente e não o que em si é a mente, isto é, a mente é definida por suas características que, ou são fenômenos distintos da cognição humana ou expressões destas características, com definição própria que em si não são a mente, mas literalmente, produtos senão partes dela, com funções específicas nas faculdades, desde as simples às superiores.

Pelo exposto, concluímos claramente que mente pode ser analisada em nove sentidos básicos, quais sejam: intelecto, pensamento, entendimento, espírito/alma (coloco esses dois conceitos unidos por barra devido a crer serem interpretados pela grande maioria como sinônimos embora saibamos não o serem), vida, idéia/imaginação (unimos esses conceitos devido a sua aproximação icônica, embora saibamos de sua distinção funcional nos processos cognitivos), memória, intencionalidade e como aparelho fisiológico corporal, cérebro.

Ora, nestes sentidos, o princípio dualista da oposição alma/corpo ou modernamente denominado mente-corpo, nestas línguas e, em especial, o Latim percebemos o que talvez pudéssemos chamar o nascedouro do problema mente-corpo. Para nós, segundo estudos desenvolvidos (PROVETTI JR, 2000) e o levantamento de subsídios até o momento sobre o contexto da alma na antiguidade clássica grega, em especial Platão, partimos do pressuposto de que a cultura romana é em muito credora de seus fundamentos à grega, percebemos assim, que a concepção que tinham de espírito era no sentido de um ser vinculado a um organismo biológico, o corpo (daí a distinção clara em Latim entre mens e corpus), que lhe servia às manifestações psicofísicas.

Consultando o dicionário de filosofia de Abbagnano que define o verbete mente como sinônimo de intelecto, espírito,  quanto às funções superiores da alma conclui pela a adição da vontade ao quadro designativo de mente. Japiassu e Marcondes concordam com Abbagnano quanto ao sinônimo, porém são mais precisos, informando que a mente é o conjunto das faculdades ou poderes racionais do homem, indicando-os como pensamento, percepção, memória, imaginação, desejo etc.

Neste ponto das definições ocorre algo muito interessante. Alguns significados relativos ao termo mente (vistos anteriormente como designando a própria mente), são agrupados na categoria de faculdades desta. Para Cabral e Nick, citados acima, o verbete mente aparece mais preciso ainda. Apresentam-na como o sistema total dos processos mentais ou atividades psíquicas de um indivíduo. Acrescentam que tal definição não acarreta considerações sobre a essência ou natureza do sistema limitando-se a destacar as relações entre os fenômenos através de atos ou comportamentos, embora reconheçam uma qualidade particular, qual seja, sua origem mental, distinto dos processos fisiológicos.

É notório que as línguas são expostas nas gramáticas e que elas são tentativas de descrição de nossas percepções relacionais no e em relação ao espaço. Ao falarmos de mente, procuramos explicá-la através de seus efeitos e não nos damos conta de que em assim procedendo, não expressamos o que ela é em si. Sempre nos remetemos a uma cadeia de significantes que descrevem seus efeitos através de suas diversas manifestações, mas nenhuma definição dá conta até o presente, do que ela é em si, em sua totalidade.

Na definição filosófica detectamos a mesma tendência, porém, com a perspectiva de a encararmos como uma plêiade de faculdades, o que já é uma diferença substancial frente às definições anteriores, contudo, elas ainda mantêm um traço obscuro de superficialidade, visto envolver muitas funções. Além disso, acrescentam a vontade como um dos elementos da mente e, por assim dizer, como que uma parte dela. Ora, se assim for, estamos inferindo que a intencionalidade, concomitância da vontade diante de seu objeto, é um elemento mental e, nesta condição, sobressai e comanda as demais, visto parecer, pelas experiências de cunho psicológico, que à vontade do ser ou do pensante, sob a ação da consciência, comanda os demais mecanismos ocasionando todas as operações corporais típicas ao humano.

Por ignorância, desconhecemos as ilações possíveis de serem inferidas, caso já realizadas, de pesquisas a respeito da ação da vontade sob o impulso do inconsciente na ordem geral das funções designadas como mentais e quais são suas relações neurofisiológicas e comportamentais.

Outra questão relacionada à definição relativa ao conceito de mente é a sugestão subjacente à declaração de Cabral e Nick, de que mente não acarreta implicações de ordem metafísica sobre a essência ou natureza do sistema. Cabe-nos inquerir o que exatamente pretendem dizer com isso, pois neste caso, seria a mente uma espécie de equipagem acoplada ao organismo que permite sua manifestação fenomênica conforme sua organização e disposição genética. Se tal afirmação tiver fundamento, o que gerencia o sistema e sua aparelhagem psicofísica? Qual seu ponto de toque e relações? Sua origem? Dentre outras, são questões pertinentes aos estudos de Cognição e Linguagem a serem resolvidas pelas pesquisas atuais. Aguardemos notícias.

 

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BIBLIOGRAFIA

ABBAGNANO, Nicola . Dicionário de Filosofia . São Paulo: Editora Martins Fontes LTDA, 1999

BRAGA, Ismael Gomes . Dicionário Esperanto-Portugês . Rio de Janeiro: Cooperativa Cultural dos Esperantistas, 1965

CABRAL, Álvaro & NICK, Eva . Dicionário Técnico de Psicologia . São Paulo: Editora Cultrix, 1979

FARIA, Ernesto; VIEIRA, Maria Amélia Pontes; AUTRAN, Sieglinde Monteiro et alii . Dicionário Escolar Latino-Português . Artes Gráficas Gomes de Souza S. A., 1967

FERNANDES, Francisco . Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa . São Paulo: Globo, 1998

HOUAISS, Antônio & CARDIN, Ismael . Novo Webster’s: dicionário universitário Inglês-Português e Português-Inglês . Rio de Janeiro e São Paulo: Editora Record, 2002

HUISMAN, Denis . Dicionário dos Filósofos . São Paulo: Martins Fontes LTDA, 2001

JAPIASSU, Hilton & MARCONDES, Danilo . Dicionário Básico de Filosofia . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993

LALANDE, André . Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia . São Paulo: Martins Fontes LTDA, 1999

MORA, José Ferrater . Dicionário de Filosofia . São Paulo: Martins Fontes LTDA, 2001

PEREIRA, S. J. Isidro . Dicionário Grego-Português e Português-Grego . Braga: Livraria Apóstolo da Imprensa, 1990.

PROVETTI JR, José. A Alma na Grécia: a origem do indivíduo no ocidente . Rio de Janeiro: monografia apresentada como quesito de conclusão do curso de graduação em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, 2000

SÉGUIER, Jaime; LELLO, José & LELLO, Edgard . Dicionário Prático Ilustrado . Porto: Lello e Irmão Editores, 1966

VINHOLES, S. Burtin . Dicionário Francês-Português e Português-Francês. Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo: Editora Globo, 1950

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