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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
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A
crise da esquerda: para onde vamos?
“Nascemos,
e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda
a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou
isto por mim”. (SARAMAGO, 2004:285)
"Eu
presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem
nada"
"Quem
são eles? Quem eles pensam que são?"
"Espanta
que tanta gente minta descaradamente a mesma mentira"
"Nossos
sonhos são os mesmos há muito tempo, mas não há mais muito
tempo prá sonhar"
(Engenheiros
do Hawaii)
Para
onde vai a esquerda? A resposta imediata que emergirá à mente do
sarcástico é: para a p.q.p. Além de não ser uma resposta
academicamente aceitável, pode sugerir ao leitor que o autor de tal
pensamento é ideologicamente de direita. A propósito, a fauna política
está repleta de hienas que riem à toa, um riso hipócrita que
acoberta o ranger raivoso dos dentes contra tudo que questione os
seus privilégios, os quais são tidos como direitos naturais desde
os tempos mais remotos. Há também lugar para os ressentidos, os
arrependidos e os oportunistas de última hora.
No
campo do petismo, há os que já arrearam a bandeira do partido. Uns
simplesmente jogam-na na lata do lixo da história e se recolhem ao
recôndito espaço do lar e das suas consciências; outros a
substituem por novas bandeiras, que imaginam serem límpidas e
corresponderem aos ideais suplantados pela política petista-lulista,
e se bandeiam para outros partidos. Há os que desejam lavar a
bandeira, purificá-la e hasteá-la no altar da política, um gesto
que simbolizaria o resgate da ética e dos princípios originais; e
há, ainda, os perplexos que a mantém, qual tal um pano surrado, a
meio pau, como que em sinal de luto. Em meio à perplexidade, lágrimas
e esforços de superação da crise, sobrevive o continuísmo
amparado numa retórica saudosista, auto-apologética e
culpabilizadora do outro. É a sobrevivência da política como relação
amigo-inimigo, bem ao gosto de uma época na qual não se admitia críticas,
sempre caracterizadas como próprias de quem faz o jogo da direita,
seja como inocente útil, seja objetivamente, isto é,
ainda que não intencional. O mundo gira e os fantasmas do passado
assaltam as mentes dos que vivem no presente...
Qual
crise?
A
crise é do sistema político. É visível a crescente indiferença
dos homens e mulheres comuns diante da política institucional; esta
é vista como algo próprio dos profissionais da política, de uma
minoria que vive disso e para isso. A maioria dos indivíduos
permanecem envoltos em seus limites cotidianos, apesar da política
e dos políticos. Estes são percebidos como aquilo do qual não
gostamos, até detestamos, mas somos obrigados a conviver. E cada
vez mais os políticos têm dificuldade de se diferenciarem, ou,
pelo menos, de convencerem os seus eleitores de que são diferentes.
A crise política torna ainda mais difícil aos políticos
sustentarem o sistema da democracia representativa; transforma a
atividade política vinculada à institucionalidade cada vez mais
estranha e alheia à realidade social. O mundo deles, dos
nobres deputados, das “vossas excelências”, parece não ser
este mundo. É como se nada tivéssemos a ver com tudo o que vemos
nos meios de comunicação. Eles que se entendam!
Este
efeito, potencializado pela crise política atual, é suficiente
para repensarmos os valores sobre os quais se assentam a atividade
política e os perigos inerentes ao descrédito diante da política
e do que denominamos democracia – que tem os seus limites,
mas não pode ser simplesmente ignorada.
A crise da democracia representativa e do sistema político partidário
que lhe fundamenta, é reconhecida por intelectuais, políticos e
personalidades, os quais se mostram preocupados e clamam por
reformas políticas.
José
Álvaro Moisés, em artigo publicado na Folha de S. Paulo,
ressalta que o descontentamento popular contra os políticos, e as
instituições como o Congresso Nacional, “gera desesperança e
compromete a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas
– solapando a legitimidade do regime”. A desconfiança da
maioria da população é, sob certo limite, uma reação positiva.
Porém, a partir de determinado ponto, a própria democracia fica
sob risco. Para ele:
“A
desconfiança das instituições, pelo contrário, é a forma de os
cidadãos reagirem ao desmando ético e político da vida pública.
Se alguma desconfiança é desejável para assegurar a autonomia dos
cidadãos diante de estruturas de poder, a democracia se enfraquece
quando é muito grande a proporção dos que se sentem fraudados
pelo comportamento anti-republicano dos políticos e quando os cidadãos
percebem as instituições como algo alheio à sua finalidade. Neste
caso, a indiferença e a ineficiência das instituições democráticas
diante da corrupção, fraude e desrespeito a direitos assegurados
por lei geram suspeição e descrédito, porta aberta para anomia,
descompromisso social e aumento da criminalidade” (FSP, 05.08.05)
É
o caso de perguntar: qual o caráter dessas instituições? Qual
democracia?
O
preocupação expressada por José Álvares Moises é compartilhada
por outros, como Oded Grajew:
“...
receio que possamos cair em uma enorme descrença na democracia e na
possibilidade de construir um país com mais dignidade, ética e
justiça. As portas para o autoritarismo, o populismo, o
individualismo, o salve-se quem puder, a prevalência da lei da
selva e da barbárie estariam abertas” (FSP, A3, 10.08.05)
É
curioso que a barbárie seja relacionada à crise da democracia
representativa. Reconhecemos a importância desta enquanto conquista
histórica dos movimentos sociais. Na verdade, a elite política,
mesmo aqueles imbuídos de idéias liberais, resistiram até onde
foi possível à concessão do sufrágio universal e a extensão do
voto e dos direitos políticos aos homens e mulheres. Não nos
parece correto reduzir a crítica à democracia representativa à
sua identificação mecanicista com o liberalismo.
Isso seria desconhecer as lutas sociais para a sua conquista. Ou
seriam idiotas e mentecaptos os que, por exemplo, lutaram pela
retomada da democracia neste país? Não obstante, muitos dos que se
mostram preocupados com a crise do regime político, vale afirmar,
da democracia representativa, esquecem que essa crise é permanente
e inerente à incapacidade da democracia liberal em romper o
despotismo em determinados espaços da sociedade, como o local de
trabalho e a esfera doméstica, e de incorporar a democracia econômica
e social. Ora, os indivíduos não são parvos a ponto de se
contentarem com um sistema político que, na verdade, funciona para
manter os privilégios de poucos e a ordem social injusta. Esta é a
verdadeira barbárie que a democracia realmente existente
oculta.
De
qualquer forma, persiste a preocupação de que o descrédito da
população em relação aos políticos abra as portas para uma solução
autoritária ou para um salvacionista de plantão. É sintomático
que entidades e personalidades tenham se reunido na Faculdade de
Direito da USP, em 31 de agosto, para discutir a crise política e
tenham lançado um manifesto – mais um! – pela refundação do
sistema político e eleitoral, pela “reconstrução republicana”
e por um “real esforço de salvação nacional”.
Uma das principais inquietações dos presentes consistia na
perspectiva de que o crescimento dos votos nulos e brancos abrissem
caminho a um projeto fascista. “Temos de fazer mudanças para que
não haja uma enxurrada de votos brancos e nulos. Se isso acontecer,
nós podemos ficar nas mãos de qualquer pequeno tirano que se
apresente como salvador da pátria”, afirmou o ex-ministro da
Justiça Miguel Reali Júnior (FSP, 01.09.05).
Outro
que diagnosticou a crise política nessa mesma direção foi o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo ele, “nada é
mais terrível no sistema democrático do que a perda de crença nos
representantes”. É a legitimidade do sistema que se encontra em
perigo: “A população precisa voltar a acreditar nos seus
representantes”, ressaltou. (FSP, 01.09.05) Vale observar que
mesmo representantes da esquerda também reconhecem que a crise
abala o sistema político. “Há uma crise política, a população
não se vê representada pelos políticos e partidos, e uma crise
ideológica. Não há debate de idéias, de projetos, de propostas
para a sociedade”, afirma João Pedro Stedile (FSP, A3, 15.08.05).
A
crise é também da esquerda!
Embora
a crise atinja em cheio o Partido dos Trabalhadores, ela atinge, em
maior ou menor grau, a esquerda. Por que? Porque ela representa o
esgotamento de um projeto hegemonizado pelo petismo, com o qual
mesmo os seus opositores tiverem que dialogar. Não é acaso que a
dissidência à esquerda é representada por forças internas ao
petismo e por partidos formados a partir da expulsão e/ou ruptura
com as suas hostes.
A
crise da esquerda tem raízes profundas, expostas pelas circunstâncias
atuais. Ela remonta à decisão de participar das instituições
burguesas,
na paulatina adesão ao reformismo e ao conseqüente aburguesamento
da militância, a burocratização e a transformação da organização
de meio para revolucionar a sociedade num fim
em si mesma. Ou seja, o objetivo principal, ainda que as vezes
dourado por uma retórica revolucionária, passou a ser a sobrevivência
política e material da organização e dos seus dirigentes. Ao
contrário da perspectiva do assalto ao poder do Estado e a
transformação do seu caráter de classe, é este quem incorpora a
organização política, originalmente, dos operários ou
trabalhadores, e o envolve num forte e sufocante abraço:
“O
partido, permanentemente ameaçado pelo Estado do qual depende sua
existência, aplica-se conscientemente em evitar tudo quanto possa
irritar este último. A própria teoria, vale dizer, a ciência do
partido, sofre por vezes atenuações e deformações, quando o
interesse externo da organização o exige. A organização torna-se
o único nervo vital do partido”. (MICHELS,
sd., p. 227)
Esta
citação nos fornece a idéia exata da realidade social-democrata
naqueles anos e revelam a sua atualidade. Embora seja elucidativa
para compreendermos o processo de absorção do PT pelo Estado e
suas instituições, e neste sentido as imagens do passado que
expressavam radicalidade e poderiam representar o pesadelo das
elites empresariais, latifundiárias, financeiras etc., parecem,
hoje, caricaturas de mau gosto. É sintomático, portanto, que não
mudou apenas o discurso e a política do partido, mas também suas
imagens símbolos, a começar pela sua expressão maior: o companheiro
presidente.
Mas
seria ilusório comparar as experiências social-democratas européias,
cujos partidos assumiram o papel de gestores do capitalismo com o
Partido dos Trabalhadores no Brasil. Os contextos históricos são
diferentes e, em nosso caso, nunca houve o estado de bem-estar
social, mas sim de mal-estar; entre nós, os direitos políticos e
sociais são concebidos como dádivas do Estado, geralmente
ditatorial, como o Estado Novo varguista.
Outra
diferença importante reside no fato do reformismo em solo pátrio não
ter o mesmo significado daquele em terras distantes. Se lá a
social-democracia se desenvolveu vinculada à conquista de direitos
sociais e políticos pela crescente pressão da classe operária e
as reformas representaram historicamente avanços, mas também um
imenso dique às pretensões revolucionárias, aqui o reformismo,
dado o atraso político e social, se mostrou uma tarefa revolucionária
no quadro da ordem burguesa. No Brasil, a mínima perspectiva de
reforma encontra tamanha resistência das elites que tendem a
acirrar as contradições. Historicamente, ou as elites sufocaram os
anseios reformista (como no golpe de 1964) ou as organizações que,
em tese, representam interesses dos “de baixo”, se rederam ao
pragmatismo ou realismo político (vide o PT). Seria injusto e
equivocado acusar o PT de reformista, pois nem isto ele logrou sê-lo;
na verdade, sua política se restringiu a uma espécie de melhorismo
pragmatista, amparada num discurso vazio mudancista que garantia
o relativo equilíbrio interno, isto é, a anuência dos seus
setores considerados à esquerda.
Mas
também não se pode acusar o PT de revolucionário. Aliás,
este é um dos maiores equívocos de determinados críticos. O PT não
foi e nunca pretendeu ser revolucionário. Ele nasce, aliás, como
alternativa aos partidos e organizações historicamente vinculados
a uma tradição que se pretendeu revolucionária, a despeito dos
seus erros e mesmo da política reformista. É fato que o PT
incorporou alguns destes setores, mas estes eram minoritários no
partido e, ainda que influissem em suas proposições políticas
expressas em documentos oficiais, a prática petista e a sua própria
forma organizativa procurou se desvincular da matriz
marxista-leninista.
A
crise é também da esquerda que optou pelo caminho revolucionário,
apostando ou não no PT. Este se mostrou um espaço arredio às suas
teses e ela teve que seguir seu próprio caminho, num contexto histórico
adverso. Na verdade, o projeto político ao qual esta esquerda se
vincula tem sua matriz no marxismo-leninismo e suas variantes;
projeto este cujas origens se encontram na Revolução Russa e a
organização da III Internacional (IC), a qual consolidou a forma
de organização comunista refutada pela experiência petista. A opção
revolucionária ainda não ajustou contas com a cultura autoritária,
de viés stalinista ou não, que direcionou a sua concepção de
partido revolucionário e da construção do socialismo. Esta
esquerda teve no PT a sua referência e a ruptura indica um recomeço
num patamar que pressupõe a negação e incorporação do petismo,
numa conjuntura desfavorável e de descenso do movimento social. A
dificuldade da esquerda que rompeu com o petismo está em não
repetir o mesmo caminho deste, em especial, no que diz respeito à
sua evolução enquanto organizações inseridas, ainda que
criticamente, no quadro das instituições burguesas.
Qual
esquerda?
O
PT se descaracterizou enquanto esquerda. Isso ocorreu por sua
degeneração interna (tecnocratização, americanização,
centralização burocrática, projeto eleitoral política de alianças,
distanciamento das bases, etc.), e pela adoção da mesma política
econômica do seu predecessor.
A
esquerda petista é parte deste processo. Também ela se viu
envolvida em interesses pragmáticos e eleitorais, ainda que procure
se diferenciar pela retórica. É uma esquerda esquizofrênica na
medida em que, simultaneamente, vê-se obrigada a criticar e
defender o governo Lula – inclusive, ocupando ministérios e
cargos importantes na estrutura do Estado. A tese de que o PT ainda
representa um instrumento político em disputa é acoplada à
de que o governo também está em disputa. A rigor, tudo está
em disputa; ate porque, desta depende meios materiais, privilégios,
pequenos poderes, eleições de companheiros, ocupação e partilha
da máquina estatal e partidária.
A
esquerda não-petista aparece então como a opção aos que
abandonam o barco petista, a tábua de salvação aos desgarrados e
perdidos no mar de lama que atinge a política em geral e o PT, em
especial. Ela se alimenta da crítica ao petismo-lulismo, o que gera
tanto a atitude de simpatia quanto de antipatia. Seu discurso
radicalizado e generalizante em relação ao PT, produz áreas de
atrito entre os que potencialmente poderiam migrar para a sua
legenda. A necessidade de substituir o petismo enquanto campeã da
ética e dos princípios tende a superdimensionar a sua importância
no campo da esquerda enquanto guardiã da pureza original inscrita
nos fundamentos do petismo. Não por acaso, e não faz muito tempo,
os militantes da esquerda não-petista eram petista que defendiam
coisas como um retorno ao PT das origens. É interessante que
esta postura seja retomada no interior do PT, sob a tese da “refundação”,
tanto uns quantos outros parecem iludir-se de que é possível
voltar ao passado e reconstruir o mito. A esquerda não-petista
parece repetir a história: por trás do discurso radical e
oposicionista temos uma espécie de petismo radical no estilo
dos bons e velhos tempos quando todos éramos companheiros da mesma
viagem rumo ao socialismo ou, pelo menos, a um Brasil mais justo e
democrático.
Há
ainda uma esquerda que não se coloca em oposição ao petismo, mas
sim como aliados preferenciais. Esta vinculação direta gera
dividendos eleitorais e políticos, inclusive no que se refere à
ocupação de postos nas instituições do Estado, mas também
indica ônus. Não por acaso os críticos a vêem como linha
auxiliares do petismo-lulismo. E, neste sentido, a crise deste a
atinge mais diretamente.
Para
onde vamos?
Historicamente,
a esquerda vinculada à tradição marxista-leninista manteve uma
relação tensa com a institucionalidade, ora declarando a
necessidade da sua transformação, ora acreditando na possibilidade
de reformas que significassem avanços substanciais para os
trabalhadores. Eis o seu “pecado original” e o dilema da
esquerda revolucionária: ao se inserir ma ordem institucional ela
tem que jogar o jogo, isto é, legitimar as instituições
que critica. A solução histórica a este dilema teve um duplo
movimento: adesão às instituições burguesas ou a sua plena negação
e dos valores vinculados às mesmas (liberdade individual e de
expressão, democracia representativa etc.). De um lado, a gestão
da ordem capitalista; de outro, a negação do capitalismo e sua
substituição por um regime político autoritário dirigido por uma
elite, a “nova classe”, detentora de privilégios e do poder do
Estado através do partido único. A despeito das profundas diferenças
entre ambas, observe-se que elas se fundamentam no controle do
Estado, ou do governo.
Essa
tensão constante entre a esquerda e a democracia gerou não apenas
a solução autoritária, mas também uma postura taticista
em relação à democracia. E quando esta esquerda de viés autoritário
procurava abandonar sua postura instrumentalista da democracia
liberal, ela tencionou o pêndulo para o lado oposto,
incorporando-se ao Estado e às suas instituições mantenedoras da
ordem capitalista. Em outras palavras, transformou-se num partido
igual aos demais e foi cooptado pela ordem.
Isso
é tão velho quanto a antiga divisão entre marxistas e anarquistas
no século XIX. Os primeiros suplantaram seus adversários a partir
da construção dos grandes partidos social-democratas de massa e,
posteriormente, pela influência do ideário bolchevique fortalecido
pelo advento da revolução russa de 1917. A política da esquerda
marxista-leninista teve como pilares o partido revolucionário e a
conquista do Estado. Esses pilares foram fragilizados a partir do XX
Congresso do PCUS (e as denúncias sobre o período stalinista) e a
posterior perda de hegemonia devido à crise dos partidos comunistas
vinculados a ex-URSS. No Brasil, a crise foi reforçada com a implosão
da política reformista do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em
1964. As experiências da “luta armada”, porém, revelaram outro
pé de barro: o desvio vanguardista. A autocrítica, para muitos,
significou a adesão ao projeto de construção do PT – alguns com
a perspectiva de que este pudesse vir a ser o partido revolucionário
tão sonhado.
A
falência do projeto petista não significou o abandono da política
institucional, ainda que tencionada por um discurso revolucionário.
A esquerda crítica ao petismo-lulismo articula candidaturas
presidenciais e a esquerda petista, ou seja, os que resistem a
abandonar o barco, tem cargos a defender e deputados a eleger ou
reeleger. Em ambos os casos, a lógica é a mesma: a disputa ou
ocupação do Estado a partir da estratégia eleitoral. Há uma
certa vocação derrotista na esquerda, na medida em que as rupturas
políticas não incidem necessariamente sobre os fundamentos e princípios
organizativos – por exemplo, a idéia do partido dirigente – e a
disputa pelas instituições burguesas. A esquerda se vê
prisioneira do limite institucional, presa ao sistema político
vigente. Sua retórica revolucionária não anula o fato de que ela
também legitima a ordem democrática burguesa e os limites desta.
Paradoxalmente, ela termina por se somar aos liberais na defesa do
sistema político partidário vigente.
Por
que a esquerda não ousa propor o voto nulo?! Ela teria a ousadia de
abdicar dos cargos e benesses disponíveis a partir da ocupação de
parcelas do Estado? Não seria o momento de construir um novo
caminho que priorize a sociedade e não o sistema estatal? Não se
trata do absenteísmo passivo, mas de uma atitude ativa da esquerda
que realmente convença a todos de que não compactua com o que
estas instituições representam, de que está realmente empenhada
em transformá-las e que abdica do recurso de simultaneamente
criticar e usufruir do aparato estatal. Seria uma atitude passível
de convencer que, afinal, esta esquerda é realmente diferente e não
repetirá o mesmo caminho e os mesmos erros do PT. Se essa idéia é
absurda para a esquerda petista, cujos interesses políticos e
materiais a impossibilita até mesmo de pensar a ruptura, quem sabe
será admissível aos que se vêem como partícipes de um projeto
declarado ainda em construção. Por que este projeto, em seu início,
tem que passar pela disputa eleitoral?
Não
há resposta definitiva à pergunta que intitula este texto. O
caminho se faz no caminhar e a crise coloca a possibilidade de
ousarmos tentar outras alternativas que superem a nossa vocação
derrotista. Terá a esquerda coragem de ousar trilhar um caminho
diferente dos que nos levaram às derrotas e a uma espécie de
eterno recomeço? A política se faz por opções e são elas que
determinam aonde chegaremos... E se fizermos as opções erradas,
será inócuo definir para onde vamos, ainda que esta seja uma
premissa necessária...
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