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Escola
de Rock:
a
bomba social e a reforma do ensino
O
filme Escola de Rock não apresenta grandes pretensões em termos
estéticos. Sua finalidade mais importante é de ordem comercial. Quer atender às necessidades de entretenimento da grande
massa de consumidores de produtos culturais de fácil assimilação,
tipo fast food, sem querer
despertar reflexões mais profundas, sem desejar produzir emoções
estéticas mais genuínas.
Para
aqueles que estão envolvidos de alguma forma com questões pedagógicas,
Escola de Rock pode servir como suporte para a discussão da reforma
de ensino realizada no Brasil durante o governo FHC.
Análise
do filme
Dewey
Finn, roqueiro desempregado, expulso de sua banda durante os ensaios
para um concurso de rock, precisando de dinheiro, resolve aceitar a
substituição de uma professora em uma escola particular, mesmo sem
ter licença para lecionar, assumindo a identidade de um amigo que
possui esta licença.
A
diretora diz a Dewey que Horace Green é o melhor Colégio do Estado
e que conquistou essa posição graças a um rigoroso código de
disciplina que se estende, inclusive, ao corpo docente. A anuidade
da escola é de 15 mil dólares, cerca de 3.000,00 reais por mês.
Ela pressiona Dewey a seguir o programa curricular cientificando-o
de que a Escola não admite métodos experimentais. Os professores
precisam explicar, em reuniões realizadas periodicamente com os
pais, o que eles estão ensinando aos filhos.
Depois
de espiar a aula de música que estava sendo ministrada a seus
alunos, o falso professor decide trabalhar na sala de aula com
aquilo que fornecia todo o sentido para a sua vida. Anuncia aos
alunos a intenção de formar uma banda com eles para tentar vencer
um concurso de rock. Ele denomina a atividade de Projeto Banda de
Rock. Sem saber, ele começa a aplicar o método de ensino conhecido
como Pedagogia de Projetos.
O
ensino baseado na Pedagogia de Projetos consiste na resolução de
uma situação-problema. Valoriza a participação ativa dos alunos
no processo ensino-aprendizagem. Espera-se que os Projetos de
Trabalho contribuam para a formação de indivíduos ativos,
reflexivos, atuantes e participantes, com espírito de iniciativa e
autonomia. Os alunos se sentem valorizados na medida em que têm a
oportunidade de opinar, debater e decidir sobre o encaminhamento do
projeto. A partir daí, tornando-se sujeito ativo do processo, ele
se sente comprometido com a sua aprendizagem. Com este método,
desenvolve-se a capacidade dos alunos de trabalharem em equipe, a
capacidade de tomarem decisões, de formularem e resolverem
problemas. Enfim, a Pedagogia dos Projetos desenvolve nos alunos a
habilidade de aprender a aprender.
No
refeitório, ao discutir com um professor sobre a validade da aplicação
de testes de avaliação, Dewey cita a letra de uma música:
“Vamos deixar o riso das crianças lembrar-nos de como costumávamos
ser”. Na sala de aula, furiosamente, ele arranca da parede e
amassa com as mãos a tabela de pontos positivos e negativos de cada
aluno organizada pela professora afastada.
O filme faz uma crítica explícita ao sistema de avaliação,
pilar do ensino tradicional, que acaba, muitas vezes, castrando a
criatividade e robotizando os alunos, transformando-os em meros
cumpridores burocráticos de tarefas escolares.
Ao
adotar o método, o falso professor descobriu uma forma de livrar-se
da rotina das aulas convencionais. Um dos alunos pergunta a ele:
“Vamos ficar enrolando todos os dias?” Ou seja, para os alunos,
e também para os pais, ensino significa transmissão
de conteúdos realizada por um professor que desenvolveu competência
especial para isso. Os
pais dos alunos irão pressionar Dewey pelo fato dele não estar
cumprindo o programa curricular. Desenvolver competências e
habilidades nos alunos é considerado uma embromação.
Durante
a execução do projeto, Summer, a aluna mais aplicada da turma, diz
a Dewey que fez uma pesquisa na Internet para saber qual era a função
de fãs de bandas de rock. Ou seja, o filme mostra que o professor não
precisa entregar-se, de forma exaustiva, ao papel de transmitir
informações. Os próprios alunos podem ir atrás delas. Aplicando
o método, Dewey nem percebe que está sendo um ótimo professor
porque acha que está apenas se divertindo junto com os alunos.
Quando
Dewey começa a ensinar os alunos a tocarem músicas de rock,
percebe que eles estão com suas mentes e corpos bastante
enrijecidos. Ele canta uma música criticando o método de ensino
tradicional: “Se eu fizer tudo o que você quer. Vou virar um robô.
Tarefas todo dia. Sem poder nem reclamar”.
No
transcurso do projeto, as crianças criam, elas próprias, a
coreografia, o figurino, o nome e o logotipo da banda, as imagens de
computação gráfica. Dewey ensina os alunos a assumirem uma
postura ativa diante da realidade, ensina-os a serem críticos, a
desafiarem o sistema de ensino, a não se conformarem.
Zack,
um dos alunos, aparece no início do filme revelando falta de
auto-estima, falta de vontade própria. Vive desanimado, porque só
fazia o que o pai e a professora lhe ordenavam. Ou seja, estava
atolado na passividade e no conformismo. O pai o proibia de fazer o
que ele mais gostava que era tocar violão. Rock e guitarra, então,
nem pensar.
O
método de ensino adotado pelo falso professor provoca em Zack um
choque mental e uma sensível mudança em sua fisionomia. No horário
de almoço, no refeitório, ele vai contar a Dewey: “Professor,
achei a sua lição incrível!”. Zack revela que estava deixando
de ser um zumbi, demonstra que estava resgatando a sua alma. Dewey,
por sua vez, fica orgulhoso ao ser elogiado pelo aluno diante de
professores de verdade.
Durante
a implementação do projeto, os demais alunos se transfiguram também,
manifestando motivação, vivacidade, espírito criativo. Eles
tornam-se cúmplices do processo de ensino-aprendizagem.
Submetido
ao descondicionamento, Zack acaba compondo uma música. Ou seja,
assume uma postura ativa diante da realidade representando-a
esteticamente para criticá-la. Marx diria que Zack, na medida em
que assume a condição de sujeito com potencial para recriar o seu
mundo, vai se transformando a si mesmo. Ao assumir a postura de
criador, Zach renasce espiritualmente, resgata a alma que havia sido
apagada pelo controle e pela disciplina burocratizante do ensino
tradicional. Uma parte da letra da música por ele composta,
dirigida à professora substituída por Dewey, diz o seguinte:
“Querida,
sempre tiramos 10
Mas
estamos ficando bitolados
Não
é difícil decorar suas mentiras
Parece
que estou hipnotizado
Foi
quando um feiticeiro chegou na cidade
E
ele virou a minha cabeça
Ele
disse que o intervalo era a aula
E
dois e dois eram cinco
E
agora, querida, sinto-me vivo
É
isso
Estou
vivo.
Uma
outra parte da letra exprime os sentimentos de Summer, a aluna mais
aplicada da classe:
Você
sabe que eu era a melhor aluna
Com
boas notas mas sem alma
Levantei
a mão para dizer o que penso
Eu
já fiquei calada demais
E
então o feiticeiro levou você embora
Faça
o que o feiticeiro faz
Não
o que o feiticeiro manda.
Os
dois versos finais exprimem o princípio básico da Pedagogia de
Projetos que é a autonomia que os alunos precisam exercer no
processo de ensino-aprendizagem. Este princípio vai de encontro à
idéia de Erich Fromm: ama o controle e mata a vida.
Summer
fazia tudo motivada pelas notas e estrelinhas, só fazia o que a
professora determinava. Durante a execução do Projeto, ela
descobre um meio de conseguir a inscrição da banda no concurso de
rock, a qual havia sido recusada pelos organizadores do evento. Ao
ser elogiada por Dewey, ela assinala toda satisfeita: “Não fiz
aquilo por nota”. Ela estava, também, sofrendo um processo de
descondicionamento e, nisso, transborda de felicidade porque começava
a fazer as coisas por prazer, por vontade própria, e não mais por
obrigação.
Dewey
também se sente realizado e feliz porque estava fazendo o que
gostava. Nunca havia dado aulas e revela uma grande virtude: sabe
elevar a auto-estima de cada jovem, ao contrário dos pais e do Colégio
que estavam massacrando-os, incutindo neles a passividade, o
sentimento do dever, o sentimento de incapacidade. Dewey descobre o
talento especial de cada um dos alunos, levando em conta a sua
individualidade.
Enfim,
no processo de transfiguração, as crianças aprendem a ter
iniciativa, abandonam a postura conformada diante das situações às
quais estavam submetidas.
A
reforma de ensino no Brasil
A
proposta pedagógica apresentada no filme Escola de Rock expõe
alguns princípios postulados pela reforma de ensino instituída no
governo FHC.
Seguindo
as orientações de organismos multilaterais como o Banco Mundial e
a Unesco, o governo brasileiro aprovou, em 1996, a nova Lei de
Diretrizes e Bases para a Educação Nacional. E, em 1998, o MEC
instituiu as novas Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio.
No
sistema anterior, o Ensino Médio tinha como um dos objetivos a
formação de trabalhadores disciplinados, habituados a respeitar a
hierarquia e as regras institucionalmente estabelecidas. Os alunos
ficavam envolvidos, muitas vezes, em tarefas rotineiras e
repetitivas, executadas de forma mecânica.
As
novas diretrizes curriculares estabelecem que a escola não pode
mais ficar voltada para a memorização, não pode mais trabalhar
com conhecimentos fragmentados. A terceira revolução tecnológica
proporciona o acesso a uma quantidade fantástica de informações
de forma rápida e eficiente. Não seria mais necessário, por isso,
ficar armazenando uma grande quantidade de informações no cérebro
dos alunos, desde que estamos vivendo a era do acesso fácil a
informações. Temos os sites de busca que nos proporcionam as
informações que precisamos em poucos segundos. Temos os discos de
CD e de DVD que podem guardar milhares de imagens e milhares de páginas
de textos. Temos uma grande quantidade de livros à disposição na
Internet sem precisar pagar nada. Podemos adquirir um disco de CD
com as obras completas do Freud, que ocupam 2 metros nas estantes
das bibliotecas, por um preço irrisório.
De
acordo com o MEC e com os pareceres do Conselho Nacional da Educação,
na era da revolução da informação, num contexto de transformações
extremamente rápidas, a escola deve assumir uma nova função,
adequando-se aos novos tempos. Não pode permanecer presa a concepções
de ensino que vêm sendo mantidas desde a Idade Média.
Na
reforma do Ensino Médio instituída pelo governo FHC, o currículo
passou a ser orientado para o desenvolvimento de competências básicas
e não mais concentrado, exclusivamente, na transmissão de conteúdos.
O
objetivo, agora, é possibilitar ao aluno aprender produzindo
conhecimento. Ou seja, permitir ao aluno aprender
a aprender. Deste modo, a escola desenvolveria no aluno a
autonomia necessária para ele continuar aprendendo sozinho, fora da
escola, durante a vida toda. Este objetivo seria justificado pelo
fato de o progresso científico e tecnológico, as transformações
dos processos de produção, as mudanças na sociedade e nas relações
internacionais estarem assumindo uma velocidade fenomenal.
De
fato, o conhecimento produzido pelas Ciências Humanas, pelas Ciências
da Natureza e pelas Ciências Exatas está sendo superado muito
rapidamente. Quando fiz o curso de graduação em Ciências Sociais,
a crença predominante era que a ditadura do proletariado constituía
a salvação da humanidade. Muitas idéias de Marx eram postas como
verdades absolutas. Depois de alguns anos, com o colapso do
socialismo, com a revolução tecnológica, tudo o que parecia sólido
se desmanchou como fumaça no ar.
Com
isso, não estou defendendo o abandono dos textos clássicos. Os
alunos das Ciências Humanas devem, sim, continuar estudando as
obras dos pensadores consagrados porque não devemos ficar
reinventando continuamente a roda. Todavia, existem duas formas
deles conhecerem essas obras. A primeira seria uma doação feita
pelo professor através de aulas que expõem a interpretação dada
por ele à obra dos autores clássicos. Nessa forma de ensino, o
aluno só vai aproveitar as explicações do professor se ele tiver
tempo e se for bastante pressionado pelo sistema de avaliação para
ler e reler os textos em casa, com cuidado. O aluno deve trabalhar
estes textos fazendo monografias ou apresentando seminários. Caso
contrário, não ficará conhecendo, mesmo que superficialmente, a
obra dos autores que leu.
As
transformações revolucionárias que estamos presenciando exigem
dos alunos o desenvolvimento da capacidade de aprender e continuar
aprendendo para poderem enfrentar essa realidade. Exigem, sobretudo,
o desenvolvimento da flexibilidade mental para poderem se adequar às
mudanças. Trata-se, portanto, de desenvolver certas competências e
habilidades e não mais armazenar conhecimentos como alguns países
armazenavam moedas metálicas no período mercantilista sustentados
por princípios da ciência econômica que imaginavam a equivalência
entre dinheiro e riqueza.
Em
suma, a reforma do Ensino Médio estipulou que os conteúdos
curriculares deixam de constituir fins
em si mesmos e passam a ser simples meios
para desenvolver nos alunos a capacidade de aprenderem sozinhos.
Quanto mais pronto é o conhecimento que lhes chega, menos estariam
desenvolvendo a própria capacidade de buscar esses conhecimentos,
de aprender a aprender. Logo, precisaria ser feito um enxugamento do
currículo enciclopédico, congestionado de informações, e seria
necessário adotar estratégias de ensino diversificadas que
mobilizassem menos a memória e mais o raciocínio dos alunos.
Quais
competências os alunos deveriam desenvolver para poderem enfrentar
o mundo em estado de convulsão? O Ensino Médio deveria promover
nos alunos as capacidades de pesquisar, buscar informações,
analisar e classificar as informações. Deveria desenvolver a
capacidade de abstração, o pensamento sistêmico, ao contrário da
compreensão parcial e fragmentada dos fenômenos. Deveria
desenvolver a criatividade, a curiosidade, a capacidade de pensar múltiplas
alternativas para a solução de um problema. Deveria desenvolver o
pensamento crítico, o saber comunicar-se, a capacidade de buscar
conhecimento. Deveria
desenvolver a habilidade de trabalhar em equipe, a disposição para
o risco e admissão de críticas. Os alunos deveriam aprender a
pensar, aprender a relacionar o conhecimento com os dados da experiência
cotidiana, a dar significado ao aprendido e a captar o significado
do mundo, a fazer a ponte entre a teoria e a prática, a fundamentar
a crítica, a argumentar com base em fatos, a lidar com os
sentimentos que a aprendizagem desperta. Propõe-se uma escola que
incentive a imaginação criativa, favoreça a iniciativa, a
espontaneidade, o questionamento e a inventividade, que promova e
vivencie a cooperação, o diálogo, a partilha e a solidariedade.
A
formação para o novo mundo do trabalho
Um
dos objetivos da reforma seria adequar o ensino a um mundo do
trabalho que sofreu e que continua sofrendo transformações
importantes.
Estamos
tendo o privilégio de viver numa época de mudanças revolucionárias
nas forças produtivas da humanidade. O conjunto de transformações
que estamos presenciando vem sendo denominado de Terceira Revolução
Tecnológica. O mundo do trabalho sofre os efeitos dessa fantástica
revolução tecnológica. Sem entrar em muitos detalhes, o modelo de
produção fabril baseado nos princípios do fordismo e do
taylorismo vem sendo superado há algumas décadas. Os operários
dentro das fábricas, e dentro de empresas, estão deixando de ser
simples cumpridores das tarefas determinadas pelos seus chefes.
Passaram a participar de discussões e decisões para melhorar os
resultados de seus trabalhos em termos de produtividade e qualidade
final dos produtos e serviços.
Aquele
operário retratado por Charles Chaplin no filme Tempos Modernos passou por profundas transformações. Ele não é
mais um simples peão, não precisa de chefes para desempenhar bem
suas funções, discute com seus colegas e toma decisões
relacionadas ao seu trabalho cotidiano a fim de melhorar a
produtividade e a qualidade dos produtos.
O
modelo de exploração da força de trabalho tornou-se, por isso,
mais eficaz. Hoje, a empresa não compra apenas a capacidade física
e mental do trabalhador, mas compra também a sua alma. O
trabalhador precisa estar preparado para engajar-se na luta pela
conquista dos objetivos da empresa.
Em
síntese, o trabalhador, hoje, nas empresas vinculadas ao mercado
globalizado, não é mais um simples cumpridor de tarefas ditadas
pelos chefes. Ele precisa saber analisar uma situação, detectar
problemas, ter iniciativa, precisa ser criativo, saber trabalhar em
equipe, precisa saber tomar decisões e ter disposição para
colaborar na conquista dos objetivos da empresa. Ou seja, o mundo do
trabalho requer uma escola que forme trabalhadores capazes de
assumir compromissos e habituados à cumplicidade.
As
empresas necessitam, enfim, de uma força de trabalho diferente
daquela que a escola vinha formando através do ensino tradicional.
A escola antiga preparava as crianças e os jovens para a disciplina
exigida pelo trabalho mecânico, repetitivo e rotineiro das linhas
de produção das fábricas. Ensinava os alunos a acatarem ordens,
castrando o seu espírito de iniciativa. Ensinava a competir, sem
desenvolver a capacidade de cooperar e trabalhar em equipe. Ensinava
a cumprir tarefas por obrigação, não instigava os alunos a
aprenderem pela motivação própria da conquista de conhecimento,
pelo prazer da descoberta, pelo prazer da conquista de objetivos
através do trabalho de equipe.
A
Escola de Rock mostra muito bem o tipo de formação exigido pelo
novo mundo do trabalho.
A
crise estrutural do capitalismo
O
processo de transformações revolucionárias que estamos vivendo é
complexo porque além das profundas mudanças tecnológicas, vem
sendo acompanhado por uma crise estrutural do capitalismo.
Todos
sabem que o modo de produção capitalista é revolucionário devido
à sua capacidade de transformar tudo de forma constante e radical.
E, também, devido à sua fantástica capacidade de produzir
riquezas.
Entretanto,
o capitalismo é contraditório porque não consegue distribuir os
frutos do progresso econômico. Pelo contrário, concentra cada vez
mais a riqueza gerada pelo trabalho coletivo.
Com
o conhecimento e as tecnologias de produção que temos hoje, já
seria possível acabar com a fome e a miséria no mundo. E isso com
todo mundo trabalhando algumas poucas horas por semana para fazer o
trabalho essencial da sociedade que é produzir alimentos, vestuário,
construir casas, cuidar da saúde e da educação, da coleta de
lixo, da manutenção das vias públicas etc.
Isso
tudo seria possível se o regime de propriedade dos meios de produção
fosse outro. Na forma de divisão do trabalho e distribuição da
riqueza instituída em sociedades de classe, sobretudo no
capitalismo, o número de pessoas sem emprego aumenta cada vez mais.
E sem emprego, bilhões de habitantes do planeta não podem consumir
o que a sociedade tornou-se capaz de produzir graças aos progressos
fantásticos da ciência e da tecnologia.
A
preocupação das Elites Internacionais
As
elites internacionais estão bastantes cientes dos impasses atuais
do capitalismo. O Banco Mundial, por exemplo, começou a exigir dos
governos nacionais que dependem de seu financiamento uma preocupação
maior com as questões sociais. A Organização das Nações Unidas
vem cobrando dos países membros a redução das desigualdades
sociais bem como a eliminação da pobreza. A ONU constata que as
desigualdades estão aumentando no mundo todo.
Desde
a crise dos anos 70, as políticas neoliberais têm se firmado tanto
em países desenvolvidos como em países considerados em
desenvolvimento, como o Brasil, a Argentina e o México. A globalização
vem acentuando o predomínio da lógica do capital, sobretudo do
capital financeiro, em detrimento das políticas sociais do Estado
de Bem Estar. Se os governantes não reduzirem impostos e se não
flexibilizarem a legislação, correm o risco da fuga de capitais
que pode ser desastrosa para o país por agravar o problema do
desemprego. Nesse contexto, apesar das preocupações manifestadas
pela ONU, pelo Banco Mundial e pelas organizações da sociedade
civil de caráter humanitário, a miséria vem aumentando na face do
planeta.
O
grande problema da era da globalização é que o Estado de Bem
Estar Social está falido mesmo nos países desenvolvidos. A crise
fiscal inviabilizou, da mesma forma, as políticas keynesianas de
pleno emprego. A mundialização do mercado agravou ainda mais essa
crise. Como os governos nacionais são forçados a flexibilizar a
legislação trabalhista, a crise social se torna mais perigosa
ainda.
Enfim,
as transformações revolucionárias que estamos presenciando são
preocupantes para as elites dominantes porque contribui enormemente
para a piora da crise social. As inovações tecnológicas, como a
informatização e a robótica, têm contribuído para aumentar o
desemprego. O crescimento econômico não gera mais postos de
trabalho, concorre para a diminuição do número de horas de
trabalho e, principalmente, para a diminuição de oportunidades
para o trabalho não qualificado. O aumento da exclusão e das
desigualdades numa sociedade que estimula o consumo compromete os
processos de solidariedade e coesão social. As conseqüências são
a violência, o aumento do preconceito e da intolerância.
Diante
dessa realidade, as elites internacionais sabem que não podem tomar
a atitude que a rainha Maria Antonieta tomou, às vésperas da
Revolução Francesa, ao ser notificada que o povo estava passando
fome e em estado de desespero.
As
elites sabem que as contradições do capitalismo podem fazer o
sistema econômico e financeiro desmoronar como um castelo de
cartas. Nesse caso, as guerras poderiam tornar-se necessárias para
o reequilíbrio do sistema, mas, por outro lado, poderiam fazer
pipocar revoluções sociais no mundo todo da mesma forma como
ocorreu durante e após a 1ª e 2ª guerras mundiais.
Levando-se
tudo isso em consideração, as dívidas dos países pobres vêm
sendo perdoadas. O capital financeiro internacional não fez muito
escândalo quando a Argentina decidiu, de forma unilateral, que só
iria pagar uma parte pequena da sua dívida externa. Só o Brasil
continua sendo mais realista que os próprios países credores
convivendo com a miséria acarretada pelo pagamento, sem fim, da dívida
externa.
Um
dos paliativos apontados pelo Banco Mundial para amenizar a crise
estrutural do capitalismo foi a reforma do ensino básico. De acordo
com a UNESCO, a educação deve passar a ser encarada como meio de
produzir um desenvolvimento mais harmonioso, mais autêntico, de
modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, o sentimento de
injustiça e de revolta.
No
Brasil, a reforma do Ensino Médio teve uma preocupação especial
com a exclusão social. O sistema de ensino anterior estava
contribuindo para reproduzir esta situação de exclusão. De cada
100 alunos que se matriculavam no Ensino Médio, só 16 estavam
concluindo o curso. Nesse caso, em lugar de formar cidadãos, a
escola estava contribuindo para aumentar a exclusão social.
A
Unesco propõe que na sociedade contemporânea a educação deve
levar o aluno a aprender por prazer e não por obrigação.
O aluno deve sentir o prazer de compreender, de conhecer, de
descobrir. Dessa forma, a escola deverá re-despertar a curiosidade
natural dos alunos eliminando a repetição e a padronização,
estimulando a criatividade, o espírito inventivo e a afetividade
valorizando a qualidade, a delicadeza, a sutileza, as formas lúdicas
e alegóricas de conhecer o mundo.
A
missão fundamental da educação consistiria em ajudar cada indivíduo
a desenvolver todo o seu potencial e a tornar-se um ser humano
completo, e não um mero instrumento da economia. A aquisição de
conhecimentos e o desenvolvimento de competências deveriam resultar
na educação do caráter, na abertura cultural e no despertar da
responsabilidade social.
Diante
da violência, do desemprego e da vertiginosa substituição tecnológica,
espera-se que a escola contribua para a formação de pessoas mais
aptas a assimilar mudanças, mais autônomas em suas escolhas, mais
solidárias, que acolham e respeitem as diferenças, pratiquem a
solidariedade e superem a segmentação social.
A
reforma do ensino deve receber o apoio dos professores?
É
do interesse da sociedade civil a execução da reforma do ensino
exigida pelo Banco Mundial e formulada pelo governo FHC?
Não
seria o novo projeto pedagógico do ensino básico mais
interessante, politicamente, do que o anterior cuja finalidade era a
formação de mão-de-obra adequada ao modelo fordista de organização
da fábrica? Não seria mais interessante, politicamente, uma escola
que se propõe a desenvolver a autonomia dos jovens do que aquela
dirigida para uma vigorosa disciplina do corpo e da mente tendo por
finalidade formar trabalhadores que não precisam refletir e que são
condicionados a respeitar a hierarquia obedecendo a ordens sem
qualquer questionamento?
Hoje,
as fábricas estão exigindo trabalhadores com autonomia, que sejam
criativos, que tenham iniciativa e capacidade de tomar decisões. E
as elites dominantes querem escolas que desenvolvam seres humanos
sensíveis, pessoas com uma individualidade bem constituída, com
formação humanística e para o exercício da cidadania. Ou seja,
querem cidadãos conscientes, que não ajam como massa social
revolucionária ou massa de manobra de líderes totalitários.
O
contexto histórico está possibilitando a construção de uma
escola voltada para o desenvolvimento pleno do ser humano. As elites
precisam de profissionais capazes de pensar, cooperar e tomar decisões
dentro de suas empresas. E, temendo a revolução social, as elites
querem uma escola capaz de formar cidadãos responsáveis,
humanizados e civilizados e não seres humanos robotizados,
condicionados a obedecer cegamente, com potencial para agir como
bestas selvagens em situações de crise social grave.
Considerações
finais
Além
de mostrar o tipo de ensino adequado às necessidades atuais das
empresas, bem como aos interesses das elites cientes das conseqüências
catastróficas da crise estrutural do capitalismo, Escola de Rock
nos indica de que forma o método pedagógico que apresenta poderia
desarmar a bomba social planetária.
O
método de ensino adotado pelo falso professor possibilita aos
alunos a conquista do sentimento de realização através de uma
atividade que exige criação
e solidariedade. Podemos notar no filme que as crianças se
transfiguram quando se sentem realizadas vendo os resultados do
trabalho realizado coletivamente.
Do
ponto de vista marxista, o ser humano se realiza ontologicamente
através do trabalho não alienado, isto é, do trabalho de criação
cultural, sobretudo artístico. Para alguns marxistas, uma outra
forma de as pessoas se sentirem realizadas é através de relações
sociais não alienadas, ou seja, relações sociais orientadas pela
afetividade, pela solidariedade, pela amizade sincera, pelo amor à
humanidade e não pela competitividade e pela lei da selva impostas
pelos princípios utilitaristas de mercado. No filme Escola de Rock,
em lugar de competir para ver quem tirava a nota mais alta, os
alunos foram obrigados a cooperar para fazerem um trabalho bonito,
gratificante e emocionante.
Em
suma, a melhor forma de tentar evitar uma explosão social de proporções
planetárias é oferecer às pessoas a oportunidade de se sentirem
gratificadas através de relações sociais de tipo comunitário e
através do trabalho de criação artística e cultural.
Um
ser humano que se sentisse verdadeiramente realizado
deixaria de sentir a necessidade de consumir para preencher o vazio
ontológico produzido pelo trabalho e pelas relações sociais
alienadas.
À
massa de excluídos das relações de mercado poderia ser oferecido
o direito de viver em comunidades ordenadas por princípios
diferentes daqueles estabelecidos pelo capitalismo. Ou seja,
comunidades sem propriedade privada dos meios de produção, sem
divisão do trabalho, sem divisão social do trabalho, semelhantes
às fazendas kibutzim de
Israel. Dessa forma, as pessoas ficariam livres da alienação
produzida pela mercantilização do mundo, pela lógica totalitária
do capital, livres da alienação do trabalho e da alienação das
relações sociais. Não seria necessário um Estado e um Direito
para garantir a ordem. A ordem comunitária nasceria espontaneamente
do sentimento de realização de todos.
As
pessoas não necessitariam, também, se drogarem para tentar escapar
do vazio ontológico-existencial que lhes é imposto pela sociedade
mercantilizada. E, não sentindo mais a necessidade de consumir para
preencher este vazio, as pessoas se sentiriam humanas e felizes
vivendo de forma muito simples. Como salientou a personagem central
do filme A festa de Babete,
um artista nunca se sente pobre. Enfim, o Estado não precisaria
mais gastar recursos preciosos no combate à violência e ao crime
organizado.
Se
as elites dominantes estão necessitando de seres humanos que não
se sintam frustrados, se elas querem escolas que façam os alunos se
sentirem realizados como seres humanos, por que não aproveitar essa
oportunidade histórica favorável ao projeto político progressista
e emancipacionista? Se querem nos conceder os anéis para não
perderem os dedos, por que não aceitar a oferta?
Permitindo
à população marginalizada do planeta viver de atividades artísticas
e de relações sociais não alienadas, as classes dominantes não
precisariam mais se preocupar com a explosão da bomba social. No
meu caso particular, gostaria de me readaptar para ensinar numa
Escola Comunitária de Arte. Junto com os meus alunos, ficaria
produzindo literatura, poesia, música, cinema e teatro, sem
qualquer tipo de controle burocrático.
O
único risco para o sistema capitalista seria uma emigração em
massa para as comunidades alternativas como forma de se escapar do
vazio existencial, da necessidade de adrenalina, cocaína e álcool.
Aí o sistema poderia quebrar.
Existe,
ainda, um outro grande problema. Todos aqueles que já trabalharam
dentro de escolas sabem que não adianta reformar a legislação do
ensino se não for desmontada toda a estrutura do antigo sistema.
Trata-se de uma estrutura monstruosa, talvez até mais sólida do
que a da Igreja Católica. Além disso, os professores precisariam
passar por uma profunda reciclagem e receber incentivos concretos
para abandonarem todo o material que já produziram para subsidiar
as suas aulas. Os professores precisariam jogar fora milhares de
horas de suas vidas dedicadas ao preparo de aulas, dedicadas à sua
qualificação profissional, para começar tudo de novo, do zero.
Precisariam reassumir a mentalidade de recém-formados, a mesma
condição de Dewey Finn. A diretora do Colégio Horace Green
precisaria voltar a ser alegre e divertida. Precisaria abandonar as
feições de bruxa que o sistema de ensino, de forma perversa e
cruel, lhe infundiu.
A
reforma de ensino proposta pelo MEC, se aplicada rigorosamente, sem
que estas mudanças sejam efetuadas, pode transformar a escola num
circo e produzir um estado de anomia monumental. Pode melar tudo. O
resultado pode ser catastrófico porque o estado de anomia faz tudo
perder significado. O que seria da escola se o trabalho dos
professores perdesse sentido tanto para eles como para os alunos?
Nem gosto de pensar nisso...
O
método de ensino tradicional tem suas virtudes. Qualquer trabalho,
mesmo não alienado, — inclusive o intelectual e artístico —,
requer muita disciplina. Por isso, as mudanças propostas pela
reforma do ensino exigem educadores sérios, com formação teórica
sólida, bem motivados profissionalmente, dispostos a encarar
desafios. Caso contrário, a reforma pode acarretar a implementação,
dentro das salas de aula, de técnicas de ensino sem nenhuma
fundamentação teórica mais consistente. Aí, sim, seria enrolação
na verdadeira acepção da palavra.
O
Projeto Banda de Rock, apresentado no filme, além de estar apoiado
em concepções pedagógicas sólidas, pode ser vinculado,
inclusive, a concepções de natureza humana e de desalienação
sugeridas pelo marxismo. Ou seja, foi realizado a partir de
fundamentos teóricos sérios. Não se trata de nenhuma brincadeira
inconseqüente realizada por um professor pedagogicamente
despreparado. Mesmo que o filme transmita essa impressão.
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