Por NILSON NOBUAKI YAMAUTI

Professor do Departamento de Ciências Sociais (Universidade Estadual de Maringá) e Doutor em Ciência Política (USP)

 

Escola de Rock: 

a bomba social e a reforma do ensino

 

O filme Escola de Rock não apresenta grandes pretensões em termos estéticos. Sua finalidade mais importante é de ordem comercial.  Quer atender às necessidades de entretenimento da grande massa de consumidores de produtos culturais de fácil assimilação, tipo fast food, sem querer despertar reflexões mais profundas, sem desejar produzir emoções estéticas mais genuínas.

Para aqueles que estão envolvidos de alguma forma com questões pedagógicas, Escola de Rock pode servir como suporte para a discussão da reforma de ensino realizada no Brasil durante o governo FHC.

Análise do filme

Dewey Finn, roqueiro desempregado, expulso de sua banda durante os ensaios para um concurso de rock, precisando de dinheiro, resolve aceitar a substituição de uma professora em uma escola particular, mesmo sem ter licença para lecionar, assumindo a identidade de um amigo que possui esta licença.

A diretora diz a Dewey que Horace Green é o melhor Colégio do Estado e que conquistou essa posição graças a um rigoroso código de disciplina que se estende, inclusive, ao corpo docente. A anuidade da escola é de 15 mil dólares, cerca de 3.000,00 reais por mês. Ela pressiona Dewey a seguir o programa curricular cientificando-o de que a Escola não admite métodos experimentais. Os professores precisam explicar, em reuniões realizadas periodicamente com os pais, o que eles estão ensinando aos filhos.

Depois de espiar a aula de música que estava sendo ministrada a seus alunos, o falso professor decide trabalhar na sala de aula com aquilo que fornecia todo o sentido para a sua vida. Anuncia aos alunos a intenção de formar uma banda com eles para tentar vencer um concurso de rock. Ele denomina a atividade de Projeto Banda de Rock. Sem saber, ele começa a aplicar o método de ensino conhecido como Pedagogia de Projetos.

O ensino baseado na Pedagogia de Projetos consiste na resolução de uma situação-problema. Valoriza a participação ativa dos alunos no processo ensino-aprendizagem. Espera-se que os Projetos de Trabalho contribuam para a formação de indivíduos ativos, reflexivos, atuantes e participantes, com espírito de iniciativa e autonomia. Os alunos se sentem valorizados na medida em que têm a oportunidade de opinar, debater e decidir sobre o encaminhamento do projeto. A partir daí, tornando-se sujeito ativo do processo, ele se sente comprometido com a sua aprendizagem. Com este método, desenvolve-se a capacidade dos alunos de trabalharem em equipe, a capacidade de tomarem decisões, de formularem e resolverem problemas. Enfim, a Pedagogia dos Projetos desenvolve nos alunos a habilidade de aprender a aprender.

No refeitório, ao discutir com um professor sobre a validade da aplicação de testes de avaliação, Dewey cita a letra de uma música: “Vamos deixar o riso das crianças lembrar-nos de como costumávamos ser”. Na sala de aula, furiosamente, ele arranca da parede e amassa com as mãos a tabela de pontos positivos e negativos de cada aluno organizada pela professora afastada.  O filme faz uma crítica explícita ao sistema de avaliação, pilar do ensino tradicional, que acaba, muitas vezes, castrando a criatividade e robotizando os alunos, transformando-os em meros cumpridores burocráticos de tarefas escolares.

Ao adotar o método, o falso professor descobriu uma forma de livrar-se da rotina das aulas convencionais. Um dos alunos pergunta a ele: “Vamos ficar enrolando todos os dias?” Ou seja, para os alunos, e também para os pais, ensino significa transmissão de conteúdos realizada por um professor que desenvolveu competência especial para isso. Os pais dos alunos irão pressionar Dewey pelo fato dele não estar cumprindo o programa curricular. Desenvolver competências e habilidades nos alunos é considerado uma embromação.

Durante a execução do projeto, Summer, a aluna mais aplicada da turma, diz a Dewey que fez uma pesquisa na Internet para saber qual era a função de fãs de bandas de rock. Ou seja, o filme mostra que o professor não precisa entregar-se, de forma exaustiva, ao papel de transmitir informações. Os próprios alunos podem ir atrás delas. Aplicando o método, Dewey nem percebe que está sendo um ótimo professor porque acha que está apenas se divertindo junto com os alunos.

Quando Dewey começa a ensinar os alunos a tocarem músicas de rock, percebe que eles estão com suas mentes e corpos bastante enrijecidos. Ele canta uma música criticando o método de ensino tradicional: “Se eu fizer tudo o que você quer. Vou virar um robô. Tarefas todo dia. Sem poder nem reclamar”.

No transcurso do projeto, as crianças criam, elas próprias, a coreografia, o figurino, o nome e o logotipo da banda, as imagens de computação gráfica. Dewey ensina os alunos a assumirem uma postura ativa diante da realidade, ensina-os a serem críticos, a desafiarem o sistema de ensino, a não se conformarem.

Zack, um dos alunos, aparece no início do filme revelando falta de auto-estima, falta de vontade própria. Vive desanimado, porque só fazia o que o pai e a professora lhe ordenavam. Ou seja, estava atolado na passividade e no conformismo. O pai o proibia de fazer o que ele mais gostava que era tocar violão. Rock e guitarra, então, nem pensar.

O método de ensino adotado pelo falso professor provoca em Zack um choque mental e uma sensível mudança em sua fisionomia. No horário de almoço, no refeitório, ele vai contar a Dewey: “Professor, achei a sua lição incrível!”. Zack revela que estava deixando de ser um zumbi, demonstra que estava resgatando a sua alma. Dewey, por sua vez, fica orgulhoso ao ser elogiado pelo aluno diante de professores de verdade.

Durante a implementação do projeto, os demais alunos se transfiguram também, manifestando motivação, vivacidade, espírito criativo. Eles tornam-se cúmplices do processo de ensino-aprendizagem.

Submetido ao descondicionamento, Zack acaba compondo uma música. Ou seja, assume uma postura ativa diante da realidade representando-a esteticamente para criticá-la. Marx diria que Zack, na medida em que assume a condição de sujeito com potencial para recriar o seu mundo, vai se transformando a si mesmo. Ao assumir a postura de criador, Zach renasce espiritualmente, resgata a alma que havia sido apagada pelo controle e pela disciplina burocratizante do ensino tradicional. Uma parte da letra da música por ele composta, dirigida à professora substituída por Dewey, diz o seguinte:

“Querida, sempre tiramos 10

Mas estamos ficando bitolados

Não é difícil decorar suas mentiras

Parece que estou hipnotizado

 

Foi quando um feiticeiro chegou na cidade

E ele virou a minha cabeça

Ele disse que o intervalo era a aula

E dois e dois eram cinco

 

E agora, querida, sinto-me vivo

É isso

Estou vivo.

 

Uma outra parte da letra exprime os sentimentos de Summer, a aluna mais aplicada da classe:

Você sabe que eu era a melhor aluna

Com boas notas mas sem alma

Levantei a mão para dizer o que penso

Eu já fiquei calada demais

 

E então o feiticeiro levou você embora

Faça o que o feiticeiro faz

Não o que o feiticeiro manda.

 

Os dois versos finais exprimem o princípio básico da Pedagogia de Projetos que é a autonomia que os alunos precisam exercer no processo de ensino-aprendizagem. Este princípio vai de encontro à idéia de Erich Fromm: ama o controle e mata a vida.

Summer fazia tudo motivada pelas notas e estrelinhas, só fazia o que a professora determinava. Durante a execução do Projeto, ela descobre um meio de conseguir a inscrição da banda no concurso de rock, a qual havia sido recusada pelos organizadores do evento. Ao ser elogiada por Dewey, ela assinala toda satisfeita: “Não fiz aquilo por nota”. Ela estava, também, sofrendo um processo de descondicionamento e, nisso, transborda de felicidade porque começava a fazer as coisas por prazer, por vontade própria, e não mais por obrigação.

Dewey também se sente realizado e feliz porque estava fazendo o que gostava. Nunca havia dado aulas e revela uma grande virtude: sabe elevar a auto-estima de cada jovem, ao contrário dos pais e do Colégio que estavam massacrando-os, incutindo neles a passividade, o sentimento do dever, o sentimento de incapacidade. Dewey descobre o talento especial de cada um dos alunos, levando em conta a sua individualidade.

Enfim, no processo de transfiguração, as crianças aprendem a ter iniciativa, abandonam a postura conformada diante das situações às quais estavam submetidas.

A reforma de ensino no Brasil

A proposta pedagógica apresentada no filme Escola de Rock expõe alguns princípios postulados pela reforma de ensino instituída no governo FHC.

Seguindo as orientações de organismos multilaterais como o Banco Mundial e a Unesco, o governo brasileiro aprovou, em 1996, a nova Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional. E, em 1998, o MEC instituiu as novas Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio.

No sistema anterior, o Ensino Médio tinha como um dos objetivos a formação de trabalhadores disciplinados, habituados a respeitar a hierarquia e as regras institucionalmente estabelecidas. Os alunos ficavam envolvidos, muitas vezes, em tarefas rotineiras e repetitivas, executadas de forma mecânica.

As novas diretrizes curriculares estabelecem que a escola não pode mais ficar voltada para a memorização, não pode mais trabalhar com conhecimentos fragmentados. A terceira revolução tecnológica proporciona o acesso a uma quantidade fantástica de informações de forma rápida e eficiente. Não seria mais necessário, por isso, ficar armazenando uma grande quantidade de informações no cérebro dos alunos, desde que estamos vivendo a era do acesso fácil a informações. Temos os sites de busca que nos proporcionam as informações que precisamos em poucos segundos. Temos os discos de CD e de DVD que podem guardar milhares de imagens e milhares de páginas de textos. Temos uma grande quantidade de livros à disposição na Internet sem precisar pagar nada. Podemos adquirir um disco de CD com as obras completas do Freud, que ocupam 2 metros nas estantes das bibliotecas, por um preço irrisório.

De acordo com o MEC e com os pareceres do Conselho Nacional da Educação, na era da revolução da informação, num contexto de transformações extremamente rápidas, a escola deve assumir uma nova função, adequando-se aos novos tempos. Não pode permanecer presa a concepções de ensino que vêm sendo mantidas desde a Idade Média.

Na reforma do Ensino Médio instituída pelo governo FHC, o currículo passou a ser orientado para o desenvolvimento de competências básicas e não mais concentrado, exclusivamente, na transmissão de conteúdos.

O objetivo, agora, é possibilitar ao aluno aprender produzindo conhecimento. Ou seja, permitir ao aluno aprender a aprender. Deste modo, a escola desenvolveria no aluno a autonomia necessária para ele continuar aprendendo sozinho, fora da escola, durante a vida toda. Este objetivo seria justificado pelo fato de o progresso científico e tecnológico, as transformações dos processos de produção, as mudanças na sociedade e nas relações internacionais estarem assumindo uma velocidade fenomenal.

De fato, o conhecimento produzido pelas Ciências Humanas, pelas Ciências da Natureza e pelas Ciências Exatas está sendo superado muito rapidamente. Quando fiz o curso de graduação em Ciências Sociais, a crença predominante era que a ditadura do proletariado constituía a salvação da humanidade. Muitas idéias de Marx eram postas como verdades absolutas. Depois de alguns anos, com o colapso do socialismo, com a revolução tecnológica, tudo o que parecia sólido se desmanchou como fumaça no ar.

Com isso, não estou defendendo o abandono dos textos clássicos. Os alunos das Ciências Humanas devem, sim, continuar estudando as obras dos pensadores consagrados porque não devemos ficar reinventando continuamente a roda. Todavia, existem duas formas deles conhecerem essas obras. A primeira seria uma doação feita pelo professor através de aulas que expõem a interpretação dada por ele à obra dos autores clássicos. Nessa forma de ensino, o aluno só vai aproveitar as explicações do professor se ele tiver tempo e se for bastante pressionado pelo sistema de avaliação para ler e reler os textos em casa, com cuidado. O aluno deve trabalhar estes textos fazendo monografias ou apresentando seminários. Caso contrário, não ficará conhecendo, mesmo que superficialmente, a obra dos autores que leu.

As transformações revolucionárias que estamos presenciando exigem dos alunos o desenvolvimento da capacidade de aprender e continuar aprendendo para poderem enfrentar essa realidade. Exigem, sobretudo, o desenvolvimento da flexibilidade mental para poderem se adequar às mudanças. Trata-se, portanto, de desenvolver certas competências e habilidades e não mais armazenar conhecimentos como alguns países armazenavam moedas metálicas no período mercantilista sustentados por princípios da ciência econômica que imaginavam a equivalência entre dinheiro e riqueza.

Em suma, a reforma do Ensino Médio estipulou que os conteúdos curriculares deixam de constituir fins em si mesmos e passam a ser simples meios para desenvolver nos alunos a capacidade de aprenderem sozinhos. Quanto mais pronto é o conhecimento que lhes chega, menos estariam desenvolvendo a própria capacidade de buscar esses conhecimentos, de aprender a aprender. Logo, precisaria ser feito um enxugamento do currículo enciclopédico, congestionado de informações, e seria necessário adotar estratégias de ensino diversificadas que mobilizassem menos a memória e mais o raciocínio dos alunos.

Quais competências os alunos deveriam desenvolver para poderem enfrentar o mundo em estado de convulsão? O Ensino Médio deveria promover nos alunos as capacidades de pesquisar, buscar informações, analisar e classificar as informações. Deveria desenvolver a capacidade de abstração, o pensamento sistêmico, ao contrário da compreensão parcial e fragmentada dos fenômenos. Deveria desenvolver a criatividade, a curiosidade, a capacidade de pensar múltiplas alternativas para a solução de um problema. Deveria desenvolver o pensamento crítico, o saber comunicar-se, a capacidade de buscar conhecimento.  Deveria desenvolver a habilidade de trabalhar em equipe, a disposição para o risco e admissão de críticas. Os alunos deveriam aprender a pensar, aprender a relacionar o conhecimento com os dados da experiência cotidiana, a dar significado ao aprendido e a captar o significado do mundo, a fazer a ponte entre a teoria e a prática, a fundamentar a crítica, a argumentar com base em fatos, a lidar com os sentimentos que a aprendizagem desperta. Propõe-se uma escola que incentive a imaginação criativa, favoreça a iniciativa, a espontaneidade, o questionamento e a inventividade, que promova e vivencie a cooperação, o diálogo, a partilha e a solidariedade.

A formação para o novo mundo do trabalho

Um dos objetivos da reforma seria adequar o ensino a um mundo do trabalho que sofreu e que continua sofrendo transformações importantes.

Estamos tendo o privilégio de viver numa época de mudanças revolucionárias nas forças produtivas da humanidade. O conjunto de transformações que estamos presenciando vem sendo denominado de Terceira Revolução Tecnológica. O mundo do trabalho sofre os efeitos dessa fantástica revolução tecnológica. Sem entrar em muitos detalhes, o modelo de produção fabril baseado nos princípios do fordismo e do taylorismo vem sendo superado há algumas décadas. Os operários dentro das fábricas, e dentro de empresas, estão deixando de ser simples cumpridores das tarefas determinadas pelos seus chefes. Passaram a participar de discussões e decisões para melhorar os resultados de seus trabalhos em termos de produtividade e qualidade final dos produtos e serviços.

Aquele operário retratado por Charles Chaplin no filme Tempos Modernos passou por profundas transformações. Ele não é mais um simples peão, não precisa de chefes para desempenhar bem suas funções, discute com seus colegas e toma decisões relacionadas ao seu trabalho cotidiano a fim de melhorar a produtividade e a qualidade dos produtos.

O modelo de exploração da força de trabalho tornou-se, por isso, mais eficaz. Hoje, a empresa não compra apenas a capacidade física e mental do trabalhador, mas compra também a sua alma. O trabalhador precisa estar preparado para engajar-se na luta pela conquista dos objetivos da empresa.

Em síntese, o trabalhador, hoje, nas empresas vinculadas ao mercado globalizado, não é mais um simples cumpridor de tarefas ditadas pelos chefes. Ele precisa saber analisar uma situação, detectar problemas, ter iniciativa, precisa ser criativo, saber trabalhar em equipe, precisa saber tomar decisões e ter disposição para colaborar na conquista dos objetivos da empresa. Ou seja, o mundo do trabalho requer uma escola que forme trabalhadores capazes de assumir compromissos e habituados à cumplicidade.

As empresas necessitam, enfim, de uma força de trabalho diferente daquela que a escola vinha formando através do ensino tradicional. A escola antiga preparava as crianças e os jovens para a disciplina exigida pelo trabalho mecânico, repetitivo e rotineiro das linhas de produção das fábricas. Ensinava os alunos a acatarem ordens, castrando o seu espírito de iniciativa. Ensinava a competir, sem desenvolver a capacidade de cooperar e trabalhar em equipe. Ensinava a cumprir tarefas por obrigação, não instigava os alunos a aprenderem pela motivação própria da conquista de conhecimento, pelo prazer da descoberta, pelo prazer da conquista de objetivos através do trabalho de equipe.

A Escola de Rock mostra muito bem o tipo de formação exigido pelo novo mundo do trabalho.

A crise estrutural do capitalismo

O processo de transformações revolucionárias que estamos vivendo é complexo porque além das profundas mudanças tecnológicas, vem sendo acompanhado por uma crise estrutural do capitalismo.

Todos sabem que o modo de produção capitalista é revolucionário devido à sua capacidade de transformar tudo de forma constante e radical. E, também, devido à sua fantástica capacidade de produzir riquezas.

Entretanto, o capitalismo é contraditório porque não consegue distribuir os frutos do progresso econômico. Pelo contrário, concentra cada vez mais a riqueza gerada pelo trabalho coletivo.

Com o conhecimento e as tecnologias de produção que temos hoje, já seria possível acabar com a fome e a miséria no mundo. E isso com todo mundo trabalhando algumas poucas horas por semana para fazer o trabalho essencial da sociedade que é produzir alimentos, vestuário, construir casas, cuidar da saúde e da educação, da coleta de lixo, da manutenção das vias públicas etc.

Isso tudo seria possível se o regime de propriedade dos meios de produção fosse outro. Na forma de divisão do trabalho e distribuição da riqueza instituída em sociedades de classe, sobretudo no capitalismo, o número de pessoas sem emprego aumenta cada vez mais. E sem emprego, bilhões de habitantes do planeta não podem consumir o que a sociedade tornou-se capaz de produzir graças aos progressos fantásticos da ciência e da tecnologia.

A preocupação das Elites Internacionais

As elites internacionais estão bastantes cientes dos impasses atuais do capitalismo. O Banco Mundial, por exemplo, começou a exigir dos governos nacionais que dependem de seu financiamento uma preocupação maior com as questões sociais. A Organização das Nações Unidas vem cobrando dos países membros a redução das desigualdades sociais bem como a eliminação da pobreza. A ONU constata que as desigualdades estão aumentando no mundo todo.

Desde a crise dos anos 70, as políticas neoliberais têm se firmado tanto em países desenvolvidos como em países considerados em desenvolvimento, como o Brasil, a Argentina e o México. A globalização vem acentuando o predomínio da lógica do capital, sobretudo do capital financeiro, em detrimento das políticas sociais do Estado de Bem Estar. Se os governantes não reduzirem impostos e se não flexibilizarem a legislação, correm o risco da fuga de capitais que pode ser desastrosa para o país por agravar o problema do desemprego. Nesse contexto, apesar das preocupações manifestadas pela ONU, pelo Banco Mundial e pelas organizações da sociedade civil de caráter humanitário, a miséria vem aumentando na face do planeta.

O grande problema da era da globalização é que o Estado de Bem Estar Social está falido mesmo nos países desenvolvidos. A crise fiscal inviabilizou, da mesma forma, as políticas keynesianas de pleno emprego. A mundialização do mercado agravou ainda mais essa crise. Como os governos nacionais são forçados a flexibilizar a legislação trabalhista, a crise social se torna mais perigosa ainda.

Enfim, as transformações revolucionárias que estamos presenciando são preocupantes para as elites dominantes porque contribui enormemente para a piora da crise social. As inovações tecnológicas, como a informatização e a robótica, têm contribuído para aumentar o desemprego. O crescimento econômico não gera mais postos de trabalho, concorre para a diminuição do número de horas de trabalho e, principalmente, para a diminuição de oportunidades para o trabalho não qualificado. O aumento da exclusão e das desigualdades numa sociedade que estimula o consumo compromete os processos de solidariedade e coesão social. As conseqüências são a violência, o aumento do preconceito e da intolerância.

Diante dessa realidade, as elites internacionais sabem que não podem tomar a atitude que a rainha Maria Antonieta tomou, às vésperas da Revolução Francesa, ao ser notificada que o povo estava passando fome e em estado de desespero.

As elites sabem que as contradições do capitalismo podem fazer o sistema econômico e financeiro desmoronar como um castelo de cartas. Nesse caso, as guerras poderiam tornar-se necessárias para o reequilíbrio do sistema, mas, por outro lado, poderiam fazer pipocar revoluções sociais no mundo todo da mesma forma como ocorreu durante e após a 1ª e 2ª guerras mundiais.

Levando-se tudo isso em consideração, as dívidas dos países pobres vêm sendo perdoadas. O capital financeiro internacional não fez muito escândalo quando a Argentina decidiu, de forma unilateral, que só iria pagar uma parte pequena da sua dívida externa. Só o Brasil continua sendo mais realista que os próprios países credores convivendo com a miséria acarretada pelo pagamento, sem fim, da dívida externa.

Um dos paliativos apontados pelo Banco Mundial para amenizar a crise estrutural do capitalismo foi a reforma do ensino básico. De acordo com a UNESCO, a educação deve passar a ser encarada como meio de produzir um desenvolvimento mais harmonioso, mais autêntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, o sentimento de injustiça e de revolta.

No Brasil, a reforma do Ensino Médio teve uma preocupação especial com a exclusão social. O sistema de ensino anterior estava contribuindo para reproduzir esta situação de exclusão. De cada 100 alunos que se matriculavam no Ensino Médio, só 16 estavam concluindo o curso. Nesse caso, em lugar de formar cidadãos, a escola estava contribuindo para aumentar a exclusão social.

A Unesco propõe que na sociedade contemporânea a educação deve levar o aluno a aprender por prazer e não por obrigação.  O aluno deve sentir o prazer de compreender, de conhecer, de descobrir. Dessa forma, a escola deverá re-despertar a curiosidade natural dos alunos eliminando a repetição e a padronização, estimulando a criatividade, o espírito inventivo e a afetividade valorizando a qualidade, a delicadeza, a sutileza, as formas lúdicas e alegóricas de conhecer o mundo.

A missão fundamental da educação consistiria em ajudar cada indivíduo a desenvolver todo o seu potencial e a tornar-se um ser humano completo, e não um mero instrumento da economia. A aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento de competências deveriam resultar na educação do caráter, na abertura cultural e no despertar da responsabilidade social.

Diante da violência, do desemprego e da vertiginosa substituição tecnológica, espera-se que a escola contribua para a formação de pessoas mais aptas a assimilar mudanças, mais autônomas em suas escolhas, mais solidárias, que acolham e respeitem as diferenças, pratiquem a solidariedade e superem a segmentação social.

A reforma do ensino deve receber o apoio dos professores?

É do interesse da sociedade civil a execução da reforma do ensino exigida pelo Banco Mundial e formulada pelo governo FHC?

Não seria o novo projeto pedagógico do ensino básico mais interessante, politicamente, do que o anterior cuja finalidade era a formação de mão-de-obra adequada ao modelo fordista de organização da fábrica? Não seria mais interessante, politicamente, uma escola que se propõe a desenvolver a autonomia dos jovens do que aquela dirigida para uma vigorosa disciplina do corpo e da mente tendo por finalidade formar trabalhadores que não precisam refletir e que são condicionados a respeitar a hierarquia obedecendo a ordens sem qualquer questionamento?

Hoje, as fábricas estão exigindo trabalhadores com autonomia, que sejam criativos, que tenham iniciativa e capacidade de tomar decisões. E as elites dominantes querem escolas que desenvolvam seres humanos sensíveis, pessoas com uma individualidade bem constituída, com formação humanística e para o exercício da cidadania. Ou seja, querem cidadãos conscientes, que não ajam como massa social revolucionária ou massa de manobra de líderes totalitários.

O contexto histórico está possibilitando a construção de uma escola voltada para o desenvolvimento pleno do ser humano. As elites precisam de profissionais capazes de pensar, cooperar e tomar decisões dentro de suas empresas. E, temendo a revolução social, as elites querem uma escola capaz de formar cidadãos responsáveis, humanizados e civilizados e não seres humanos robotizados, condicionados a obedecer cegamente, com potencial para agir como bestas selvagens em situações de crise social grave.

Considerações finais

Além de mostrar o tipo de ensino adequado às necessidades atuais das empresas, bem como aos interesses das elites cientes das conseqüências catastróficas da crise estrutural do capitalismo, Escola de Rock nos indica de que forma o método pedagógico que apresenta poderia desarmar a bomba social planetária.

O método de ensino adotado pelo falso professor possibilita aos alunos a conquista do sentimento de realização através de uma atividade que exige criação e solidariedade. Podemos notar no filme que as crianças se transfiguram quando se sentem realizadas vendo os resultados do trabalho realizado coletivamente.

Do ponto de vista marxista, o ser humano se realiza ontologicamente através do trabalho não alienado, isto é, do trabalho de criação cultural, sobretudo artístico. Para alguns marxistas, uma outra forma de as pessoas se sentirem realizadas é através de relações sociais não alienadas, ou seja, relações sociais orientadas pela afetividade, pela solidariedade, pela amizade sincera, pelo amor à humanidade e não pela competitividade e pela lei da selva impostas pelos princípios utilitaristas de mercado. No filme Escola de Rock, em lugar de competir para ver quem tirava a nota mais alta, os alunos foram obrigados a cooperar para fazerem um trabalho bonito, gratificante e emocionante.

Em suma, a melhor forma de tentar evitar uma explosão social de proporções planetárias é oferecer às pessoas a oportunidade de se sentirem gratificadas através de relações sociais de tipo comunitário e através do trabalho de criação artística e cultural.

Um ser humano que se sentisse verdadeiramente realizado deixaria de sentir a necessidade de consumir para preencher o vazio ontológico produzido pelo trabalho e pelas relações sociais alienadas.

À massa de excluídos das relações de mercado poderia ser oferecido o direito de viver em comunidades ordenadas por princípios diferentes daqueles estabelecidos pelo capitalismo. Ou seja, comunidades sem propriedade privada dos meios de produção, sem divisão do trabalho, sem divisão social do trabalho, semelhantes às fazendas kibutzim de Israel. Dessa forma, as pessoas ficariam livres da alienação produzida pela mercantilização do mundo, pela lógica totalitária do capital, livres da alienação do trabalho e da alienação das relações sociais. Não seria necessário um Estado e um Direito para garantir a ordem. A ordem comunitária nasceria espontaneamente do sentimento de realização de todos.

As pessoas não necessitariam, também, se drogarem para tentar escapar do vazio ontológico-existencial que lhes é imposto pela sociedade mercantilizada. E, não sentindo mais a necessidade de consumir para preencher este vazio, as pessoas se sentiriam humanas e felizes vivendo de forma muito simples. Como salientou a personagem central do filme A festa de Babete, um artista nunca se sente pobre. Enfim, o Estado não precisaria mais gastar recursos preciosos no combate à violência e ao crime organizado.

Se as elites dominantes estão necessitando de seres humanos que não se sintam frustrados, se elas querem escolas que façam os alunos se sentirem realizados como seres humanos, por que não aproveitar essa oportunidade histórica favorável ao projeto político progressista e emancipacionista? Se querem nos conceder os anéis para não perderem os dedos, por que não aceitar a oferta?

Permitindo à população marginalizada do planeta viver de atividades artísticas e de relações sociais não alienadas, as classes dominantes não precisariam mais se preocupar com a explosão da bomba social. No meu caso particular, gostaria de me readaptar para ensinar numa Escola Comunitária de Arte. Junto com os meus alunos, ficaria produzindo literatura, poesia, música, cinema e teatro, sem qualquer tipo de controle burocrático.

O único risco para o sistema capitalista seria uma emigração em massa para as comunidades alternativas como forma de se escapar do vazio existencial, da necessidade de adrenalina, cocaína e álcool. Aí o sistema poderia quebrar.

Existe, ainda, um outro grande problema. Todos aqueles que já trabalharam dentro de escolas sabem que não adianta reformar a legislação do ensino se não for desmontada toda a estrutura do antigo sistema. Trata-se de uma estrutura monstruosa, talvez até mais sólida do que a da Igreja Católica. Além disso, os professores precisariam passar por uma profunda reciclagem e receber incentivos concretos para abandonarem todo o material que já produziram para subsidiar as suas aulas. Os professores precisariam jogar fora milhares de horas de suas vidas dedicadas ao preparo de aulas, dedicadas à sua qualificação profissional, para começar tudo de novo, do zero. Precisariam reassumir a mentalidade de recém-formados, a mesma condição de Dewey Finn. A diretora do Colégio Horace Green precisaria voltar a ser alegre e divertida. Precisaria abandonar as feições de bruxa que o sistema de ensino, de forma perversa e cruel, lhe infundiu.

A reforma de ensino proposta pelo MEC, se aplicada rigorosamente, sem que estas mudanças sejam efetuadas, pode transformar a escola num circo e produzir um estado de anomia monumental. Pode melar tudo. O resultado pode ser catastrófico porque o estado de anomia faz tudo perder significado. O que seria da escola se o trabalho dos professores perdesse sentido tanto para eles como para os alunos? Nem gosto de pensar nisso...

O método de ensino tradicional tem suas virtudes. Qualquer trabalho, mesmo não alienado, — inclusive o intelectual e artístico —, requer muita disciplina. Por isso, as mudanças propostas pela reforma do ensino exigem educadores sérios, com formação teórica sólida, bem motivados profissionalmente, dispostos a encarar desafios. Caso contrário, a reforma pode acarretar a implementação, dentro das salas de aula, de técnicas de ensino sem nenhuma fundamentação teórica mais consistente. Aí, sim, seria enrolação na verdadeira acepção da palavra.

O Projeto Banda de Rock, apresentado no filme, além de estar apoiado em concepções pedagógicas sólidas, pode ser vinculado, inclusive, a concepções de natureza humana e de desalienação sugeridas pelo marxismo. Ou seja, foi realizado a partir de fundamentos teóricos sérios. Não se trata de nenhuma brincadeira inconseqüente realizada por um professor pedagogicamente despreparado. Mesmo que o filme transmita essa impressão.

 

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Bibliografia

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