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Por ALBERTO FRANCISCO DO
CARMO
É
licenciado em Física pela UFMG. Foi estudante - trabalhador
durante todo seu curso universitário. Trabalhou em todos os tipos
de escola, em BH e Brasília. Atualmente é Técnico em Assuntos
Educacionais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional) e eventual colaborador de jornais em Brasília. Escreve
principalmente sobre Educação, Aeronáutica e Espaço. |
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Ensino
de Ciências: seus inimigos na escola e os inimigos da escola
Como
professor que fui, e aluno que também fui, ambos por muito tempo,
divertem-me e ao mesmo tempo me chocam certas opiniões de supostas
autoridades educacionais, quando chamadas a analisar os fatores
responsáveis pela indigência não só da área das Ciências, como
também do ensino como um todo.
O
primeiro erro é o de pedir, em excesso, opiniões de figuras da área
acadêmica. Supõe-se, pelos seus títulos, que conheçam a
realidade do ensino fora do “melhor dos mundos” que é o
ambiente acadêmico.
Em
1988, escrevi um artigo que era terminado com uma frase, que tem
causado furor, a ponto de medalhões me pedirem autorização para
usá-la e citá-la. Na ocasião ironizando as costumeiras chorumelas
sobre falta de verbas para equipamentos, disparei: “a comunidade
universitária precisa de mais verbas para comprar dois equipamentos
imprescindíveis: um telescópio para enxergar a sociedade que a
sustenta e um espelho para olhar a si própria”.
Mas isto não é novo: a professorinha alemã Ina Von Binzer, em
1881,
já observara que os brasileiros dão a vida por falar. Que um
discurso brasileiro renderia dez na Alemanha e que, sobretudo
adoravam opinar sobre o que não conheciam. Por exemplo
“positivistas” que nem sabiam quem era Auguste Comte. Ou
republicanos que ignoravam a essência de um estado republicano.
Essa
tendência se mantém até hoje e se aplica ao ambiente acadêmico,
onde a pluralidade de títulos em especializações, na verdade
ocultam o seu crescente distanciamento de visões mais gerais e
realistas das realidades que as cercam. O Brasil é fértil em
supostos experts em Educação,
que deitam regras para um ambiente que não conhecem. Quando alçados
a postos de comando, geralmente as máscaras caem, como se viu em
exemplo recente.
Assim,
suas opiniões na verdade geram uma “história oficial”, que tal
como no premiado filme argentino, ocultam o que verdadeiramente se
passa, principalmente o embaraçoso. Então, são freqüentemente
mencionados, na dita história oficial, coisas como: baixos salários;
despreparo de professores; falta de laboratórios e equipamentos;
conteúdos programáticos “inadequados”, com ênfase no
apedrejamento de tópicos considerados “supérfluos”, cultura inútil,
enfim. Como apoteose final, acende-se o velho complexo de
inferioridade brasileiro, onde ao ufanismo, sucedeu o masoquismo da
autoflagelação: ah, o ensino da França, da Inglaterra, da Rússia,
etc. E tome acordos de “intercâmbio” para “transferir
tecnologia”, no caso, educacional, que afinal não dá em quase
nada, com tentativas de misturar água e óleo, que são a nossa
realidade e a de um país que quase nada tem a ver com ela.
Ensino
Fundamental sem Fundamento
Os
problemas no ensino de Ciências começam na base, isto é no ensino
fundamental, antigamente denominado primário. Na onda da aceleração
e compactação pós lei 5692/70, os cursos de magistério perderam
o seu quarto ano, qual seja o de estágio. Tal compactação
resultou no empobrecimento de conteúdos (inclusive os metodológicos)
e perda de dignidade de tais. As professoras de hoje não são,
tornaram-se primárias mesmo, no sentido pejorativo, com honrosas e
raras exceções.
Pulverizados
pelo país, os curso de magistério se transformaram – e qualquer
professor sabe disto – em verdadeiros depósitos de alunas e
alguns alunos, com sérias tendências à malandragem. Longe de
buscarem tais cursos por questão de vocação, procuram-nos
justamente para fugirem da Matemática, Física e Química. Ora, já
na época dos cursos antigos, esta área era muito fraca, mas –
digamos assim – “quebrava o galho”. Hoje a coisa desceu a
impressionantes níveis mais baixos. Um colega meu surpreendeu uma
professorinha ensinando a seus alunos a somar frações simplesmente
somando todos os numeradores e todos os denominadores, sem tirar o
M.M.C. E certo dia caiu em minhas mãos um material de Ciências
apostilado de uma escola. Tema: invenções. Édison “inventara”
eletricidade e Magnus (??!!) inventara o magnetismo.Talvez o espírito
de Maxwell, tivesse rondando a cabecinha da mestra com suas leis e
ela não captou bem o nome e a mensagem...
Preconceito
Social e “Amaciamento”
Costuma-se
– também dentro da “história oficial” – atribuir a queda
de qualidade dos cursos de magistério ao baixo nível social das
alunas que passaram a freqüenta-los. À boca pequena, afirma-se:
“imagine, até domésticas estão se formando em magistério”.
Não
é bem assim. Ricas ou pobres, ou não têm condições de enfrentar
a dureza, ou não querem nada com a dita. É freqüente que
professores de Ciências, principalmente os de Física e Química,
sejam muitas vezes convocados por supervisoras de ensino, para
“maneirar” com as meninas do Magistério.
Folias
Metodológicas
E
as meninas, durante o curso, são soterradas de metodologias de
ensino: silabação, global, fônico, Paulo Freire, construtivismo e
o que mais vier. Mas, um estudo francês, mostrou justamente isto:
tais metodologias não suportam a mediocridade. Na mão de mestres
bons de conteúdo e motivação rendem. Entretanto, na mão de
profissionais desmotivados, pouco afeitos ao esforço e sobretudo
semi-analfabetos são um fracasso. Isto se constatou, NA FRANÇA,
quando também se descobriu que –com toda a pompa e circunstância
do ensino público europeu, 25% dos alunos liam bem, 50% lia mal e
porcamente e 25% não lia nada.
Detalhe: também da França têm partido gritas quanto ao fracasso
do ensino da chamada Matemática Moderna, a popular
“conjuntivite”. De fato, o aluno aprende tudo sobre conjuntos,
brinca com tampinhas, brinca com joguinhos pedagógicos, participa
de gincanas, uma beleza. Mas na hora de somar, diminuir,
multiplicar, dividir, nada.
Laboratórios:
Tempus Fugit...
No
ensino médio, o quadro se agrava. O principal problema passa a ser
a carência de números adequados de aulas. Por exemplo, um estudo
antigo da Sociedade Brasileira de Física, propugnou como quatro, o
número mínimo de aulas semanais para se dar um bom curso. Ora,
todo professor de Matemática, Física e Química é obrigado a
trabalhar com duas aulas semanais, na maioria das escolas públicas
e escolas particulares do tipo “pagou passou”. Nas escolas
particulares de melhor nível, o número de três aulas por semana
é considerado um luxo.
Ora,
aulas de laboratório, consomem tempo. Experiências de bom nível
exigem muito tempo, para serem feitas ou discutidas. Porque experiências
do tipo “mágicas”, instantâneas, podem transformar o professor
realmente num ilusionista. O aluno precisa se preparar para o fato
de que na Ciência, como de resto na vida, nem tudo é festa nem
tudo é mágica. Precisa saber conviver com a necessidade de esforços
continuados, se quiser vencer e mesmo sobreviver nas competições
da sociedade humana.
A
falta de tempo torna inviável a pratica em laboratório. O
professor tem de se conformar em dar um conteúdo pobre, onde o
aprendizado é quase que compulsoriamente trocado pelo
adestramento.Veja-se o caso de muitas escolas públicas de Brasília:
muitas têm uma espécie de mini-laboratório de Ciências do
tamanho de um frigobar, possivelmente adquiridos num dos primeiros
governos do Sr. Joaquim Roriz.Estão intactos na maioria dos casos.
Além disto várias escolas públicas estão equipadas com laboratórios
de bom porte. Nada disto é utilizado, pois freiam o ritmo frenético
de aulas, aliado a um aluno que vai só sendo promovido quase
automaticamente, levando sempre lacunas que vão prejudicar o
aprendizado nas etapas seguintes. Mas o mesmo se dá em vários colégios
particulares: equipamentos que afinal estão lá “para inglês
ver”.
O
Conto da Transferência Tecnológica
A
menção ao “para inglês ver” nos dá o mote para a contestação
seguinte:, a de que é preciso ter cuidado com uns certos acordos de
“transferência de tecnologia educacional”. Na nossa prática
vemos que treinamentos de professores brasileiros, em países de
Primeiro Mundo, acabaram resultando pouco produtivos. A razão é
simples: o país, ainda por muito tempo, não terá condições de
adquirir o material no qual os professores daqui são treinados.
Veja-se um caso ocorrido comigo: sabedor dessa falta de
recursos,sempre trabalhei no desenvolvimento de aparelhos de ensino
de Física alternativos, bons e baratos, a meio caminho entre a
experiência tosca e o material sofisticado, geralmente importado.
Quando quis fazer um mestrado na Inglaterra, com ênfase nesta prática,
fui dissuadido pelo orientador britânico. Na Europa, ninguém
ligava muito para instrumentos
de baixo custo, porque eles tinham meios de comprar e usar
instrumentos sofisticados e caros. E mais: que eu deveria procurar
contatos com países em desenvolvimento, como a Índia, Paquistão e
China, de onde ele tivera notícia de práticas semelhantes à
minha.
Universidade,
Indigência Didática e Sucateamento das Licenciaturas
No
crescendo dos problemas apontados, as universidades públicas, tidas
(ou soi-disantes) como “centros de excelência”
esquivam-se de admitir que vêm sucateando seus cursos de
licenciatura, em favor das áreas de bacharelado e das “altas
pesquisas” nas áreas de pós-graduação. O atual professor de
universidade, com todos os seus títulos, é dispensado de preparação
didática. Prova disto é a indigência da famosa “Metodologia do
Ensino Superior” – geralmente muito ruim de conteúdo – e que
vale em geral coisa de um crédito. Quase ninguém a faz, o que dá
origem a professores-espantalhos, causadores de desgosto e evasão
de alunos. Já houve universidade federal que conseguiu formar UM
aluno (de Física) no fim do ano, a UFF.
Contrastando,
as centenas de “faculdades de consumo”, geralmente privadas, estão
infestando o país de profissionais formados à toque de caixas,
inclusive a registradora. Ênfase nos cursos de “cuspe-e-giz”.
Um deles é a Matemática. E com algum investimento, muitos
“professores de Ciências”, sobretudo os de licenciatura curta.
E deles, a título precário, sai a maioria de professores de Física
do país.
Esta
enxurrada de sub-profissionais ocupa vagas de professores que
deveriam estar saindo das licenciaturas de boas universidades públicas.
Certa vez uma professora, formada por um desses cursos de faculdades
fuleiras, me deteve num intervalo de aula:
-
“Alberto, como é que vou fazer, me ajuda pelo amor de Deus! Vou
dar aula de Eletricidade pro pessoal da 8ª série não sei nada.
Aquele negócio do passarinho que pousa num fio e não é
eletrocutado: é porque é leve né? Então não encosta muito né?
Por isto não leva choque né?”
Assédio
moral, ou o que não ousa dizer seu nome
Mas
chegamos ao pior inimigo do professor de Ciências, como de resto,
do professor em geral. Com freqüência ele é envolto numa teia de
queixas, delações anônimas, desqualificações com falso senso de
humor (“ih, vocês da Física são todos doidos”) e
“conselhos” até explícitos para baixar o nível. Sim, isto me
foi sugerido por uma diretora de colégio. Noutra ocasião, uma
supervisora pedagógica me interpelou em tom pseudo- jocoso, sobre
uma classe feminina.:
-
Ora, por que você se esforça tanto para que essas meninas de
bairro aprendam Matemática ? Nenhuma delas vai passar de chofer de
fogão!” (sic)
“Vinde
a mim os pequeninos”...
Alguém
deveria dizer a essa senhora e tantos outros e outras, que não
temos o direito de arbitrar o destino de um cidadão. E que uma
mulher burguesa não deveria cortar o caminho de outras mulheres,
ainda que proletárias.
As Marias de Jesus, os Zes da Silva e o João Ninguém podem ocultar
um futuro cientista, infelizmente e geralmente condenado a um ensino
de quinta categoria. E a genial intuição de Billy Blanco, num
emblemático samba sobre a figura do camelô, se aplicaria
facilmente a essa gente:
-
“Se tivesse tido a chance de uma escola/ Muita gente de cartola
lhe daria seu lugar”. (Camelô –Billy Blanco)
Recentemente
ao falar sobre isto, num aparte que dei durante o Seminário de
Revisão do Programa Espacial Brasileiro, fui ouvido com frieza
educada, até que recebi um súbito e inesperado apoio. O Dr. Ramon
de Paula, Ph.D, cientista brasileiro que trabalha na NASA há muitos
anos, destacou minha fala e revelou: nos Estados Unidos estava se
verificando, que a maioria dos estudantes de boa família e boa
escola, estavam se revelando uns bons malandros, que não queriam
seguir carreiras científicas. Porém as melhores promessas – ao
contrário das teorias falsamente consagradas – estavam vindo de
alunos provenientes de classes humildes, asiáticos e latinos.
Portanto,
não é à toa, que anda circulando pela Internet um texto de Bill
Gates, chamando os estudantes de hoje “à responsa”.
Assédio
Moral II
Mas
como dizia, o assédio moral é o principal inimigo intra-escolar do
professor de Ciências e de outros. Tanto é que uma recente
reportagem da revista ISTO É, sobre o assédio moral no ambiente de
trabalho brasileiro como um todo, recebeu de uma leitora-professora,
o mais pungente relato:
-
“Chorei muito quando li a reportagem... Passei por isto como
professora de um colégio famoso em Campinas. Hoje, estou
trabalhando em outra escola e procuro não mostrar todas as minhas
habilidades.Procuro dar uma aula simples e aceitável, não me
envolver em projetos muito criativos para não deixar transparecer
que posso ir além. Hoje faço o que me pedem. Não aceito mais
desafios. Tenho medo”.
Isto
é a palavra de uma ex-professora de colégio de elite, particular.
Portanto, não é só nas escolas públicas que verificamos a tal síndrome
do burnout, ou da desistência do educador, conforme estudo da área de
Psicologia do Trabalho da UnB.
Segundo
o estudo, ela ataca o profissional, após uns 15 anos de magistério.
Eu
deixei o magistério em 1996. Tinha quinze anos de carreira e a saúde
em frangalhos. De colegas que ficaram tive notícia: um derrame
cerebral; vários enfartes e depressões. 49% dos professores de
Brasília têm problemas vocais. A maioria dos professores do Estado
de São Paulo, problemas psicológicos. Recentemente uma professora
irmã de uma jornalista amiga, viu-se às voltas com o mal de
Parkinson. Por uma enorme coincidência, havia sabido antes, bem
antes do aparecimento da doença, que ela passara até a ter medo de
andar pelo pátio, durante o turno da noite, de um outrora grande
colégio público. O narcotráfico estava lá dentro.
Recentemente,
precisei recompor os registros de emprego, para efeito de
aposentadoria., pois perdera uma das minhas carteiras profissionais.
Isto me obrigou a uma peregrinação pelos colégios por onde havia
trabalhado,em princípio de carreira, quase todos do tipo
“pagou/passou”. Questão de sobrevivência não só minha como
de muitos recém formados.
Constatei
então que vários haviam fechado. Um deles, outrora respeitável,
hoje decadente, ostentava apenas algumas faixas, onde era gabada a
aprovação de meia dúzia de alunos em faculdades de baixo nível e
até de um NA PRIMEIRA ETAPA DE UM VESTIBULAR DE UNIVERSIDADE PÚBLICA.
Outros dois, antros de pouca vergonha em matéria de passar alunos
de qualquer jeito e de assédio moral a professores, haviam fechado
as portas. Um deles chegara ao máximo: o livro de registros de
empregados, justamente do período em que trabalhei lá, estava
extraviado.
Outro
fato curioso, que – de novo – ilustra a frase citada, de meu
artigo de 1988,
foi o que aconteceu com uma ex-colega minha e atual colega de serviço
público. Embora passasse anos numa universidade pública e de posse
de mestrado e doutorado, quando nos reencontramos, depois de muitos
anos, reagiu com um misto de quase incredulidade a episódios como
os narrados acima. Nunca, na universidade, tivera notícia disto. E
vi que ela achava que eu estava exagerando.
Por
capricho do destino e a velha questão de ter de complementar sua
renda, assumiu cargo numa certa e poderosa “universidade”
privada. Daí a tempos,reencontramo-nos, de novo. “Puxa, me lembro
de você todos os dias”. E desfiou uma série de episódios
marotos, para não dizer indecentes, que fora obrigada a suportar.
Há
um mês, não agüentou. Pediu demissão. Antes o aperto de orçamento
na honra, que a folga financeira na desonra.
Será
que os autores dessas “histórias oficiais”, anteriormente
citados, não se tocam que a raízes dos problemas educacionais são
outras, mas que não ousam dizer o nome?
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