Pela investigação rigorosa da corrupção, pela punição dos envolvidos e pela democracia

A crise atual revelou os limites da democracia brasileira, e as manobras em curso, que visam poupar os corruptos, podem estreitá-la ainda mais.

Depois de muitos anos de luta contra uma violenta ditadura militar, chegamos a um regime democrático esquálido, que não rompeu claramente com o passado ditatorial. Sob forma nova, permanecem alguns dos instrumentos espúrios da ditadura, dos quais são exemplos o açambarcamento da função legislativa pelo Executivo, a multiplicação de foros privilegiados para julgar mandatários e burocratas, a ação subterrânea das forças de segurança militarizadas no seio do Estado, a ausência da plena liberdade de organização para os trabalhadores e a prática de tortura e do assassinato pelos órgãos policiais. Desenvolveram-se também, sem nenhum freio, alguns dos instrumentos pelos quais o poder econômico e as instituições do Estado podem distorcer os mecanismos de expressão da vontade popular, como a intervenção direta dos organismos econômicos internacionais na definição da política econômica do Estado brasileiro, o monopólio exercido por um reduzido número de grandes grupos econômicos sobre os meios de comunicação, o sistema de financiamento de campanhas eleitorais que nada mais é que um sistema para comprar candidatos e candidaturas, a conversão dos votos de deputados e senadores em mercadoria que é negociada quase que à luz do dia com vultosos recursos de origem escusa, a total falta de controle dos representantes pelos supostos representados e a consolidação de um presidencialismo que se parece com o poder imperial. Esse tipo de democracia tem sido útil para preservar o modelo econômico neoliberal, mas não para atender os interesses da maioria da população brasileira.

Depois de conquistarem o voto popular na eleição de 2002, o Governo Lula e o PT, sob a direção do Campo Majoritário, aderiram àquelas práticas. Chegamos a uma situação em que, dentre os grandes partidos políticos, ninguém pode atirar a primeira pedra. Desde que surgiram as denúncias sobre a compra de deputados para que votassem com o governo, o PT e o Governo Lula têm dificultado as investigações, enquanto o PFL e o PSDB agem sob medida com o único objetivo de usar eleitoralmente as denúncias, zelando para que a corrupção praticada por tucanos e pefelistas permaneça ignorada e não apurada. Há também os interesses econômicos aos quais estão ligados o PFL e o PSDB. Esses partidos sacrificam as investigações quando elas apontam na direção do Ministério da Fazenda, de modo a preservar a política econômica do governo com a qual concordam. Não estão empenhados, de fato, em levar a investigação até o fim e em todas as direções; não estão empenhados em preservar e em ampliar o pouco de democracia política que conquistamos no Brasil. Colher depoimentos espetaculares sem proceder a investigações rigorosas pode ser um caminho para simular que se está investigando e, ao mesmo tempo, viabilizar um grande acordo que salve quase todos – o governo, a oposição liberal e até mesmo os deputados cujos nomes estão na lista de sacadores das contas de Marcos Valério.

É esse acordo contra a democracia que não podemos aceitar! Investigação pela metade e punições meramente protocolares estimularão a continuidade da ação dissolvente do poder econômico sobre a democracia brasileira e reforçarão a autonomia e a presunção de impunidade de parlamentares, de mandatários do poder executivo, de juízes e de burocratas do Estado. Campanhas eleitorais e deputados continuarão sendo comprados, a política continuará sendo meio para o enriquecimento pessoal e a democracia representativa, uma falsa representação da vontade da maioria. Passado o momento espetacular da crise, regressaríamos à normalidade de nossa democracia estiolada pela herança da ditadura, pela corrupção do poder econômico e pela arrogância dos políticos profissionais e dos burocratas.

Exigimos que as investigações prossigam até o fim, inclusive aquelas que apontem em direção à Presidência da República e possam redundar na instauração de um processo de impeachment.

Todos os culpados, corruptos e corruptores, devem ser punidos - inclusive os bancos e empresas, nacionais e estrangeiras, que financiaram essa ultrajante operação de compra de votos e apoio político.

É hora de lutar pela preservação das conquistas democráticas e pela criação e ampliação dos mecanismos de controle popular sobre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. A luta contra a corrupção e pela ampliação da democracia é parte da luta contra o modelo econômico neoliberal e pela melhoria das condições de vida da população brasileira.

Setembro de 2005

  1. Adalberto Paranhos (sociólogo),

  2. Adriano Nervo Codato (cientista político),

  3. Ana Manuella Soares - jornalista

  4. Andréia Galvão (professora Unicamp),

  5. Andriei Gutierrez (cientista político),

  6. Ângela Capozzolo (médica),

  7. Ângela Lazagna (socióloga),

  8. Anita Handfas (professora UFRJ),

  9. Antonio Carlos Mazzeo (cientista social, Unesp),

  10. Antonio Joaquim Severino (professor USP),

  11. Aparecida Neri de Souza (professora FE- Unicamp).

  12. Armando  Boito Jr. (cientista político Unicamp),

  13. Carlos Frederico Bernardo Loureiro (professor UFRJ),

  14. Carmen Sylvia Vidigal de Moraes (professora USP),

  15. Célia Marinho Azevedo (historiadora Unicamp),

  16. Claudia Pereira Vianna (professora USP),

  17. Claudio Antonio Ribeiro (advogado trabalhista PR),

  18. Cristiano Ferraz (historiador, UESB),

  19. Cristina Paniago (professora UFAL),

  20. Cynthia Pereira de Sousa (professora USP),

  21. Daniele Gugelmo (musicista, Unicamp),

  22. Danilo Martuscelli (cientista político),

  23. Denise Trento R. Souza (professora USP),

  24. Diana Gonçalves Vidal (professora USP),

  25. Dorgival Henrique (professor Unimep),

  26. Duarte Pereira (jornalista),

  27. Edilson Graciolli (sociólogo),

  28. Edna Antonia de Mattos (professora USP),

  29. Eduardo Guerini (professor Estácio de Sá)

  30. Elie Ghanen (professora USP),

  31. Fernando Antonio Lourenço (sociólogo Unicamp),

  32. Fernando Mattos (professor PUC-Campinas),

  33. Flávio de Castro (sociólogo),

  34. Francisca Eleodora Santos Severino (Professora Unisantos),

  35. Francisco Pereira de Farias (professor UFPI),

  36. Graça Druck (professora UFBa),

  37. Guadelupe Teresinha Bertussi (educadora, Universidade Nacional do México),

  38. Guilherme Cavalheiro Dias Filho (sociólogo),

  39. Helder Gomes (economista),

  40. Helena Ponce Maranhão (socióloga UFRJ),

  41. Henrique Amorim (sociólogo),

  42. Idméa Semeghini-Siqueira (professora USP),

  43. Iraci Nero da Costa (professor FEA-USP)

  44. Isabel Loureiro (professora Unesp),

  45. Jailson dos Santos (professor, UFRJ),

  46. Jair Batista da Silva (sociólogo),

  47. Jair Pinheiro (professor Unesp),

  48. Janaina Bloch (socióloga)

  49. João José Lima de Almeida (professor Unioeste),

  50. Jorge Alano Silveira Garagorry (economista, PUC/SP),

  51. José Antonio Spinelli (professor UFRN),

  52. José Flávio Motta (FEA USP)

  53. José Rodrigues (professor UFF),

  54. Josué Pereira da Silva (sociólogo, Unicamp),

  55. Karen Priscilla de Souza Carvalho (socióloga),

  56. Laymert Garcia dos Santos (sociólogo Unicamp),

  57. Leda Maria O. Rodrigues (professora PUC-SP),

  58. Leda Paulani (economista USP – Presidente da Sociedade de Economia Política),

  59. Leny Magalhães Mrech (professora USP),

  60. Lígia Osório (historiadora, Unicamp),

  61. Lisete Regina Gomes Arelaro (professora USP),

  62. Liuco Fuji (nutricionista)

  63. Luiz Antonio de Saboya (desenhista industrial),

  64. Luiz Antonio Maciel (jornalista),

  65. Luiz Augusto Estrella Faria (economista UFRGS)

  66. Maria do Carmo Araújo Rocha (médica sanitarista)

  67. Luiz Cláudio Duarte (historiador UFF),

  68. Luiz de Siqueira Martins Filho (professor UFOP),

  69. Luiz Filgueiras (economista UFBa),

  70. Luiz Jorge V. Pessoa de Mendonça (economista UFES)

  71. Luziano Pereira Mendes de Lima (professor Funesa),

  72. Marcelo Cerqueira (advogado e escritor),

  73. Marcelo Herbst (químico UFRJ),

  74. Marcelo Terence (professor CEUs-SP)

  75. Marco Antonio Villela Santos (presidente do CeCAC),

  76. Marcos Barbosa (professor USP),

  77. Marcos Del Roio (professor Unesp),

  78. Marcos Garcia Neira (professor USP),

  79. Maria Ciavatta (professora UFF),

  80. Maria da Graça Jacinto Setton (professora USP),

  81. Maria de Fátima Simões Francisco (professora USP),

  82. Maria de Lourdes Rollemberg Mollo (economista UnB)

  83. Maria Isabel de Almeida (professora USP),

  84. Maria Vicencia Pugliesi (médica),

  85. Marilia Gomes Henrique (atriz),

  86. Marília Pinto de Carvalho (professora USP),

  87. Mário Maestri (historiador, UPF, RS),

  88. Marisa Brandão (professora CEFET, Rio),

  89. Marta Kohl de Oliveira (professora, USP),

  90. Martha Marandino (professora USP),

  91. Mauricio de S. Sabadini (professor UFES),

  92. Maurilane de Souza Biccas (professora USP),

  93. Mauro Castelo Branco de Moura (filósofo UFBa),

  94. Muniz Ferreira (historiador, UFBa)

  95. Neide Luzia de Rezende (professora USP),

  96. Nelio Bizzo (Vice-diretor da Fac. de Educação / USP),

  97. Nice Maria Americano Costa Pinto (professora UERJ)

  98. João Policarpo R. Lima (professor UFPE)

  99. Nídia Nacib Pontuschka (professora USP),

  100. Otto Filgueiras (jornalista),

  101. Paula Perin Vicentini (professora USP),

  102. Paula Regina Pereira Marcelino (socióloga).

  103. Paulo Arantes (filósofo, USP),

  104. Paulo Nakatani (economista, UFES)

  105. Paulo Santiago Gonçalves (sociólogo)

  106. Pedro Roberto Jacobi (sociólogo),

  107. Philomena Gebran (professora UFRJ),

  108. Plínio Moura (economista UFBa),

  109. Raquel Kritsche (cientista política UEL),

  110. Reinaldo Carcanholo (economista UFES),

  111. Rejane Alves Fraissat (médica sanitarista)

  112. Renata Miranda Filgueiras (economista),

  113. Renato Perissinotto (cientista político),

  114. Rinaldo Voltolini (professor USP),

  115. Roberto Leher (professor UFRJ),

  116. Rosa Maria Marques (economista PUC-SP)

  117. Rosângela Gavioli Prieto (professora USP),

  118. Rosanne Evangelista Dias (professora UFRJ),

  119. Sandra Maria Sawaya (professora USP),

  120. Sandra Zákia Sousa (professora USP),

  121. Semíramis Azevedo Soave (médica veterinária),

  122. Sérgio Braga (economista UFPR),

  123. Sérgio Lessa (professor UFAL),

  124. Silvia de Mattos Gasparian Colello (professora USP),

  125. Stéphane Monclaire (brasilianista, Universidade de Paris 1),

  126. Tatiana Rangel Reis (professora, UFF),

  127. Valdir Heitor Berzotto (professor USP)

  128. Anna Maria Pessoa de Carvalho (professora USP)

  129. Lúcia Emília Nuevo Barreto Bruno (professora  USP)

  130. Marcos Ferreira Santos (professor FE-USP)

  131. Nely Garcia (professora USP)

  132. Claudemir Belintane (professor FE-USP)

  133. Victor Henrique Paro (professor FE-USP)

  134. Teresa Cristina Rego (professora FE-USP)

  135. Salete de Almeida Cara (professora USP)

  136. Maria Augusta Fonseca (professor USP)

  137. Maria Noemi de Araujo (psicanalista)

  138. Maria Constança Peres Pissarra  (professora PUC-SP)

  139. Paulo Roberto dos Santos (professor ISC)

  140. Maria Leonor Frederico Rodrigues Loureiro (professora Aliança Francesa),

  141. Vinicius de Figueiredo (filósofo UFPR),

  142. Wallace Moraes (cientista político).

  143. Wilson Skorupski (metalúrgico aposentado)

   

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