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Por
MARCO ANTÔNIO LOPES
Docente
do Depto. de Ciências Sociais da UEL. |
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Cervantes
e Dom Quixote:
Quatro
Séculos de Sucesso
“O
melhor livro dos espanhóis é aquele que zomba dos outros”.
Montesquieu
Para
os historiadores da cultura intelectual, a obra de Cervantes é
documento histórico precioso. Ao lermos o Dom
Quixote, devemos
procurar compreendê-lo em sua dimensão interventora de sátira a
um gênero literário ainda em voga na Espanha dos séculos XVI e
XVII. Cervantes satirizou os romances de cavalaria que, aliás,
continuaram desfrutando de prestígio na Espanha do século XVII.
Mas ele não estava sozinho nessa ojeriza ao ideal de heroísmo
medieval e numerosos foram os ataques sofridos pelo gênero na
Espanha do século XVI. Como afirmam vários autores, sátiras como
o livro de Cervantes não eram nenhuma novidade por volta de 1597,
quando o autor deu início à obra. Dom Quixote é a obra da maturidade intelectual de Cervantes. Acerca
de Cervantes muito se falou desde o tempo do próprio Cervantes.
Personagem polêmico, por sua vida aventurosa e por suas estranhas
relações com a política e
o poder, há muitos retratos do escritor espanhol, focados dos mais
diversos ângulos. Autor complexo e enigmático, nenhum modelo teórico
foi capaz de abarcar o sentido global de sua obra. Ele já beirava
os sessenta anos quando uma conjunção de revezes profissionais
levou-o a dar vida ao personagem. O aparecimento do velho e
alquebrado cavaleiro, pele sobre ossos, vem à luz ao tempo do declínio
do império espanhol. Assim sendo, talvez não fosse de todo
impertinente interpretar o processo intelectual de elaboração do
Quixote como uma espécie de metáfora à decadência espanhola.
Sim, porque o pobre fidalgo não quer menos do que realizar proezas,
mas sem os instrumentos para levá-las a bom termo.
A
história da Espanha dos últimos anos da vida de Cervantes é a
história da decadência do Século de Ouro de Carlos V e Filipe II:
a experiência dos oitenta gloriosos anos que
marcaram a era do império no qual o sol nunca se põe, em
alusão às possessões de um extremo ao outro do mundo ao tempo de
Filipe II. A União Ibérica — 1580-1640 — legou aos espanhóis
importantes possessões portuguesas como o Brasil e regiões da Índia
e da África. Sem falar na conquista espanhola das Filipinas, nome
dado em homenagem ao rei Filipe II. O livro foi concebido nos anos
de transição dos reinados de Filipe II e Filipe III. O momento de
elaboração da obra é o da acentuação aguda da crise econômica
do império Habsburgo, em seu ramo espanhol. O fim do século XVI e
o início do XVII foram marcados por duas bancarrotas da monarquia
— 1596 e 1607 —, sem falar na peste que dizimou um terço da população
no mesmo período. Entre os anos de 1606 e 1610 a competição de
ingleses e holandeses fez com que
as transações comerciais da Espanha com suas possessões na América
declinassem em aproximadamente 60 por cento.
Aliás, a crise econômica espanhola refletiu duramente sobre
Cervantes, que viveu pobremente os seus últimos anos.
Com
efeito, a monarquia absolutista espanhola sob a qual viveu o autor
sequer poderia ser concebida como um Estado régio unitário nos séculos
XVI e XVII. Uma unidade política, jurídica e administrativa coesa
seria construída apenas no século XVIII, pelos esforços da política
centralizadora da dinastia francesa Bourbon: “A monarquia Bourbon
levou a cabo o que os Habsburgo não tinham conseguido fazer”.
Na época de Cervantes o que se concebe como Espanha era um agregado
heteróclito de unidades políticas mais ou menos autônomas em relação
à liderança exercida pelo reino de Castela. Ao longo dos séculos
XVI, XVII e XVII aragoneses, catalães, valencianos, por exemplo,
possuíam leis e costumes que os reis espanhóis eram obrigados a
reconhecer mediante juramento quando das sucessivas ascensões ao
trono, além de autonomia em relação a impostos militares. Tais
unidades possuíam administração autônoma e direitos
salvaguardados em relação a Madrid que, somente com o advento de
Filipe II, nos meados do século XVI, passou a ser a capital. Uma
bandeira e um hino, símbolos nacionais por excelência, foram
adotados apenas no século XVIII.
Como
sabemos, história de vida e criação literária são categorias
reflexivas, o que parece significar que Dom
Quixote coincide também com as ilusões perdidas de um autor
que, aos 58 anos, já era um dos mais notórios colecionadores de
insucessos da república das letras. Mentalidade moderna, Cervantes
foi crítico acerbo de idéias e crenças como as práticas de feitiçaria,
as perseguições movidas pela intolerância religiosa e demais traços
de obscurantismo, predominantes num tempo dominado pelo fanatismo
religioso e por superstições de todo tipo. Ele foi leitor de
Erasmo e, em matéria de crença religiosa, o seu Quixote
revela um certo desajuste em relação ao tom peculiar de autores
católicos de seu tempo. Definitivamente, a piedade cristã é uma
nota bem fraca em seu livro.
Leituras
que procuram relacionar temas literários a abordagens históricas já
possuem larga tradição. Ao que parece, a literatura entrou de
forma decisiva no campo de reflexão dos historiadores da cultura
intelectual com o livro do historiador francês Lucien Febvre,
publicado em 1947, sobre o problema da suposta irreligiosidade e/ou
ateísmo na obra de François Rabelais. A partir desse estudo histórico
de Febvre, que funda uma teoria interpretativa de textos do século
XVI, os historiadores têm procurado estabelecer conexões entre as
dimensões sociais presentes na obra ficcional e os aspectos históricos
inerentes à obra literária. Atualmente, as perspectivas que buscam
a aproximação entre a história e a literatura foram acentuadas.
Elas se enraizaram em parte considerável das escolas históricas
contemporâneas a ponto de quase se apagar por completo a distinção
do estatuto científico de um texto histórico em relação ao
estatuto não científico de um texto literário.
Nos
inícios do século XVII essa distinção foi claramente percebida
por Cervantes. E é pertinente dizer que, se há uma profusão de
temas históricos no Quixote,
há também muita sofisticação na abordagem dos mesmos. O autor não
sacrifica a autonomia conferida ao ficcionista à isenção esperada
no historiador. Se ele foca temas históricos como componentes de
fundo de suas inumeráveis tramas, não se deduz nenhum incontornável
compromisso com a veracidade dos episódios narrados. Na Segunda
Parte de Dom Quixote há
uma lúcida reflexão de Cervantes acerca daquilo que pertence à
dimensão da criação literária e daquilo que é próprio da
agenda do historiador. Como ele reitera, “... uma coisa é
escrever como poeta, e outra como historiador; o poeta pode contar
ou cantar as coisas não como foram, mas como deviam ser, e o
historiador há de escrevê-las, não como deviam ser, mas como
foram, sem acrescentar nem tirar à verdade a mínima coisa”. Mutatis
mutandi, Ranke não teria dito nada muito melhor. Não é demais
lembrar que o Quixote é
uma história e, como tal, é construída integralmente sob a
vigilante crítica de historiador haja vista que toda a narrativa se
baseia em documentos judiciosamente analisados pelo narrador Cide
Hamete Benengeli, um historiador. No início da primeira parte o
narrador informa que a fonte de sua narrativa era um manuscrito árabe
encontrado por ele na cidade de Toledo. A reflexão de Cervantes é
avançada, principalmente para uma época em que a escrita da história
privilegiava a beleza da forma, em detrimento do conteúdo crítico.
Nos Ensaios Montaigne já distinguia esse gênero como próprio dos
historiógrafos tagarelas, que tudo sacrificam às aparências, ao
mesmo tempo em que fazia o elogio da história crítica esboçada
por Jean Bodin. Mas, é certo que não se poderia esperar de
Cervantes uma abordagem mais sofisticada acerca da própria
relatividade daquilo que concebia como “a verdade”.
No
tempo de Cervantes, um homem poderia revelar o seu valor
notabilizando-se pelo exercício das armas ou das letras. Cervantes,
exemplo de mentalidade moderna — haja vista que o Dom
Quixote serviu-lhe como instrumento de combate ao obscurantismo
da cultura medieval —, constrói freqüentes paralelos entre esses
honrosos ofícios. Ao contrário de Montaigne — que escreveu seus Ensaios
a título de modestas reflexões dedicadas a um círculo restrito de
amigos — Cervantes é o exemplo do indivíduo cioso da própria
genialidade, e em busca apaixonada pelo sucesso na república das
letras. Na batalha naval de Lepanto contra os turcos otomanos
(1571), na qual combateu “mui valientemente” e teve a mão
esquerda despedaçada por um tiro de arcabuz, conquistou as glórias
das armas e o apelido “El Manco de Lepanto”. Cervantes se
orgulhava de sua bravura nessa batalha. No Prólogo da Segunda Parte
do Quixote ele se irrita
com as indignidades de Alonso Fernández de Avellaneda, o autor do
falso Dom Quixote,
publicado em 1614, que o chamara de velho e manco, “como se
tivesse na minha mão demorar o tempo, que parasse para mim, ou como
se tivesse saído manco de alguma rixa de taberna, e não do mais
nobre feito que viram os séculos passados e presentes, e esperam
ver os vindouros”, atroa Cervantes. As suas feridas ganhas na
“prodigiosa peleja”, tal a magnitude que assume Lepanto aos
olhos de toda a Europa — a batalha que salvou a Cristandade — são
motivo da mais elevada honra.
As
armas implicavam a exibição de virtudes como a coragem e a força.
Havia ainda uma sutileza a mais na definição das armas como um ofício
dignificante. Ora, num tempo de guerras recorrentes que estavam
definindo a nova geografia política da Europa Moderna — os
Estados territoriais emergentes —, o que poderia existir de mais
elevado do que contribuir para a maior grandeza e glória do reino?
A vida aventurosa nos tempos de Cervantes, em si mesma, era uma
oportunidade desejada por jovens fidalgos. Em síntese, o ofício
das armas era o terreno próprio às proezas pessoais que
distinguiam e notabilizavam até mesmo um simples particular sem
maiores predicados e recomendações, caso do próprio Cervantes.
Uma façanha, um ato de heroísmo, e eis que se estava bem arranjado
na vida, reconhecido e premiado. Em defesa de seu reino e de sua fé
— no caso dos enfrentamentos com o Islã em franca expansão pelo
Leste da Europa — nem as maiores vicissitudes das campanhas — a
morte, a fome, a peste, a prisão e o exílio — seriam fontes
suficientes de desencorajamento de um herói em potencial. Sem dúvida,
o guerreiro deveria saber que não há triunfo sem sacrifício.
Ainda que ocorra ao soldado cair em combate pela causa de seu príncipe,
é sempre belo morrer de armas na mão. Eis o adágio de Virgílio,
que Cervantes tomou como sua divisa. Doente no porão de um navio em
Lepanto ele fez questão de subir à proa para tomar parte nos
combates.
Apesar
do heroísmo na vida real, as batalhas de Cervantes não haveriam de
lhe render os frutos esperados na corte de El Rei. De retorno à
Espanha, após quatro anos de permanência na Itália, foi
aprisionado por piratas turcos no norte da África por cinco anos e
meio. Soldado sem glórias militares reconhecidas e escritor
frustrado, Cervantes tornou-se um eficiente arrecadador de
abastecimentos e cobrador de impostos da monarquia espanhola, no
tempo em que Filipe II preparava a expedição da Invencível
Armada, para a invasão da Inglaterra e, inclusive, depois disso. No
Quixote há claras referências
a essas experiências de vida. Ao aludir ao métier
de cobrador de contribuições, o autor esclarece tratar-se de
coisas muito perigosas tais encargos, “ofícios que em se usando
mal deles leva o Diabo quem os usa”. Sem dúvida, nota-se aqui o
registro das suas prisões como suspeito de malversação dos
recursos da monarquia, pelas quais foi encarcerado mais de uma vez.
Por essas e por muitas outras notas da mesma natureza vemos o quanto
é auto-referente a imaginação ficcional de Cervantes.
Como
as armas não lhe abriram o caminho que esperava, o criador de Dom Quixote tencionou tornar-se escritor reputado, no que, aliás,
teve escasso sucesso, ao menos na Espanha. Em seu livro fica estampada esta intenção autoral ao declarar que “Uma das
coisas que maior contentamento deve dar a um homem virtuoso e
eminente é o ver-se andar em vida pelas bocas do mundo, impresso e
com estampa com bom nome, é claro, porque, sendo ao contrário, não
há morte que se lhe iguale”. E muitas mais são as suas confissões
e queixas contra a falta de reconhecimento seja no leito ficcional
da obra seja nos prólogos das duas diferentes e desiguais partes do
livro, como quando reflete que, algumas pessoas, antes do tempo e
contra a lei das suposições razoáveis, vêem os seus desejos
premiados. Já outros, sem dúvida de maior mérito, “importunam,
apoquentam, suplicam, madrugam, rogam, porfiam, a não alcançam o
que pretendem, e chega outro, e, sem saber como, nem como não,
acha-se com o cargo e o ofício que muitos pretenderam”. E
Cervantes conclui, em outra parte, que o que vale neste mundo é o
se ter proteção pois aquele que possui influência, “quando mal
se precata, acha-se com uma vara de juiz na mão, ou de mitra na
cabeça”. Nem a vara nem a mitra lhe vieram, apesar de sua notável
capacidade de deitar louvores às virtudes das pessoas influentes
como, por exemplo, o Conde de Lemos, de cuja corte literária
imaginou fazer parte, quando da nomeação deste aristocrata para
Vice-Rei de Nápoles, em 1610. As suas expectativas foram
frustradas, o que não lhe impediu de, alguns anos mais tarde, lançar
ao aristocrata incenso como aquele que se lê na Dedicatória da
Segunda Parte, de 1615: “Venha Vossa Excelência com a saúde com
que é desejado, que já cá estará Persiles para lhe beijar as mãos,
e eu os pés, como criado que sou de Vossa Excelência”. Nada
havia de estranho em se dedicar obras a um patrono, tanto que a
Primeira Parte do Quixote
fora dedicada ao Duque de Béjar, que a ignorou. Mas, no caso da
Dedicatória ao Conde de Lemos, a ênfase parece ter sido um pouco
vigorosa, ainda que se pese a cortesia peculiar de seu tempo.
Acerca
da estrutura da obra é preciso dizer que são desiguais
principalmente porque, na Segunda Parte — composta por 72 capítulos
contra os 52 da anterior —, as peripécias de Sancho Pança ganham
tal volume a ponto de comprometer a densidade do personagem central.
Isso acarreta uma considerável redução das aventuras quixotescas.
Quando do governo de Sancho Pança em sua ilha imaginária, e que
ocupa um volume considerável de texto, Dom Quixote é praticamente
deixado em quarentena. Mas não deixa de ser muitíssimo divertida a
estratégia do autor em dar azo às ambições e ao materialismo do
indolente escudeiro, mesmo que em detrimento das fantasias de Dom
Quixote. Naturalmente, existem opiniões divergentes. Alguns autores
consideram a segunda parte o ponto alto da obra: é mais complexa,
melhor elaborada, desenvolve interpretações filosóficas e morais
dos episódios narrados. É que Cervantes, movido pelo sucesso
internacional da obra, passou a se interessar mais por sua criação,
dotando-a de uma nova complexidade filosófica e estética.
Acerca
do fraco reconhecimento que a Espanha conferiu ao autor em vida,
digna de nota é a passagem deixada por Márquez Torres, censor da
segunda parte do Quixote,
publicada em 1615. Conta ele, na Sentença de Aprovação — pois
os livros naquela época eram censurados pela Igreja —, que em
visita à Espanha, embaixadores franceses pasmaram-se em saber da
ingrata sorte do criador do Quixote,
cuja primeira parte circulara pela Europa desde 1605. Pobre e
esquecido, e já no final da vida, Cervantes ainda escrevia para
ganhar o pão. Que reino era a Espanha que permitia tal destino,
indagou com uma ponta de indignação um dos membros da embaixada.
No que foi respondido por um de seus colegas: se a necessidade o
obriga a escrever, Deus queira que nunca seja próspero, para que faça
o mundo rico com suas obras.
O
Shakespeare da língua espanhola morreu em 23 de abril de 1616, o
mesmo dia da morte do autor de Hamlet.
Como lembra a esse respeito o crítico norte-americano Harold Bloom,
“Contemporâneos perfeitos (é possível que tenham morrido no
mesmo dia), Shakespeare, evidentemente, leu Dom
Quixote, mas é bastante improvável que Cervantes soubesse da
existência de Shakespeare.
De fato, paralelos entre Cervantes e Shakespeare são recorrentes na
crítica literária. A genialidade de ambos, e o fato de terem
vivido numa mesma época, são as fontes naturais desses paralelos.
A estatura colossal de Dom
Quixote é normalmente comparada à grandeza de Hamlet.
Para
o escritor espanhol Oitocentista Angel Ganivet: “não existe na
arte espanhola nada que sobrepuje o Quixote,
e o Quixote não somente
foi criado à maneira espanhola, mas é a nossa obra típica, ‘a
obra’ por antonomásia, porque Cervantes não se contentou em ser
‘independente’: foi um conquistador, porque enquanto os demais
conquistadores conquistavam países para a Espanha, ele conquistava
a própria Espanha, encerrado numa prisão”. A magnitude do Dom
Quixote de Cervantes foi reconhecida por Montesquieu nos
seguintes termos: “O melhor livro dos espanhóis
é aquele que zomba dos outros”. Na opinião do crítico literário
norte-americano Kenneth Rexroth, Cervantes escreveu o maior livro de
ficção que a cultura ocidental produziu. Para Rexroth a vitalidade
desse poliedro está em sua capacidade de produzir um volume de
interpretações que é proporcional ao número de seus leitores.
Isto parece significar que, a cada um, o seu próprio Dom Quixote. Um dos sentidos possíveis para a leitura de um clássico
da literatura baseia-se na evidência de que ler é simplesmente
melhor do que não ler. Essa tirada de efeito é da autoria de Italo
Calvino, na qual se ressalta que não há um sentido estritamente
pragmático na leitura das grandes obras, algo assim como a atitude
de Sócrates aprendendo um nova ária antes de morrer, pelo simples
prazer do aprendizado.
Mas,
acerca do sentido de se ler, hoje, a história do cavaleiro andante,
pode-se encontrar também uma resposta mais direta e pontual: ainda
que tenha sido o primeiro, o livro continua a ser o melhor dos
romances.
Entretanto, nesse texto de Bloom, não fica clara essa dignidade de
obra fundadora, ou seja, o fato de o livro ser destacado como o
primeiro romance. Sabemos que existem inúmeras flutuações semânticas
no que diz respeito ao vocábulo “romance”, e que são variados
os sentidos normalmente utilizados pela crítica literária. Talvez
possamos interpretar esse juízo de Bloom reconhecendo nele a intenção
de sublinhar a ruptura de Dom
Quixote com um certo conjunto de regras. A obra não se contenta
em ser mais uma história daquelas contadas a respeito de bravatas
de heróis; constitui-se como uma anti-história, como uma força
consciente de subversão na qual o humor entra como máquina de
guerra, espécie de explosivo que põe o sistema literário de
ponta-cabeça. É bom lembrar que, na época de Cervantes — apesar
de algumas flutuações de sentido e de estrutura —, o gênero
romanesco barroco é um parente direto dos romances medievais. Em
comum com a literatura cavalheiresca a exuberância do fantástico e
a profusão do inverossímil, do prodigioso e do excepcional na
narrativa: é uma numerosa sucessão de atos de bravura por parte de
algumas almas de exceção; é uma seqüência sem fim de combates,
de raptos, de naufrágios e de visões fantásticas de monstros e
gigantes de que Dom Quixote também dá sinais de
notável riqueza. Mas tudo utilizado para lançar a carga por
terra, ao ressaltar muito sutilmente as diferenças substanciais
entre as delícias do sonho e a aspereza da realidade.
O
tempo haveria de fazer de Dom
Quixote um “bilhete premiado”, segundo a expressão que
Stendhal utilizou para definir um clássico da literatura. O espírito
de Cervantes, desafiador, iconoclasta, tornou-o capaz de criar algo
estranho ao sistema literário de seu tempo. O aspecto de
originalidade já seria o bastante para isolá-lo como ponto
diferencial de uma época, de um gênero, de um estilo, tornando-o
alvo preferencial da posteridade. Mas, ao lidar com os devaneios da
razão — espada sempre afiada e de manejo difícil e perigoso —,
o autor descobriu substância de interesse eterno. Assim, decorridos
quatro séculos, talento literário e oportunidade temática ajudam
a definir a categoria desse “bilhete” legado por Cervantes.
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