Por JOSÉ CARLOS LEAL

Leal, J. C. A natureza do conto popular (Rio: Ed. Conquista, 1985). José Carlos Leal é escritor e professor de letras clássicas no Rio de Janeiro.  Escreveu diversos livros de ensaio (A maldição da mulher – Ed., ficção; Pássaros selvagens; Asas contra a parede, da Ed. Lê de Minas Gerais). Este texto, levemente alterado em alguns pontos, foi autorizado pelo autor para ser publicado nesta revista. Transcrição: Raymundo de Lima.

 

A tentação

“Entre Deus e o Diabo há uma ponte de nada...”

Há muito tempo que ele se afastara do convívio dos homens para viver no deserto entre as feras bravias e em completa solidão. Trazia no corpo nu, crestado pelo sol do deserto, uma cinta de couro de camelo que lhe apertava o baixo ventre (...), transformando em enorme e pútrida ferida onde os vermes bailavam uma dança macabra. Os cabelos [se tornaram] desgrenhados, muito secos e sujos (...), os dentes haviam caído ou se transformado em pequenos cacos(...), as unhas mal cuidadas haviam crescido tanto que o impediam de fechar as mãos que ele trazia sempre abertas como garras. O corpo, pela falta de contato com a água, havia criado uma crosta negra que parecia uma segunda pele.

Todos os dias mortificava o corpo magro com prolongados jejuns, macerava os joelhos pontudos em longas penitências e preces intermináveis. Sua boca nunca mais se abrir para a palavra profana; por isso tinha-se a impressão de que fosse mudo. Há quarenta anos não saía da gruta, convivendo com os escorpiões e as cobras que o consideravam como um seu igual. Por tudo isso era um anacoreta santo cujas provas de santidade poderiam ser vistas naquele corpo macerado, tão sujo e magro que poderia se confundir com as rochas estéreis que formavam a paisagem.

Ora, se deu que o demônio, um dia, resolveu ganhar para si a alma daquele santo ermitão. Assim, concebeu um plano que lhe pareceu infalível. Disfarçado em ulemá e sobraçando um grosso livro apareceu, aparentando cansaço, na gruta do solitário.

– Meu amigo, venho de muito longe e estou muito cansando. Gostaria de passar a noite em tua companhia, pois o sol já se prepara no seio das nuvens para dormir o seu sono e a noite parece que vai ser muita longa e triste.

Ele continuou silencioso e apenas balançou a cabeça muito suavemente, continuando nas suas preces. O demônio entrou e sentou perto dele. A noite chegou. Ao longe ouvia-se o uivo dos coiotes na sua ronda noturna. Quase à porta da gruta passavam cascavéis vibrando seus guizos à procura de pequenos roedores. O monge havia parado de rezar e estático fitava o céu repleto de estrelas. O demônio achou boa a ocasião e se aproximando um pouco mais sussurrou-lhe:

– Meu amigo, sou grato por tua hospitalidade e por isso eu te ofereço um livro raro e muito precioso. Trata-se de um livro da velha sabedoria dos Sacerdotes de Karnac, um livro que ensina a transmutação dos metais em ouro, a projeção da mente a distâncias fabulosas, a linguagem oculta dos astros, os mistérios que se ocultam sob as águas do mar, um meio de tornar os espíritos dos mortos teus escravos. Se quiseres, este livro te ensinará a converter todo esse deserto em um vergel florido e os cardos venenosos em uvas sumarentas. Toma o livro e vem. Sê sábio, meu amigo! A sabedoria é o licor dos deuses.

Ele, porém, voltou-se calmo e fitou o demônio nos olhos. No céu as estrelas olhavam para terra piscando os pequeninos olhos míopes. Conheceu o tentador, pois os santos têm uma espécie de sexto sentido para essas coisas. Fez o sinal da cruz e o diabo explodiu, deixando no ar uma fumaça escura e mal cheirosa.

Passou o resto da noite em completa calma. Pela manhã, bem cedo, notou no horizonte uma pequena nuvem de poeira que foi aumentando, aumentando, até se ouvirem os ruídos dos camelos, o grito dos condutores, as vozes dos escravos. A caravana parou perto da gruta. Dela saiu um homem muito alto, de manto vermelho e Albornoz negro. O recém-chegado se adiantou:

– Santo homem, sou o Sheik de Bassora. O meu nome é Mogul, o grande, senhor do deserto e de todos os benduínos que cortam as areias em seus rápidos corcéis. Soube do vosso existir solitário nesta escura caverna pútrida com o corpo chagado, marcado pelo desconforto e pela fome. Pensei comigo: que homem raro! O poder cabe nele como uma luva, pois só quem sabe dominar os desejos pode exercer o comando dos homens e dominar as coisas.

Novamente ele sentiu a presença do mal nas palavras e nos olhos do Sheik árabe. Com a mão descarnada traçou no ar uma grande cruz e Mogul, a caravana, os escravos e os animais desapareceram como que por encanto.

Passaram-se os dias como a brisa da tarde nas folhas das árvores. Uma tarde em que os lagartos do deserto estivam seus corpos esguios e verdes sobre as rochas negras e os abutres voavam fazendo grandes círculos no ar como se escrevessem com o corpo um texto misterioso no azul do céu, o solitário preparava-se para rezar. Havia colado o rosto contra a terra como se estivesse a ouvir vozes misteriosas vindas do além. Estava nesta posição já há algum tempo, quando um som de flauta, suave como o floco de algodão, fez-se misterioso como o mar.

O anacoreta ergueu-se e estava bem perto dele a flautista. Vestia um manto vermelho sobre a carne desnuda. Os seios túrgidos assemelhavam-se às aspas dos fortes touros de Bazan. A ascas roliças tinham a languidez das ondas do mar quando morrem na praia, beijando a areia. O corpo tinha a cor do jambo maduro. Os lábios vermelhos escondiam dentes muito brancos e pontudos como os dos gatos. Os olhos eram verdes e misteriosos como os olhos das panteras. No baixo ventre estava pousada uma borboleta negra como uma taça a espera da volúpia do vinho. Ela se aproximou e o abraçou. Colou seu ventre sedoso no corpo encarquilhado do monge. As pernas, como duas serpentes, envolveu na cintura dele e a língua quente e úmida penetrou-lhe na boca murcha. O anacoreta não se moveu uma vez mais. Apenas murmurou palavras estranhas e refez o sinal. A visão desvaneceu-se como um floco de neve atingido por um raio de sol.

Por fim, o diabo, tomado de assombro, desistiu. Não havia como tentar aquele homem santo e sincero. Resolveu, por isso, com toda a honestidade que o demônio pode ter, voltar à gruta e prestar ao monge as mais justas homenagens. Quando chegou e viu o monge acariciando um pequeno lagarto cinzento, aproximou-se e disse:

– Ó Santo, três vezes Santo, grande alma iluminada, puro espírito. Eu Satã, senhor dos infernos, prostrado a vosso pés humildemente confesso a minha derrota. Vós sois Santo!

O anacoreta se levantou, colocou a mão nos ombros do diabo e juntos saíram da gruta. Nunca mais foi visto no deserto. Alguns cameleiros dizem tê-lo encontrado bêbado numa taverna sobre o corpo de uma prostituta... Ouça quem tem ouvido de ouvir.

 

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