Por MOISÉS STORCH

Coordenador dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA


 

 

'Sharon Achshav' - Um Novo Sharon?

 

Sharon tem hoje o apoio consensual do povo israelense e da comunidade internacional para negociar uma paz definitiva...

... E parceiros legítimos no outro lado para negociar a paz.

 

Ariel Sharon, que acaba de comandar, vitorioso, a retirada de colonos e soldados israelenses de Gaza, foi recebido com enormes aplausos pela Assembléia Geral da ONU. Foi cumprimentado inclusive por líderes de países muçulmanos como o Paquistão, que jamais reconheceram a existência do Estado judeu.

Lá, neste 15 de setembro, num inspirado discurso destacou a milenar devoção do povo judeu à Terra de Israel, principal pilar do sionismo. Foi um pouco além ao recuperar, de longa hibernação em sua memória, a essência da vertente humanista do ideário sionista, aquela que animou os fundadores do Estado de Israel, quando declarou:

'... O direito do povo judeu à Terra de Israel não significa desconsiderar o direito de outros na terra. Os palestinos sempre serão nossos vizinhos. Nós os respeitamos, e não temos aspirações a governá-los. Eles também são merecedores da liberdade e da existência soberana e nacional de um Estado que seja seu...'

Disse também que, agora, após o desligamento de Gaza, os palestinos têm que fazer a sua parte. A bola está com eles.

Sharon, de fato, não entregou nenhuma bola para os palestinos. Quem conhece Gaza, sabe que o que ele deixou para Abbas foi de fato um 'abacaxi', coalhado por mais de um milhão de pessoas desempregadas. E um abacaxi encaixotado por Israel, que continua controlando todas as ligações por terra, mar e ar da estreita Faixa, exceto sua pequena fronteira com o Sinai egípcio.

Com um atraso de quase 40 anos, o grande arquiteto da colonização dos territórios palestinos tomados da Jordânia e do Egito em 1967 começa a perceber que, durante todo esse tempo, ocupou-se em construir uma canoa furada, que não leva a lugar nenhum, e só tem trazido desgraça e insegurança, não só para o povo palestino, mas também para a sociedade israelense.

Se a ficha realmente caiu, ele saberá que o caminho para a verdadeira 'paz e segurança', que prometeu aos israelenses, passa pelo resgate dos princípios inscritos na Declaração de Independência do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948:

'...O ESTADO DE ISRAEL estará pronto a cooperar com os órgãos e representantes das Nações Unidas para a implementação da Resolução da Assembléia de 29 de novembro de 1947 [pela qual a ONU determinou a partilha da Terra de Israel/Palestina em Dois Estados, um para o povo judeu e outro para o povo árabe-palestino], e tomará os passos para trazer uma União Econômica para toda a Palestina...'

'...Em meio a uma brutal agressão ... oferecemos paz e boa-vizinhança a todos os Estados vizinhos e seus povos, e os convidamos a cooperar com a nação hebraica independente para o bem comum de todos...'

Durante muito tempo os países vizinhos e os líderes dos árabes palestinos não aceitaram a partilha, nem tampouco a criação de um Estado Palestino, como determinado pela ONU em 1947. Preferiram tentar destruir o Estado judeu e fazer da totalidade da Palestina mais um domínio da 'grande nação árabe'.

Este tempo acabou. Os vizinhos mais importantes de Israel já mantêm relações diplomáticas com o país, e a maioria dos palestinos reconhece seu direito de existir como Estado soberano nas fronteiras pré-1967.

Os líderes moderados, que foram democraticamente eleitos para governar o povo palestino, só serão fortalecidos se Israel interromper a colonização da Cisjordânia, e oferecer condições para viabilizar uma vida digna para os moradores da Faixa de Gaza. Só assim, o governo da Autoridade Palestina conseguirá vencer e desarmar a bomba suicida de seus extremistas que, alimentados pela ódio e pela desesperança, ainda querem varrer Israel do mapa.

Muitos na ONU aclamaram Sharon como 'estadista', por sua coragem em promover a retirada dos colonos e soldados de Gaza, desafiar os ultra-nacionalistas fanáticos pelos quais por anos foi venerado. Se a concretização de seu 'plano de desligamento' ainda não basta para lhe conferir esse adjetivo, o primeiro-ministro tem agora tudo para conquistá-lo.

Em nenhum momento da História do Estado de Israel houve tantas condições para a integração pacífica e definitiva do país no Oriente Médio.

Praticamente todo o mundo árabe e muçulmano já se declara disposto a estabelecer laços diplomáticos com o Estado judeu, desde que se alcance uma solução satisfatória para o povo palestino. A comunidade internacional em peso, incluídas as lideranças palestina e dos países árabes, apóia o plano 'road map' que visa implementar a solução da partilha da Terra de Israel/Palestina em dois Estados soberanos, já consagrada pela ONU desde 1947.

Os palestinos elegeram uma liderança moderada, explicitamente disposta a negociar a paz definitiva com Israel, baseada na criação de um Estado Palestino ao seu lado, nos territórios ocupados em 1967.

Esta paz não será alcançada somente por medidas unilaterais. Só chegará através do diálogo entre partes que se respeitam. Lideranças israelenses e palestinas, juntas, já mostraram a possibilidade concreta de equacionar – AGORA – as questões mais críticas do conflito, como Jerusalém, refugiados e lugares santos, e a detalharam no ACORDO DE GENEBRA.

Pesquisas de opinião realizadas nesta semana  revelam que Sharon  é ainda considerado pelos israelenses como o líder mais apto a chegar a um acordo de paz com segurança, e que 71,5 % da população de Israel está disposta a abrir mão dos territórios ocupados no contexto de um acordo definitivo.

Por outro lado, 73% dos palestinos apóiam o estabelecimento de um Estado Palestino com as linhas de 1967 como fronteiras, que se inicie na Faixa de Gaza e gradualmente se estenda para a Cisjordânia.

Assim, Sharon tem hoje o apoio consensual do povo israelense e da comunidade internacional para negociar uma paz definitiva. E tem parceiros legítimos no outro lado para negociar a paz.

A História recente tem mostrado paradoxos como o de um ex-chefe terrorista palestino, Yasser Arafat, ter merecido um Prêmio Nobel da Paz pelo Acordo de Oslo. Arafat, então, como representante legítimo do povo palestino, reconheceu o Estado de Israel e abriu o caminho para a convivência entre os dois povos.

Há também o exemplo do ex-chefe terrorista Menachem Beguin, que também deu um importantíssimo passo em direção à coexistência pacífica da região, ao devolver, como representante do povo israelense, todas as terras conquistadas ao Egito, em troca da paz definitiva com seu maior vizinho.

Sharon está, hoje, com a faca e o queijo na mão para substituir nos anais da História a sua imagem de militar truculento, de principal arquiteto da política suicida de ocupação, pela de um estadista. Terá contribuído decisivamente para concretizar o sonho de israelenses e palestinos por uma vida segura e soberana, acabando com o inútil sacrifício de vidas inocentes. Pode agregar à sua biografia uma vital contribuição para a futura coexistência e prosperidade para judeus e árabes no Oriente Médio.

No final de seu discurso na ONU, ele disse, e o aplaudimos:

'Nosso desejo de paz é grande o suficiente para assegurar que nós a alcançaremos, caso nossos vizinhos sejam autênticos parceiros neste ansiado objetivo. Se tivermos sucesso em trabalhar juntos, podemos transformar nosso pedaço de terra, que é querido para ambos os povos, de uma terra de disputas em uma terra de paz – para nossos filhos e netos.'

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, desde que assumiu a liderança da Autoridade Palestina, vem reiterando sua disposição para negociar com idêntico objetivo. Falta Sharon transformar suas palavras em ação, passando da unilateralidade arrogante para o diálogo construtivo. Sem pré-condições.

A bola está com Sharon Achshav.

© PAZ AGORA/BR

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