Os
colonos judeus, a faixa de Gaza e o fanatismo, ou porque o
Iluminismo é ainda necessário
Tornou-se
quase uma praxe, nos últimos anos, especialmente depois do
advento da assim chamada pós-modernidade, a crítica ao
pensamento racional e científico que tem como uma de suas fontes
principais o Iluminismo. Estabeleceu-se como dado que toda a herança
de Voltaire, Rousseau e tantos outros seria simplesmente descartável.
Os ideais iluministas seriam fruto de mentes cristãs, brancas,
ocidentais e masculinas, prontas a buscarem justificativas para a
dominação ocidental no mundo.
Dentro
dessa forma de pensamento, algumas das idéias dos iluministas,
como a crença no progresso e na razão, teriam se demonstrado
especialmente vazias, particularmente quando defrontadas com a
experiência histórica dos últimos duzentos anos. Hiroxima e
Auschwitz seriam a prova de que não houve nenhum progresso na
trajetória humana nos últimos séculos e que a crença na razão
e na ciência seria absurda. Pior: o Iluminismo teria fornecido a
base ideológica de onde teriam emanado o nazismo e o stalinismo,
o que tornaria ainda mais imperativo que ele fosse esquecido.
À
parte o absurdo da última afirmação, tal maneira de ver o mundo
acaba por nos conduzir, nos mais diferentes campos, a um quase
niilismo. Na análise histórica ou científica, ela leva,
potencialmente, a recusa da idéia de que é possível, dentro de
certos limites, compreender a História ou a natureza (e,
portanto, mudá-las). Na vida social, conduz à paralisia, já que
não sobram conceitos claros para definir o que é certo ou
errado. No campo das idéias, por fim, abre o caminho para que
todos os tipos de pensamento adquiram o mesmo status. Afinal, se
tudo é relativo e não há nada que nos permita separar o bom do
mau pensamento, que resta além de colocá-los um do lado do
outro, num processo infinito de coletar “discursos”?
Claro
que nem toda a crítica ao Iluminismo e aos ideais racionalistas
do mundo moderno foi e é inútil. Afinal, não é mais possível
compartilhar o ideal dos séculos XVIII e XIX de um progresso contínuo
(alimentado pela ciência e pela razão) do homem e da sociedade
humanas, o qual traria a felicidade eterna e plena. Também está
claro como o progresso material nem sempre significa felicidade e
que esperar que o ser humano viva apenas segundo critérios de
racionalidade pura, sem ceder à emoção, à irracionalidade e à
subjetividade, é absurdo. Por fim, o próprio processo de construção
do conhecimento científico é beneficiado por alguma
subjetividade, flexibilidade e desconfiança de seu caráter de
verdade absoluta.
No
entanto, não é possível jogar o bebê com a água do banho. O
Iluminismo foi uma das fontes, provavelmente uma das principais,
da modernidade e vários das coisas que ele defendia –
liberdade, conhecimento, razão, progresso – foram fundamentais
para a formatação do mundo (especialmente, mas não só, do
Ocidente) hoje. Ainda temos pobreza, violência, conflitos e ignorância,
mas muito menos do que décadas ou séculos atrás. E, mais
importante, consolidou-se a idéia de que todas essas coisas são
negativas, a serem eliminadas. Se o serão em escala global, é
outra coisa, mas o simples fato de este ser o objetivo é algo que
indica que a herança iluminista deve ser mais celebrada do que
execrada.
As
cenas da retirada dos colonos judeus da faixa de Gaza mês passado
reforçam essa impressão. A faixa de Gaza foi colonizada dentro
de uma política formatada pelo Estado de Israel desde os anos 70,
atraindo desde pessoas interessadas em subsídios e moradias mais
baratas até religiosos que acreditam que Deus deu aquela terra
aos judeus milênios atrás e que é o seu dever mantê-las,
expulsando os residentes árabes.
A
reação dos dois grupos à ordem de retirada do governo
israelense indica claramente a diferença entre eles. Os não-religiosos
podem ter se sentido, até com alguma razão, ultrajados por terem
sido estimulados a mudar para as colônias e, agora, dali serem
removidos, perdendo suas casas e propriedades. Mas, quando
confrontados com uma firme ação do governo de Israel e compensações
financeiras, a maioria reagiu de forma irritada, mas racional,
sendo retirados sem problemas.
Já
os religiosos, apesar de, ao final, aceitarem a realidade dos
fatos, interpretaram a situação de forma muito mais conflituosa,
tudo fazendo para resistir até o último minuto. Mesmo que o
governo dobrasse ou multiplicasse por dez as indenizações, nada
adiantaria, pois eles estão imbuídos da crença de que, ao
matarem os árabes e insistirem em manter aquelas terras, fazem a
obra do Senhor. Dinheiro, argumentos sobre as vantagens da
retirada para o processo de paz e para a segurança de Israel ou
quaisquer outros não funcionariam (ao menos, não para a
maioria), sendo necessário o uso da força.
Apesar
de, muitas vezes, as questões religiosas (entendendo-se a religião
aqui como a crença cega em algo não demonstrável lógica e
empiricamente, o que pode incluir seitas políticas, preconceitos
e mitologias de todo tipo, etc) estarem associadas a interesses
políticos ou econômicos que dão a elas algum grau de
racionalidade, muitas vezes elas são apenas isso, crenças sem
uma base empiricamente demonstrável (ou algum colono tem a carta
de Deus dando aquelas terras aos judeus?), mas que movem as
pessoas. Tal situação se repete ad
infinitum tanto no nosso cotidiano (como sabe muito bem quem já
foi parado no ônibus por algum missionário de alguma religião)
como no cenário internacional.
Afinal,
apesar de haver, por exemplo, uma verdadeira “economia do
terrorismo” (no sentido de que vários terroristas se matam para
garantir objetivos políticos palpáveis, a subsistência de suas
famílias ou resgatar seu orgulho próprio), será que haveria
pessoas para explodirem aviões em prédios se elas realmente não
acreditassem nas recompensas da vida pós-morte? Com elas,
argumentos racionais sobre a necessidade de convivência entre as
pessoas, o diálogo e etc não funcionam, simplesmente porque o
seu sistema de pensamento funciona num cumprimento de onda
diferente das que não compartilham a sua crença.
Realmente,
o debate sempre pode se dar entre os que querem debater e estão
dispostos a mudar suas opiniões frente a argumentos ou opiniões
do outro. Para os que baseiam todo o seu pensamento em algumas
crenças imutáveis e acreditam ter a verdade final e pronta em mãos,
não há como haver debate e sou cético sobre a possibilidade de
diálogo com essas pessoas, sejam elas fanáticos religiosos
(judeus, muçulmanos, cristãos ou
hindus, não importa), militantes de extrema esquerda ou
direita, nacionalistas, fanáticos dos “mercados” e outros
menos cotados.
Enfim,
o que tento demonstrar aqui é que nosso mundo precisa de mais
racionalidade e não de menos.
Não defendo, claro, que as pessoas não possam ter as suas
crenças e idéias sobre o sentido da vida humana na Terra (algo
que o pensamento racional com certeza não faz), mas seria
conveniente que elas ficassem na esfera privada, mantendo o Estado
e o debate público laico e democrático. Do mesmo modo, não
acredito que tudo deve ser reduzido ao racional e ao material,
como se ninguém pudesse ter ideais que merecem ser defendidos
mesmo contra a lógica. Mas isso deveria ser a exceção na esfera
pública e não a regra, como tem sido o caso ultimamente. Talvez
não seja mais possível
defender as “luzes” no sentido do século XVIII, mas um pouco
mais de luz não faria mal nesse nosso mundo às vezes tão
escuro.