Por JOÃO FÁBIO BERTONHA

Doutor em História e Docente na Universidade Estadual de Maringá

 

Os colonos judeus, a faixa de Gaza e o fanatismo, ou porque o Iluminismo é ainda necessário

 

Tornou-se quase uma praxe, nos últimos anos, especialmente depois do advento da assim chamada pós-modernidade, a crítica ao pensamento racional e científico que tem como uma de suas fontes principais o Iluminismo. Estabeleceu-se como dado que toda a herança de Voltaire, Rousseau e tantos outros seria simplesmente descartável. Os ideais iluministas seriam fruto de mentes cristãs, brancas, ocidentais e masculinas, prontas a buscarem justificativas para a dominação ocidental no mundo.

Dentro dessa forma de pensamento, algumas das idéias dos iluministas, como a crença no progresso e na razão, teriam se demonstrado especialmente vazias, particularmente quando defrontadas com a experiência histórica dos últimos duzentos anos. Hiroxima e Auschwitz seriam a prova de que não houve nenhum progresso na trajetória humana nos últimos séculos e que a crença na razão e na ciência seria absurda. Pior: o Iluminismo teria fornecido a base ideológica de onde teriam emanado o nazismo e o stalinismo, o que tornaria ainda mais imperativo que ele fosse esquecido. 

À parte o absurdo da última afirmação, tal maneira de ver o mundo acaba por nos conduzir, nos mais diferentes campos, a um quase niilismo. Na análise histórica ou científica, ela leva, potencialmente, a recusa da idéia de que é possível, dentro de certos limites, compreender a História ou a natureza (e, portanto, mudá-las). Na vida social, conduz à paralisia, já que não sobram conceitos claros para definir o que é certo ou errado. No campo das idéias, por fim, abre o caminho para que todos os tipos de pensamento adquiram o mesmo status. Afinal, se tudo é relativo e não há nada que nos permita separar o bom do mau pensamento, que resta além de colocá-los um do lado do outro, num processo infinito de coletar “discursos”?

Claro que nem toda a crítica ao Iluminismo e aos ideais racionalistas do mundo moderno foi e é inútil. Afinal, não é mais possível compartilhar o ideal dos séculos XVIII e XIX de um progresso contínuo (alimentado pela ciência e pela razão) do homem e da sociedade humanas, o qual traria a felicidade eterna e plena. Também está claro como o progresso material nem sempre significa felicidade e que esperar que o ser humano viva apenas segundo critérios de racionalidade pura, sem ceder à emoção, à irracionalidade e à subjetividade, é absurdo. Por fim, o próprio processo de construção do conhecimento científico é beneficiado por alguma subjetividade, flexibilidade e desconfiança de seu caráter de verdade absoluta.

No entanto, não é possível jogar o bebê com a água do banho. O Iluminismo foi uma das fontes, provavelmente uma das principais, da modernidade e vários das coisas que ele defendia – liberdade, conhecimento, razão, progresso – foram fundamentais para a formatação do mundo (especialmente, mas não só, do Ocidente) hoje. Ainda temos pobreza, violência, conflitos e ignorância, mas muito menos do que décadas ou séculos atrás. E, mais importante, consolidou-se a idéia de que todas essas coisas são negativas, a serem eliminadas. Se o serão em escala global, é outra coisa, mas o simples fato de este ser o objetivo é algo que indica que a herança iluminista deve ser mais celebrada do que execrada.

As cenas da retirada dos colonos judeus da faixa de Gaza mês passado reforçam essa impressão. A faixa de Gaza foi colonizada dentro de uma política formatada pelo Estado de Israel desde os anos 70, atraindo desde pessoas interessadas em subsídios e moradias mais baratas até religiosos que acreditam que Deus deu aquela terra aos judeus milênios atrás e que é o seu dever mantê-las, expulsando os residentes árabes.

A reação dos dois grupos à ordem de retirada do governo israelense indica claramente a diferença entre eles. Os não-religiosos podem ter se sentido, até com alguma razão, ultrajados por terem sido estimulados a mudar para as colônias e, agora, dali serem removidos, perdendo suas casas e propriedades. Mas, quando confrontados com uma firme ação do governo de Israel e compensações financeiras, a maioria reagiu de forma irritada, mas racional, sendo retirados sem problemas.

Já os religiosos, apesar de, ao final, aceitarem a realidade dos fatos, interpretaram a situação de forma muito mais conflituosa, tudo fazendo para resistir até o último minuto. Mesmo que o governo dobrasse ou multiplicasse por dez as indenizações, nada adiantaria, pois eles estão imbuídos da crença de que, ao matarem os árabes e insistirem em manter aquelas terras, fazem a obra do Senhor. Dinheiro, argumentos sobre as vantagens da retirada para o processo de paz e para a segurança de Israel ou quaisquer outros não funcionariam (ao menos, não para a maioria), sendo necessário o uso da força.

Apesar de, muitas vezes, as questões religiosas (entendendo-se a religião aqui como a crença cega em algo não demonstrável lógica e empiricamente, o que pode incluir seitas políticas, preconceitos e mitologias de todo tipo, etc) estarem associadas a interesses políticos ou econômicos que dão a elas algum grau de racionalidade, muitas vezes elas são apenas isso, crenças sem uma base empiricamente demonstrável (ou algum colono tem a carta de Deus dando aquelas terras aos judeus?), mas que movem as pessoas. Tal situação se repete ad infinitum tanto no nosso cotidiano (como sabe muito bem quem já foi parado no ônibus por algum missionário de alguma religião) como no cenário internacional.

Afinal, apesar de haver, por exemplo, uma verdadeira “economia do terrorismo” (no sentido de que vários terroristas se matam para garantir objetivos políticos palpáveis, a subsistência de suas famílias ou resgatar seu orgulho próprio), será que haveria pessoas para explodirem aviões em prédios se elas realmente não acreditassem nas recompensas da vida pós-morte? Com elas, argumentos racionais sobre a necessidade de convivência entre as pessoas, o diálogo e etc não funcionam, simplesmente porque o seu sistema de pensamento funciona num cumprimento de onda diferente das que não compartilham a sua crença.

Realmente, o debate sempre pode se dar entre os que querem debater e estão dispostos a mudar suas opiniões frente a argumentos ou opiniões do outro. Para os que baseiam todo o seu pensamento em algumas crenças imutáveis e acreditam ter a verdade final e pronta em mãos, não há como haver debate e sou cético sobre a possibilidade de diálogo com essas pessoas, sejam elas fanáticos religiosos (judeus, muçulmanos, cristãos ou  hindus, não importa), militantes de extrema esquerda ou direita, nacionalistas, fanáticos dos “mercados” e outros menos cotados.

Enfim, o que tento demonstrar aqui é que nosso mundo precisa de mais racionalidade e não de menos.  Não defendo, claro, que as pessoas não possam ter as suas crenças e idéias sobre o sentido da vida humana na Terra (algo que o pensamento racional com certeza não faz), mas seria conveniente que elas ficassem na esfera privada, mantendo o Estado e o debate público laico e democrático. Do mesmo modo, não acredito que tudo deve ser reduzido ao racional e ao material, como se ninguém pudesse ter ideais que merecem ser defendidos mesmo contra a lógica. Mas isso deveria ser a exceção na esfera pública e não a regra, como tem sido o caso ultimamente. Talvez não seja mais  possível defender as “luzes” no sentido do século XVIII, mas um pouco mais de luz não faria mal nesse nosso mundo às vezes tão escuro.

 

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