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Por MARILENA CHAUÍ
Edição:
Nicolau Soares
Revista
Forum, ano 4, nº 30, setembro de 2005 -
edição comemorativa Publisher
Brasil |
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Silêncio
forçado
Em
palestra, Marilena Chauí atribui o retraimento dos
intelectuais à ausência de um pensamento capaz de interpretar as
contradições do presente e decreta: “a despolitização da
sociedade produz a substituição do intelectual engajado pela
figura do especialista competente”.
A
filósofa Marilena Chauí abriu o ciclo de conferências “O Silêncio
dos Intelectuais”, primeira de uma série de seminários
promovidos pelo Ministério da Cultura. Com conferências realizadas
em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador, o primeiro
ciclo buscou debater o papel dos intelectuais na sociedade contemporânea.
Em sua palestra, traçou um panorama da atuação desses pensadores
na história e a importância da autonomia para que eles possam ser
considerados verdadeiros intelectuais. Para ela, o papel
desenvolvido pelas ciências no capitalismo neoliberal é uma das
explicações do atual retraimento dos intelectuais engajados. “Se
as artes já haviam sido devoradas pela indústria cultural, agora são
as ciências e as técnicas que se encontram submetidas à lógica
do capital”, declarou. Leia abaixo os principais trechos da conferência.
Transgressores
Se
acompanharmos o percurso histórico dos intelectuais, notaremos que
há uma situação paradoxal, pois os intelectuais oscilam entre o
recolhimento e o engajamento, o silêncio e a intervenção pública.
Oscilação que decorre das circunstâncias nas quais a demanda de
autonomia racional é respeitada ou ameaçada pelos poderes instituídos.
Se ela é respeitada, os produtores culturais permanecem recolhidos.
Se ela é ameaçada, eles se tornam intelectuais e vêm à cena pública
defendê-la. A fala pública e a ação pública dos intelectuais,
principalmente porque balizadas pela afirmação da autonomia,
assumem dois traços principais: a transgressão em relação à
ordem vigente e a defesa de causas universais, distantes de
interesses particulares imediatos.
Fantasma
da independência
A
independência, conquistada a duras penas pela racionalidade
moderna, transformou-se num fantasma poderoso: a crença de que as
idéias determinam o movimento da historia ou que elas são o motor
da historia. Ocultando a determinação histórica do saber, a divisão
social das classes, a exploração econômica e a dominação política,
as idéias se tornam representações abstratas, imagens que a
classe dominante tem de si mesma e que se estendem para todas as
classes sociais e para todas as épocas. Numa palavra: a ideologia
integra a lógica da luta de classes em favor da classe dominante.
Isso significa, como explicou Gramsci, que a classe dominante tem
intelectuais orgânicos. Mas significa também que a autonomia
racional das artes e do pensamento entendida como autonomia dos
intelectuais e de sua intervenção pública, só pode ser afirmada
se ela for balizada pela tomada de posição no interior da luta de
classes, contra os dominantes, e na redefinição dos universais
compreendendo-os como universais concretos. Essa tomada de posição
contra a ordem vigente e a classe dominante é exatamente o que a noção
de engajamento ou do intelectual como figura que intervém
criticamente na esfera pública procura exprimir, trazendo consigo não
só a transgressão da ordem e critica do existente, mas também a
crítica da fome de conteúdo da própria atividade das artes, ciência,
técnica filosofia e direito. Com a noção de engajamento como
tomada de posição no interior da luta de classes contra a forma de
exploração e dominação vigentes em nome da emancipação ou da
autonomia em todas as esferas da vida econômica, política, social,
podemos diferenciar o intelectual e o ideólogo.
Ceticismo
desencantado
Se
a diferença entre o intelectual e o artista, cientista, técnico,
filósofo, jurista encontra-se no fato que o intelectual é um
desses quando ele intervém no espaço público, a expressão “silêncio
dos intelectuais” pareceria contraditória. Mas se há silêncio,
se não há intelectuais, convém indagar porque. A primeira dessas
causas, certamente, é, como diz um autor, “o amargo abandono das
utopias revolucionárias, a rejeição da política e um ceticismo
desencantado”. Essa atitude se dá sob os efeitos do totalitarismo
dos países ditos comunistas, do fracasso da Glasnost na União Soviética,
e do recuo da social-democracia com a adoção da chamada Terceira
Via, ou “o capitalismo acrescido de valores socialistas”, como
diz o Partido Socialista Inglês. Assim, desaparece o horizonte histórico
do futuro, o presente se fecha sobre si mesmo, a ordem vigente
aparece auto-legitimada e justificada porque nada parece contradizê-la
ou a elas se opor, e os ideólogos podem comprazer-se falando do Fim
da História. O retraimento do engajamento ou o silêncio é aqui o
signo de uma ausência mais profunda. A ausência de um pensamento
capaz de desvendar e interpretar as contradições que movem o
presente.
Privatização
da política
A
segunda causa é o encolhimento do espaço público e o alargamento
do espaço privado sob os imperativos da nova forma de acumulação
do capital conhecida com neoliberalismo. Um dos efeitos dessa situação
é a transformação de direitos econômicos e sociais em serviços,
definidos pela lógica de mercado e com isso a transformação do
cidadão em consumidor. Se os direitos, conquistados nos embates no
espaço público e na luta de classes, são privatizados, o cerne da
democracia é ferido mortalmente e a despolitização da sociedade
é uma decorrência necessária. O recuo da cidadania e a
despolitização da sociedade produzem a substituição do
intelectual engajado pela figura do especialista competente, cujo
suposto saber lhe confere o poder para em todas as esferas da vida
social, dizer aos demais o que devem pensar, sentir, fazer e esperar.
A crítica do existente é silenciada pela proliferação ideológica
competente dos receituários do bem-viver.
Sociedade
do conhecimento
A
terceira causa é a nova forma de inserção do saber e da
tecnologia no modo de produção capitalista. Tornaram-se forças
produtivas, deixando de ser mero suporte do capital para se
converter em agentes diretos na acumulação capitalista. Conseqüentemente,
mudou o modo de inserção dos pensadores e técnicos na sociedade,
porque eles se tornaram agentes econômicos diretos, e a força e o
poder capitalistas encontram-se hoje no monopólio do conhecimento e
da informação. Surge assim a expressão “sociedade do
conhecimento” para indicar que a economia contemporânea se funda
sobre as ciências e a informação graças ao uso do conhecimento,
da inovação tecnológica e da informação nos processos
produtivos. Chega-se mesmo a falar em capital intelectual,
considerado por muitos como o principal princípio ativo das
empresas. Afirma-se que hoje o conhecimento não se define mais por
disciplinas especificas, e sim por problemas e por sua aplicação
nos setores empresariais. A pesquisa é pensada como uma estratégia
de intervenção e de controle de meios ou de instrumentos para a
consecução de um objetivo delimitado. Em outras palavras, a
pesquisa não é mais uma investigação. Ela emprega intensamente
redes eletrônicas para se produzir e se transformar em tecnologia e
se submete a controles de qualidade segundo os quais deve demonstrar
sua pertinência social mostrando sua eficácia econômica. Fala-se
em “explosão do conhecimento” para indicar o aumento
vertiginoso dos saberes, quando na realidade indica o modo da
determinação econômica do conhecimento. Pois, no jogo estratégico
da competição no mercado, uma organização de pesquisa se mantém
e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades
e obstáculos sempre novos. Não tem inovação verdadeira do
conhecimento.
Competição
empresarial
O
conhecimento contemporâneo se caracteriza pela fragmentação e
parcelização dos problemas em “micro-problemas” para que pareçam
problemas novos. Ele se caracteriza pelo crescimento acelerado e
pela tendência a uma rápida obsolescência. Nesse contexto, como
falar em autonomia racional? Se as artes já haviam sido devoradas
pela industria cultura, agora são as ciências e as técnicas que
se encontram submetidas à lógica do capital. Os produtores de
conhecimento e tecnologias absorvem a lógica da competição
empresarial e dão a ela sua adesão, negando, portanto, a autonomia
racional que dava autoridade à intervenção pública, crítica dos
intelectuais. A autonomia racional era a independência com que a
racionalidade cientifica definia seus objetos, métodos, resultado e
aplicação segundo critérios imanentes ao próprio conhecimento e
a distância dos interesses particulares. Ora, a autonomia racional
era a condição tanto da qualidade do saber como da autoridade do
intelectual engajado para transgredir a ordem vigente. Perdida a
autonomia, o que resta senão o silêncio?
Tagarelas
Se
os intelectuais estão em silêncio, em contrapartida os ideólogos
estão cada vez mais tagarelas. Sua tagarelice recebeu um nome
pomposo: chama-se pós-modernismo, definido por Jameson como a lógica
cultural do capitalismo tardio. Em sua forma contemporânea, a
sociedade capitalista se caracteriza pela fragmentação de todas as
esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da
dispersão espacial e temporal do trabalho, do desemprego estrutural
e da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de
classe e as formas da luta de classes. A sociedade aparece como uma
rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares,
definidas por estratégias particulares e por programas particulares
competindo entre si. Ela aparece como meio ambiente, perigoso, ameaçador
e ameaçado, que deve ser gerido, programado, planejado e controlado
por estratégias de intervenção tecnológica e jogos de poder. A
materialidade econômica e social da nova forma do capital é
inseparável de uma transformação sem precedentes na experiência
do espaço e do tempo designada por David Harvey como a compressão
espaço-temporal. Ou seja, o fato de que a fragmentação e a
globalização da produção econômica engendram dois fenômenos
contrários e simultâneos. De um lado, a fragmentação e dispersão
espacial e temporal. E, de outro, sob os efeitos das tecnologias
eletrônicas e de informação, a compressão do espaço (tudo se
passa aqui, sem distâncias, diferenças ou fronteiras), e a
compressão do tempo (tudo se passa agora, sem passado e sem
futuro). Na verdade, fragmentação e dispersão do espaço e do
tempo, condicionam sua reunificação sob um espaço indiferenciado
e um tempo efêmero. Ou sob um espaço que se reduz a uma superfície
plana de imagens ou um tempo que perdeu a profundidade, e se reduz
ao movimento de imagens velozes e fugazes.
Narcisismo
político
A
naturalização e valorização positiva da fragmentação e dispersão
sócio-econômica estimulam um individualismo agressivo e a busca de
sucesso a qualquer preço, ao mesmo que tempo em que dão lugar a
uma forma de vida determinada pela insegurança e pela violência
institucionalizada pela volatilidade do mercado. Insegurança e medo
levam ao gosto pela intimidade, ao reforço de antigas instituições,
sobretudo a família e o clã, como refúgios contra o mundo hostil,
ao retorno das formas místicas e autoritárias ou fundamentalistas
de religião, e a adesão à imagem da autoridade política forte ou
despótica. Se, sob os imperativos da sociedade de consumo e do
espetáculo, as artes foram submetidas à lógica da industria
cultural, agora, com aqueles imperativos, acrescidos do
fortalecimento da figura pessoal do governante, a política se torna
indústria política. Por isso, dá ao marketing a tarefa de vender
a imagem do político e reduzir o cidadão a figura privada do
consumidor. Para obter e identificação do consumidor com o
produto, o marketing reproduz a imagem do político enquanto pessoa
privada: características corporais, preferências sexuais, culinárias,
literárias, esportivas, hábitos cotidianos, vida em família,
bichinhos de estimação. A privatização das figuras do político
e do cidadão privatiza o espaço público. Com isso, a avaliação
ética dos governos não possui critérios próprios de uma ética pública,
e se torna uma avaliação de virtudes e vícios pessoais dos
governantes, e a corrupção é atribuída ao mau caráter dos
dirigentes e não às instituições públicas. Temos o
narcisismo completo.
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