Corrupção,
desenvolvimento e sub-desenvolvimento:
uma
comparação de alguns casos internacionais
Alguns
anos atrás, quando parecia realmente que o Partido dos
Trabalhadores iria ao menos tentar atacar algumas das mazelas históricas
do país, como a má distribuição de renda e o descaso pela
educação, escrevi alguns artigos alertando que era importante
evitar uma simplificação excessiva das coisas, como se
distribuir renda e educar a população fossem as únicas políticas
a serem colocadas em prática para garantir o desenvolvimento
nacional. Alertava, então, que privilegiar a educação e criar
políticas para desconcentrar a renda eram prioridades nacionais
absolutas, mas que todo um conjunto de problemas teria que ser
atacado, como o crescimento econômico, a inserção competitiva
do país no mundo e outros para evitar que apenas socializássemos
a pobreza e/ou tivéssemos uma mão de obra educada, mas sem
perspectivas.
No
fim, aqueles artigos se revelaram perda de tempo, pois o governo
petista pouco fez para alterar os padrões de concentração de
renda nacionais. Continuamos, no máximo, com programas de
assistencialismo (necessários, mas incapazes de modificar o
quadro geral), enquanto a política econômica continua a garantir
que as Daslu e as favelas nacionais continuem a coexistir como
sempre. No campo da educação, também pouco se modificou e
continuamos com o ensino fundamental péssimo e uma Universidade,
em geral, consumida pela falta de verbas, corporativismo, etc. A
grande inovação foi a política de quotas raciais e sociais, a
qual me parece mais uma tentativa de manter um verniz de esquerda
na política do governo e de “tapar o sol com a peneira” do
que qualquer outra coisa.
Enfim,
escrever aqueles artigos foi um sintoma de esperança mas, hoje,
fica claro como eles foram inúteis. Estou correndo o risco de
repetir o processo hoje, mas parece conveniente discutir um
sentimento que sempre esteve presente na sociedade brasileira, mas
que parece estar ficando ainda mais evidente nesses últimos
meses, ou seja, de que o único problema nacional é a corrupção
e que, resolvida esta, o Brasil viraria a Suécia.
Antes
de tudo, convém, até por clareza, estabelecer os parâmetros da
crise atual. Todas as críticas que estão sendo dirigidas ao PT
hoje são mais do que válidas, no sentido de que o Partido
realmente agiu de forma ilegal em vários sentidos, permitindo
corrupção e tráfico de influências, se aliando com figuras
reconhecidamente corruptas, etc. Impossível não ver os sinais e
as provas disso em todos os depoimentos e reportagens que se
sucedem. Enfim, se o PT deixou de ser o partido da mudança para o
da ordem, a perda da sua aura de ética absoluta foi apenas o
golpe final.
O
que espanta, na verdade, é que, apesar das culpas e das falhas do
Partido, ele nem de longe é a máquina de corrupção apresentada
pela mídia. Se fossemos criar um aparelho para medir níveis de
corrupção, atos ilegais para aumentar o poder próprio, tráfico
de influências, etc, o índice do PT seria seguramente bem mais
baixo do que o da maioria dos partidos. Aliás, é revoltante ver
figuras com uma trajetória no mínimo controvertida nesses
aspectos (para dizer o mínimo) dando entrevistas como os
“paladinos da moralidade republicana”. As elites podem não
estar organizando um complô para tirar o PT do poder, mas que
setores da mídia e do mundo político, por seus interesses próprios,
estão se aproveitando da situação (com extremo sucesso, aliás)
para destruir o único elemento que restava ao PT enquanto
alternativa para a sociedade, a ética, é inegável.
Mas,
enfim, supondo que o resultado final de tudo isso seja um país
menos corrupto, será que isso significaria a passagem do Brasil
para o Primeiro Mundo? Infelizmente, parece que esta é uma
esperança vã. Um país pode se desenvolver econômica e
socialmente mesmo tendo altos níveis de corrupção, como
demonstram, por exemplo, os casos da Itália e do Japão no pós
Segunda Guerra Mundial, enquanto índices de corrupção
equivalentes não significam, automaticamente, o mesmo desempenho
na área econômica e social. México e Brasil, por exemplo, têm,
segundo os índices da ONG “Transparência Internacional”, índices
de corrupção equivalentes e, mesmo assim, o México nos superou
em riqueza e dinamismo econômico.
Já
a China, a Índia e a Rússia são mais corruptas do que o Brasil,
mas crescem muito mais. As duas últimas, aliás, são conhecidas
como países onde a troca de favores, as propinas, etc são endêmicas,
até para fugir do alistamento militar ou ver o filho recém
nascido na maternidade, o que não as impede de crescer.
Não
estamos sugerindo aqui, claro, que a corrupção é um valor a ser
defendido. Mesmo sabendo que corrupção zero é algo inatingível,
é possível e desejável, até por uma questão de justiça, que
ela seja controlada e limitada, como o fazem países civilizados,
como a Finlândia, a Dinamarca e outros. Também não faria
sentido afirmar que a existência da corrupção seja um fator de
dinamismo econômico e social, pois senão Bangladesh ou Paraguai
seriam potências mundiais.
Também
está fora de discussão os males que a corrupção causa ao
tecido social e ao crescimento econômico. Seja na propina do dia
a dia para liberar documentos, seja nas malas de dinheiro nas
altas esferas, ela diminui a confiança da população, e
especialmente, dos mais pobres, no Estado; rouba renda das pessoas
e receita tributária do Estado que podiam ser utilizadas para
algo útil, etc. O que quero afirmar é que é possível crescer
apesar da corrupção (ainda que, claro, esse crescimento,
provavelmente, seria maior e mais justo se ela não existisse) e
que ela, apesar de ser danosa para a sociedade, não é a fonte do
subdesenvolvimento de um dado país, mas, em boa medida, uma
conseqüência dele.
Realmente,
a corrupção é a conseqüência lógica de um Estado
burocratizado, com funcionalismo mal pago, leis frouxas ou apenas
no papel e de uma sociedade, de alto a baixo, que a aceita. Ao se
instalar ou crescer, ela aumenta ainda mais a falta de
legitimidade do Estado frente à população, suga recursos
escassos e piora, claro, a situação. Mas um país rigorosamente
honesto não seria, obrigatoriamente, um país rico. Menos
injusto, provavelmente, mas não obrigatoriamente uma Noruega. O
fato da maioria dos países mais honestos do mundo serem
desenvolvidos é um reflexo da cultura, invejável, dos seus
povos, mas também do rigor das suas leis, da força do seu Estado
e do dinamismo das suas economias e sociedades. A honestidade
apenas reforça os traços já positivos, num círculo virtuoso.
Assim,
combater a corrupção é algo essencial para auxiliar o
desenvolvimento nacional, mas um país mais honesto não
significa, automaticamente, um país em plena marcha para o
crescimento econômico e social. Seria uma grande conquista por si
só, claro, e ajudaria esse crescimento, mas não seria,
automaticamente, a
solução para tudo, como parece ser o senso comum hoje.
Mas,
enfim, talvez seja esta uma discussão inútil. Já que a corrupção
está entranhada na nossa cultura e sociedade e boa parte do
discurso anticorrupção atual não passa disso, discurso para
consumo público, as possibilidades reais das reformas (do Estado,
do Judiciário, etc) que a limitariam são quase zero. O Brasil não
vai ser “passado limpo” dessa vez, aliás porque ninguém o
quer. Mais uma vez, acho que estou perdendo tempo e energia
escrevendo sobre algo desejável, mas que não vai ocorrer. Mas,
talvez, ter esperança seja o único jeito de conseguir viver no
Brasil sem pensar em encontrar uma saída no aeroporto
internacional mais próximo.