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Por EZIO FLAVIO BAZZO
Doutor em Psicologia
Clínica e escritor. Autor de Vagabundo na China, Dymphne
a santa protetora dos loucos; Ecce Bestia, entre outros |
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De
braços dados com a loucura
“O
poder corrompe, a impotência também…”
T.
Szasz
Uma
senhora que chegou em Brasília precisamente no dia em que
levantaram as primeiras pilastras do que hoje é chamado de Patrimônio
Cultural da Humanidade, escreveu-me uma longa carta citando
nomes importantes da psiquiatria e da antipsiquiatria, falando da «loucura»
de sua filha de 18 anos, contando-me de seu fascínio por Wilhelm
Reich nos anos 60 e sugerindo-me que traçasse um mapa dos hospícios
da cidade, um mapa que pudesse ser útil para quem necessitasse
internar algum familiar ou, por que não, internar-se a si próprio.
Nas primeiras linhas, chamava especialmente atenção para algo que
eu nunca havia me dado conta, o fato do traçado de Brasília ser idêntico
ao logotipo da psicologia. Num dos parágrafos dedicados à Brasília,
essa senhora expressava seu desacordo com o nome que acabaram dando
a esta cidade, principalmente, porque, segundo ela, em Minas Gerais,
existe desde 1832, uma vila chamada Brasília! Além de feminino,
esse nome é ridículo! Compare-o com Shangai, por exemplo. Com
Londres. Milão. Acapulco. Mas agora não dá mais para fazer nada
– se lamentava. Rachel de Queiroz, que também achava «Brasília»
um nome feio, antieufônico e pedante, em sua página Raminho de
Alecrim, de 09 de fevereiro de 1957, na revista O Cruzeiro,
citava algumas sugestões de leitores para nominar a nova capital.
Um mineiro opinava que a cidade se chamasse nada mais nada menos que
Juscelínia; uma senhora de SP, sugeria que se lhe desse o nome
de Moema; para um gaúcho o nome ideal seria Utopia e
para um baiano, seria uma manifestação cidadã chamá-la de Tamandaré.
Minha correspondente fazia menção também ao primeiro assassinato
ocorrido aqui. Alvino Ribeiro, um gaúcho de Erexim, com 22 anos,
morto no dia 26 de agosto de 1957, por um cozinheiro goiano, a
golpes de facão, na empoeirada futura capital federal. Não sei por
que, mas li e reli aquela carta sentindo que ela continha nas
entrelinhas um outro texto, um discurso e um segredo inacessível. A
palavra hospício, inicialmente não me pareceu adequada, mas
depois, fui simpatizando tanto com ela, a ponto de não encontrar,
em lugar nenhum de minha encyclopaedia uma outra, que pudesse
ser mais própria, para designar «esse lugar» onde se hospedam, se
internam, se confinam, se isolam, se aprisionam e se tratam os
pacientes com transtornos mentais. Frenocômio sim, me parecia uma
palavra horrível. Por uma questão de consciência, respondi-lhe
imediatamente que, apesar da precariedade de atendimento aos «loucos»
no Brasil, ter sido historicamente um verdadeiro vexame,
a problemática era universal, e que se dependesse de mim, ela
poderia estar certa, construiria para eles um parlatório de
mármore ou mesmo uma espécie de Taj Mahal, bem ali na Península
dos Ministros.
É quase unânime a crença de que Brasília é uma cidade especial
também naquilo que se refere à saúde mental. Já ouvi até
pessoas licenciadas em alguma coisa, insistindo que aqui nesta ilha
de vivaldinos, a burocracia, o poder, a sequidão, o
caipirismo, os cargos e as riquezas ilícitas,
facilitariam todos os tipos de transtornos mentais. Puro folclore!
Aqui não se enlouquece mais do que em Governador Valadares e nem
mais do que em Mogi das Cruzes. A loucura nacional é a mesma em
todas as cidades, já que os fatores que propiciam o «enlouquecimento»
estão disseminados igualmente por todo o território nacional... E
depois, não dá para pensar em desvario desde uma perspectiva canônica.
Cada louco é UM louco e cada sintoma é UM sintoma.
Aproveitei
o sábado de manhã para ir ao Sanatório Espírita, que fica no
final da rua do canil, uns 100 metros depois do Hospital de Apoio do
DF. Com seu estilo arquitetônico de motel, já não é mais sanatório
há dois anos. Fechou por falta de verbas. Agora serve apenas à
comunidade espírita com livros, «karmas» e eventos, etc. A mulher
que me atendeu, ofereceu-me uma lista de sugestões no ramo: O
antigo HPAP, em Taguatinga DF; a Clínica de repouso do
Planalto, Planaltina-DF; Clínica do Renascer DF; Mansão
vida, Santo Antonio do Descoberto GO; Fazenda do Senhor Jesus,
Riacho Fundo DF; Recanto de Orientação psicosocial, núcleo
rural Alexandre Gusmão DF; CONTRAVI, Casa de recuperação,
Luziania GO; PRODEQUI DF; Desafio Jovem; Sanatório Espírita
de Anápolis GO; Sanatório Espírita Eurípides Barsanulfo,
Goiânia GO; Sanatório Espírita Batuíra, Goiânia GO; Clínica
Espírita de Repouso (só para mulheres) Goiânia GO. Pelos
nomes da grande maioria das instituições, dá até para desconfiar
que a psicologia, a psiquiatria e a loucura estão cada vez mais nas
mãos da troupe do sobrenatural.
E isto não é difícil de entender, uma vez que os terapeutas,"quanto
mais consigam dar a impressão de possuir um poder mágico, de serem
ainda representantes de Deus, como em outros tempos o foram os médicos
sacerdotes – escreve Fenichel –, melhor poderão
satisfazer a demanda de ajuda mágica de seus pacientes. A Christian
Science, assim como outras instituições e seitas, com suas
promessas de saúde e de proteção mágica como recompensa da fé e
da obediência, conseguem, graças à sua história e ao temor
reverente que as cerca, curas mais completas e mais rápidas que as
que conseguem muitos homens de ciência.
"
Segundo
os órgãos competentes, um exército de mais ou menos 3600 psicólogos
e de uns 250 psiquiatras atuam em Brasília, no universo das
neuroses, das psicoses, esquizofrenias, loucuras e derivados, sem
contar, evidentemente, com os psicopedagogos, com os traficantes de
«êxtasis», com os centros de umbanda, de magia, de astrologia,
quiromância, anjoterapia, rezaterapia, coffeterapia, floraterapia,
missaterapia, chicoteterapia, blefeterapia, praxiterapia, presídioterapia,
baralhoterapia, pingaterapia, naturopatia, moneyterapia, etc., e nem
com os balconistas de farmácia, através dos quais é possível
conseguir qualquer tipo e qualquer quantidade de psicotrópicos.
Parece exagero? Não é!
No
dia que fui à Secretaria de Saúde para levantar os endereços dos
hospitais e clínicas de saúde mental do DF, voltei a encontrar o
sujeito esquelético e de cabeça rapada que conheci lá na entrada
do Hospital São Vicente de Paulo, em Taguatinga. Segundo ele próprio,
já era paciente psiquiátrico desde a década de 70, quando recebia
assistência no «frenocômio» de Sobradinho, então Hospital de
Ensino, a antiga UISS. Nesse dia estava mais eufórico que
deprimido, movia-se como um pavão birmanês, foi logo me chamando
de Dr Esculápio e me deu um abraço que quase arrebentou-me as
costelas.
-
E ahí doutor! Vagabundeando ou trabalhando? Trabalha no
hospital-dia ou no hospital noite? Já tomou o seu Haldol hoje? Em
que psiquiatra será que o Juliano Moreira reencarnou?
Nem
esperou que eu respondesse e foi me tomando pelo braço e me
arrastando para o outro lado da rua.
-
Vou levá-lo a dar umas voltas pela cidade, doutor, nem que seja na
marra... Fiz de conta que não me senti ameaçado e tomamos o rumo
da W4 quando ele me tranqüilizou: Não se intimide, Dr. participei
da reunião da OMS, em 1978, lá em Alma Ata, na Rússia. Sou um
louco controlado. E não sou o único, não. Hoje, mais da metade da
população classe média do Distrito Federal e mais da
metade da população das nossas cidades satélites, está a um
passo da catástrofe mental.
Minha loucura é mais antiga do que esta cidade. Já passei alguns
dias amarrado na cama ali no Hospital de Base. Mais tarde tive uma
recaída e fui parar no HPAP. Não sei se o senhor sabe, mas aquilo
lá já foi um hospital administrado pelos padres. Deixaram falir e
fechou. Voltou a abrir as portas uns anos depois, em função de uma
epidemia de meningite. Também já trabalhei na horta comunitária
do Instituto de Saúde Mental, aquele que fica lá na Granja do
Riacho Fundo, onde antigamente moravam os presidentes da república.
Não lhe parece curioso que tenha sido transformado num manicômio?
Tive colegas de internamento que já haviam passado pelo HUB, pelo
Hospital das Forças Armadas, pela policlínica da Polícia Militar,
etc, etc. Sabe o que penso dos psicoterapeutas e dos psiquiatras?
"Alguns agem como sumos sacerdotes do culto da alma,
confessores ou guias; outros são pastores de almas, líderes de
grupo; há os dialéticos, sofistas, educadores; alguns são pragmáticos,
conselheiros práticos, ou biólogos que examinam minuciosamente o
histórico de caso; outros são mães nutrientes encorajando o
crescimento, inspiradoras ou confidentes, enfim, podem ser um xamã,
um iniciador, ou um guru do corpo que desperta sua sensibilidade...
Tudo depende da «equação pessoal», e equação pessoal é o mito
próprio de cada terapeuta... "
No meu caso, o tratamento ensinou-me a camuflar a insensatez... Sabe
por que desisti da psicoterapia? Porque fui entendendo que ela tanto
podia dar-me forças para VIVER como coragem para MATAR-ME...
Fez
um longo silêncio. O sol quase derretia minhas orelhas. Ao lado de
um container de lixo em plena W3, um carroceiro chutava a
barriga e batia com um pedaço de pau na cabeça de seu cavalo. O
animal jogava a cabeça para trás, virava os olhos, mostrava os
dentes, movia compulsivamente as duas patas dianteiras, sem contudo
sair do lugar. Ao perceber a cena, meu estranho «guia», meio fora
de si, gritou ao carroceiro.
-
Pare com isto seu idiota! Você não vê que seu cavalo está tendo
uma crise epiléptica? Que pode estar estressado ou tendo uma
alucinação? Você não acredita que os animais também podem
sofrer de problemas psicológicos?
Acho que você precisa comer um pouco mais de merda companheiro! Por
que merda? Cochichei ao seu ouvido. A farmacopéia escatológica a
recomenda para muitas doenças, respondeu agressivo. Os Zunis do
Novo-México, por exemplo, a comem para melhorar a auto-estima e
para resolver problemas mentais. No Tibete, a merda do Dalai-Lama
vale uma fortuna e é usada para todos os tipos de transtornos
psicológicos.
Em
sua fúria irracional, o carroceiro desferiu mais um violento e
certeiro golpe, agora no focinho do animal, que passou a jorrar
sangue imediatamente. Seguimos caminhando por mais uns 40 minutos,
lado a lado e sem dar uma palavra, até que ele apontou para a
faculdade que estava a nossa frente e falou:
Construída
só para «lavar dinheiro». Conheço os donos. Até ontem eram uns
pobres burocratas de merda. Quebraram a instituição que
administravam e aplicaram o furto na educação. Não tenho dúvidas
de que irão para o fundo dos infernos! Mais uns quinze minutos de
caminhada e ele apontou para a sede de um jornal: está vendo aquele
prédio? Lavagem de dinheiro público. Construído com duas décadas
de «benefícios» concedidos pela ditadura. Deram o rabo para todos
os coronéis da época e depois que o regime caiu, passaram a fingir
que sempre foram revolucionários e a fazer discursos a favor de uma
imprensa libertária. Está vendo aquele templo? Lavagem de
dinheiro. Parte do tráfico e parte da corrupção. Está vendo
aquele edifício? Foi financiado três vezes pelo mesmo banco
estatal e para a mesma gangue. Os inquilinos terão que pagar mais
uma pequena fortuna aos advogados se não quiserem ser jogados na
rua. Está vendo aquela clínica? Desviou dois milhões e meio de dólares
de seus associados. Está vendo aquela parte nobre do cemitério? As
tumbas que estão construídas do pé de mamona para lá, foram
todas vendidas clandestinamente a pessoas influentes. E por falar em
mamona, você sabe por que é que ela representa o aspecto inintelígivel
da existência? Não? Não mesmo? Então leia Jeremias 18, 6-10.
Está vendo aquele monumento de mármore? As famílias que
administraram sua construção estão vivendo em Paris, em
apartamentos imensos, a uns cem metros do Sena. Já ouviu falar do
Instituto X? Pois bem, os três diretores de turno são os chefes da
falsificação de medicamentos.... Está vendo aqueles cinco prédios
espelhados e modernos ali em frente a agência central dos correios?
Pois bem, tudo aquilo pertence ao capital «laranja». 80% do
dinheiro de corrupção dos países do terceiro mundo é investido
em imóveis pelo planeta afora. Imóveis e empreendimentos que ninguém,
nem mesmo os gerentes, sabem quem são os donos...
Bocejando concluiu: E é diante disso, doutor, que eu lhe pergunto:
95% da humanidade está ou não está fodida? Gritos de adolescentes
vindos da janela de um colégio público chamaram-lhe atenção.
Olhou e acenou sorridente para duas meninas graciosas que, tímidas,
desapareceram de súbito. Como se isto lhe tivesse causado algum
tipo de desgosto, contra atacou: Ah doutor, por mais que se queira
acreditar naquilo que preconizava Omar Khayam,
vamos confirmando dia-trás-dia que a realidade, ao invés de ser um
portal escancarado para nossos desejos, é apenas uma portinhola
semi-aberta... E é por isso que para mim, mais até do que a existência
de gangues e do que a violência, é a repressão sexual
infanto-juvenil que me preocupa. Por mais que o modismo de «ficar»
e os «longos beijos na boca» possam dar a impressão de uma Sodoma
e Gomorra Candanga, de um hipersexualismo e de uma saudável
emancipação sexual dessa juventude, no fundo, pode ser apenas um
«deleite substitutivo», uma espécie de punheta higienizada,
resultante mais da antiga e bem conhecida repressão sexual do que
do desejo. Vá a uma dessas festas, doutor, e observe como aquilo
que poderia ser um jogo sexual completo, foi reduzido a um jogo pré-genital
superficial e frustrante. Sem saber e sem ter consciência, essa
meninada está sendo rigorosamente fiel aos preceitos, aos temores e
às fobias de uma sociedade anciã, atolada em moralismos e em
perversões. Se as coisas continuarem assim, não tenho dúvidas de
que daqui a uns anos estaremos presenciando surtos de histeria como
os que existiram no século dezoito...
Com
as duas mãos nos bolsos da calça branca, os passos de um
bailarino, o olhar tenso mas penetrante, falava com uma segurança e
com uma malignidade impressionante. Atravessamos uma quadra de
antigos prédios funcionais onde um grupo de teatro representava
Shakespeare ao ar livre. Deteve-se e escutou com atenção o texto
que os atores recitavam. Aplaudiu como se estivesse no Teatro
Nacional e me confidenciou: sempre gostei de Shakespeare. Agora, «a
poesia, propriamente dita, me parece cada vez mais inconcebível.
Só consigo suportar aquela que é implícita e indireta. Em outras
palavras, aquela que não é dita.»
Seguimos caminhando por entre os prédios e por sob as árvores e
quando desembocamos nos fundos de um posto de gasolina, ele olhou-me
sorridente e perguntou:
-
Está vendo este posto? É um dos oitenta da máfia do petróleo. As
concessões de postos, desde a época da construção da cidade,
foram todas regidas pela putaria do apadrinhamento. Por trás de
cada um desses empreendimentos, se quiséssemos, poderíamos
encontrar ainda muitos primos, afilhados, filhos, netos e bisnetos
dos generais, dos ministros e dos executivos de então... A
ditadura, Dr, só terminará realmente, quando sete ou oito gerações
desses putos tenham passado e quando todo o capital público
que foi transformado em capital privado, tenha sido
consumido...
Ficou
meio cataléptico por uns segundos, deu uma inspirada funda e
continuou:
Agora,
tem uma coisa, doutor, não pense que sou idiota ou sectário a
ponto de achar que essa cloaca de abutres é composta apenas pelos
«grandes». A mesma rapina se repete entre as classes remediadas e
até entre as mais fodidas. Está vendo aquele frentista grisalho?
Quando atende uma mulher, um velho ou qualquer outro sujeito distraído,
rouba-lhe no fluído de freios, na quantidade de gasolina e nos preços.
Já vi um mecânico da Asa Norte jogando areia dentro de uma bateria
e os borracheiros do Guará espalhando pregos nas esquinas. Para
economizar farinha, os padeiros enchem os pães de bromato; as domésticas
roubam comida; os eletricistas cortam fios dos aparelhos; os
verdureiros envenenam as alfaces e os rabanetes; os granjeiros
engordam os frangos e os patos com hormônios; os mendigos engessam
as pernas; as donas de casa fingem que gozam; as meninas simulam que
estão grávidas; os presos fingem que odeiam os estupradores; os
garçons falsificam água mineral; os funcionários públicos roubam
canetas, fotolitos e resmas de papel dos Ministérios, os açougueiros
vendem carne de vacas que morreram de tifo ou de tuberculose, etc,
etc.
Como
percebeu que eu já estava fatigado e caminhando a contragosto,
arrastou-me literalmente para dentro de um zebrinha que
passava naquele momento, deu uma nota de cinco reais ao cobrador,
nem esperou o troco e nos sentamos num dos últimos bancos, de onde
se tinha uma visão panorâmica das ruas e dos paredões solitários
e repletos de janelas fechadas. Em tom de brincadeira ameaçou-me:
-
E se não estiver gostando do seqüestro doutor, não adianta
reclamar pois sou advogado, bacharel, expert em advocacia. Lí
Dos Delitos e das Penas, de Beccaria, ainda quando tinha 12
anos.... – deu um pequeno riso como para desmentir-se, e agora,
num tom de indignação, continuou. Detesto advogados! Observe como
neste país submergido numa epidemia de prevaricações, de incêndios,
homicídios e tagarelice partidária, o que vem ganhando
visibilidade na consciência social, é o papel vil e cínico
assumido por muitos deles. Tanto a praxe de ocultamento de clientes
– entenda-se de bandidos e de corruptos – como a pseudo dialética
bacharelesca para tentar minimizar e justificar delitos injustificáveis,
além de evidenciar que é mais difícil ser justo consigo mesmo do
que com os outros, lança no lixo não apenas os instrumentos históricos
do Direito e da Justiça, mas também os últimos
alicerces da esperança popular. Fato que, inevitavelmente, acabará
levando a sociedade como um todo, a suspeitar, cada vez mais, de uma
antiga e secreta irmandade entre o Delito e o Direito... Mas
que poderíamos fazer, se para alguns povos a alma reside nos
ossos...
Percebeu
que fiquei boquiaberto com tanta pregação, mas não tentou
justificar-se. Na parada seguinte, ao ver entrar um homem louro,
coxo, de terno e gravata, que levava uma bíblia sob o braço, me
cutucou e falou num tom quase normal: sabia que na Alemanha, a bíblia
está sendo proibida para crianças?
O pequeno ônibus desceu pelo fundo dos ministérios, atravessou a
Vila Planalto, passou em frente ao Tênis Club, fez um balão depois
do Centro Olímpico e entrou no território da universidade. Um
grupo de alunos matraqueava ao lado do bambuzal enquanto dois
professores caminhavam rápidos, com seus portfólios sob o braço,
da Biblioteca Central para o prédio da faculdade de agronomia que
jazia sob o sol tórrido de agosto. Num tom meio áspero
perguntou-me:
-
Você já viu um prédio mais esquisito do que esse tal de «minhocão»?
E sabe quem foi que o «arquitetou»? O
Dr. Niemayer. Construiu
também lá na Argélia um dinossauro igualzinho a este... não sei
como que os xiitas não o condenaram a uns 140 chicotaços...
Está vendo aqueles dois professores? São do departamento X que está
brigado com o departamento Y, que por sua vez odeia o departamento
K, que já foi aliado do departamento G, mas que está magoado
porque nunca participou das reuniões de cúpula, isto porque o
professor F difamou a professora L do departamento U3, que havia
posto em dúvida o título de doutor honóris causa do professor
Q... etc, etc.
Tentei
interrompê-lo, certo de que havia surtado, mas ele estava tão
seguro do que dizia que não tive outra alternativa senão seguir
ouvindo-o.
-
E não pense que esse terrorismo e que essa guerra acontece apenas
entre uns departamentos e outros. Não. Ela acontece também no
interior e no «coração» de cada departamento. O professor D, por
exemplo – odeia o professor P, que por sua vez fez cumplicidade
com a doutora M, que tem medo do Z por ele já ter sido chefe do Dr.
J, mas que agora está de mal com o titular P. etc, etc. Uns rosnam
à passagem dos outros, cospem-se nas costas, desqualificam-se,
engendram para si mesmos insônias, cardiopatias e impotências
incuráveis, disputas delirantes, paixões que nenhuma medicina
poderá curar... E tudo em troca de nada. Tudo em função de fobias
infantis e de um narcisismo reincidente... Estão condenados e
fadados a sofrerem da mesma solidão dos porcos-espinhos que mesmo
sedentos por um afago ou por um carinho, não podem aconchegar-se
uns aos outros... Trazem na pele a marca e a arma que os condena ao
isolamento... Foi num desses departamentos que vi escrito na parede:
«o pelicano alimenta os filhotes com a própria carne e com o próprio
sangue paternal.»
Quando
pronunciou a última palavra, o ônibus acabava de entrar na pista
congestionada de automóveis e de posicionar-se a um metro da
traseira do Grande Circular. Fiquei em silêncio por uns instantes e
quando percebi que o surto dos «departamentos» havia passado
perguntei:
-
Para onde vai este ônibus?
-
Sei lá. - respondeu com uma chispa de ironia no olhar e em seguida
concluiu – deve ir para os subterrâneos de Quéops ou de Snefru.
Olhei-o surpreso e ele explodiu numa gargalhada que chamou a atenção
do ônibus inteiro. Conteve-se por uns instantes e perguntou-me: Dr.
Já tomou seu antidepressivo hoje? E já ouviu o papo daqueles lunáticos
que acham que o JK é a reencarnação de um faraó? Que o jacaré
que encontraram no espelho d'água do Itamarati era o legítimo
Leviatã, não o de Jó, mas o de Hobbes? Mal conseguiu concluir a
última palavra e explodiu numa nova gargalhada, ainda mais
escandalosa que a primeira. Quando conseguiu ficar sério
interrogou-me: Me esclareça uma coisa, doutor: esses caras são
esquizofrênicos, histéricos, velhacos ou o quê? Quando ia
responder-lhe, viu alguém que conhecia saindo de uma lavanderia,
apertou a campainha, gritou para que o motorista «parasse aquela
geringonça» e saltou pela porta detrás num gesto elegante e de
total desvario.
Passei
para o outro lado do ônibus numa tentativa de acompanhar seus
passos, mas já havia dobrado à esquerda e sumido.
Respirei
aliviado. Percebi que o motorista me observava pelo retrovisor. De
repente todos os passageiros lançaram-se às janelas para ver o
corpo de uma mulher estirado na calçada. Um tiro de 38
esbugalhou-lhe o tórax. O lençol velho de hospital que alguém lançou
sobre a vítima, ia aos poucos se ensopando de sangue. Só os porcos
governistas ainda não percebem que estamos vivendo uma guerra
civil.
Os prédios baixos transformados em moquiços e a grama queimada dos
jardins dava um aspecto monótono, fastidioso e triste à cidade e
à vida. Parecia que eu próprio havia estado por algumas horas
amarrado ao eixo de um redemoinho violento. Meus cabelos estavam
literalmente em pé. Me surpreendi resmungando: «para alguns povos
a alma reside nos ossos». Uma senhora com vestimenta quase medieval
apertou a campainha e saltou em frente a uma loja de tintas. Dois
homens ainda jovens lançam malignidades sobre a política.
Levantei-me sem saber exatamente para quê. A Política? Segundo
Platão é a maneira como o poder se exerce e se distribui sobre as almas,
sobre o prazer e principalmente sobre a dor. De
tudo o que ouvi daquele sujeito, uma frase ficou ecoando entre uma sinapse
e outra de meus neurônios: «hoje, doutor, mais da metade da
população «classe média» do Plano Piloto e mais da
metade da «população» das cidades satélites está a um passo da
catástrofe mental».
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