Por EZIO FLAVIO BAZZO

Doutor em Psicologia Clínica e escritor. Autor de Vagabundo na China, Dymphne a santa protetora dos loucos; Ecce Bestia, entre outros

 

De braços dados com a loucura

 

“O poder corrompe, a impotência também…”

T. Szasz

 

Uma senhora que chegou em Brasília precisamente no dia em que levantaram as primeiras pilastras do que hoje é chamado de Patrimônio Cultural da Humanidade, escreveu-me uma longa carta citando nomes importantes da psiquiatria e da antipsiquiatria, falando da «loucura» de sua filha de 18 anos, contando-me de seu fascínio por Wilhelm Reich nos anos 60 e sugerindo-me que traçasse um mapa dos hospícios da cidade, um mapa que pudesse ser útil para quem necessitasse internar algum familiar ou, por que não, internar-se a si próprio[1]. Nas primeiras linhas, chamava especialmente atenção para algo que eu nunca havia me dado conta, o fato do traçado de Brasília ser idêntico ao logotipo da psicologia. Num dos parágrafos dedicados à Brasília, essa senhora expressava seu desacordo com o nome que acabaram dando a esta cidade, principalmente, porque, segundo ela, em Minas Gerais, existe desde 1832, uma vila chamada Brasília! Além de feminino, esse nome é ridículo! Compare-o com Shangai, por exemplo. Com Londres. Milão. Acapulco. Mas agora não dá mais para fazer nada – se lamentava. Rachel de Queiroz, que também achava «Brasília» um nome feio, antieufônico e pedante, em sua página Raminho de Alecrim, de 09 de fevereiro de 1957, na revista O Cruzeiro, citava algumas sugestões de leitores para nominar a nova capital. Um mineiro opinava que a cidade se chamasse nada mais nada menos que Juscelínia; uma senhora de SP, sugeria que se lhe desse o nome de Moema; para um gaúcho o nome ideal seria Utopia e para um baiano, seria uma manifestação cidadã chamá-la de Tamandaré. Minha correspondente fazia menção também ao primeiro assassinato ocorrido aqui. Alvino Ribeiro, um gaúcho de Erexim, com 22 anos, morto no dia 26 de agosto de 1957, por um cozinheiro goiano, a golpes de facão, na empoeirada futura capital federal. Não sei por que, mas li e reli aquela carta sentindo que ela continha nas entrelinhas um outro texto, um discurso e um segredo inacessível. A palavra hospício, inicialmente não me pareceu adequada, mas depois, fui simpatizando tanto com ela, a ponto de não encontrar, em lugar nenhum de minha encyclopaedia uma outra, que pudesse ser mais própria, para designar «esse lugar» onde se hospedam, se internam, se confinam, se isolam, se aprisionam e se tratam os pacientes com transtornos mentais. Frenocômio sim, me parecia uma palavra horrível. Por uma questão de consciência, respondi-lhe imediatamente que, apesar da precariedade de atendimento aos «loucos» no Brasil, ter sido historicamente um verdadeiro vexame[2], a problemática era universal, e que se dependesse de mim, ela poderia estar certa, construiria para eles um parlatório de mármore ou mesmo uma espécie de Taj Mahal, bem ali na Península dos Ministros[3]. É quase unânime a crença de que Brasília é uma cidade especial também naquilo que se refere à saúde mental. Já ouvi até pessoas licenciadas em alguma coisa, insistindo que aqui nesta ilha de vivaldinos, a burocracia, o poder, a sequidão, o caipirismo, os cargos e as riquezas ilícitas, facilitariam todos os tipos de transtornos mentais. Puro folclore![4] Aqui não se enlouquece mais do que em Governador Valadares e nem mais do que em Mogi das Cruzes. A loucura nacional é a mesma em todas as cidades, já que os fatores que propiciam o «enlouquecimento» estão disseminados igualmente por todo o território nacional... E depois, não dá para pensar em desvario desde uma perspectiva canônica. Cada louco é UM louco e cada sintoma é UM sintoma.

Aproveitei o sábado de manhã para ir ao Sanatório Espírita, que fica no final da rua do canil, uns 100 metros depois do Hospital de Apoio do DF. Com seu estilo arquitetônico de motel, já não é mais sanatório há dois anos. Fechou por falta de verbas. Agora serve apenas à comunidade espírita com livros, «karmas» e eventos, etc. A mulher que me atendeu, ofereceu-me uma lista de sugestões no ramo: O antigo HPAP, em Taguatinga DF; a Clínica de repouso do Planalto, Planaltina-DF; Clínica do Renascer DF; Mansão vida, Santo Antonio do Descoberto GO; Fazenda do Senhor Jesus[5], Riacho Fundo DF; Recanto de Orientação psicosocial, núcleo rural Alexandre Gusmão DF; CONTRAVI, Casa de recuperação, Luziania GO; PRODEQUI DF; Desafio Jovem; Sanatório Espírita de Anápolis GO; Sanatório Espírita Eurípides Barsanulfo, Goiânia GO; Sanatório Espírita Batuíra, Goiânia GO; Clínica Espírita de Repouso (só para mulheres) Goiânia GO. Pelos nomes da grande maioria das instituições, dá até para desconfiar que a psicologia, a psiquiatria e a loucura estão cada vez mais nas mãos da troupe do sobrenatural[6]. E isto não é difícil de entender, uma vez que os terapeutas,"quanto mais consigam dar a impressão de possuir um poder mágico, de serem ainda representantes de Deus, como em outros tempos o foram os médicos sacerdotes – escreve Fenichel –, melhor poderão satisfazer a demanda de ajuda mágica de seus pacientes. A Christian Science, assim como outras instituições e seitas, com suas promessas de saúde e de proteção mágica como recompensa da fé e da obediência, conseguem, graças à sua histó­ria e ao temor reverente que as cerca, curas mais completas e mais rápidas que as que conseguem muitos homens de ciência.[7] "

Segundo os órgãos competentes, um exército de mais ou menos 3600 psicólogos e de uns 250 psiquiatras atuam em Brasília, no universo das neuroses, das psicoses, esquizofrenias, loucuras e derivados, sem contar, evidentemente, com os psicopedagogos, com os traficantes de «êxtasis», com os centros de umbanda, de magia, de astrologia, quiromância, anjoterapia, rezaterapia, coffeterapia, floraterapia, missaterapia, chicoteterapia, blefeterapia, praxiterapia, presídioterapia, baralhoterapia, pingaterapia, naturopatia, moneyterapia, etc., e nem com os balconistas de farmácia, através dos quais é possível conseguir qualquer tipo e qualquer quantidade de psicotrópicos. Parece exagero? Não é!

No dia que fui à Secretaria de Saúde para levantar os endereços dos hospitais e clínicas de saúde mental do DF, voltei a encontrar o sujeito esquelético e de cabeça rapada que conheci lá na entrada do Hospital São Vicente de Paulo, em Taguatinga. Segundo ele próprio, já era paciente psiquiátrico desde a década de 70, quando recebia assistência no «frenocômio» de Sobradinho, então Hospital de Ensino, a antiga UISS. Nesse dia estava mais eufórico que deprimido, movia-se como um pavão birmanês, foi logo me chamando de Dr Esculápio e me deu um abraço que quase arrebentou-me as costelas.

- E ahí doutor! Vagabundeando ou trabalhando? Trabalha no hospital-dia ou no hospital noite? Já tomou o seu Haldol hoje? Em que psiquiatra será que o Juliano Moreira reencarnou?[8]

Nem esperou que eu respondesse e foi me tomando pelo braço e me arrastando para o outro lado da rua.

- Vou levá-lo a dar umas voltas pela cidade, doutor, nem que seja na marra... Fiz de conta que não me senti ameaçado e tomamos o rumo da W4 quando ele me tranqüilizou: Não se intimide, Dr. participei da reunião da OMS, em 1978, lá em Alma Ata, na Rússia. Sou um louco controlado. E não sou o único, não. Hoje, mais da metade da população classe média do Distrito Federal e mais da metade da população das nossas cidades satélites, está a um passo da catástrofe mental.[9] Minha loucura é mais antiga do que esta cidade. Já passei alguns dias amarrado na cama ali no Hospital de Base. Mais tarde tive uma recaída e fui parar no HPAP. Não sei se o senhor sabe, mas aquilo lá já foi um hospital administrado pelos padres. Deixaram falir e fechou. Voltou a abrir as portas uns anos depois, em função de uma epidemia de meningite. Também já trabalhei na horta comunitária do Instituto de Saúde Mental, aquele que fica lá na Granja do Riacho Fundo, onde antigamente moravam os presidentes da república. Não lhe parece curioso que tenha sido transformado num manicômio? Tive colegas de internamento que já haviam passado pelo HUB, pelo Hospital das Forças Armadas, pela policlínica da Polícia Militar, etc, etc. Sabe o que penso dos psicoterapeutas e dos psiquiatras? "Alguns agem como sumos sacerdotes do culto da alma, confessores ou guias; outros são pastores de almas, líderes de grupo; há os dialéticos, sofistas, educadores; alguns são pragmáticos, conselheiros práticos, ou biólogos que examinam minuciosamente o histórico de caso; outros são mães nutrientes encorajando o crescimento, inspiradoras ou confidentes, enfim, podem ser um xamã, um iniciador, ou um guru do corpo que desperta sua sensibilidade... Tudo depende da «equação pessoal», e equação pessoal é o mito próprio de cada terapeuta... "[10] No meu caso, o tratamento ensinou-me a camuflar a insensatez... Sabe por que desisti da psicoterapia? Porque fui entendendo que ela tanto podia dar-me forças para VIVER como coragem para MATAR-ME...

Fez um longo silêncio. O sol quase derretia minhas orelhas. Ao lado de um container de lixo em plena W3, um carroceiro chutava a barriga e batia com um pedaço de pau na cabeça de seu cavalo. O animal jogava a cabeça para trás, virava os olhos, mostrava os dentes, movia compulsivamente as duas patas dianteiras, sem contudo sair do lugar. Ao perceber a cena, meu estranho «guia», meio fora de si, gritou ao carroceiro.

- Pare com isto seu idiota! Você não vê que seu cavalo está tendo uma crise epiléptica? Que pode estar estressado ou tendo uma alucinação? Você não acredita que os animais também podem sofrer de problemas psicológicos?[11] Acho que você precisa comer um pouco mais de merda companheiro! Por que merda? Cochichei ao seu ouvido. A farmacopéia escatológica a recomenda para muitas doenças, respondeu agressivo. Os Zunis do Novo-México, por exemplo, a comem para melhorar a auto-estima e para resolver problemas mentais. No Tibete, a merda do Dalai-Lama vale uma fortuna e é usada para todos os tipos de transtornos psicológicos.[12]

Em sua fúria irracional, o carroceiro desferiu mais um violento e certeiro golpe, agora no focinho do animal, que passou a jorrar sangue imediatamente. Seguimos caminhando por mais uns 40 minutos, lado a lado e sem dar uma palavra, até que ele apontou para a faculdade que estava a nossa frente e falou:

Construída só para «lavar dinheiro». Conheço os donos. Até ontem eram uns pobres burocratas de merda. Quebraram a instituição que administravam e aplicaram o furto na educação. Não tenho dúvidas de que irão para o fundo dos infernos! Mais uns quinze minutos de caminhada e ele apontou para a sede de um jornal: está vendo aquele prédio? Lavagem de dinheiro público. Construído com duas décadas de «benefícios» concedidos pela ditadura. Deram o rabo para todos os coronéis da época e depois que o regime caiu, passaram a fingir que sempre foram revolucionários e a fazer discursos a favor de uma imprensa libertária. Está vendo aquele templo? Lavagem de dinheiro. Parte do tráfico e parte da corrupção. Está vendo aquele edifício? Foi financiado três vezes pelo mesmo banco estatal e para a mesma gangue. Os inquilinos terão que pagar mais uma pequena fortuna aos advogados se não quiserem ser jogados na rua. Está vendo aquela clínica? Desviou dois milhões e meio de dólares de seus associados. Está vendo aquela parte nobre do cemitério? As tumbas que estão construídas do pé de mamona para lá, foram todas vendidas clandestinamente a pessoas influentes. E por falar em mamona, você sabe por que é que ela representa o aspecto inintelígivel da existência? Não? Não mesmo? Então leia Jeremias 18, 6-10.[13] Está vendo aquele monumento de mármore? As famílias que administraram sua construção estão vivendo em Paris, em apartamentos imensos, a uns cem metros do Sena. Já ouviu falar do Instituto X? Pois bem, os três diretores de turno são os chefes da falsificação de medicamentos.... Está vendo aqueles cinco prédios espelhados e modernos ali em frente a agência central dos correios? Pois bem, tudo aquilo pertence ao capital «laranja». 80% do dinheiro de corrupção dos países do terceiro mundo é investido em imóveis pelo planeta afora. Imóveis e empreendimentos que ninguém, nem mesmo os gerentes, sabem quem são os donos...[14] Bocejando concluiu: E é diante disso, doutor, que eu lhe pergunto: 95% da humanidade está ou não está fodida? Gritos de adolescentes vindos da janela de um colégio público chamaram-lhe atenção. Olhou e acenou sorridente para duas meninas graciosas que, tímidas, desapareceram de súbito. Como se isto lhe tivesse causado algum tipo de desgosto, contra atacou: Ah doutor, por mais que se queira acreditar naquilo que preconizava Omar Khayam[15], vamos confirmando dia-trás-dia que a realidade, ao invés de ser um portal escancarado para nossos desejos, é apenas uma portinhola semi-aberta... E é por isso que para mim, mais até do que a existência de gangues e do que a violência, é a repressão sexual infanto-juvenil que me preocupa. Por mais que o modismo de «ficar» e os «longos beijos na boca» possam dar a impressão de uma Sodoma e Gomorra Candanga, de um hipersexualismo e de uma saudável emancipação sexual dessa juventude, no fundo, pode ser apenas um «deleite substitutivo», uma espécie de punheta higienizada, resultante mais da antiga e bem conhecida repressão sexual do que do desejo. Vá a uma dessas festas, doutor, e observe como aquilo que poderia ser um jogo sexual completo, foi reduzido a um jogo pré-genital superficial e frustrante. Sem saber e sem ter consciência, essa meninada está sendo rigorosamente fiel aos preceitos, aos temores e às fobias de uma sociedade anciã, atolada em moralismos e em perversões. Se as coisas continuarem assim, não tenho dúvidas de que daqui a uns anos estaremos presenciando surtos de histeria como os que existiram no século dezoito...

Com as duas mãos nos bolsos da calça branca, os passos de um bailarino, o olhar tenso mas penetrante, falava com uma segurança e com uma malignidade impressionante. Atravessamos uma quadra de antigos prédios funcionais onde um grupo de teatro representava Shakespeare ao ar livre. Deteve-se e escutou com atenção o texto que os atores recitavam. Aplaudiu como se estivesse no Teatro Nacional e me confidenciou: sempre gostei de Shakespeare. Agora, «a poesia, propriamente dita, me parece cada vez mais in­concebível. Só consigo suportar aquela que é implícita e indireta. Em outras palavras, aquela que não é dita.»[16] Seguimos caminhando por entre os prédios e por sob as árvores e quando desembocamos nos fundos de um posto de gasolina, ele olhou-me sorri­dente e perguntou:

- Está vendo este posto? É um dos oitenta da máfia do petróleo. As concessões de postos, desde a época da construção da cidade, foram todas regidas pela putaria do apadrinhamento. Por trás de cada um desses empreendimentos, se quiséssemos, pode­ríamos encontrar ainda muitos primos, afilhados, filhos, netos e bisnetos dos generais, dos ministros e dos executivos de então... A ditadura, Dr, só terminará realmente, quando sete ou oito gerações desses putos tenham passado e quando todo o capital público que foi transformado em capital privado, tenha sido consumido...

Ficou meio cataléptico por uns segundos, deu uma inspirada funda e continuou:

Agora, tem uma coisa, doutor, não pense que sou idiota ou sectário a ponto de achar que essa cloaca de abutres é composta apenas pelos «grandes». A mesma rapina se repete entre as classes remediadas e até entre as mais fodidas. Está vendo aquele frentista grisalho? Quando atende uma mulher, um velho ou qualquer outro sujeito distraído, rouba-lhe no fluído de freios, na quantidade de gasolina e nos preços. Já vi um mecânico da Asa Norte jogando areia dentro de uma bateria e os borracheiros do Guará espalhando pregos nas esquinas. Para economizar farinha, os padeiros enchem os pães de bromato; as domésticas roubam comida; os eletricistas cortam fios dos aparelhos; os verdureiros envenenam as alfaces e os rabanetes; os granjeiros engordam os frangos e os patos com hormônios; os mendigos engessam as pernas; as donas de casa fingem que gozam; as meninas simulam que estão grávidas; os presos fingem que odeiam os estupradores; os garçons falsificam água mineral; os funcionários públicos roubam canetas, fotolitos e resmas de papel dos Ministérios, os açougueiros vendem carne de vacas que morreram de tifo ou de tuberculose, etc, etc.

Como percebeu que eu já estava fatigado e caminhando a contragosto, arrastou-me literalmente para dentro de um zebrinha que passava naquele momento, deu uma nota de cinco reais ao cobrador, nem esperou o troco e nos sentamos num dos últimos bancos, de onde se tinha uma visão panorâmica das ruas e dos paredões solitários e repletos de janelas fechadas. Em tom de brincadeira ameaçou-me:

- E se não estiver gostando do seqüestro doutor, não adianta reclamar pois sou advogado, bacharel, expert em advocacia. Lí Dos Delitos e das Penas, de Beccaria, ainda quando tinha 12 anos.... – deu um pequeno riso como para desmentir-se, e agora, num tom de indignação, continuou. Detesto advogados! Observe como neste país submergido numa epidemia de prevaricações, de incêndios, homicídios e tagarelice partidária, o que vem ganhando visibilidade na consciência social, é o papel vil e cínico assumido por muitos deles. Tanto a praxe de ocultamento de clientes – entenda-se de bandidos e de corruptos – como a pseudo dialética bacharelesca para tentar minimizar e justificar delitos injustificáveis, além de evidenciar que é mais difícil ser justo consigo mesmo do que com os outros, lança no lixo não apenas os instrumentos históricos do Direito e da Justiça, mas também os últimos alicerces da esperança popular. Fato que, inevitavelmente, acabará levando a sociedade como um todo, a suspeitar, cada vez mais, de uma antiga e secreta irmandade entre o Delito e o Direito... Mas que poderíamos fazer, se para alguns povos a alma reside nos ossos...

Percebeu que fiquei boquiaberto com tanta pregação, mas não tentou justificar-se. Na parada seguinte, ao ver entrar um homem louro, coxo, de terno e gravata, que levava uma bíblia sob o braço, me cutucou e falou num tom quase normal: sabia que na Alemanha, a bíblia está sendo proibida para crianças?[17] O pequeno ônibus desceu pelo fundo dos ministérios, atravessou a Vila Planalto, passou em frente ao Tênis Club, fez um balão depois do Centro Olímpico e entrou no território da universidade. Um grupo de alunos matraqueava ao lado do bambuzal enquanto dois professores caminhavam rápidos, com seus portfólios sob o braço, da Biblioteca Central para o prédio da faculdade de agronomia que jazia sob o sol tórrido de agosto. Num tom meio áspero perguntou-me:

- Você já viu um prédio mais esquisito do que esse tal de «minhocão»? E sabe quem foi que o «arquitetou»? O Dr. Niemayer. Construiu também lá na Argélia um dinossauro igualzinho a este... não sei como que os xiitas não o condenaram a uns 140 chicotaços... Está vendo aqueles dois professores? São do departamento X que está brigado com o departamento Y, que por sua vez odeia o departamento K, que já foi aliado do departamento G, mas que está magoado porque nunca participou das reuniões de cúpula, isto porque o professor F difamou a professora L do departamento U3, que havia posto em dúvida o título de doutor honóris causa do professor Q... etc, etc.

Tentei interrompê-lo, certo de que havia surtado, mas ele estava tão seguro do que dizia que não tive outra alternativa senão seguir ouvindo-o.

- E não pense que esse terrorismo e que essa guerra acontece apenas entre uns departamentos e outros. Não. Ela acontece também no interior e no «coração» de cada departamento. O professor D, por exemplo – odeia o professor P, que por sua vez fez cumplicidade com a doutora M, que tem medo do Z por ele já ter sido chefe do Dr. J, mas que agora está de mal com o titular P. etc, etc. Uns rosnam à passagem dos outros, cospem-se nas costas, desqualificam-se, engendram para si mesmos insônias, cardiopatias e impotências incuráveis, disputas delirantes, paixões que nenhuma medicina poderá curar... E tudo em troca de nada. Tudo em função de fobias infantis e de um narcisismo reincidente... Estão condenados e fadados a sofrerem da mesma solidão dos porcos-espinhos que mesmo sedentos por um afago ou por um carinho, não podem aconchegar-se uns aos outros... Trazem na pele a marca e a arma que os condena ao isolamento... Foi num desses departamentos que vi escrito na parede: «o pelicano alimenta os filhotes com a própria carne e com o próprio sangue paternal.»

Quando pronunciou a última palavra, o ônibus acabava de entrar na pista congestionada de automóveis e de posicionar-se a um metro da traseira do Grande Circular. Fiquei em silêncio por uns instantes e quando percebi que o surto dos «departamentos» havia passado perguntei:

- Para onde vai este ônibus?

- Sei lá. - respondeu com uma chispa de ironia no olhar e em seguida concluiu – deve ir para os subterrâneos de Quéops ou de Snefru. Olhei-o surpreso e ele explodiu numa gargalhada que chamou a atenção do ônibus inteiro. Conteve-se por uns instantes e perguntou-me: Dr. Já tomou seu antidepressivo hoje? E já ouviu o papo daqueles lunáticos que acham que o JK é a reencarnação de um faraó? Que o jacaré que encontraram no espelho d'água do Itamarati era o legítimo Leviatã, não o de Jó, mas o de Hobbes? Mal conseguiu concluir a última palavra e explodiu numa nova gargalhada, ainda mais escandalosa que a primeira. Quando conseguiu ficar sério interrogou-me: Me esclareça uma coisa, doutor: esses caras são esquizofrênicos, histéricos, velhacos ou o quê? Quando ia responder-lhe, viu alguém que conhecia saindo de uma lavanderia, apertou a campainha, gritou para que o motorista «parasse aquela geringonça» e saltou pela porta detrás num gesto elegante e de total desvario.

Passei para o outro lado do ônibus numa tentativa de acompanhar seus passos, mas já havia dobrado à esquerda e sumido.

Respirei aliviado. Percebi que o motorista me observava pelo retrovisor. De repente todos os passageiros lançaram-se às janelas para ver o corpo de uma mulher estirado na calçada. Um tiro de 38 esbugalhou-lhe o tórax. O lençol velho de hospital que alguém lançou sobre a vítima, ia aos poucos se ensopando de sangue. Só os porcos governistas ainda não percebem que estamos vivendo uma guerra civil.[18] Os prédios baixos transformados em moquiços e a grama queimada dos jardins dava um aspecto monótono, fastidioso e triste à cidade e à vida. Parecia que eu próprio havia estado por algumas horas amarrado ao eixo de um redemoinho violento. Meus cabelos estavam literalmente em pé. Me surpreendi resmungando: «para alguns povos a alma reside nos ossos». Uma senhora com vestimenta quase medieval apertou a campainha e saltou em frente a uma loja de tintas. Dois homens ainda jovens lançam malignidades sobre a política. Levantei-me sem saber exatamente para quê. A Política? Segundo Platão é a maneira como o poder se exerce e se distribui sobre as almas, sobre o prazer e principalmente sobre a dor. De tudo o que ouvi daquele sujeito, uma frase ficou ecoando entre uma sinapse e outra de meus neurônios: «hoje, doutor, mais da metade da população «classe média» do Plano Piloto e mais da metade da «população» das cidades satélites está a um passo da catástrofe mental».


[1] "Na Itália, o internamento voluntário num hospício de alienados está regulamentado pela lei nº 36, de 14 de fevereiro de 1904, O Decreto de 16 de agosto de 1909, nº 615, dispõe que «quando algum indivíduo, maior de idade, reconhecer que não está em um estado de saúde mental completo e solicita seu ingresso num asilo de loucos», o diretor pode admiti-lo provisoriamente, para observação." Ver Cassinelli, Bruno. Histoire de la folie, Bocca Frères Editeurs, p.1, Paris 1975

[2] Segundo um documento de 1905, produzido pelo Dr. Juliano Moreira, nos primeiros três séculos e meio após o descobrimento do Brasil, os loucos andavam perambulando pelas ruas ou trancafiados em cadeias. O fato do Brasil só ter se preocupado com a saúde mental 350 anos após o descobrimento, deveu-se basicamente ao fato dos colonizadores portugueses serem um povo sem tradição nenhuma a respeito da saúde mental. "Além disso, -segundo o mesmo alienista- a maior parte dos colonizadores que aqui chegavam procedia dos presidios de Portugal, que assim lançava sobre a Colônia um número considerável de psicopatas, criminosos, epilépticos, alcoolistas, deficientes mentais e prostitutas, que aqui encontravam uma situação menos desfavorável do que em sua pátria." (ver Assistência psiquiátrica na Região Centro-Oeste, análise regressiva e perspectiva, de Isaias Paim)

[3] Mas esta idéia não é minha. Ouvi-a de um paciente jovem, num de seus momentos mais críticos. "Se o mundo da loucura não viesse sendo gerenciado há séculos por burocratas neurastênicos, -dizia ele- poderíamos dispôr hoje, aqui em Brasília, de um hospício de cinco ou seis mil metros quadrados, com a beleza do Taj Mahal, repleto de auditórios, bibliotecas, discotecas, saunas, ateliers, alcovas, gráficas, cinemas, piscinas, tiro ao alvo, alpinismo, línguas, professores de arqueologia, de antropologia, de filosofia e de navegação. Seríamos preparados não para permanecer de joelhos e em silêncio, mas para dar a volta ao mundo, e não em sessenta dias, como Marco Polo, mas em sessenta anos. A psicoterapia consistiria em fazer-nos abandonar tudo, famílias, casas, trabalhos, amigos, escolas, religiões, em síntese, cair no mundo para nunca mais voltar."

[4] Ver Ridette J.G.Carvalho, Psicopatologia de uma cidade sem passado. Revista de Neurologia, nº 42, junho de 1979, Recife-PE

[5] Conheci um sujeito esquelético e de cabeça rapada, bem ali no portão principal do HPAP, em Taguatinga, que me disse a queima-roupa: olhe cara, se Jesus realmente voltar, como dizem, não voltará com um chicote, mas com um fuzil AR15, e não poupará nem mesmo os apóstolos. Nem mesmo os apóstolos? -perguntei- Não! -responde-me com energia e depois completou- para que esses putos não distorçam novamente a história.

[6] O monumento de mármore construído sobre o túmulo de Allan Cardec, no cemitério Pére-Lachaise, em Paris, já está visivelmente desgastado de tantos afagos, toques, beijos, suores e lágrimas dos adeptos. Nas horas que passei lá, traçando o perfil dos frequentadores, fui concluindo que se a humanidade sobreviver ainda por mais uns 40 milhões de anos, essa necessidade doentia e babaca de investir no além também sobreviverá com ela.

[7] Teoria psicoanalítica de las neurosis, Paidós, p.625 Buenos Aires 1966

[8] Filho de um acendedor de lampiões em Salvador, o psiquiatra baianoJuliano Moreira (1873-1933) ainda é considerado o Pinel brasileiro. Dominava quatro ou cinco idiomas e foi o primeiro a falar de Freud no Brasil. "A contínua genuflexão é que atrofia os músculos com que marchamos e aqueles com que conservamos ereta nossa espinha", dizia num discurso que fez aos 23 anos.Alguns exagerados chegaram a chamá-lo de Santo Juliano. Segundo uma lenda inventada pelos espíritas, na segunda noite de seu velório, ouviram pancadas numa bandeja de vidro com xícaras de café que em seguida partiu-se ao meio. Mas a imagem que mais me fascina é sobre seu enterro: a da  carroça que transportava seu corpo sendo puxada por sete ou oito enfermeiras que, de cabeça baixa, ia se revezando pela avenida Pasteur, General Severiano, etc., até o cemitério São João Batista. Tenho certeza que uma imagem dessas hoje, causaria um grave conflito entre as duas principais categorias hospitalares. (Ver Alexandre Passos, Juliano Moreira, vida e Obra. Livraria ßão José RJ, 1975)

[9] A grande maioria dos doentes mentais sabe, por experiência própria, que pobreza e miséria social são a ante sala das patologias e que lançam o sujeito, rapidamente, no redemoinho da insanidade. Portanto, já é chegado o momento dos loucos se associarem em sindicatos, pelotões etc, e começarem a julgar o Estado por irresponsabilidade e por desatino social.

[10] Hillman, James O mito da análise, Paz e Terra, p.23, SP 1984

[11] A história psiquiátrica animal registra inúmeros casos de animais com conversões histéricas, depressões, fobias, alucinações, pesadêlos, perversões, etc. Há casos de cavalos que não permitem que uma determinada pessoa os cavalgue, outros que não entram em determinadas veredas. As abelhas possuem uma gama de sons que vão da felicidade profunda à cólera, à aflição e mesmo à loucura. Alguns animais apresentam neurastenia, demência e mesmo idiotismo. Outros sofrem de bulimia. As ovelhas, quando atacadas por essa doença, costumam comer a própria lã. A frigidez é comum entre  os cães e os equinos. Já entre as vacas, é comum a histeria e uma espécie de ninfomania. Entre os cães é frequente o homossexualismo e o sadismo. Outros animais costumam fazer sexo com animais de outra espécie. Os cachorros também estão sujeitos à epilepsia. Os gatos, quando recebem uma dose de morfina, passam a gesticular de forma completamente incomum, e a atropina quando administrada em animais carnívoros lhes provoca alucinações terrorríficas, etc, etc. (Ver Bruno Cassinelle, Les animaux, p. 137 do livro já citado)

[12] Monestier, Martin. Cannibales, Le cherche midi éditeur, p.165, Paris 2000.

[13] Ato I - Para proteger Jonas do sol, Deus faz explodir da terra uma frondosa planta de mamona, à sombra  da qual Jonas, transbordando felicidade, se extasia.

Ato II - No dia seguinte, na aurora, Deus faz surgir uma praga que suga a seiva da mamona e a faz secar repentinamente.

Ato III - Quando o sol começa a se levantar, Deus faz soprar do Oriente um mormaço e um calor tão insuportável que Jonas desmaia. Quando recobra os sentidos, Jonas não tem mais dúvidas: a morte é preferível à vida.

[14] Quem tiver interesse pelo assunto pode consultar o livro de Henri Aubin, Les vrais propriétaires de Montreal, Éditions L'étincelle, Paris 1977.

[15] "O mundo é uma miragem. Rodeia-te de belas mulheres e goza com elas. E já que as religiões prometem o paraíso só para depois da morte, cria um paraíso para teu gozo aqui na Terra. Pois o outro talvez não exista". (Contribuição da Norma)

[16] Cioran, E.M. Cahiers, Gallimard, p.40, Paris, 1997.

[17] Um «Anarquista agnóstico» enviou-me, nesta terça feira, a notícia de que advogados alemães, em Munique, a pedido de pais, estão apresentando uma petição à ministra da Família, Christine Bergmann, no sentido de que a Bíblia seja classificada como um livro perigoso para crianças, até que dela não sejam suprimidas as passagens de violação dos direitos humanos. Segundo os advogados Christian Sailer e Gert-Joachim Hetzel, a bíblia é extremamente violenta e contém passagens de muita crueldade que, além de tudo, são apresentadas como fruto da vontade de Deus. "Predica o genocídio, o racismo, a animosidade para com os judeus, execuções atrozes de adúlteros e homossexuais, assassinato dos próprios filhos e outras perversidades", afirmam. A porta-voz da igreja católica em Munique, Adelheid Utters-Adam, qualificou a solicitação de absurda. Se a Bíblia deve ser incluída no índex, o mesmo deve acontecer com todos os livros de História e quase todos os jornais, destacou Utters-Adam, para quem os autores da petição não entenderam o livro sagrado.

[18] Repito: "Nossos hospícios, muitas vezes, são campos de prisioneiros de nossa guerra civil não declarada."T.Szasz.

 

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