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Por
LUIZ ALBERTO MONIZ
BANDEIRA
Luiz Alberto Moniz
Bandeira é cientista político, professor titular de História da
Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília
(aposentado) e autor de mais de 20 obras, entre as quais
Brasil, Argentina e Estados Unidos:conflito e integração na
América do Sul(Da Tríplice Aliança ao Mercosul), De Marti a
Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina, e Relações
Brasil-EUA no contexto da globalização, cujo vol. I é
Presença dos Estados Unidos no Brasil e o vol. II,
Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente. |
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Paraguai-EUA:
irresponsabilidade
e aventureirismo
Desde o início dos anos 90, a fim de reduzir custos e pessoal
militar, o Pentágono delineou nova estratégia para a instalação
de bases militares no exterior. Buscou construir em outros países
pistas de aviação, quartéis, estoques de carburante e equipamento
etc., mas sem ocupar permanentemente essas bases com as Special
Operations Forces (SOF). O que interessa ao Pentágono é que
estejam em condições de uso instantâneo, momento em que alguma
intervenção militar direta se afigure necessária.
Essas
bases também são periodicamente usadas como ponto de partida e
apoio para exercícios (a) de treino de tropas americanas e (b) de
treino de tropas dos países-clientes, bem como familiarizá-las com
equipamentos militares americanos, criando condições para futuras
vendas. Além de servir também para a coleta de inteligência,
constitui assim um meio de promoção de venda de material bélico,
um comércio dirigido pelo Pentágono. Bases desse tipo foram
instaladas na Mauritânia, no Mali e provavelmente em outros países
da África.
Os
objetivos dos EUA, na América do Sul, sempre foram assegurar as
fontes de materiais estratégicos, tais como os campos de petróleo
na Colômbia, Equador e Venezuela, as minas de estanho na Bolívia,
as minas de cobre no Chile, e manter abertas as linhas de acesso. E,
durante a década de 90, o Pentágono instalou, na América do Sul e
em ilhas próximas, cerca de 20 guarnições militares, divididas
entre bases aéreas e 17 bases terrestres de radar, nas quais
aquartelavam cerca de 1.500 soldados, a um custo estimado de US$ 337
milhões. Além da base de Manta, no Equador, contavam com três no
Peru e quatro na Colômbia, sendo que o restante é móvel e está
em local secreto. Criaram ainda uma base de treinamento de combate
naval em Iquitos, Peru, e a Escola de Selva do Exército
equatoriano, em El Coca. E, nessas duas bases, financiadas
totalmente pelo programa Joint Combined Exchange Training (JCET), do
Pentágono, cerca de 160 soldados e 30 civis americanos treinavam o
Batalhão Antinarcóticos do Exército da Colômbia, ao mesmo tempo
em que pilotos, supostamente civis, tripulam aviões e helicópteros
enviados para apoiar a Policía Antinarcóticos, em Mariquita, San
José del Guaviare e Puerto Asís. Esses aviadores americanos são
altamente qualificados para operar estações de radar, captar
qualquer sinal na selva e interpretar sofisticadas imagens de câmeras
capazes de identificar qualquer objetivo na selva.
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Os
objetivos dos EUA na América do Sul sempre foram assegurar as
fontes de materiais estratégicos
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Em 1999, o então presidente da Argentina, Carlos Menem, ofereceu
aos EUA a Escuela de Monte, que o Exército argentino possui na Província
de Misiones, com 10 mil hectares e em uma zona muito próxima da
fronteira com o Brasil, para treinamento em combate na selva de suas
unidades de contra-insurgência. Questões constitucionais na
Argentina e a manifestação de desagrado por parte do Brasil, no
entanto, concorreram para frustrar o projeto. No Paraguai, desde
1969 os EUA projetavam instalar uma base militar. Em 1983, durante a
ditadura do general Alfredo Stroessner, técnicos americanos construíram
a base denominada Mariscal Estigarríbia, na Província de
Boqueronen, localidade com apenas 3.000 habitantes, no Chaco
Paraguaio, a cerca de 250 km da Bolívia e próxima das Províncias
argentinas de Formosa e Salta. Essa base possui enorme sistema de
radar, amplos hangares e uma torre de controle de tráfego aéreo. A
pista, com um total de 3.500 km de comprimento, é maior do que a do
Aeroporto Internacional de Assunção (do tamanho da maior pista do
aeroporto do Galeão) e foi ampliada e restaurada nos anos 90. Ela
permite aterrissagem de aviões de maior tamanho, como os Galaxys e
os B-52.
Em
1994, os americanos começaram a construir uma base, chamada Largos
Caminos, no Departamento de San Pedro, onde há depósitos de urânio.
No departamento de Caazapá, região oriental, há outra base, também
construída por técnicos americanos. E, desde o início dos anos
90, vários exercícios militares foram efetuados na região por forças
dos EUA e do Paraguai. Em 14 de janeiro de 2003, um avião da
Marinha dos EUA -Hércules C-130, prefixo AX-4994- com 11 fuzileiros
navais, que tentara entrar em território boliviano para chegar ao
Paraguai, invadiu o espaço aéreo do Brasil e foi obrigado a
aterrissar no aeroporto Jorge Teixeira, em Porto Velho (Rondônia),
por não ter autorização para sobrevoar o território brasileiro.
Constou que os militares integravam o 7º Grupo das SOF, que iam
realizar cursos de capacitação e operações conjuntas especiais
com as Forças Armadas do Paraguai, conforme indicou um pedido
analisado e aprovado pelo Senado daquele país, em fins de 2003.
Essa fora a segunda vez, em três meses, que uma aeronave dos EUA
sobrevoava o espaço aéreo nacional entre o Brasil e a Bolívia. Em
8 de dezembro de 2003, ao voar clandestinamente sobre o Brasil, um
helicóptero americano, pertencente à Atlanta Jet, caíra na região
do distrito de Abunã, próximo de Guajará-Mirim, divisa com a Bolívia.
No dia seguinte, três helicópteros americanos, vinculados à DEA
(agência antinarcóticos dos EUA), invadiram o espaço aéreo
brasileiro para fazer o resgate de um civil e dois militares.
Através
de notas reversais, firmadas com os EUA (5 de maio de 2005), o
Paraguai autorizou o ingresso de 400 soldados americanos. E, segunda
consta, o projeto é ampliar as instalações de Mariscal Estigarríbia
de modo a aquartelar cerca 16 mil soldados ou mesmo 13 contingentes.
Essa iniciativa, permitindo o ingresso no Paraguai de 400 soldados
americanos com imunidades, e a ameaça de um acordo de livre comércio
com os EUA demonstram, entretanto, a irresponsabilidade do governo
de Nicanor Duarte Frutos e o aventureirismo da administração de
George W. Bush, ao inflamar o antiamericanismo e as tensões entre
os países da América do Sul.
O
acordo do Paraguai com os EUA, cedo ou tarde, terá de ser
denunciado, dada a sua incompatibilidade com os compromissos
assumidos com o Mercosul. Se o Paraguai, desde o término da construção
de Itaipu, não está em melhor situação, a causa é a debilidade
de sua estrutura produtiva, deficiente em cultura do trabalho e
permeada pela contravenção. E fora do Mercosul o Paraguai não tem
viabilidade. Mais de 30% de suas exportações destinam-se ao
mercado brasileiro e, se considerar o contrabando, esse percentual
se eleva a muito mais de 60%. Também exportações do Paraguai para
outros países fora do Mercosul passam pelas estradas do Brasil, até
os portos de Paranaguá, Santos e Rio Grande, bem como pelo porto de
Buenos Aires, no rio da Prata. Além do mais, o Brasil compensa o
Paraguai, anualmente, com cerca de US$ 240 milhões, a título de
royalties pelo uso da energia de Itaipu. E, embora não deseje tomar
tal medida, pode suspender o pagamento, caso sofra prejuízos com a
possível ruptura do Mercosul pelo Paraguai.
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