O
Mercosul não é para principiantes:
sete
teses na linha do bom senso
Introdução:
Vou
formular algumas “teses” sobre a posição do Brasil em relação
ao Mercosul que, aparentemente, têm a pretensão de ser de
“bom senso”, ou seja, tratam do óbvio. Mas, elas também são,
num certo sentido, iconoclásticas, uma vez que nem sempre o óbvio
e o necessário são observados na vida real. Em momentos
considerados de “ruptura” ou dominados por políticas e práticas
“inovadoras”, determinadas posturas diplomáticas não
necessariamente refletem o que se poderia chamar de
racionalidade econômica stricto
sensu, e sim posições
e políticas momentaneamente dominantes. Alguma coisa poderia
ser agregada em relação aos interesses nacionais, mas esse
aspecto pode ser deixado momentaneamente de lado para fins desta
discussão puramente conceitual e exploratória.
Apresento
resumidamente a seguir minhas teses e depois tentarei elaborar
sobre cada uma delas.
1.
O Mercosul não é, nem pode ser um fim em si mesmo.
2.
O Mercosul não contém, não pode conter, não responde e não
pode responder a todos os interesses nacionais brasileiros.
3.
Os benefícios do Mercosul precisariam, em algum momento, ser
confrontados aos seus custos.
4.
O Mercosul não é um instrumento de desenvolvimento nacional;
é um mecanismo de liberalização.
5.
O Mercosul não é uma instituição de caridade (e nem se
deveria cogitar de criar uma).
6.
As instituições do Mercosul não devem definir-lhe a forma e
sim responder a funções reais do processo de integração; por
isso não se deve constituir instituições que não respondem a
funções concretas.
7.
Não se devem temer retrocessos, desde que seja para avançar de
maneira mais segura, mais adiante, segundo a conhecida fórmula:
reculez pour mieux sauter,
recuar para melhor saltar.
Vejamos
agora cada uma dessas “teses” com maior grau de detalhamento
e dotadas das devidas explicações.
1.
O Mercosul não é, nem pode ser um fim em si mesmo.
O
Mercosul, salvo algum entendimento secreto e não sabido entre
os negociadores diplomáticos dos países membros, não foi
feito com intenções jurídico-conceituais e não se destinava
a provar nenhuma tese de cunho acadêmico, para maior glória e
excelência de uma integração econômica em si e por si. Ele
foi feito para alcançar determinados objetivos que estão
explicitados no Tratado de Assunção (TA), de1991. Entre esses
objetivos podemos citar:
(a)
a necessidade de ampliar as dimensões dos mercados nacionais
dos países membros, requerimento considerado como “condição
fundamental para acelerar seus processos de desenvolvimento econômico
com justiça social”. “Justiça social” entra aqui como
uma invocação tipicamente política, mas o argumento econômico
é claro: ampliar os mercados nacionais, ou seja, lograr
economias de escala para suas empresas.
(b)
Esse objetivo deveria ser alcançado “mediante o
aproveitamento mais eficaz dos recursos disponíveis, a preservação
do meio ambiente, o melhoramento das interconexões físicas, a
coordenação de políticas macroeconômicas da (sic!)
complementação dos diferentes setores da economia”, o que
também deve ser visto como uma finalidade essencialmente
racional do ponto de vista econômico. A metodologia a ser
seguida para alcançar esses objetivos toma como base os princípios
de “gradualidade, flexibilidade e equilíbrio”, o que em
nada diminui a qualidade essencialmente ricardiana dos objetivos
propostos. (Nota: o TA padece de erros de redação que não
foram corrigidos até hoje.).
(c)
Uma das justificativas para se avançar no processo de integração
foi apresentada como sendo a “evolução dos acontecimentos
internacionais, em especial a consolidação de grandes espaços
econômicos”, daí “a importância de lograr uma adequada
inserção internacional” para os países membros. O processo
de integração foi considerado como constituindo “uma
resposta adequada a tais acontecimentos”. (Na verdade, não se
trata de acontecimentos, ou eventos, mas de processos e fenômenos
com prazos mais delongados de maturação e de desenvolvimento
do que os eventos a ele associados.).
(d)
Outros objetivos da decisão dos países membros de firmarem o
TA remetem à “necessidade de promover o desenvolvimento científico
e tecnológico dos Estados Partes e de modernizar suas economias
para ampliar a oferta e a qualidade dos bens de serviços disponíveis,
a fim de melhorar as condições de vida de seus habitantes”.
Em
outros termos, de todos os requerimentos alinhados para
justificar o TA, pode-se observar que a integração não é,
nem nunca foi, no TA e em outros instrumentos, considerada como
um fim em si mesmo. Ela sempre apareceu como um meio para alcançar
objetivos relevantes do ponto de vista econômico, social, político,
tecnológico e diplomático; em todo caso, ela é mobilizada
enquanto instrumento funcional para o atingimento de outros fins
que não a integração em si e por si, que deve ser um simples
meio ou instrumento para o atingimento daqueles objetivos já
explicitados.
Ora,
o que vem sendo observado, desde alguns tempos para cá, é que
a integração parece ter virado um objetivo em si e por si,
como se estivéssemos em busca de algum padrão de perfeição
estética no campo da integração, ou necessitados de mais uma
instituição burocrática que se justificaria por si mesma,
apenas por ter o compromisso de realizar a integração. Esta é
proclamada prioridade estratégica de diplomacia brasileira (aliás,
desde muito tempo), sem que uma avaliação realista tenha sido
feita para separar o que aparecia como “necessidade histórica”,
numa determinada conjuntura, e o que pode, realisticamente ser
feito hoje para inserir o Brasil na economia mundial e nos
fluxos mais dinâmicos do comércio internacional e das demais
transações financeiras, tecnológicas ou de investimentos.
O
que pretendo dizer é que, se a integração regional aparecia
como funcional para o atingimento de determinados objetivos,
numa fase específica do itinerário econômico do Brasil – e
isso depende do julgamento dessa época sobre ela mesma e do
julgamento que hoje podemos fazer sobre aquele momento, com o
benefício da chamada avaliação retrospectiva ‑, pode
perfeitamente ocorrer, atualmente, que ela não mais o seja. Ou
então que a forma “modelar” dessa integração, tal como
escolhida pelos “pais fundadores”, atendendo eles a
requisitos e percepções de uma determinada conjuntura, já não
mais corresponda às necessidades da presente fase. Essa avaliação
deve ser conduzida com toda isenção política e econômica,
com toda independência analítica, separando idéias e princípios
pré-concebidos das tarefas e práticas que devemos conduzir
hoje, para alcançar os objetivos que são os nossos, nacionais,
antes dos objetivos regionais ou multilaterais.
Nossa
realidade, dispensável dizê-lo, é a da realidade nacional,
das necessidades de desenvolvimento da sociedade nacional, e
nesse sentido qualquer projeto integracionista deve, antes de
mais nada, subordinar-se aos interesses nacionais. Se estes
puderem ser combinados aos interesses nacionais de outros países,
muito bem, caso contrário, aqueles devem prevalecer. Este deve
ser, sempre, o critério básico através do qual devemos
abordar o fenômeno integracionista.
2.
O Mercosul não contém, não pode conter, não responde e não
pode responder a todos os interesses nacionais brasileiros.
Pela
sua própria definição, enquanto projeto de liberalização
comercial e de integração de atividades econômicas de âmbito
regional, o Mercosul é uma parte, e apenas uma parte, da
economia, do comércio, dos intercâmbios mantidos pelo Brasil
com o exterior. Essa parte cresceu tremendamente no curso dos
primeiros dez anos da integração, passando grosso
modo de menos de 5% dos intercâmbios externos para algo
como 14 ou 15% desses intercâmbios na fase presente. Não é
certo que esse crescimento das trocas estaria ausente na falta
de um projeto integracionista, mas é certo que o projeto ajudou
nesse crescimento, tanto quanto ele estimulou certo número de
trocas externas, isto é, com terceiros países.
O
Mercosul ‑ e os países associados e os demais vinculados
por acordos de comércio ‑ representa um aporte
significativo de mercados adicionais e complementares que podem
estar à disposição das empresas brasileiras, tendo em vista
os mecanismos preferenciais existentes. Ou seja, ele é uma espécie
de reserva de mercado ampliado ou, em certo sentido, uma
miniglobalização, que destaca uma parte dos mercados externos
para melhor usufruto das competências nacionais. Os economistas
debatem, ainda e sempre, se nesse processo não existiria algum
desvio de comércio e de investimentos, criando, portanto, situações
de third best no
quadro das possibilidades das trocas externas. Esse debate
continuará, mas cabe reconhecer que, independentemente do maior
ou menor grau de desvio de intercâmbios externos, estes, no
quadro global, sempre representarão uma pequena parte, apenas,
da soma total dos intercâmbios externos. Em algumas áreas eles
poderão ser importantes, em outras menos, mas sempre de modo
parcial e incompleto.
Ora,
a melhor das situações, do ponto de vista da racionalidade
econômica, é dispor o país, qualquer país, de todas as
possibilidades abertas para si. Isso nem sempre é possível,
mas trata-se certamente de objetivo a ser perseguido. Não é
por outra razão, por exemplo, que Chile e México, em nossa
região, e mesmo os EUA, tentam multiplicar as chances de
acordos comerciais com todo e qualquer parceiro disponível e
aberto a esse tipo de empreendimento, na ausência da situação
de first best, que
seria a abertura multilateral, incondicional e irrestrita, de
todas as economias a todos os tipos de intercâmbios. Não é
por exemplo do Paraguai ou do Uruguai que as empresas
brasileiras retirarão mercados importantes, financiamento
adequado, tecnologias avançadas e sobretudo desafios
competitivos para sua melhor e maior inserção na economia
mundial. O Mercosul é bom para algumas coisas, mas não o é
para outras, ou para todas, e como tal deve ser considerado.
Sendo parcial e limitado, ele não deveria delimitar ou definir
os parâmetros externos para a inserção competitiva do Brasil
na economia mundial.
3.
Os benefícios do Mercosul precisariam, em algum momento, ser
confrontados aos seus custos.
A
despeito de todos os argumentos que destacam ou enfatizam, com
maior ou menor grau de sinceridade ou racionalidade, as bondades
do Mercosul, cabe reconhecer que toda situação de comércio
preferencial, de exclusividade, portanto, comporta aspectos
positivos e negativos. O que deve ser feito é uma avaliação
honesta e objetiva desses prós e contras do processo
integracionista, de qualquer processo de integração, aliás. O
que não pode ser feito, seguramente, é ressaltar e elogiar os
benefícios desse processo e deixar de lado os aspectos ou
elementos menos positivos, que têm a ver, justamente, com a
preferência artificial criada em favor de determinados setores
ou ramos da economia, em detrimento de uma competição
ampliada.
A
competição, desde o final do mercantilismo, sempre foi
reconhecida como uma das mais poderosas alavancas de progresso
material e de inovação tecnológica, algo que depende,
intrinsecamente, da liberdade dos mercados e da estabilidade de
regras para gerar confiança nos parceiros e interventores
desses e nesses mercados. Ora, ao definir regras de competição
não tão amplas – ou livres – quanto desejável, os
processos de integração diminuem o quantum
de liberdade e de “multilateralidade” necessário para
assegurar que a competição seja realmente levada ao ponto ótimo
possível. Esse ponto é difícil de definir, uma vez que as
situações de abertura unilateral e incondicional também
apresentam certos custos que devem ser medidos em termos de
empregos perdidos e de destruição de competidores iniciantes,
o que geralmente é resolvido na prática por práticas e políticas
de protecionismo à la
List, isto é, de caráter temporário e de tipo moderado.
Nem sempre os governos, ou os lobbies que fazem pressão em
torno deles, adotam a curva ideal de protecionismo decrescente,
como geralmente praticado nos processos de desenvolvimento
gerado e gerido de forma autônoma: pode ocorrer de essas práticas
serem prolongadas indefinidamente, com perdas para o país e os
consumidores.
O
fato é, porém, que os processos de integração, todos eles,
tendem a gerar impulsos protecionistas, para dentro e para fora
do próprio processo em causa. A esses custos diretos, em termos
de segmentação e cartelização de mercados, devem ser
acrescentados os custos indiretos da burocracia regulacionista,
nos planos nacional e regional, que tendem a congelar situações
competitivas que não são as do maior bem-estar possível, mas
sim as existentes no momento da negociação da abertura recíproca
de mercados. Isso gera um baixo dinamismo econômico que tende a
ser cumulativo, descolando o bloco em questão das pressões
competitivas de outra forma advindas da economia mundial.
Em
resumo, excessos integracionistas, em contraposição à
abertura unilateral ou negociada, ainda que moderada e restrita,
podem representar custos reais para os sistemas produtivos
nacionais, ademais de reduzirem os ganhos de bem-estar dos
consumidores nacionais. Pode-se dizer, portanto: integração,
OK, ma non troppo,
sobretudo aquela do tipo exclusivo e excludente.
4.
O Mercosul não é um instrumento de desenvolvimento nacional;
é um mecanismo de liberalização.
Parece
evidente que um processo de integração não pode substituir,
por seu próprio mérito, projetos ou processos de
desenvolvimento nacional. Esses processos atuam na interface do
comércio exterior, dos investimentos, de acesso a novas
tecnologias, mas a dinâmica principal do desenvolvimento tem a
ver com a capacitação (sempre interna) dos recursos humanos e
materiais engajados na definição de políticas adequadas de
criação de novas oportunidades de emprego e, portanto, de
crescimento da produção e da renda.
Tentar
fazer do processo de integração um instrumento de
desenvolvimento, em sua dimensão própria, representa exigir em
demasia desse processo, tentar fazê-lo cumprir uma missão histórica
que não é a sua. Políticas de desenvolvimento devem ser
definidas pelas autoridades econômicas e políticas nacionais,
de acordo com um leque, ou um coquetel, de medidas do mais
variado sabor: políticas macro e micro, medidas setoriais,
sobretudo aquelas que incidem sobre os fatores principais de
crescimento e de desenvolvimento: o aumento das taxas de
produtividade do trabalho humano, o que tem a ver, basicamente,
com o incremento da qualidade da educação e da formação técnico-profissional
da mão-de-obra do país em causa.
O
Mercosul deveria ficar restrito, tanto quanto possível, aos
objetivos fixados originalmente no TA: liberalização
comercial, formação de um mercado comum, coordenação de políticas
macroeconômicas e setoriais, enfim, objetivos limitados, que têm
a ver mais com o bom desempenho das políticas globais e
setoriais (sobretudo comerciais), do que com a mudança social e
redistributiva implícita a todo e qualquer processo de
desenvolvimento.
5.
O Mercosul não é uma instituição de caridade (e nem se
deveria cogitar de criar uma).
Transferência
de renda dos mais ricos para os mais pobres pode e deve ser
feita, desde que obedecendo a certos critérios redistributivos
que levem em conta as disparidades reais entre indivíduos – o
que geralmente é medido pela renda per capita – e desde que
exista, de fato, recursos disponíveis para esse tipo de política
assistencial. Do contrário seria melhor basear-se em velhos
mecanismos de mercado, bem mais eficientes do que os governos,
para gerar maiores oportunidades de emprego e de criação de
riqueza.
Fundos
de desenvolvimento, quaisquer que sejam suas regras específicas,
dependem de um provedor principal de recursos, que aceite a
relativa assimetria implícita nesses mecanismos de transferência
de renda, geralmente alguma economia mais poderosa que consinta,
democraticamente, nessa transferência. Não parece existir tal
situação no Mercosul, região onde as disparidades entre os países
são menos importantes do que aquelas existentes, por exemplo,
entre regiões brasileiras – entre o Nordeste e o Sudeste e o
Sul, para ser mais claro – e onde os indicadores sociais e de
renda per capita dos países supostamente beneficiários da
ajuda – os menores ‑ superam amplamente aqueles
existentes nessas regiões mais atrasadas do Brasil. A suposta
“generosidade” de políticas assistencialistas desse tipo não
contribui necessariamente para gerar riquezas permanentes ou
situações de equilíbrio dinâmico no processo de integração.
De resto, assimetrias são inerentes a toda e qualquer situação
sistêmica, confrontado sempre países e economias com dotações
desiguais, diferentes entre si, que conformam precisamente a
base das vantagens ricardianas existentes (e adquiridas,
dinamicamente), bem como as alavancas necessárias ao
estabelecimento de relações de intercâmbio entre eles.
6.
As instituições do Mercosul não devem definir-lhe a forma e
sim responder a funções reais do processo de integração; por
isso não se deve constituir instituições que não respondem a
funções concretas.
Em
princípio, as instituições integracionistas devem seguir as
necessidades ditadas pelos processos reais de integração econômica
e adaptarem-se aos seus requerimentos, não moldarem elas mesmas
o formato, o ritmo e as características básicas desses
processos. Instituir uma nova organização, digamos um
Parlamento, para só depois tentar encontrar funções para ele,
pode significar colocar o carro na frente dos bois, o que não
é uma receita para fazer avançar o processo histórico. Da
mesma forma, criar um instituto monetário para especular sobre
as melhores condições de se instituir uma moeda única pode
representar certo lirismo acadêmico na busca de progressos da
integração, mas não faz avançar um milímetro o processo, se
inexistirem condições reais para a efetivação desse
ambicioso projeto de renúncia de soberania monetária.
Cabe,
com efeito, chamar a atenção para o tremendo potencial de renúncia
de soberania – tanto estatal, stricto
sensu, como econômica, no sentido amplo – desses projetos
que tendem a exigir uma burocracia “extra-nacional” muito
extensa ou que geram instituições que adquirem vida própria,
uma vez criadas. O mundo – sobretudo o mundo onusiano, dos últimos
60 anos – é pródigo em novos órgãos e carente, de um modo
terrível, de um real processo de desenvolvimento de povos ditos
“atrasados”. No último meio século são muito poucos,
pouquíssimos os países que saltaram a barreira do
desenvolvimento real, que significa um processo endógeno de
crescimento sustentado com transformação produtiva e
redistribuição de riqueza. Se a maior parte não o fez, não
foi exatamente pela falta de órgãos, nacionais e
internacionais, dedicados à nobre missão do desenvolvimento.
Ao contrário: há uma verdadeira pletora deles, em todos os
setores de atividades (nacionais e regionais) que se pode
desejar, inclusive vários para acabar com a fome e a miséria.
Não se tem notícia de que os problemas sociais nos países
mais pobres ficaram menos dramáticos devido à existência
desses órgãos, que continuam existindo décadas depois que
foram criados, atuando nas mesmas bases. Aliás, um exemplo
nacional bastaria: vinte anos de “criança esperança”, com
milhões sendo arrecadados a cada ano, diz alguma coisa do ponto
de vista da ajuda ao desenvolvimento?
7.
Não se devem temer retrocessos, desde que seja para avançar de
maneira mais segura, mais adiante, segundo a conhecida fórmula:
reculez pour mieux sauter,
recuar para melhor saltar.
Persistir
no erro de soluções requentadas pode ser uma forma burra de
consolidar respostas erradas para problemas que foram mal
diagnosticados. A América Latina, de modo geral, é
subdesenvolvida, ou pouco desenvolvida, devido à inexistência
ou à insuficiência dos processos de integração? Não creio,
pois o desenvolvimento responde, como já referido, a processos
e políticas de maior escopo e abrangência do que a simples
liberalização dos mercados e a abertura econômica, que são
medidas consubstanciais aos processos de integração.
Não
há nada de errado na integração, que deve ser considerada
como o vestíbulo de uma integração mais ampla, das economias
nacionais com a economia mundial, uma espécie de miniglobalização
provisória, até que a globalização mais vasta englobe de
verdade os países participantes. O erro seria concebê-la de
maneira exclusiva e excludente. No caso dos projetos de mercado
comum, o timing do
processo deve ser tão importante quanto à forma ou as
peculiaridades desse processo, pois ele implica, de fato, na renúncia
de soberania implícita ao ordenamento interestatal de políticas
econômicas, de caráter macro ou setorial.
Por
questões atinentes ao timing
de seus próprios processos de estabilização macroeconômica,
os países do Mercosul não parecem prontos para adentrar nas
tarefas e requerimentos de um mercado comum, aliás, sequer
naqueles de uma união aduaneira. Talvez uma solução de menor
custo, para evitar a perda de credibilidade do bloco, seria
terminar a construção da zona de livre comércio antes de
passar às etapas mais avançadas do processo de integração. Não
há nenhum problema em admitir insuficiências do processo real;
é bem melhor, aliás, do que manter a ficção de uma construção
inacabada e inacabável, por insuficiência de meios e de
vontade política para tanto. Grandes saltos podem ser obtidos
por aceleração gradual, mas também por recuos táticos ou
estratégicos. Talvez seja o caso de repensar o Mercosul
enquanto projeto comercial, apenas comercial.
Como
conclusões provisórias e puramente circunstanciais, eu
alinharia as seguintes:
(a)
o Mercosul deveria concentrar-se no essencial e voltar às suas
origens, que estão num mandato de liberalização precipuamente
comercial, dedicando-se ao acabamento de uma integração, stricto
sensu, dos espaços econômicos regionais;
(b)
não se deveria entupir a agenda do Mercosul de temas acessórios,
de escassa relevância econômica ou comercial, ainda que de
suposto interesse “social”;
(c)
também não caberia sobrecarregar o “barco” institucional
do Mercosul, que poderia adernar, e sim fazer funcionar o que já
foi acordado, com base nas instituições criadas até aqui;
(d)
atenção especial deveria ser dada, mas isso é óbvio também,
à defesa dos interesses comerciais brasileiros, o que,
atualmente, passa pela defesa dos exportadores nacionais
submetidos a demandas ilegais por salvaguardas;
(e)
finalmente, não se deveria fazer do Mercosul um cadáver
embalsamado, estilo Lênin na Praça Vermelha, mas ter a coragem
– e eventualmente a iniciativa ‑ de rever posturas
diplomáticas e compromissos políticos do passado, se a atual
realidade assim o impõe.