Por ALTAMIRO BORGES

Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor de “Encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2005).

Luiz Alberto Moniz Bandeira. As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (de Collor a Lula, 1990-2004). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2004 (417p.)


 

FHC, Lula e os interesses dos EUA

 

“As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (de Collor a Lula, 1990-2004)”. O título do novo livro do renomado historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, publicado pela Editora Civilização Brasileira, por si só já é instigante. Já a leitura das suas 417 páginas é algo cativante; não dá vontade de parar! Com farta e rica documentação, o autor descreve a agressiva estratégia de dominação econômica, política e militar do imperialismo estadunidense. Mesmo revelando seus laços com o ex-presidente FHC, “com o qual sempre mantive relações de amizade”, ele não deixa de criticar sua tibieza diante das pressões dos EUA. E, como contraponto, ressalta os acertos da política externa seguida pelo governo Lula. É uma leitura imperdível!

Para o autor, que já escreveu diversas obras sobre o tema, os EUA só se tornaram uma potência com base no saque e espoliação de outros povos. “Por volta de 1850, os Estados Unidos já ocupavam o quinto lugar no mundo como potência manufatureira, o que lhes exacerbava o ímpeto da expansão, em busca tanto de mais terras quanto de mercados e de fontes de matérias-primas. A tendência para o messianismo nacional, a idéia do povo eleito por Deus que o judaísmo legou aos puritanos, atualizou-se, americanizou-se e assumiu o nome de destino manifesto, movimento com que os Estados Unidos, na metade do século XIX, expandiram suas fronteiras até o Oceano Pacífico e, através de expedições de flibusteiros, tentaram apoderar-se da América Central e das ilhas do Caribe, bem como da Amazônia brasileira”.

Ao contrário do que difundem certas visões simplistas, as relações entre o Brasil e os EUA sempre foram tensas. A maioria dos governantes nativos adotou posturas servis diante do império; mas outros governos, mesmo burgueses, procuraram conter sua gula. Moniz Bandeira destaca a postura do ex-presidente Getúlio Vargas, que sempre “buscou alargar a margem de autonomia do Brasil” e, por isso, sofreu intensa pressão dos EUA. O autor lembra que “o embaixador americano Adolf Berle Jr. incentivou abertamente o golpe de Estado que o derrubou em 29 de outubro de 1945”; recorda também o suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 1954, após denunciar a brutal “campanha subterrânea” dos grupos internacionais; e cita ainda o golpe tramado pela CIA para derrubar João Goulart, herdeiro do getulismo.

É com base nesta experiência histórica, nem sempre valorizada por alguns setores de esquerda, que o livro procura decifrar as recentes tensões entre o Brasil e os EUA. Para Moniz Bandeira, o imperialismo hoje é bem mais agressivo do que no passado. Com a débâcle do bloco soviético, e, principalmente, após o 11 de setembro, esta nação se transformou num típico Estado terrorista. O autor chega a sugerir, relatando fatos chocantes, que os atentados de 2001 tiveram a cumplicidade do próprio governo Bush. Extrai da história um discurso de Adolf Hitler, em 25 de outubro de 1939, pouco antes da invasão da Polônia: “Darei uma razão propagandística para começar a guerra, não importa se ela é plausível ou não. Ao vencedor não se pergunta depois se ele disse ou não a verdade”. Bush seria um seguidor do fundamentalismo nazista!

Diante desta política expansionista e belicista, Moniz Bandeira analisa em pormenores as reações dos três últimos presidentes do Brasil. Não gasta muito tinta com o primeiro Fernando, que é tratado com desdém. “Alguns meses depois da Guerra do Golfo, Collor de Mello, em junho de 1991, visitou Washington. O presidente George Bush, ao recebê-lo na Casa Branca, saudou-o como o ‘modern leader’, acentuando seu plano de privatizar empresas, combater a inflação e liberalizar o comércio. No jantar que lhe ofereceu, qualificou-o como ‘extraordinary president’... Collor de Mello, deslumbrando provincialmente com a perspectiva de um mundo unipolar, procurou acomodar o Brasil, tanto no plano bilateral quanto no plano multilateral, às normas exigidas por Washington”. No essencial, foi um medíocre serviçal dos EUA!

Já no que se refere aos oito anos de reinado de FHC, o autor apresenta detalhada e reveladora análise. Ele até aponta contradições na sua política externa, citando alguns discursos meeiros com relação à Alca. Mas não vacila em criticar as criminosas privatizações e a abertura suicida do mercado interno, que seguiram os ditames do Consenso de Washington. Para ele, FHC tentou evitar confrontos com o império do norte, visando uma inserção subordinada à globalização neoliberal – o que explicaria o acordo firmado em abril de 2000 para instalação da base militar dos EUA em Alcântara (MA). O alvo de suas críticas, porém, é à conduta de seu ministro de Relações Exteriores, Celso Lafer, que já havia ocupado a mesma pasta na gestão Collor. O autor não poupa adjetivos contra as ações subservientes e humilhantes deste subalterno.

Entre outros casos vexatórios, relata a sumária exoneração do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que dirigia o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) do Itamaraty, por este ter alertado o governo para os graves riscos da implantação da Alca. Cita a atitude acovardada de Celso Lafer diante das pressões dos EUA para afastar o embaixador brasileiro José Maurício Bustani da direção da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), ligada à ONU, por este ter tentado evitar a guerra genocida no Iraque. Lembra ainda os discursos do ex-ministro de FHC sugerindo a participação do Brasil na guerra com base no draconiano Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). O ápice dessa postura aduladora se deu quando este diplomata entreguista aceitou tirar seus sapatos nos aeroportos dos EUA.

“Em 31 de janeiro de 2002, Celso Lafer, ministro de Estado das Relações Exteriores do Brasil, sujeitou-se a tirar os sapatos e ficar descalço, a fim de ser revistado por seguranças do aeroporto, ao desembarcar em Miami. Esse desaire, ele novamente aceitou, antes de tomar o avião para Washington, e mais uma vez desrespeitou a si próprio e desonrou não apenas o cargo de ministro de Estado, como também o governo ao qual servia. E, ao desembarcar em Nova York, voltou a tirar os sapatos, submetendo-se, pela terceira vez, ao mesmo tratamento, humilhante, dispensado a um dignatário estrangeiro, exatamente ele, o herói que tomara a iniciativa de convocar a Reunião de Consulta da ONU, invocando o TIAR, para demonstrar solidariedade com os Estados Unidos por causa dos atentados de 11 de setembro”, registra indignado.

Diante destes fatos, Moniz Bandeira não vacila em afirmar que a posse de Lula deu início a uma guinada na política externa brasileira, retomando a trajetória seguida por Vargas e outros nacionalistas. Ele lembra os discursos do então candidato contra o tratado de anexação da Alca, a indicação de Celso Amorim e de Samuel Pinheiro para o seu Ministério de Relações Exteriores, a prioridade às negociações do Mercosul, os esforços para a construção de um bloco regional sul-americano e a frenética investida na diversificação das relações políticas, diplomáticas e econômicas com outros países em desenvolvimento – como China, Índia e Rússia. Mesmo comprometendo-se a manter a política macroeconômica favorável à ditadura do capital financeiro, o governo Lula tornou-se um estorvo para os EUA na estratégica política externa. Ele cita ainda os duros discursos contra a ocupação do Iraque e o veto aos EUA na base de Alcântara.

Para o autor, após longa fase de subserviência diante da hegemonia imperial, as relações do Brasil com os EUA voltaram a ficar tensas, como revelaram as frustradas negociações da Alca e a sua aparente derrota. Ele cita vários discursos hidrófobos da direita estadunidense e não descarta manobras ardilosas e violentas para sabotar o atual projeto de autonomia nacional, algumas inclusive partindo da quinta-coluna infiltrada no próprio governo Lula. Mas se mostra confiante na habilidade e ousadia da atual equipe do Itamaraty. Reproduzindo um artigo do jornal O Globo, ele registra que “há tempos (Celso Amorim) avisou a embaixadora dos EUA que não há força no mundo capaz de fazê-lo tirar os sapatos durante a revista de segurança dos aeroportos americanos. ‘Vou preso, mas não tiro o sapato’”. Conforme indica Moniz Bandeira, no seu belo livro, este é o dilema do Brasil na atualidade: subserviência ou soberania nacional.

 

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