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Por HENRIQUE RATTNER
Professor
da FEA (USP), IPT e membro da Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)
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A
crise do Partido dos Trabalhadores
Como
explicar a transformação sofrida pelo PT nestes dois anos e meio
desde que chegou ao poder? Afinal, ele continua sendo o único
partido de massa no Brasil – com mais de 800 mil membros
registrados, vindos de lutas reivindicatórias sindicais e políticas
travadas no último quartel do século XX.
Apesar
de toda a retórica, o PT não tinha um projeto de mudanças sociais
e de transformações políticas necessárias para desincumbir-se
das tarefas realizadas pela revolução burguesa na Europa
Ocidental, há 150 ou 200 anos. Embevecido pelo poder, relegou a
distribuição das terras e da renda e embarcou no delírio dos
economistas, prometendo além do controle da inflação, o “espetáculo
do crescimento”, e 10 milhões de emprego. Perdeu uma oportunidade
histórica única para varrer o “entulho” do regime escravagista
que se manteve intacto através das lutas pela Independência, da
Abolição e da Proclamação da República. Mário Covas falara da
necessidade de um “choque de capitalismo” para sacudir as bases
das oligarquias tradicionais e induzir a trajetória de um
capitalismo moderno, fundamentado em relações sociais mais democráticas.
A
democracia é considerada como a forma superior da organização
social e política das sociedades modernas do mundo ocidental a
partir do rompimento das relações feudais pelas revoluções
burguesas. Foram estas que abriram os diques para o ingresso da
pequena burguesia e dos trabalhadores no cenário político, abrindo
o caminho para a mobilidade e ascensão social das massas e sua
participação relativa nas decisões políticas em regimes de
democracia representativa.
Mas,
no Brasil, em vez de uma sociedade aberta e democrática,
assistiu-se a uma divisão mais acentuada entre as classes sociais,
ricos e pobres, reproduzindo de certa maneira a antiga divisão
entre senhores e escravos. O sistema partidário e eleitoral e a
profissionalização dos políticos, além de manter os currais
eleitorais, exigem recursos cada vez mais volumosos para eleger-se o
que os tornam dependentes das grandes empresas dispostos a investir
no “futuro” de seus candidatos. Os vínculos assim criados reforçam
as tendências ao clientelismo e nepotismo, engrossando os clãs
regionais, tradicionais ou modernos cuja maior ambição é
perpetuar-se no poder.
Deputados
trocando de partido, comércio de legendas e compra de apoio nas
votações configuram o triste espetáculo de um Congresso Nacional
e de casas legislativas estaduais e municipais dominados, em sua
maioria, por supostos representantes do povo cujo maior objetivo é
acercar-se da “boca” dos recursos públicos.
Se
antigamente a divisão da sociedade era mais nítida e clara –
capital contra o trabalho –, hoje as linhas divisórias são mais
difusas e o aglutinamento se faz em torno de interesses e lideranças
locais ou regionais, o que facilita o controle político pelo rolo
compressor do grande capital que controla também os principais
meios de comunicação e coopta os governantes reformistas ou
“revolucionários” quando chegam ao poder. O Estado, frente às
forças onipresentes do mercado perdeu sua capacidade de planejar,
regular, orientar e fiscalizar a alocação de recursos públicos e
privados; não conseguindo mais equilibrar o mercado de trabalho e a
distribuição da renda.
A
atual crise está sendo atribuída a conspirações da oposição
que estaria empenhada em desestabilizar o governo e criar um clima
de golpe, mas a cada dia fica mais patente que o problema tem raízes
internas: a falta de preparo, de visão e de um projeto que levou a
cúpula do PT a, esquecendo os preceitos mínimos de ética, se
aliar com os antigos adversários – os famigerados “300
picaretas” – e, por intermédio destes, o capital financeiro
nacional e internacional. Preso na camisa de força da política
macroeconômica a serviço do capital financeiro, o governo de
“esquerda” do PT não conseguiu formular uma política
transformadora e independente que priorizasse as necessidades básicas
dos excluídos, dos sem terra, sem teto e, sobretudo, dos
desempregados.
A
instabilidade política se reflete no cenário econômico
historicamente prejudicado pela baixa propensão ao investimento
produtivo dos empresários brasileiros, hoje agravada pela fuga de
capitais para os paraísos fiscais e o fluxo descontrolado de
entrada e saída de capitais especulativos (hot money) em
conseqüência da globalização e da política econômica
neoliberal.
No
fundo, são os mesmos problemas cruciais das frágeis democracias
recém-emergidas das trevas dos regimes ditatoriais. Seria possível
realizar as transformações estruturais, redistribuindo renda,
terras e oportunidades de emprego e, ao mesmo tempo, respeitar as
regras da democracia representativa? Como realizar as reformas políticas,
agrária e urbana em países tão dependentes de crédito e de
investimentos externos?
Após
mais de dois anos e meio de governo do Partido dos Trabalhadores, é
grande o desencanto e a frustração da população face à perpetuação
de seus problemas, enquanto a nova tecnocracia (os 19 mil cargos de
“confiança” na administração federal, além dos equivalentes
nas administrações estaduais e municipais) procura manter-se no
poder mediante alianças esdrúxulas, em nome da governabilidade.
Como
tornar mais transparente as ações do poder público, acompanhar a
gestão dos recursos e eventualmente, punir e substituir
administradores e políticos incompetentes ou corruptos,
responsabilizando-os pelos rombos e prejuízos nas finanças?
Desde
sua origem, o PT empunhava a bandeira da ética na política e na
administração pública. Por isso, soou estranha a declaração do
presidente “ninguém é mais ético do que eu, neste país”
quando se analisam as ações políticas limitadas a manobras
parlamentares e alianças eleitorais, em lugar da luta por uma
sociedade mais aberta e justa. Negociatas de cargos, com ou sem “mensalão”,
em nome da governabilidade, substituíram a mobilização e
conscientização da sociedade mediante um amplo diálogo sobre as
prioridades de desenvolvimento.
A
aliança com a Direita e o Centro embaralhou os rumos políticos do
PT, embora deixasse satisfeitas, com a política econômica e
financeira, as oligarquias tradicionais. Enquanto Olívio Dutra
afirma que “o governo paga pelas más companhias com que se
meteu”, por um lado, a Direita, pensando já em 2006, fatura a
crise de corrupção ao mesmo tempo em que, pelo outro lado a eleição
de Severino Cavalcanti para presidente do Câmara paralisou os
trabalhos do Legislativo (novamente os “300 picaretas”). Fica no
ar a pergunta sobre como enfrentar as elites do poder econômico que
sempre mandaram e continuam a mandar no país?
Conseguem
cooptar deputados e senadores financiando generosamente suas
campanhas eleitorais em troca de “serviços” a serem prestados
posteriormente. Verdade, isto não é um fenômeno particular ao
Brasil. Inúmeros casos de corrupção com fins eleitorais estão
sendo relatados pela imprensa mundial, desde os países da América
Latina até a Europa, EUA e Japão. O problema vai além de uma
reforma política e sobretudo, do financiamento das campanhas
eleitorais com recursos públicos que democratize o acesso e a
participação da população no emaranhado do poder. O que está
sendo questionado é a própria estrutura e função do Estado,
diante a monopolização das posições de mando e o desaparecimento
de diferenças ideológicas entre os partidos.
Historicamente
surgido para evitar a desagregação da sociedade pela luta de
classes (Thomas Hobbes, “homo homini lupus”), o Estado moderno
estaria supostamente acima dos interesses particularistas, zelando
pelo bem-estar geral e proporcionando justiça, segurança e serviços
sociais básicos para todos. Na era da industrialização e de
desenvolvimento econômico, o Estado assumiria as funções de
planejar, regular, orientar e fiscalizar os investimentos visando à
maximização das taxas de crescimento econômico e do bem-estar
geral. O fracasso do Estado burguês no cumprimento de suas funções
históricas, levou ao assalto e conquista do poder, tanto pelos
nazistas e fascistas quanto pelos revolucionários bolcheviques, na
primeira metade do século XX. Entretanto, a derrocada dos regimes
totalitários e a restauração da democracia representativa, não
foram suficientes para abrir o caminho para a formação de regimes
com participação efetiva de todas as camadas da população nos
processos decisórios.
O
PT representava no cenário latino-americano, quiçá em escala
mundial, a visão messiânica e o discurso transformador à semelhança
dos partidos revolucionários do século XX. O fracasso no
desempenho da tarefa histórica de reordenamento das relações econômicas
e políticas provocou a desilusão e até depressão moral em amplos
círculos da esquerda. Independentemente da comprovação ou refutação
das acusações de corrupção nas empresas estatais e de pagamentos
de “mensalão” a deputados e senadores – a compra de votos não
é exatamente um fenômeno inédito no Brasil – o governo do PT
parece ter perdido os rumos ao distanciar-se cada vez mais dos
movimentos sociais cuja mobilização e entrada na arena política o
levaram ao poder. O desgaste com a refutação das acusações de
corrupção e clientelismo, seguida do afastamento de José Dirceu,
a demissão da diretoria de Furnas e de outras medidas referentes a
dirigentes do partido, repercutiram profundamente no cenário político
nacional e abalaram também a credibilidade da democracia
parlamentar e representativa.
Como
desatar esse nó da crise política que afeta os fundamentos da
sociedade brasileira? A reforma política centrada no financiamento
público das campanhas eleitorais e a redução do número de
partidos nas casas legislativas – federal e estaduais –, não
seriam suficientes para restaurar a moral e a decência na vida política
brasileira. Por outro lado, a radicalização da democracia direta
em todos os níveis – plebiscitos, revogação de mandatos, orçamentos
participativos e o compromisso inarredável com a justiça social
– parece hoje mais distante, após o abalo que atingiu a
credibilidade do Congresso e do próprio Executivo.
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