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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
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Política
e religião: entre o mal e o bem
“O
desejo de saber o porquê e o como chama-se curiosidade,
e não existe em qualquer criatura viva a não ser no homem. Assim,
não é só por sua razão que o homem se distingue dos outros animais,
mas também por esta singular paixão”, afirma Hobbes.
A curiosidade humana pressupõe uma atitude crítica diante dos
fatos, dos discursos e das ideologias que interpretam-nos. Trata-se
uma postura de ruptura com o maniqueísmo, o sectarismo e o
dogmatismo que tomam a sua verdade como a verdade absoluta.
O
olhar curioso não se contenta com a divisão do mundo em
polaridades absolutas, entre o mal e o bem; é um olhar que
coloca em suspenso as nossas certezas, os nossos preconceitos e os
princípios que geralmente aceitamos como dados para a análise da
realidade. Esta é muito mais complexa do que os fáceis raciocínios
esquemáticos e próprios dos que se vêem como profetas e guardiões
do bem, da palavra e do livro sagrados, contra o outro, o
qual representaria o mal.
Embora
sejam esferas autônomas da ação humana, política e religião se
mesclam tanto no que diz respeito ao quanto aos recursos práticos.
Na verdade, a política não pode prescindir plenamente da religião
e, em certas circunstâncias, o discurso religioso cumpre uma função
claramente política. Dessa forma, o dissidente político passa a
ser tratado como o herege, merecedor de todas as punições; os que
não aceitam o poder político imperial e hegemônico passam a ser
classificados como representantes das forças do mal; os que
defendem a ordem social vigente não titubeiam em demonizar os seus
oponentes; o mal é incorporado no outro. A linguagem maniqueísta
transforma o bem em mal e vice-versa. Pois o que representa o paraíso
para uns, pode ser o inferno para outros. Nesta senda, a política
é pensada como a luta entre o bem e mal.
A
modernidade pretendeu romper as amarras da superstição e da ignorância
e instituir a razão; pleiteou a separação do Estado das amarras
da moral religiosa e do poder espiritual representado pelas
autoridades eclesiásticas. Maquiavel advogou que a ação política
tem um status próprio e diferente da moral religiosa. A ação
política busca resultados; o estadista, ao contrário do profeta,
é julgado por sua eficácia. O florentino observa que, do ponto de
vista da política, o mal e o bem não são absolutos; o mal pode se
transmutar em bem, e vice-versa. Cabe ao estadista ter a sabedoria (virtù)
para usar o mal e o bem conforme a necessidade. Como afirma
Maquiavel, “o tempo arrasta consigo todas as coisas e pode
transmudar o bem em mal e o mal em bem” (1977: 20).
A
lógica da força
Referir-se
ao bem e o mal nos leva a um aspecto negligenciado e/ou objeto de
polêmica: a violência na política. Os gregos ensinaram que a política
é a esfera da pólis, o que pressupõe argumentação e
discussão de idéias. Hannah Arendt observou que a política, isto
é, o poder político, se refere ao coletivo, pressupõe
consenso e se legitima no consentimento do povo. “O poder e a violência
se opõem: onde um predomina de forma absoluta, o outro está
ausente”. (ARENDT: 1973: 30)
Porém,
se é verdade que o poder, em sua essência, se distingue da violência
e que não se sustenta única e exclusivamente pelo recurso a esta,
também é fato que o poder não prescinde da violência e recorre
à mesma sempre que necessário. Como escreve Bobbio:
“O
que caracteriza o poder político é a exclusividade do uso da força
em relação à totalidade dos grupos que atuam num determinado
contexto social, exclusividade que é o resultado de um processo que
se desenvolve em toda sociedade organizada, no sentido de monopolização
da posse e uso dos meios com que se pode exercer a coerção física”
(1992: 956).
O
monopólio da coerção física é a condição sine qua non
da soberania do Estado moderno. Essa tese, compartilhada por
marxistas e liberais, concebe a política como uma atividade cujo locus
e referência é o Estado. Foucault expressa a voz dissonante nessa
maneira de ver a política. Para ele o poder está difuso pela
sociedade: “A questão do poder fica empobrecida quando é
colocada unicamente em termos de legislação, de Constituição, ou
somente em termos de Estado ou de aparelho de Estado” (1979: 221).
O poder se manifesta em todos os aspectos da vida humana, em todos
os níveis da sociedade, interligados ou não ao Estado. Na concepção
foucaultiana, o poder impregnou o próprio corpo, encontra-se
exposto neste.
Chega
a ser preocupante como a santa ingenuidade e/ou a ignorância
quanto aos fatos históricos resultam em um moralismo abstrato no
que se refere à presença da violência na política. As boas
consciências ficam estupefatas e até demonstram um certo mal
estar quando se confrontam com esta realidade histórica. “Mas
como pode ter sido assim?”, se perguntam; e terminam por debitar
tais eventos à sanha pelo poder deste ou daquele indivíduo,
desconsiderando-se o processo histórico e, inclusive, a realidade
presente.
A
política, para o bem ou para o mal, não prescinde da violência. A
ascensão política da burguesia exigiu rupturas fundadas no recurso
à guerra e à revolução; do ponto de vista econômico, não foi
diferente: a burguesia precisou expropriar violentamente os
camponeses e transformá-los em mão-de-obra livre, isto é,
prisioneiros do sistema industrial enquanto trabalhadores
assalariados. A revolução industrial consumiu, literalmente,
milhares de corpos, em especial as mulheres e crianças. O progresso
da civilização encontra-se estreitamente vinculado ao sangue de
milhões, vítimas da expansão colonialista e da escravidão. Eis o pecado original
da burguesia ou “o segredo da acumulação primitivo” desvendado
por Marx em O Capital.
Que
seria dos poderosos e suas nações sem o extermínio de populações
inteiras? Por acaso as duas grandes guerras mundiais, o holocausto,
o nazismo e o stalinismo, são obras apenas da irracionalidade
humana desvinculadas dos interesses políticos e econômicos em
permanente disputa? Foi a lógica da força que se impôs.
Eis
a outra face da política: a força materializada na violência em
toda a sua crueldade. Este fator, por mais bárbaro que se
apresente, não é estranho à ação política. Maquiavel,
analisando os exemplos históricos do seu tempo, observou como o uso
da violência aberta resultou em determinados casos em fracasso e
noutros em sucesso. A que se deve esta diferença? Ele responde:
“Creio
seja isto conseqüência de as crueldades serem mal ou bem
praticadas. Bem utilizadas podem ser chamadas aquelas (se bem se
pode dizer do mal) feitas de uma vez só, pela necessidade de prover
sua própria segurança, e depois são relegadas à margem
tornando-se o mais possível em vantangens para os súditos. Mal
utilizadas são as que, se bem sejam a princípio poucas, não se
extinguem mas crescem com o tempo.” (Maquiavel, 1977: 54)
Política
e religião
A
violência está presente em nosso cotidiano – inclusive assumindo
formas dissimuladas. Ela reina na periferia das grandes cidades,
envoltas numa guerra civil diária não assumida pelas autoridades;
ela é prevista e legitimada no poder político, isto é, constitui
uma das funções do Estado, mesmo o democrático. Qual Estado pode
abrir mão do recurso da coerção e de todos os meios necessários
para forçar os cidadãos a obedecer a ordem dominante?
Tudo
isso parece não existir para determinados indivíduos que vivem no
mundo das nuvens e reduzem as contradições sociais à eterna luta
do bem contra o mal. Como que num transe coletivo, mas que
paradoxalmente objetiva a salvação individual, estes guardiões da
moral e dos bons costumes adotam uma postura apolítica e voltam-se
para o intimismo. São profetas bem intencionados que
constroem a cidade de Deus, isto é, cuidam das suas almas.
As questões sociais que assolam este país passam ao largo. Sobram
discursos que garantem audiência e, por trás da histeria coletiva
e individual, cada um busca sua própria salvação, ainda
que afirmem amar ao próximo! Eles se aglomeram e oram, mas se
limitam ao individualismo egoístico espiritualizante.
Ledo
engano! A individualização das soluções para problemas terrenos,
sociais, econômicos e políticos, deslocados para um plano
transcendental e intimista também cumpre um papel político: alivia
a pressão e funciona como uma espécie de anestesia coletiva.
Afinal, este intimismo religioso não questiona a realidade social
desigual e desumana, nem inquire sobre os responsáveis por tal
situação. Induz ao conformismo! Que se entregue à divindade o bônus
e o ônus! Ele assim o quis, assim o será! Que as coisas permanecem
como estão; a nossa recompensa está no além. Essa mensagem de
resignação é mais antiga do que parece.
Ontem como hoje, os poderosos agradecem a tais profetas.
Eis
como a religião no mundo atual adentra na política: afastando-se
desta ou procurando instrumentalizá-la em nome de uma moral
fundamentalista. Esta postura individualista e/ou conservadora é a
resposta aos que vêem na religião uma força que deve se aliar à
política para construir o reino de Deus aqui na terra, mas numa
perspectiva coletivista e que pressupõe uma opção política pelos
pobres e oprimidos.
O
senso comum diz que religião e política não se discutem. Pelo
contrário, precisamos refletir sobre a relação entre violência e
política e, por outro lado, entre estas e a religião. Um simples
olhar sobre a história da humanidade evidenciará a simbiose
existente entre política, religião e violência. Como podemos
esquecer, por exemplo, a barbárie dos ‘santos inquisidores’ de
ontem e de hoje, uns em nome de Deus, outros em nome da razão do
Estado? E o horror da noite de São Bartolomeu? Que seria dos
conquistadores da nossa América se não utilizassem os recursos da
Santa Madre? Seria a violência política suficiente para subjugar
os povos dessas terras? E não foi a religião o cimento ideológico
que justificou barbaridades como a escravidão do negro e a submissão
secular da mulher? O puritanismo protestante foi empecilho para a
dizimação dos povos indígenas na América do Norte? E as risíveis
cenas, se não fossem trágicas, de religiosos, de um e outro lado,
santificando exércitos em guerra?
Gostemos
ou não, política, violência e religião entrelaçam-se em
diversos contextos históricos. Há mesmo determinadas circunstâncias
onde estão de tal forma amalgamados que é difícil distinguí-los.
Assim, a luta entre o Parlamento e a Coroa inglesa no século XVII
parece, ao estudioso desavisado, simples disputa religiosa entre
puritanos, anglicanos e católicos. O mesmo podemos observar quanto
ao conflito histórico entre protestantes e católicos na Irlanda e
entre palestinos e israelenses no oriente médio. Em ambos os casos,
fatores político-sociais secularmente sedimentados e influenciados
pelas mudanças na política internacional produziram realidades
complexas com problemas aparentemente insolúveis fora do recurso à
violência. E mesmo quando busca-se uma solução pacífica,
resultante das pressões políticas internas e externas dentro de
uma nova realidade internacional, a violência não está
descartada. E tudo parece uma disputa religiosa...
Os
exemplos são muitos. Podemos encontrá-los inclusive em nossa história.
Para não nos alongarmos, lembremos apenas que nossa frágil
democracia conheceu poucos períodos onde pôde desenvolver-se
pacificamente. Na República Velha, a oligarquia cafeeira
tratou a questão social como caso de polícia e teve que enfrentar
a revolta armada da classe média da época: o movimento tenentista.
Esse movimento gerou a ‘Revolução de 30’, um ato violento que,
entre outras coisas, fecundou o Estado Novo. Na ditadura
estadonovista de Vargas, cristãos que simpatizavam com os
americanos ou com os nazi-fascistas se uniram contra o inimigo
comum, identificado com o próprio demônio na terra: o comunismo. A
política, de novo, recorreu aos valores morais-religiosos para
justificar o regime de exceção e a repressão.
Na
segunda metade dos anos 40 tivemos a ilusão democrática da
legalidade para os comunistas. Parecia então que o demônio fora
exorcizado. Sabemos o final desta história: nova onda repressiva,
ilegalidade, clandestinidade. A democracia da guerra fria, em nome
da liberdade e dos valores democráticos, inverte a ordem dos
valores: antidemocráticos são os outros, os comunistas.
Dessa vez, porém, não precisou recorrer à religião (pelo menos não
diretamente).
Em
1964 a religião foi novamente utilizada na cruzada contra os
esquerdistas — o que na época significa avanços das lutas dos
trabalhadores. As madames católicas saíram às ruas em marcha
fortalecendo a base social golpista; a cúpula da Igreja silenciou
e/ou apoiou os golpistas. Mas, também é verdade que setores
minoritários dessa mesma Igreja adotaram uma postura corajosa e
favorável aos explorados e oprimidos, contra o golpe militar, pela
democracia e por uma sociedade justa e igualitária. De qualquer
forma, política, violência e religião mesclam-se.
Política
e violência unem-se ainda na resistência ao golpe. De um lado a
repressão militar, as torturas, os desaparecimentos de filhos e
filhas da nossa terra; de outro, a ilusão de que o povo enfrentaria
em armas a ditadura militar impulsionado pelo exemplo da sua
vanguarda. Às mães e pais desses jovens que sucumbiram nas garras
do aparato repressivo estatal e paraestatal restaram a dor e a
triste realidade de quem nem tem o corpo querido sobre o qual
chorar. Para os que professam a fé restava o consolo da religião.
A
democracia que temos foi regada com sangue. Não podemos esquecer o
passado. Temos a obrigação de legar às futuras gerações uma
história que, quando muito, é tratada nos livros e bancos
escolares. Lembremos dos que, com erros e acertos (mas só erra quem
age) dedicaram a vida ao povo, ao sonho de uma vida melhor para os
excluídos da cidadania. Ontem tratados como terroristas, hoje como
subversivos e outros epítetos. Seus nomes são vários. Lembremos
de dois: Carlos Marighella, assassinado pela ditadura em 04 novembro
de 1969; e, Santo Dias, assassinado pela polícia sob o governo
Maluf em 30 de outubro de 1979. Um, guerrilheiro e comunista; outro,
operário metalúrgico, militante da Pastoral Operária. Eis a política,
a violência e a religião em ação...
A
política para além do bem e do mal
O
pensamento de Niccóllo Machiavelle pode ser criticado por
tudo, menos por ser maniqueísta. Isso significa que a política
deve ser pensada em sua realidade concreta – que exige meios nem
sempre abonados pela moral – e não de maneira descritiva. Se é
próprio aos filósofos contemplativos proporem o reino da justiça
e da felicidade humana como uma utopia a ser alcançada, sociedades
existentes apenas em suas cabeças, o homem de ação não pode se
dar ao luxo de pautar-se pela idealização do real. Neste aspecto,
Maquiavel é realista e antiutópico:
“E
muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram
vistos e nunca tidos como verdadeiros. Tanta diferença existe entre
o modo como se vive e como se deveria viver, que aquele que se
preocupar com o que deveria ser feito em vez do que se faz, antes a
prende a própria ruína do que a maneira de se conservar; e um
homem que desejar fazer profissão de bondade, mui natural é que se
arruíne entre tantos que são perversos” (1977: 86-87)
Os
que imaginam a política prisioneira da moral, de noções como o
bem e o mal, ou são ingênuos ou hipócritas.
Os primeiros parecem acreditar que o mundo é habitado por anjos e
demônios e não por seres humanos, com qualidades e defeitos
inerentes à sua humanidade e também com interesses opostos uns aos
outros e propensos à discórdia. Os homens competem, desconfiam uns
dos outros e buscam o poder e a glória. Somos ainda mais ingênuos
e/ou hipócritas quando tentamos isolar a política do cotidiano,
como se no dia-a-dia, independente de participarmos da política, não
competíssemos e não buscássemos segurança e reputação. Usando
um termo que está na moda, esta atitude é uma forma de blindagem:
os maus são os outros, os políticos; a boa consciência do
indivíduo passivo e apolítico expressa a sua pretensão à pureza,
à santidade; precisamos demonizar os políticos para justificar
nossa passividade e descomprometimento diante dos dilemas sociais e
humanos que envolvem o viver em sociedade.
A
política não pode prescindir da moral. Em outras palavras, por
mais laico que seja o Estado, os políticos também serão avaliados
pelos valores fundados em preceitos morais e religiosos. Sua
sabedoria consiste em saber usar isto a seu favor e contra os seus
adversários. Assim, é cada vez mais comum a presença da linguagem
religiosa no discurso político. Mas se temos algo a aprender com a
história é precisamente o fato de que o mundo dividido entre o bem
e o mal é uma ilusão. É certo que esta é uma estratégia
eficiente para o arrebanhamento de prosélitos, mas é ineficiente
para os que almejam compreender a realidade política e social para
além do bem e do mal. Afinal, o mal e o bem é inerente ao humano,
seja ele político ou profeta!
Palavras
quase conclusivas...
A
política não é o império do mal; nem muito menos a religião
expressa o bem absoluto. Se a primeira instrumentaliza o mal e o bem
e, neste sentido, sacraliza-se; a segunda, na medida em que não
pode se ausentar completamente do mundo real, institucionaliza-se e
têm interesses materiais a defender, politiza-se. Nisso, ambas
utilizam o discurso do bem e do mal. Política e religião são
manifestações sociais legítimas; podem referenciar ações
humanas que mantém ou transformam a sociedade – e uma se apóia
na outra em seus objetivos. Porém, quando prisioneiras de raciocínios
maniqueístas, tendem a gerar fanatismo e intolerância. Nestes
casos, à ingenuidade e ignorância soma-se a cegueira. Também
aqui, temos muito a aprender com a história; uma história que não
se resume à identificação de mocinhos e bandidos, do bem e do
mal...
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