Por ANTONIO PISO 

Antonio Piso (RJ, 9 dezembro 1962), formado pela Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ (especialização em análise quantitativa), gerente de comércio exterior na empresa ComexTrading Ltda., de Niterói, foi professor de Economia no MBA da Universidade Castelo Branco, RJ.

 

Goodbye PT

 

Os nostálgicos do “das real existierenden Sozializmus” – isto é, o socialismo realmente existente nos antigos países do extinto campo soviético – não devem ter gostado nada do filme de Wolfgang Becker, “Adeus Lênin”. Na história tragicômica sobre o mundo perdido da ex-DDR, o herói principal, o jovem Alexander Kerner, tenta recriar o universo da recém finada Alemanha Oriental para não afetar sua mãe de forma irremediável, já que ela tinha entrado em coma quando ainda existia aquele belo exemplo de comunismo stalinista.

Pois bem: a julgar pelas atitudes e tomadas de posição de certos dirigentes de um certo partido bolchevique brasileiro, depois do verdadeiro tsunami de revelações absolutamente escandalosas sobre práticas heterodoxas na área financeira, tudo leva a crer que esses dirigentes estão tentando preservar o seu próprio “muro de Berlim mental”, evitando confrontar-se à dolorosa realidade: o PT, tal como conhecido historicamente, acabou. Finito, kaput, completely dead, R.I.P., vamos partir para outro.

O PT, como nós o conhecemos nos últimos 25 anos – ou que pensávamos conhecer –, esse PT já era, e se sobrar alguma coisa do verdadeiro massacre na motosserra a que assistimos cotidianamente na TV, será uma sombra do passado, um zumbi a pairar em algum canto da estratosfera, tentando encontrar um destino para o que lhe restar de vida útil ou, então, um desenlace para seu destino final rumo à irrelevância política.

Estarei sendo muito cruel com o PT? Esperemos vê-lo perder as eleições de 2006. Ou melhor: o PT não vai, simplesmente, “perder” as eleições em 2006. Ao contrário: ele será fragorosamente derrotado, o que é uma grande diferença. Pretendo, neste artigo de caráter passavelmente premonitório e algo derrotista, oferecer algumas das razões para essa derrota anunciada.

Contento-me, no momento, com apenas três razões, mas elas poderiam ser em maior número. O PT vai ser derrotado por uma combinação desses três fatores, pelos quais o partido – junto com seu líder máximo – é o único e exclusivo responsável:

1) Total e irremediável falência moral;

2) Absoluta incompetência gerencial;

3) Ausência completa de projeto nacional.

Valem escusas pelas rimas involuntárias, mas não pretendo fazer poesia com essa inacreditável degringolada para o abismo do que era, até aqui, o maior partido brasileiro – quiçá do Ocidente –, com sua incrível máquina de fabricar sonhos (e que terminou “fabricando dinheiro”). Tentarei ser objetivo e cauteloso, mas algumas hipérboles são inevitáveis, uma vez que o próprio partido e seus líderes prometiam, ainda recentemente, transformar o Brasil como nunca tinha sido feito em 500 anos de história (por falta de vontade política, por covardia das elites, por comprometimento com os banqueiros e os interesses estrangeiros e outros pecados mais).

Eles também tinham prometido a resolução da questão social, ou pelo menos avanços decisivos no sentido da criação de empregos, redistribuição da renda, criação de um vibrante mercado interno de massas e outros elementos de um formidável pacto nacional que redimiria o Brasil de suas enormes mazelas sociais. No plano externo, além da defesa intransigente da soberania nacional (vendida em tenebrosas transações com interesses externos, como os acordos com o FMI, a aceitação das regras do consenso de Washington, a posição passiva em face da Alca anexacionista e outros crimes internacionais), a intenção era nada mais nada menos do que juntar os pobres e oprimidos deste mundo, a começar pelos da América do Sul, para mudar o “eixo do poder mundial” e “transformar a geografia comercial internacional”.

Programas, como se vê, para ninguém botar defeito; ao contrário, para se ficar boquiaberto de tanto ativismo e denodo na agenda transformadora. Quase dois anos e meio depois, o que aconteceu, de verdade? Como é que essa formidável máquina do progresso e da mudança passou a bater pino, rateou várias vezes, começou a soltar fumaça e, de repente, fez “tilt” e parece ter engasgado de vez?

Onde está o iceberg, na vastidão do oceano político nacional, que desviou a rota do mais imponente “transatlântico social” que o Brasil conheceu desde o descobrimento? Qual é a pedra no meio do caminho que foi capaz de provocar tão desajeitado tropeço no único partido que prometia construir um “outro Brasil possível”? O que é que pode ter obstaculizado a marcha do progresso, da democracia, da participação ampliada e da justiça social?  

Ao contrário da teoria do “complô das elites”, que o PT quer fazer acreditar que está na raiz dos atuais percalços governativos, acredito que as razões dessa fabulosa “reversão de expectativas” – o finado economista Roberto Campos, mais conhecido nas hostes petistas como “Bob Fields”, adorava essa expressão – são totalmente explicadas e estão todas compreendidas na ação do próprio PT, como aliás meus três fatores causais deixam entender.

1. A falência moral do partido da ética

A política brasileira, como se sabe, não é nenhum convento de noviças, muito pelo contrário, se parece bem mais com aquele conceito que os espanhóis chamam de “conventillo”, ou seja algo mais próximo do pecaminoso do que do virtuoso. Ainda assim, se esperava que o partido que havia lutado durante tanto tempo por uma outra forma de fazer política saberia, uma vez conquistado o poder, manter sua postura anterior de “ética na política”. Afinal de contas, ele foi eleito para isso, por isso e com esse tipo de mensagem.

O que se viu, na verdade, desde 2002, foi um deplorável espetáculo de sombrias transações com os mais fisiológicos personagens da política brasileira, aqueles mesmos que eram mostrados em opróbrio como exemplos de corrupção dos costumes quando o PT lutava na oposição contra a “política burguesa”. O que pode ter motivado um partido que tinha a defesa da ética na política como um de seus principais ativos em termos de imagem pública mudar tanto assim em poucos meses de assunção ao poder? O que pode ter induzido dirigentes e outros responsáveis partidários a tramar negociatas com gente do submundo da política, de fato, comprar parlamentares como se se tratasse de um supermercado de políticos à venda (talvez fosse, diga-se de passagem).

Na verdade, a mudança já estava implícita no comportamento do PT desde que ele elegeu representantes parlamentares nos anos 1980, ganhou algumas prefeituras nos anos 90 e conseguiu “emplacar” seus poucos governadores nas eleições seguintes. A mudança já estava implícita no comportamento de seu líder máximo, quando ele decidiu profissionalizar-se como dirigente sindical, abandonar de vez o trabalho manual e converter-se, a partir do trampolim sindical, em líder político. Ela figurava como elemento subjacente ao estilo petista de fazer política, um aglomerado de tendências as mais diversas, no plano das idéias econômicas e políticas, mas que conservam alguns traços comuns aos diversos grupos que constituem esse formidável “saco de gatos” que é o PT: um dos principais traços da maneira petista de ser é o estilo leninista de se organizar e de se comportar.

Como se sabe, Lênin foi o principal impulsionador de uma nova concepção partidária no movimento operário e social-democrático na história das lutas políticas a partir da última década do século XIX: ele considerava a maior parte das lideranças socialistas de seu tempo um exército de amadores e o que ele queria, mesmo, era fazer uma organização de tipo profissional, de características quase militares. Para Lênin, o revolucionário, para ser eficiente, deveria se profissionalizar como revolucionário, só pensar na revolução e viver para e pela revolução. Todo o resto era secundário, e os fins deveriam justificar os meios.

Daí para a constituição de grupos de “profissionais da revolução” foi um passo, franqueado logo em seguida. Os revolucionários não deveriam – de fato não podiam – hesitar diante de nada, quando se tratasse de preparar a revolução, mesmo se para isso tivessem de entrar em acordos com a tão odiada burguesia. Como Lênin dizia: a burguesia, em seu desejo de lucro e acumulação, seria capaz de vender a própria corda que um dia iria enforcá-la. Stalin, como se sabe, começou sua vida de revolucionário profissional assaltando bancos e veículos pagadores, uma forma, como outra de “expropriar a burguesia”, subtrair dinheiro do tão odiado Estado autocrático e colocá-lo ao serviço da revolução. Para tanto, todos os golpes e tramóias são permitidos.

Essa atitude, na verdade, revela o vezo profundamente autoritário de um partido centralizado e centralizador que coloca a obediência estrita ao comando político acima de qualquer outra consideração de cunho moral ou mesmo de ordem prática. Entre o respeito a normas de caráter ético e a adesão ao “centralismo democrático”, o partido fica com esta última atitude. Trata-se de uma filosofia que muitos reputam como amoral, que não deve ser confundida com a imoralidade, pois que para seus partidários, os fins justificam que se busque mobilizar os meios considerados mais eficientes e mais adequados para alcançar a suposta moralidade do objetivo revolucionário. Em nome da amoralidade do jogo político, parece fácil, no entanto, descambar rapidamente para a imoralidade.

Com base num exame puramente jornalístico da atualidade política, desde antes das eleições presidenciais de 2002, pode-se argumentar que o PT assumiu essa nova postura de realpolitik em matéria de alianças políticas que o fizeram ultrapassar perigosamente a linha do pragmatismo em benefício de posturas absolutamente vexatórias do ponto de vista da chamada “ética na política”. Tendo em vista os conluios e compromissos já efetuados em nome de uma ilusória “governabilidade”, pode-se dizer que não se antevê, no caso do governo brasileiro, nenhuma possibilidade de volta atrás, no sentido de se pensar naquilo que alguns intelectuais italianos – chocados, anos atrás, pela extensão da “lotizzazione”, a rede de corrupção revelada nas operações “mãos limpas”, que comprometeram profundamente a classe política – chamaram de “rientro morale”, ou seja, uma retomada da ética na política. Diga-se de passagem que, com “mane pulitti” e tudo, tampouco na Itália foi efetuada a regeneração moral, dada a natureza já essencialmente deformada do sistema político nacional. O mesmo se aplica, mutatis mutandis, ao caso brasileiro, com a agravante de que nenhuma operação de limpeza no sistema político foi sequer tentada em qualquer época, em condições democráticas normais.

Em resumo, com base naquilo que já se assistiu e o que se sabe da vida política do Brasil e da própria trajetória do PT, pode-se dizer que não existe nenhum risco de que a situação venha a melhorar, com a possibilidade muito provável, ao contrário, de que ela venha a piorar sensivelmente ao aproximar-se o período eleitoral de 2006. Isto significaria que o PT e o seu governo não vão operar nenhuma “regeneração moral” do partido e do governo, mas continuarão a se pautar pelas velhas normas do autoritarismo centralizador e pela disciplina cega ao comando político. Ou seja, eles não apenas confirmarão seus piores defeitos enquanto “partido bolchevique”, como agravarão, num outro plano, os mais abjetos defeitos do sistema político brasileiro. Em outros termos, a falência moral será não apenas confirmada como ampliada no que resta deste governo.

Se ouso expressar um desses desejos que se formulam ao “gênio da garrafa”, seria o de que o PT pudesse tomar consciência do imenso mal que ele produz para si mesmo, e para o sistema político brasileiro, ao solapar as próprias bases do contrato moral que ele tinha tacitamente contraído com a sociedade brasileira. Espero sinceramente que ele consiga, no que resta deste governo, voltar aos velhos princípios – ainda que aparentemente “falsos”, numa análise objetiva – que o fizeram ser aceito por parte significativa da classe média brasileira, que aspirava por um outro tipo de política e que acreditava, quase no limite da esperança, que o PT, finalmente, iria trazer ao Brasil aquele programa de reversão das desigualdades sociais que ainda marcam de maneira terrível nossa iníqua estrutura de classes.

2) Uma incompetência gerencial a toda prova

O PT, reconheça-se desde logo, parafraseando o conhecido aforismo de Lincoln, conseguiu enganar muita gente durante muito tempo, com o que chegou ao poder com ares de prima donna, eivado de preocupações sociais e humanitárias e o mais alto sentido do interesse nacional, tudo aparentemente sustentado na mais pura “expertise” acadêmica. Por trás de todas as suas receitas de “desenvolvimento com justiça social” e de “afirmação internacional com defesa da soberania nacional” havia pouco mais do que zero competência, tudo disfarçado de dedicação sincera e total aos grandes problemas nacionais, com base nas mais modernas conquistas das ciências sociais brasileiras.

O partido, fato único na história da política brasileira, conseguiu mobilizar o ativismo sindical de fundo classista, a “fé que move montanhas” dos movimentos eclesiais de base, o militantismo da velha esquerda armada reciclada no socialismo democrático (nem sempre sincero), tudo combinado e apresentado num discurso de novo tipo que era sistematizado e enriquecido conceitualmente pela elite universitária de gauche. Num país que emergiu das lutas contra a ditadura militar sem uma ideologia unificadora de alcance nacional, as “certezas” do PT passavam pela mais alta ciência social e a mais feliz combinação de vontade política com conteúdo social. O PT era o partido que “tinha” – ou pelo menos aparentava ter – um projeto nacional, que passava antes de mais nada pela justiça social via crescimento econômico com redistribuição de renda e pela “redenção do país” em face da “exploração estrangeira”.

Era a receita exata para o crescimento contínuo no plano da política nacional e a ampliação incontida do seu alcance social. De vitória eleitoral em vitória eleitoral, em pouco mais de vinte anos, o partido deixou de ser um agrupamento heteróclito do tipo “anti-sistema fora do sistema”, para converter-se num movimento altamente organizado, que se definia contra o sistema, mas que já agia dentro do sistema. Mesmo quando derrotado nas disputas presidenciais, o PT crescia politicamente nos mais diversos setores da sociedade brasileira, diminuindo resistências ao seu confuso ideário, tanto à direita (ou melhor, ao centro), quanto à esquerda do espectro político.

Quando o partido finalmente aceitou as regras do jogo democrático – o que não foi tarefa fácil, porque vários de seus componentes achavam que o socialismo primava sobre a democracia –, quando ele conseguiu forjar um discurso tranqüilizador dirigido à classe média e prometeu, finalmente, não chutar o pau da barraca do grande capital monopolista internacional – o que foi feito na Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002 –, as portas já lhe estavam abertas para a vitória eleitoral. As razões desse sucesso avant la lettre, ou seja, antes do tempo próprio das eleições, se devem a uma singular combinação de circunstâncias históricas e de motivos mais ou menos fortuitos que não cabe aqui elucidar, por falta de tempo e de espaço. Digamos apenas que a conquista do poder supremo foi o resultado de vários fatores conjugados: a pregação militante, o cansaço da classe média com a violência urbana – e sua crença, absolutamente errada, de que o PT era o único partido capaz de “resolver a questão social” – e doses maciças de marketing político, ao melhor estilo americano de fazer política; foram todos esses elementos que deram do partido uma imagem de “salvador da pátria”, algo que ele acreditava ser (acho em que seus dirigentes ainda acreditam, mas nunca se pode saber se é por cinismo e desfaçatez ou por suprema ingenuidade).

A embromação em torno da capacidade do PT em resolver os principais (e também os secundários, os grandes e os menores) problemas brasileiros foi mantida ainda durante o período de transição, os dois meses entre a eleição e a posse, quando um cenário “tecnocrático” – no Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília – foi montado para “provar” ao país que dezenas de especialistas acadêmicos, reunidos às pressas, estavam de fato montando os detalhes técnicos e as metas quantificáveis que permitiriam ao PT oferecer ao país, a partir de 1º de janeiro de 2003, o melhor programa possível e a melhor administração imaginável para, finalmente, construir o “outro Brasil possível” tão apregoado durante anos e anos de propaganda ilusória.

Observe-se que a “coisa” começou a degringolar ainda antes da posse, quando em lugar de fazer um governo enxuto e competente, as lideranças do PT deram início a dois movimentos paralelos: por um lado, começaram a “cooptar” – talvez já se estivesse comprando – políticos para a composição da base de apoio parlamentar; por outro, começaram o recrutamento maciço de quadros intermediários do partido para ocupar todos os postos disponíveis em todos os escalões republicanos, abertos ao apetite petista por cargos. O dilúvio de incompetência começou por aí mesmo.

O primeiro movimento tinha como único critério a ampliação do espaço de manobra para o PT no Congresso, o novo partido majoritário na Câmara, mas que ainda assim estava longe de possuir maioria para sequer conduzir votações a maioria simples. Algumas dezenas, senão centenas, de cargos passaram a servir como uma espécie de “bomba de sucção” para transferir parlamentares “comprados” da antiga situação, convertida em oposição, para os partidos da base aliada, com destaque para o PTB, o PP e o PL. No cômputo global, porém, as lideranças do PT deram um ou outro ministério a partidos da base aliada e alguns cargos de direção em autarquias e agências públicas, reservando, porém, o “filé mignon” dos cargos disponíveis para sua própria nomenklatura e para os militantes do baixo clero.

O segundo movimento destinava-se, simplesmente, a lotear e a aparelhar toda a máquina do Estado, em todos os níveis possíveis, do ministro ao contínuo, com os “servos de gleba” do PT, militantes dedicados à causa desde muitos anos e, portanto, confiáveis do ponto de vista do sistema de arrecadação compulsória que estava sendo montado. Todas as designações de cargos de direção e assessoramento superior – os famosos DAS – foram centralizados, sorvidos e administrados pela Casa Civil do todo-poderoso grão-mestre José Dirceu, que estabeleceu que todos os ministérios “cedessem” (o comando deve ter sido bem mais forte) uma determinada cota de seus tradicionais cargos DAS para uso próprio da Casa Civil (decisão apresentada como sendo uma “ordem da presidência”).

O que se assistiu, nas semanas e meses seguintes, foi a montagem da maior e mais formidável máquina de nomeações já conhecida na história da administração pública no Brasil, desde os tempos das capitanias hereditárias. Como diria o próprio presidente, em sua linguagem que reinventa a roda a cada vez, há 500 anos não se via um fenômeno de tais proporções: nunca, tão poucos nomearam e empossaram tantos em tão pouco tempo. A Casa Civil praticamente dobrou em funcionários, e com eles os gastos “administrativos”, cujos gastos extras, efetuados mediante cartão de crédito especial, foram ciosamente mantidos obscuros por razões de “segurança”.

Sem falar dos candidatos do PT, derrotados na eleições de outubro de 2002 – mas que foram, ainda assim, premiados com ministérios e outras agências públicas –, centenas e centenas de quadros petistas passaram a ganhar passagem e verba de instalação em Brasília para “tomar posse” – nunca uma expressão foi tão apropriada – dos cargos centralizados e preenchidos pela Casa Civil. Esta, para ficar num exemplo singelo, duplicou de tamanho, a ponto de pessoas não terem aonde sentar-se para trabalhar, mas todas as outras agências e áreas da administração pública também receberam sua cota de “sangue novo”, por vezes em excesso visível e risível.

A “lógica” do processo era muito simples: nada mais, nada menos do que o estabelecimento de uma gigantesca “vaca”, pronta para ser ordenhada em favor do PT, em razão dos conhecidos “dízimos” e “vigésimos” que os militantes assim aquartelados no Estado passaram a pagar sobre a folha de vencimentos diretamente aos cofres do partido. Nunca se assistiu a tal operação predatória organizada na história administrativa do Brasil, típica daqueles comportamentos que os economistas chamam de “rent seeking”, ou seja, uma sinecura com dinheiro público montada para carrear recursos de maneira contínua para os detentores desse novo tipo de monopólio privado sobre um bem público.

Não é surpreendente constatar, assim, que todo esse pessoal mobilizado tenha sido selecionado mais em função de sua disponibilidade em ser ordenhado pelas “mãos de tesoura” do partido do que de sua capacidade para um desempenho qualquer no seio do Estado brasileiro. Capacidade gerencial ou simples adequação administrativa eram, obviamente, critérios secundários nessa gigantesca operação de engorda funcional. De resto, capacidade de gestão parece ser uma coisa totalmente estranha à nomenklatura do PT, inclusive e principalmente nas mais altas esferas, começando pelo próprio primeiro mandatário (o título encerra e acaba todo o sentido da função).

“Valores republicanos”, como apregoado de maneira patética pelos “cristãos novos” no poder, foram esgrimidos da boca para fora numa tentativa canhestra de demonstrar comprometimento com a coisa pública, quando os únicos valores de fato defendidos foram os do próprio partido, inclusive e principalmente em negócios escusos e despesas de escassa transparência “republicana”. Assim, uma tentativa de se lograr um detalhamento dos gastos da Presidência da República feitos através de cartões de crédito utilizados por funcionários designados foi barrada de forma ilegal, sob escusa de riscos à “segurança do presidente”, o que soa como um escárnio aos olhos do público.

Quanto à incompetência gerencial do governo, não é preciso muita elaboração para evidenciar os casos mais patéticos, geralmente refletidos no atendimento hospitalar calamitoso e no estado propriamente criminoso das estradas federais, em ambos casos apresentando riscos diretos à vida e à segurança de seus usuários obrigados. O patético da história é que, nessas duas instâncias, mecanismos de captação compulsória – CPMF num caso, CIDE no outro – e de aplicação dirigida desses recursos existem e poderiam servir para uma prestação decente desses dois serviços públicos. Se isso não ocorre, a culpa recai inteiramente na incompetência gerencial e administrativa do governo do PT.

A incompetência começa nas mais altas esferas e vai sendo estendida a todos os poros da máquina pública que foram aparelhados e entupidos pelos novos gafanhotos do PT, seres vorazes ao extremo, capazes de consumir a maior parte da verba da atividade-fim com o funcionamento da própria máquina do Estado, aqui confundida quase que despudoradamente com a máquina esquizofrênica do partido. Se alguém considerar que esta descrição é exagerada ou mesmo injusta, pode-se propor dois testes: submeter os “sem concurso” do PT a uma aferição comum de aptidão – prova de títulos ou exame de ingresso, de livre escolha – e submeter a própria máquina pública a um “controle de qualidade” de uma auditoria independente e imparcial, dessas especializadas em gestão e métodos.

3) Alguém viu o tal de “projeto nacional”?

Em matéria de “projetos”, o PT sempre foi pródigo em acusações externas e em elogios internos. Todos os problemas do país, desde o descobrimento até o annus mirabilis de 2002 decorreriam da falta de um “projeto nacional” (geralmente escrito com iniciais maiúsculas) e da incapacidade das elites em formulá-lo e implementá-lo, ainda que não se soubesse bem de que tipo de “projeto” se estava falando. As digressões nesse âmbito eram sempre muito vagas ou então inconclusivas.

O mais próximo de um projeto nacional que o PT chegou – descontando-se os programas de governo por ocasião das campanhas presidenciais, extremamente vagos para merecer esse tipo de classificação – foi afirmar que durante o regime autoritário “os militares tinham um projeto nacional”. Os líderes petistas chegavam até a ressalvar que na ditadura esse projeto era socialmente excludente, mas era ainda assim um projeto de nação, com começo, meio e fim. Isso de fato combina com a visão de crescimento econômico que o PT parece entreter para o país, baseado na indústria de base, com muita intervenção estatal, autarquia econômica, fechamento externo, seleção dos setores ditos “estratégicos” e muito dirigismo político. Ou seja, algo próximo do que conseguiram fazer, em suas épocas e países respectivos, dirigentes como Stalin, Hitler e Mao Tsé-tung, ainda que eles não fossem mencionados nos documentos do PT.

Quando, no primeiro trimestre de 2002, os dirigentes do PT operaram sua conversão neoliberal – embora disfarçada –, para fins de campanha presidencial, eles se esqueceram de avisar o resto do partido, daí a imensa cacofonia e a babel de opiniões econômicas que passaram a freqüentar as reuniões partidárias desde então, a ponto de o PT ser o principal opositor das políticas econômicas do próprio governo do PT. A “Carta ao Povo Brasileiro”, de junho de 2002, por certo não é, nem nunca foi apresentada como um “projeto nacional”, mas foi ela que serviu de base para toda a propaganda eleitoral e para a vitória no mês de outubro daquele ano. Os verdadeiros componentes de um “projeto nacional”, ou de um novo “modelo de desenvolvimento”, como gostam de enfatizar os seus quadros, tinham ficando guardados em alguma gaveta esquecida: se tratava das resoluções do último encontro nacional, feito pelo PT em Olinda, no mês de dezembro de 2001: elas representam as últimas (ou as mais recentes) decisões plenárias, que poderiam passar por “vontade majoritária” dessa agremiação que delibera e vota “coisas” e depois esquece.

Os dirigentes de chamado “núcleo duro” preferiram esquecer ou deixar convenientemente de lado essas teses de Olinda. Mas muitos militantes do partido, assim como aliados de ocasião, como a esquerda universitária, não esqueceram dessas teses e antíteses, daí a profusão ulterior de manifestos acadêmicos e de cartas de reuniões de auto-proclamados intelectuais, que tentam fazer o partido retornar à “via justa” do antigo projeto nacional. Acontece que este nada mais era do que uma coleção de slogans vazios, do tipo “ruptura econômica”, “desenvolvimento de um amplo mercado interno de massas”, “políticas setoriais estruturantes”, “inserção internacional com defesa da soberania nacional” e outras banalidades do gênero. As resoluções desses encontros do PT não constituem exatamente um conjunto coerente de idéias e princípios, mas uma “assemblagem” heteróclita de idéias malucas, que são toleradas para justamente abrigar a indigesta conjunção de “gregos e goianos” nesse imenso saco de gatos ideológicos em que parece ter se convertido o PT.

Quanto o partido tentou dar um pouco mais de conteúdo a essas propostas de governo – a exemplo da matemática surrealista em torno da criação de “dez milhões de empregos”, ou da “política nacional de segurança”, que não resistiu a três meses de governo –, os resultados foram patéticos, para não dizer melancólicos. Uma vez no governo, não se pode tampouco dizer que as reformas iniciadas – e até aqui não concluídas – nos campos da previdência e do sistema tributário, entre outras, tenham a cara e o espírito do velho programa petista de ruptura com as “políticas econômicas excludentes”, que o PT sempre condenou quando na oposição. Tentativas canhestras foram feitas para “enquadrar” os meios de comunicação, em primeiro lugar a imprensa escrita – num projeto stalinista do Conselho Nacional de Jornalismo –, para “orientar” o setor audiovisual – numa agência que seria ampliada ao gosto do poder – e também para coibir a “mercantilização” do ensino superior – por meio de um projeto de reforma universitária que colocaria o MST em “conselhos consultivos” de todas as entidades de terceiro ciclo. A sociedade tem resistido, e com razão, a essas investidas dos “novos bárbaros” em direção dos “aparelhos ideológicos do Estado”, como diriam os velhos althusserianos.

A única coisa que tem até agora funcionado no governo do PT, aliás à revelia do próprio PT, é a política econômica, aliás de inspiração “neoliberal”. Foi ela que impediu os piores prognósticos que tinham sido refletidos nos indicadores catastróficos acumulados ao longo da campanha presidencial de 2002 – dólar nas alturas, títulos da dívida externa despencando no abismo, ameaça de descontrole inflacionário e de fuga de capitais etc. – e é ela que tem viabilizado as únicas boas notícias que o governo tem para apresentar à opinião pública, em qualquer direção para onde se olhe. Se alguém disser que essa política “neoliberal” tem a cara do PT merece ser internado na ala dos irrecuperáveis do asilo de alienados mentais.

De resto, o que sobrou, exatamente, do “projeto nacional” do PT? O programa “Fome Zero”, do qual nunca se apresentou um balanço honesto, que deveria ser feito por uma auditoria independente? O “Primeiro Emprego”, que parece ter produzido a fabulosa cifra de meio milhar de jovens subsidiados, que substituíram velhos trabalhadores em empresas espertas o suficiente para ficar com o dinheiro do Estado? A “reforma universitária”, que retira o mérito e coloca em seu lugar um obscuro “critério social”? A “reforma agrária” e a “agricultura camponesa”, que servem apenas como centros de cadastro, de subsídio in natura e de recrutamento de futuros assistidos permanentes? A “diplomacia ativa e altiva”, que pretende juntar “oprimidos do Terceiro Mundo” para lutar contra o novo império? Se alguém conseguir apontar, com números e metas quantificadas em apoio dos argumentos, os resultados efetivos de todos esses vistosos “programas” e deles traçar um quadro minimamente positivo, ganha o direito de concorrer a uma bolsa de turismo em Cuba, com participação garantida na próxima safra de cana-de-açúcar (a ser feita no braço, com machetes estatais).

O PT deveria ter um encontro marcado com o seu próximo “projeto nacional”, previsto para ser elaborado por ocasião do encontro nacional fixado originalmente para setembro de 2005, quando diversas alas do partido se encontrariam para se acusar umas às outras e tentar definir um simulacro de “documento programático”. Este, na ausência do naufrágio do Titanic do campo majoritário a que assistimos nas últimas semanas, seria, presumivelmente, o texto desse mesmo grupo majoritário – “Construindo o Novo Brasil” – que deixaria de lado as menções antes explícitas ao socialismo para conciliar, de um lado, orientações de mercado e, de outro, o vezo estatizante, de conformidade com o perfil de Dr. Jeckil e Mr. Hide que o PT sempre ostentou para consumo público (e desconforto interno). Agora, depois do tsunami provocado pelas revelações sobre a “máquina de fazer dinheiro” do PT, corre-se o risco do vazio completo, organizacional e sobretudo mental. Os dirigentes se esmeram em afastar cada vez mais o partido de seus militantes sinceros, alienando ao mesmo tempo aqueles eleitores esperançosos de um pouco mais de justiça social no Brasil e, sobretudo, de uma “outra forma de fazer política”.

Para sermos francos, o partido parece sofrer de duplicação de personalidade, algo muito parecido com a atual esquizofrenia das lideranças chinesas – que os petistas admiram –, empenhadas em construir aquilo que chamam de “socialismo de mercado”. Dito de outro modo, se parte de uma verdadeira contradição nos termos para se chegar, de fato, à quadratura do círculo, ou seja, a aplicação de um programa econômico neoliberal por um agrupamento que ainda se define como um partido “democrático, de esquerda e socialista”.

O surpreendente disso tudo é que exista gente, dentro e fora do partido, que ainda imagina descobrir, nos ditos e práticas do PT as bases de um grande programa de mudança do Brasil, que iria do Oiapoque ao Chuí, ou melhor, da Terra do Fogo às muralhas da China, e talvez até deste outro mundo possível até a próxima galáxia. Na verdade, o partido “que não roubava e não deixava roubar” tropeçou no primeiro traficante de apoio parlamentar que se apresentou como aliado de ocasião.

Com tantas e tão explícitas demonstrações de pragmatismo político, fica difícil descobrir quais seriam os fundamentos do próximo programa político e econômico do PT. Na ausência de um projeto nacional explícito e claro – quem souber de algum, porventura existente nos arquivos ou gavetas do PT, pode remeter para minha caixa eletrônica –, torna-se virtualmente impossível discutir seus principais elementos, suas bases filosóficas e os componentes mais importantes da grande agenda de transformação do Brasil prometida antes, durante e depois das eleições de 2002.

Com isso, damos por encerrada esta pequena análise das razões da derrota do PT nas próximas eleições.

Minhas razões de por que e porque o PT vai perder as próximas eleições foram expostas nos parágrafos acima, com algumas pitadas de impressionismo e muitas doses de realismo. Para que meus argumentos não se percam pelo tipo de discurso puramente conceitual, como o que perpassa destas linhas, pretendo, num próximo escrito, trazer números e dados para efetuar uma espécie de balanço quantitativo do governo do PT, comparando dados relativos e contextuais dos dois anos últimos anos do antigo regime “tucanês” e dos três primeiros anos de administração petista.

A operação deveria ser de fato realizada com os dados completos do governo, o que teria de aguardar o primeiro trimestre de 2007, inviabilizando assim minha contribuição ao debate eleitoral de 2006. Uma solução de compromisso pode ser apresentar resultados provisórios em meados de 2006, ou então comparar o governo do PT com o próprio PT, isto é, comparar as promessas e compromissos assumidos durante a campanha eleitoral e que deveriam sustentar sua ação administrativa e os resultados efetivos alcançados até aquela data. Outra via possível de análise seria recuperar o relatório ou documento resultante da equipe de transição (de dezembro de 2002, se é verdade que esse esforço teve registro oficial e se encontra disponível para análise pelo distinto público externo) e, a partir daí, efetuar uma exegese simplificada da virtuosidade em matéria de promessas não cumpridas.

Em todo caso, para consolo dos militantes e de todos aqueles que acreditaram, um dia, que um “outro Brasil (era) possível”, uma coisa pode ser dita em matéria de avaliação (e de recuperação) do governo do PT: companheiros, a luta continua...  

 
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