Goodbye
PT
Os
nostálgicos do “das real existierenden Sozializmus” – isto
é, o socialismo realmente existente nos antigos países do
extinto campo soviético – não devem ter gostado nada do filme
de Wolfgang Becker, “Adeus Lênin”. Na história tragicômica
sobre o mundo perdido da ex-DDR, o herói principal, o jovem
Alexander Kerner, tenta recriar o universo da recém finada
Alemanha Oriental para não afetar sua mãe de forma irremediável,
já que ela tinha entrado em coma quando ainda existia aquele belo
exemplo de comunismo stalinista.
Pois
bem: a julgar pelas atitudes e tomadas de posição de certos
dirigentes de um certo partido bolchevique brasileiro, depois do
verdadeiro tsunami de revelações absolutamente escandalosas
sobre práticas heterodoxas na área financeira, tudo leva a crer
que esses dirigentes estão tentando preservar o seu próprio
“muro de Berlim mental”, evitando confrontar-se à dolorosa
realidade: o PT, tal como conhecido historicamente, acabou.
Finito, kaput, completely dead, R.I.P., vamos partir para outro.
O
PT, como nós o conhecemos nos últimos 25 anos – ou que pensávamos
conhecer –, esse PT já era, e se sobrar alguma coisa do
verdadeiro massacre na motosserra a que assistimos cotidianamente
na TV, será uma sombra do passado, um zumbi a pairar em algum
canto da estratosfera, tentando encontrar um destino para o que
lhe restar de vida útil ou, então, um desenlace para seu destino
final rumo à irrelevância política.
Estarei
sendo muito cruel com o PT? Esperemos vê-lo perder as eleições
de 2006. Ou melhor: o PT não vai, simplesmente, “perder” as
eleições em 2006. Ao contrário: ele será fragorosamente
derrotado, o que é uma grande diferença. Pretendo, neste artigo
de caráter passavelmente premonitório e algo derrotista,
oferecer algumas das razões para essa derrota anunciada.
Contento-me,
no momento, com apenas três razões, mas elas poderiam ser em
maior número. O PT vai ser derrotado por uma combinação desses
três fatores, pelos quais o partido – junto com seu líder máximo
– é o único e exclusivo responsável:
1)
Total e irremediável falência moral;
2)
Absoluta incompetência gerencial;
3)
Ausência completa de projeto nacional.
Valem
escusas pelas rimas involuntárias, mas não pretendo fazer poesia
com essa inacreditável degringolada para o abismo do que era, até
aqui, o maior partido brasileiro – quiçá do Ocidente –, com
sua incrível máquina de fabricar sonhos (e que terminou
“fabricando dinheiro”). Tentarei ser objetivo e cauteloso, mas
algumas hipérboles são inevitáveis, uma vez que o próprio
partido e seus líderes prometiam, ainda recentemente, transformar
o Brasil como nunca tinha sido feito em 500 anos de história (por
falta de vontade política, por covardia das elites, por
comprometimento com os banqueiros e os interesses estrangeiros e
outros pecados mais).
Eles
também tinham prometido a resolução da questão social, ou pelo
menos avanços decisivos no sentido da criação de empregos,
redistribuição da renda, criação de um vibrante mercado
interno de massas e outros elementos de um formidável pacto
nacional que redimiria o Brasil de suas enormes mazelas sociais.
No plano externo, além da defesa intransigente da soberania
nacional (vendida em tenebrosas transações com interesses
externos, como os acordos com o FMI, a aceitação das regras do
consenso de Washington, a posição passiva em face da Alca
anexacionista e outros crimes internacionais), a intenção era
nada mais nada menos do que juntar os pobres e oprimidos deste
mundo, a começar pelos da América do Sul, para mudar o “eixo
do poder mundial” e “transformar a geografia comercial
internacional”.
Programas,
como se vê, para ninguém botar defeito; ao contrário, para se
ficar boquiaberto de tanto ativismo e denodo na agenda
transformadora. Quase dois anos e meio depois, o que aconteceu, de
verdade? Como é que essa formidável máquina do progresso e da
mudança passou a bater pino, rateou várias vezes, começou a
soltar fumaça e, de repente, fez “tilt” e parece ter
engasgado de vez?
Onde
está o iceberg, na vastidão do oceano político nacional, que
desviou a rota do mais imponente “transatlântico social” que
o Brasil conheceu desde o descobrimento? Qual é a pedra no meio
do caminho que foi capaz de provocar tão desajeitado tropeço no
único partido que prometia construir um “outro Brasil possível”?
O que é que pode ter obstaculizado a marcha do progresso, da
democracia, da participação ampliada e da justiça social?
Ao
contrário da teoria do “complô das elites”, que o PT quer
fazer acreditar que está na raiz dos atuais percalços
governativos, acredito que as razões dessa fabulosa “reversão
de expectativas” – o finado economista Roberto Campos, mais
conhecido nas hostes petistas como “Bob Fields”, adorava essa
expressão – são totalmente explicadas e estão todas
compreendidas na ação do próprio PT, como aliás meus três
fatores causais deixam entender.
1.
A falência moral do partido da ética
A
política brasileira, como se sabe, não é nenhum convento de
noviças, muito pelo contrário, se parece bem mais com aquele
conceito que os espanhóis chamam de “conventillo”, ou seja
algo mais próximo do pecaminoso do que do virtuoso. Ainda assim,
se esperava que o partido que havia lutado durante tanto tempo por
uma outra forma de fazer política saberia, uma vez conquistado o
poder, manter sua postura anterior de “ética na política”.
Afinal de contas, ele foi eleito para isso, por isso e com esse
tipo de mensagem.
O
que se viu, na verdade, desde 2002, foi um deplorável espetáculo
de sombrias transações com os mais fisiológicos personagens da
política brasileira, aqueles mesmos que eram mostrados em opróbrio
como exemplos de corrupção dos costumes quando o PT lutava na
oposição contra a “política burguesa”. O que pode ter
motivado um partido que tinha a defesa da ética na política como
um de seus principais ativos em termos de imagem pública mudar
tanto assim em poucos meses de assunção ao poder? O que pode ter
induzido dirigentes e outros responsáveis partidários a tramar
negociatas com gente do submundo da política, de fato, comprar
parlamentares como se se tratasse de um supermercado de políticos
à venda (talvez fosse, diga-se de passagem).
Na
verdade, a mudança já estava implícita no comportamento do PT
desde que ele elegeu representantes parlamentares nos anos 1980,
ganhou algumas prefeituras nos anos 90 e conseguiu “emplacar”
seus poucos governadores nas eleições seguintes. A mudança já
estava implícita no comportamento de seu líder máximo, quando
ele decidiu profissionalizar-se como dirigente sindical, abandonar
de vez o trabalho manual e converter-se, a partir do trampolim
sindical, em líder político. Ela figurava como elemento
subjacente ao estilo petista de fazer política, um aglomerado de
tendências as mais diversas, no plano das idéias econômicas e
políticas, mas que conservam alguns traços comuns aos diversos
grupos que constituem esse formidável “saco de gatos” que é
o PT: um dos principais traços da maneira petista de ser é o
estilo leninista de se organizar e de se comportar.
Como
se sabe, Lênin foi o principal impulsionador de uma nova concepção
partidária no movimento operário e social-democrático na história
das lutas políticas a partir da última década do século XIX:
ele considerava a maior parte das lideranças socialistas de seu
tempo um exército de amadores e o que ele queria, mesmo, era
fazer uma organização de tipo profissional, de características
quase militares. Para Lênin, o revolucionário, para ser
eficiente, deveria se profissionalizar como revolucionário, só
pensar na revolução e viver para e pela revolução. Todo o
resto era secundário, e os fins deveriam justificar os meios.
Daí
para a constituição de grupos de “profissionais da revolução”
foi um passo, franqueado logo em seguida. Os revolucionários não
deveriam – de fato não podiam – hesitar diante de nada,
quando se tratasse de preparar a revolução, mesmo se para isso
tivessem de entrar em acordos com a tão odiada burguesia. Como Lênin
dizia: a burguesia, em seu desejo de lucro e acumulação, seria
capaz de vender a própria corda que um dia iria enforcá-la.
Stalin, como se sabe, começou sua vida de revolucionário
profissional assaltando bancos e veículos pagadores, uma forma,
como outra de “expropriar a burguesia”, subtrair dinheiro do tão
odiado Estado autocrático e colocá-lo ao serviço da revolução.
Para tanto, todos os golpes e tramóias são permitidos.
Essa
atitude, na verdade, revela o vezo profundamente autoritário de
um partido centralizado e centralizador que coloca a obediência
estrita ao comando político acima de qualquer outra consideração
de cunho moral ou mesmo de ordem prática. Entre o respeito a
normas de caráter ético e a adesão ao “centralismo democrático”,
o partido fica com esta última atitude. Trata-se de uma filosofia
que muitos reputam como amoral, que não deve ser confundida com a
imoralidade, pois que para seus partidários, os fins justificam
que se busque mobilizar os meios considerados mais eficientes e
mais adequados para alcançar a suposta moralidade do objetivo
revolucionário. Em nome da amoralidade do jogo político, parece
fácil, no entanto, descambar rapidamente para a imoralidade.
Com
base num exame puramente jornalístico da atualidade política,
desde antes das eleições presidenciais de 2002, pode-se
argumentar que o PT assumiu essa nova postura de realpolitik
em matéria de alianças políticas que o fizeram ultrapassar
perigosamente a linha do pragmatismo em benefício de posturas
absolutamente vexatórias do ponto de vista da chamada “ética
na política”. Tendo em vista os conluios e compromissos já
efetuados em nome de uma ilusória “governabilidade”, pode-se
dizer que não se antevê, no caso do governo brasileiro, nenhuma
possibilidade de volta atrás, no sentido de se pensar naquilo que
alguns intelectuais italianos – chocados, anos atrás, pela
extensão da “lotizzazione”,
a rede de corrupção revelada nas operações “mãos limpas”,
que comprometeram profundamente a classe política – chamaram de
“rientro morale”,
ou seja, uma retomada da ética na política. Diga-se de passagem
que, com “mane pulitti”
e tudo, tampouco na Itália foi efetuada a regeneração moral,
dada a natureza já essencialmente deformada do sistema político
nacional. O mesmo se aplica, mutatis
mutandis, ao caso brasileiro, com a agravante de que nenhuma
operação de limpeza no sistema político foi sequer tentada em
qualquer época, em condições democráticas normais.
Em
resumo, com base naquilo que já se assistiu e o que se sabe da
vida política do Brasil e da própria trajetória do PT, pode-se
dizer que não existe nenhum risco de que a situação venha a
melhorar, com a possibilidade muito provável, ao contrário, de
que ela venha a piorar sensivelmente ao aproximar-se o período
eleitoral de 2006. Isto significaria que o PT e o seu governo não
vão operar nenhuma “regeneração moral” do partido e do
governo, mas continuarão a se pautar pelas velhas normas do
autoritarismo centralizador e pela disciplina cega ao comando político.
Ou seja, eles não apenas confirmarão seus piores defeitos
enquanto “partido bolchevique”, como agravarão, num outro
plano, os mais abjetos defeitos do sistema político brasileiro.
Em outros termos, a falência moral será não apenas confirmada
como ampliada no que resta deste governo.
Se
ouso expressar um desses desejos que se formulam ao “gênio da
garrafa”, seria o de que o PT pudesse tomar consciência do
imenso mal que ele produz para si mesmo, e para o sistema político
brasileiro, ao solapar as próprias bases do contrato moral que
ele tinha tacitamente contraído com a sociedade brasileira.
Espero sinceramente que ele consiga, no que resta deste governo,
voltar aos velhos princípios – ainda que aparentemente
“falsos”, numa análise objetiva – que o fizeram ser aceito
por parte significativa da classe média brasileira, que aspirava
por um outro tipo de política e que acreditava, quase no limite
da esperança, que o PT, finalmente, iria trazer ao Brasil aquele
programa de reversão das desigualdades sociais que ainda marcam
de maneira terrível nossa iníqua estrutura de classes.
2)
Uma incompetência gerencial a toda prova
O
PT, reconheça-se desde logo, parafraseando o conhecido aforismo
de Lincoln, conseguiu enganar muita gente durante muito tempo, com
o que chegou ao poder com ares de prima
donna, eivado de preocupações sociais e humanitárias e o
mais alto sentido do interesse nacional, tudo aparentemente
sustentado na mais pura “expertise” acadêmica. Por trás de
todas as suas receitas de “desenvolvimento com justiça
social” e de “afirmação internacional com defesa da
soberania nacional” havia pouco mais do que zero competência,
tudo disfarçado de dedicação sincera e total aos grandes
problemas nacionais, com base nas mais modernas conquistas das ciências
sociais brasileiras.
O
partido, fato único na história da política brasileira,
conseguiu mobilizar o ativismo sindical de fundo classista, a “fé
que move montanhas” dos movimentos eclesiais de base, o
militantismo da velha esquerda armada reciclada no socialismo
democrático (nem sempre sincero), tudo combinado e apresentado
num discurso de novo tipo que era sistematizado e enriquecido
conceitualmente pela elite universitária de gauche.
Num país que emergiu das lutas contra a ditadura militar sem uma
ideologia unificadora de alcance nacional, as “certezas” do PT
passavam pela mais alta ciência social e a mais feliz combinação
de vontade política com conteúdo social. O PT era o partido que
“tinha” – ou pelo menos aparentava ter – um projeto
nacional, que passava antes de mais nada pela justiça social via
crescimento econômico com redistribuição de renda e pela
“redenção do país” em face da “exploração
estrangeira”.
Era
a receita exata para o crescimento contínuo no plano da política
nacional e a ampliação incontida do seu alcance social. De vitória
eleitoral em vitória eleitoral, em pouco mais de vinte anos, o
partido deixou de ser um agrupamento heteróclito do tipo
“anti-sistema fora do sistema”, para converter-se num
movimento altamente organizado, que se definia contra o sistema,
mas que já agia dentro do sistema. Mesmo quando derrotado nas
disputas presidenciais, o PT crescia politicamente nos mais
diversos setores da sociedade brasileira, diminuindo resistências
ao seu confuso ideário, tanto à direita (ou melhor, ao centro),
quanto à esquerda do espectro político.
Quando
o partido finalmente aceitou as regras do jogo democrático – o
que não foi tarefa fácil, porque vários de seus componentes
achavam que o socialismo primava sobre a democracia –, quando
ele conseguiu forjar um discurso tranqüilizador dirigido à
classe média e prometeu, finalmente, não chutar o pau da barraca
do grande capital monopolista internacional – o que foi feito na
Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002 –, as portas já lhe
estavam abertas para a vitória eleitoral. As razões desse
sucesso avant la lettre,
ou seja, antes do tempo próprio das eleições, se devem a uma
singular combinação de circunstâncias históricas e de motivos
mais ou menos fortuitos que não cabe aqui elucidar, por falta de
tempo e de espaço. Digamos apenas que a conquista do poder
supremo foi o resultado de vários fatores conjugados: a pregação
militante, o cansaço da classe média com a violência urbana –
e sua crença, absolutamente errada, de que o PT era o único
partido capaz de “resolver a questão social” – e doses maciças
de marketing político, ao melhor estilo americano de fazer política;
foram todos esses elementos que deram do partido uma imagem de
“salvador da pátria”, algo que ele acreditava ser (acho em
que seus dirigentes ainda acreditam, mas nunca se pode saber se é
por cinismo e desfaçatez ou por suprema ingenuidade).
A
embromação em torno da capacidade do PT em resolver os
principais (e também os secundários, os grandes e os menores)
problemas brasileiros foi mantida ainda durante o período de
transição, os dois meses entre a eleição e a posse, quando um
cenário “tecnocrático” – no Centro Cultural do Banco do
Brasil, em Brasília – foi montado para “provar” ao país
que dezenas de especialistas acadêmicos, reunidos às pressas,
estavam de fato montando os detalhes técnicos e as metas
quantificáveis que permitiriam ao PT oferecer ao país, a partir
de 1º de janeiro de 2003, o melhor programa possível e a melhor
administração imaginável para, finalmente, construir o “outro
Brasil possível” tão apregoado durante anos e anos de
propaganda ilusória.
Observe-se
que a “coisa” começou a degringolar ainda antes da posse,
quando em lugar de fazer um governo enxuto e competente, as
lideranças do PT deram início a dois movimentos paralelos: por
um lado, começaram a “cooptar” – talvez já se estivesse
comprando – políticos para a composição da base de apoio
parlamentar; por outro, começaram o recrutamento maciço de
quadros intermediários do partido para ocupar todos os postos
disponíveis em todos os escalões republicanos, abertos ao
apetite petista por cargos. O dilúvio de incompetência começou
por aí mesmo.
O
primeiro movimento tinha como único critério a ampliação do
espaço de manobra para o PT no Congresso, o novo partido majoritário
na Câmara, mas que ainda assim estava longe de possuir maioria
para sequer conduzir votações a maioria simples. Algumas
dezenas, senão centenas, de cargos passaram a servir como uma espécie
de “bomba de sucção” para transferir parlamentares
“comprados” da antiga situação, convertida em oposição,
para os partidos da base aliada, com destaque para o PTB, o PP e o
PL. No cômputo global, porém, as lideranças do PT deram um ou
outro ministério a partidos da base aliada e alguns cargos de
direção em autarquias e agências públicas, reservando, porém,
o “filé mignon” dos cargos disponíveis para sua própria nomenklatura
e para os militantes do baixo clero.
O
segundo movimento destinava-se, simplesmente, a lotear e a
aparelhar toda a máquina do Estado, em todos os níveis possíveis,
do ministro ao contínuo, com os “servos de gleba” do PT,
militantes dedicados à causa desde muitos anos e, portanto, confiáveis
do ponto de vista do sistema de arrecadação compulsória que
estava sendo montado. Todas as designações de cargos de direção
e assessoramento superior – os famosos DAS – foram
centralizados, sorvidos e administrados pela Casa Civil do
todo-poderoso grão-mestre José Dirceu, que estabeleceu que todos
os ministérios “cedessem” (o comando deve ter sido bem mais
forte) uma determinada cota de seus tradicionais cargos DAS para
uso próprio da Casa Civil (decisão apresentada como sendo uma
“ordem da presidência”).
O
que se assistiu, nas semanas e meses seguintes, foi a montagem da
maior e mais formidável máquina de nomeações já conhecida na
história da administração pública no Brasil, desde os tempos
das capitanias hereditárias. Como diria o próprio presidente, em
sua linguagem que reinventa a roda a cada vez, há 500 anos não
se via um fenômeno de tais proporções: nunca, tão poucos
nomearam e empossaram tantos em tão pouco tempo. A Casa Civil
praticamente dobrou em funcionários, e com eles os gastos
“administrativos”, cujos gastos extras, efetuados mediante
cartão de crédito especial, foram ciosamente mantidos obscuros
por razões de “segurança”.
Sem
falar dos candidatos do PT, derrotados na eleições de outubro de
2002 – mas que foram, ainda assim, premiados com ministérios e
outras agências públicas –, centenas e centenas de quadros
petistas passaram a ganhar passagem e verba de instalação em
Brasília para “tomar posse” – nunca uma expressão foi tão
apropriada – dos cargos centralizados e preenchidos pela Casa
Civil. Esta, para ficar num exemplo singelo, duplicou de tamanho,
a ponto de pessoas não terem aonde sentar-se para trabalhar, mas
todas as outras agências e áreas da administração pública
também receberam sua cota de “sangue novo”, por vezes em
excesso visível e risível.
A
“lógica” do processo era muito simples: nada mais, nada menos
do que o estabelecimento de uma gigantesca “vaca”, pronta para
ser ordenhada em favor do PT, em razão dos conhecidos “dízimos”
e “vigésimos” que os militantes assim aquartelados no Estado
passaram a pagar sobre a folha de vencimentos diretamente aos
cofres do partido. Nunca se assistiu a tal operação predatória
organizada na história administrativa do Brasil, típica daqueles
comportamentos que os economistas chamam de “rent seeking”, ou
seja, uma sinecura com dinheiro público montada para carrear
recursos de maneira contínua para os detentores desse novo tipo
de monopólio privado sobre um bem público.
Não
é surpreendente constatar, assim, que todo esse pessoal
mobilizado tenha sido selecionado mais em função de sua
disponibilidade em ser ordenhado pelas “mãos de tesoura” do
partido do que de sua capacidade para um desempenho qualquer no
seio do Estado brasileiro. Capacidade gerencial ou simples adequação
administrativa eram, obviamente, critérios secundários nessa
gigantesca operação de engorda funcional. De resto, capacidade
de gestão parece ser uma coisa totalmente estranha à nomenklatura
do PT, inclusive e principalmente nas mais altas esferas, começando
pelo próprio primeiro mandatário (o título encerra e acaba todo
o sentido da função).
“Valores
republicanos”, como apregoado de maneira patética pelos
“cristãos novos” no poder, foram esgrimidos da boca para fora
numa tentativa canhestra de demonstrar comprometimento com a coisa
pública, quando os únicos valores de fato defendidos foram os do
próprio partido, inclusive e principalmente em negócios escusos
e despesas de escassa transparência “republicana”. Assim, uma
tentativa de se lograr um detalhamento dos gastos da Presidência
da República feitos através de cartões de crédito utilizados
por funcionários designados foi barrada de forma ilegal, sob
escusa de riscos à “segurança do presidente”, o que soa como
um escárnio aos olhos do público.
Quanto
à incompetência gerencial do governo, não é preciso muita
elaboração para evidenciar os casos mais patéticos, geralmente
refletidos no atendimento hospitalar calamitoso e no estado
propriamente criminoso das estradas federais, em ambos casos
apresentando riscos diretos à vida e à segurança de seus usuários
obrigados. O patético da história é que, nessas duas instâncias,
mecanismos de captação compulsória – CPMF num caso, CIDE no
outro – e de aplicação dirigida desses recursos existem e
poderiam servir para uma prestação decente desses dois serviços
públicos. Se isso não ocorre, a culpa recai inteiramente na
incompetência gerencial e administrativa do governo do PT.
A
incompetência começa nas mais altas esferas e vai sendo
estendida a todos os poros da máquina pública que foram
aparelhados e entupidos pelos novos gafanhotos do PT, seres
vorazes ao extremo, capazes de consumir a maior parte da verba da
atividade-fim com o funcionamento da própria máquina do Estado,
aqui confundida quase que despudoradamente com a máquina
esquizofrênica do partido. Se alguém considerar que esta descrição
é exagerada ou mesmo injusta, pode-se propor dois testes:
submeter os “sem concurso” do PT a uma aferição comum de
aptidão – prova de títulos ou exame de ingresso, de livre
escolha – e submeter a própria máquina pública a um
“controle de qualidade” de uma auditoria independente e
imparcial, dessas especializadas em gestão e métodos.
3)
Alguém viu o tal de “projeto nacional”?
Em
matéria de “projetos”, o PT sempre foi pródigo em acusações
externas e em elogios internos. Todos os problemas do país, desde
o descobrimento até o annus
mirabilis de 2002 decorreriam da falta de um “projeto
nacional” (geralmente escrito com iniciais maiúsculas) e da
incapacidade das elites em formulá-lo e implementá-lo, ainda que
não se soubesse bem de que tipo de “projeto” se estava
falando. As digressões nesse âmbito eram sempre muito vagas ou
então inconclusivas.
O
mais próximo de um projeto nacional que o PT chegou –
descontando-se os programas de governo por ocasião das campanhas
presidenciais, extremamente vagos para merecer esse tipo de
classificação – foi afirmar que durante o regime autoritário
“os militares tinham um projeto nacional”. Os líderes
petistas chegavam até a ressalvar que na ditadura esse projeto
era socialmente excludente, mas era ainda assim um projeto de nação,
com começo, meio e fim. Isso de fato combina com a visão de
crescimento econômico que o PT parece entreter para o país,
baseado na indústria de base, com muita intervenção estatal,
autarquia econômica, fechamento externo, seleção dos setores
ditos “estratégicos” e muito dirigismo político. Ou seja,
algo próximo do que conseguiram fazer, em suas épocas e países
respectivos, dirigentes como Stalin, Hitler e Mao Tsé-tung, ainda
que eles não fossem mencionados nos documentos do PT.
Quando,
no primeiro trimestre de 2002, os dirigentes do PT operaram sua
conversão neoliberal – embora disfarçada –, para fins de
campanha presidencial, eles se esqueceram de avisar o resto do
partido, daí a imensa cacofonia e a babel de opiniões econômicas
que passaram a freqüentar as reuniões partidárias desde então,
a ponto de o PT ser o principal opositor das políticas econômicas
do próprio governo do PT. A “Carta ao Povo Brasileiro”, de
junho de 2002, por certo não é, nem nunca foi apresentada como
um “projeto nacional”, mas foi ela que serviu de base para
toda a propaganda eleitoral e para a vitória no mês de outubro
daquele ano. Os verdadeiros componentes de um “projeto
nacional”, ou de um novo “modelo de desenvolvimento”, como
gostam de enfatizar os seus quadros, tinham ficando guardados em
alguma gaveta esquecida: se tratava das resoluções do último
encontro nacional, feito pelo PT em Olinda, no mês de dezembro de
2001: elas representam as últimas (ou as mais recentes) decisões
plenárias, que poderiam passar por “vontade majoritária”
dessa agremiação que delibera e vota “coisas” e depois
esquece.
Os
dirigentes de chamado “núcleo duro” preferiram esquecer ou
deixar convenientemente de lado essas teses de Olinda. Mas muitos
militantes do partido, assim como aliados de ocasião, como a
esquerda universitária, não esqueceram dessas teses e antíteses,
daí a profusão ulterior de manifestos acadêmicos e de cartas de
reuniões de auto-proclamados intelectuais, que tentam fazer o
partido retornar à “via justa” do antigo projeto nacional.
Acontece que este nada mais era do que uma coleção de slogans
vazios, do tipo “ruptura econômica”, “desenvolvimento de um
amplo mercado interno de massas”, “políticas setoriais
estruturantes”, “inserção internacional com defesa da
soberania nacional” e outras banalidades do gênero. As resoluções
desses encontros do PT não constituem exatamente um conjunto
coerente de idéias e princípios, mas uma “assemblagem” heteróclita
de idéias malucas, que são toleradas para justamente abrigar a
indigesta conjunção de “gregos e goianos” nesse imenso saco
de gatos ideológicos em que parece ter se convertido o PT.
Quanto
o partido tentou dar um pouco mais de conteúdo a essas propostas
de governo – a exemplo da matemática surrealista em torno da
criação de “dez milhões de empregos”, ou da “política
nacional de segurança”, que não resistiu a três meses de
governo –, os resultados foram patéticos, para não dizer
melancólicos. Uma vez no governo, não se pode tampouco dizer que
as reformas iniciadas – e até aqui não concluídas – nos
campos da previdência e do sistema tributário, entre outras,
tenham a cara e o espírito do velho programa petista de ruptura
com as “políticas econômicas excludentes”, que o PT sempre
condenou quando na oposição. Tentativas canhestras foram feitas
para “enquadrar” os meios de comunicação, em primeiro lugar
a imprensa escrita – num projeto stalinista do Conselho Nacional
de Jornalismo –, para “orientar” o setor audiovisual –
numa agência que seria ampliada ao gosto do poder – e também
para coibir a “mercantilização” do ensino superior – por
meio de um projeto de reforma universitária que colocaria o MST
em “conselhos consultivos” de todas as entidades de terceiro
ciclo. A sociedade tem resistido, e com razão, a essas investidas
dos “novos bárbaros” em direção dos “aparelhos ideológicos
do Estado”, como diriam os velhos althusserianos.
A
única coisa que tem até agora funcionado no governo do PT, aliás
à revelia do próprio PT, é a política econômica, aliás de
inspiração “neoliberal”. Foi ela que impediu os piores prognósticos
que tinham sido refletidos nos indicadores catastróficos
acumulados ao longo da campanha presidencial de 2002 – dólar
nas alturas, títulos da dívida externa despencando no abismo,
ameaça de descontrole inflacionário e de fuga de capitais etc.
– e é ela que tem viabilizado as únicas boas notícias que o
governo tem para apresentar à opinião pública, em qualquer direção
para onde se olhe. Se alguém disser que essa política
“neoliberal” tem a cara do PT merece ser internado na ala dos
irrecuperáveis do asilo de alienados mentais.
De
resto, o que sobrou, exatamente, do “projeto nacional” do PT?
O programa “Fome Zero”, do qual nunca se apresentou um balanço
honesto, que deveria ser feito por uma auditoria independente? O
“Primeiro Emprego”, que parece ter produzido a fabulosa cifra
de meio milhar de jovens subsidiados, que substituíram velhos
trabalhadores em empresas espertas o suficiente para ficar com o
dinheiro do Estado? A “reforma universitária”, que retira o mérito
e coloca em seu lugar um obscuro “critério social”? A
“reforma agrária” e a “agricultura camponesa”, que servem
apenas como centros de cadastro, de subsídio in
natura e de recrutamento de futuros assistidos permanentes? A
“diplomacia ativa e altiva”, que pretende juntar “oprimidos
do Terceiro Mundo” para lutar contra o novo império? Se alguém
conseguir apontar, com números e metas quantificadas em apoio dos
argumentos, os resultados efetivos de todos esses vistosos
“programas” e deles traçar um quadro minimamente positivo,
ganha o direito de concorrer a uma bolsa de turismo em Cuba, com
participação garantida na próxima safra de cana-de-açúcar (a
ser feita no braço, com machetes
estatais).
O
PT deveria ter um encontro marcado com o seu próximo “projeto
nacional”, previsto para ser elaborado por ocasião do encontro
nacional fixado originalmente para setembro de 2005, quando
diversas alas do partido se encontrariam para se acusar umas às
outras e tentar definir um simulacro de “documento programático”.
Este, na ausência do naufrágio do Titanic do campo majoritário
a que assistimos nas últimas semanas, seria, presumivelmente, o
texto desse mesmo grupo majoritário – “Construindo o Novo
Brasil” – que deixaria de lado as menções antes explícitas
ao socialismo para conciliar, de um lado, orientações de mercado
e, de outro, o vezo estatizante, de conformidade com o perfil de
Dr. Jeckil e Mr. Hide que o PT sempre ostentou para consumo público
(e desconforto interno). Agora, depois do tsunami provocado pelas
revelações sobre a “máquina de fazer dinheiro” do PT,
corre-se o risco do vazio completo, organizacional e sobretudo
mental. Os dirigentes se esmeram em afastar cada vez mais o
partido de seus militantes sinceros, alienando ao mesmo tempo
aqueles eleitores esperançosos de um pouco mais de justiça
social no Brasil e, sobretudo, de uma “outra forma de fazer política”.
Para
sermos francos, o partido parece sofrer de duplicação de
personalidade, algo muito parecido com a atual esquizofrenia das
lideranças chinesas – que os petistas admiram –, empenhadas
em construir aquilo que chamam de “socialismo de mercado”.
Dito de outro modo, se parte de uma verdadeira contradição nos
termos para se chegar, de fato, à quadratura do círculo, ou
seja, a aplicação de um programa econômico neoliberal por um
agrupamento que ainda se define como um partido “democrático,
de esquerda e socialista”.
O
surpreendente disso tudo é que exista gente, dentro e fora do
partido, que ainda imagina descobrir, nos ditos e práticas do PT
as bases de um grande programa de mudança do Brasil, que iria do
Oiapoque ao Chuí, ou melhor, da Terra do Fogo às muralhas da
China, e talvez até deste outro mundo possível até a próxima
galáxia. Na verdade, o partido “que não roubava e não deixava
roubar” tropeçou no primeiro traficante de apoio parlamentar
que se apresentou como aliado de ocasião.
Com
tantas e tão explícitas demonstrações de pragmatismo político,
fica difícil descobrir quais seriam os fundamentos do próximo
programa político e econômico do PT. Na ausência de um projeto
nacional explícito e claro – quem souber de algum, porventura
existente nos arquivos ou gavetas do PT, pode remeter para minha
caixa eletrônica –, torna-se virtualmente impossível discutir
seus principais elementos, suas bases filosóficas e os
componentes mais importantes da grande agenda de transformação
do Brasil prometida antes, durante e depois das eleições de
2002.
Com
isso, damos por encerrada esta pequena análise das razões da
derrota do PT nas próximas eleições.
Minhas
razões de por que e porque o PT vai perder as próximas eleições
foram expostas nos parágrafos acima, com algumas pitadas de
impressionismo e muitas doses de realismo. Para que meus
argumentos não se percam pelo tipo de discurso puramente
conceitual, como o que perpassa destas linhas, pretendo, num próximo
escrito, trazer números e dados para efetuar uma espécie de
balanço quantitativo do governo do PT, comparando dados relativos
e contextuais dos dois anos últimos anos do antigo regime
“tucanês” e dos três primeiros anos de administração
petista.
A
operação deveria ser de fato realizada com os dados completos do
governo, o que teria de aguardar o primeiro trimestre de 2007,
inviabilizando assim minha contribuição ao debate eleitoral de
2006. Uma solução de compromisso pode ser apresentar resultados
provisórios em meados de 2006, ou então comparar o governo do PT
com o próprio PT, isto é, comparar as promessas e compromissos
assumidos durante a campanha eleitoral e que deveriam sustentar
sua ação administrativa e os resultados efetivos alcançados até
aquela data. Outra via possível de análise seria recuperar o
relatório ou documento resultante da equipe de transição (de
dezembro de 2002, se é verdade que esse esforço teve registro
oficial e se encontra disponível para análise pelo distinto público
externo) e, a partir daí, efetuar uma exegese simplificada da
virtuosidade em matéria de promessas não cumpridas.
Em
todo caso, para consolo dos militantes e de todos aqueles que
acreditaram, um dia, que um “outro Brasil (era) possível”,
uma coisa pode ser dita em matéria de avaliação (e de recuperação)
do governo do PT: companheiros, a luta continua...