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Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO
Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP) |
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Biblioteca
“Carolina Maria de Jesus” da Cidade Tiradentes: a consciência
étnico-racial que vem dos livros e documentos
A
despeito da precariedade material que cerca o cotidiano das populações
pobres e negras brasileiras; bem como do preconceito das nossas
elites, essas mesmas populações têm dado respostas criativas e
transformadoras para crônicos problemas sociais do nosso país.
Em
mais de uma ocasião, tratei desse fenômeno nos meus artigos,
chamando a atenção para a idéia
de que a construção de uma sociedade mais pacífica e
tolerante passa necessariamente pela implementação de um projeto
político educacional pautado, sobretudo no princípio da
diversidade étnico-racial e da pluralidade cultural. Projeto este
que teria como parceiros, desde sua feitura até a execução, os
governos municipal, estadual, federal e a sociedade civil
organizada.
Em
outras palavras, procurei apontar nesses escritos que a intolerância
é um problema social exeqüível de ser solucionado caso seja
encarado também como problema pedagógico. É dever da sociedade e
dos seus governantes criar condições para formar pessoas e cidadãos
tolerantes.
É,
pois, agarrado nessa convicção, que volto a falar dessas ações
populares que contribuem sobremaneira para a formação cultural e
mental do povo da periferia. A iniciativa, dessa vez, vem da Cidade
Tiradentes, bairro localizado no extremo da Zona Leste de São
Paulo. Trata-se da montagem e administração de uma biblioteca
afro-brasileira e africana, denominada Carolina Maria de Jesus.
Em
funcionamento desde junho do presente ano, a biblioteca conta com um
acervo de quase 200 títulos. O objetivo é catalogar e informatizar
um material bibliográfico, literário e documental de
aproximadamente 1.000 exemplares, no qual figurem obras literárias
de valor estético e de formação (contos, romances, livros
de poesias, crônicas, literatura infantil e juvenil, livros didáticos
e paradidáticos e song-books) e a crítica literária de autores
afro-brasileiros e africanos; bem
como obras e documentos em geral que abordam o tema.
O
nome da biblioteca é, segundo os proponentes, uma homenagem à
escritora Carolina Maria de Jesus. Ela representa para a comunidade
negra brasileira a força humana e literária direcionada
integralmente para o despertar de uma consciência étnico-racial
das populações periféricas do Brasil. E isto por duas razões:
primeiro, porque denunciou nos seus escritos as profundas contradições
da estrutura racista e exclusivista da sociedade brasileira da sua
época, e, segundo, porque indicou, na forma de alegorias poéticas,
os caminhos para superá-las.
Ela
é, ao mesmo tempo, o relato vivo e ficcional do talento artístico-literário
da comunidade negra, considerado menor
por um campo cultural e literário brasileiro organizado sob
o signo do cânone artístico europeu e norte-americano.
Nascida
em Sacramento, Minas Gerais, em 1914, era neta de escravos.
Catadeira de papel por condição, gostava mesmo era de escrever. E
isso desde cedo. Foi a reunião dos escritos avulsos da escritora da
época da mocidade que originou o seu primeiro romance-diário
“Quarto de Despejo”.
Todavia,
Carolina só foi apresentada ao público em 1960, graças aos esforços
do jornalista Audálio Dantas, que teve que enfrentar o desinteresse
do mercado editorial da época pela literatura de extrato étnico-popular.
Ocorre,
porém, que devido a fatores imensuráveis pelas técnicas mercadológicas,
a primeira edição do “Quarto de Despejo” alcançou a casa dos
dez mil exemplares, logo esgotados em uma semana. Sem dizer que foi
traduzido para cerca de trinta idiomas, com sucessivas reedições.
Foi ainda adaptado para o teatro, para o rádio e para a televisão
com grande sucesso de audiência.
Carolina
Maria de Jesus publicou também: “Diário de Bitita”, “Casa de
Alvenaria”, “Crônicas” e “Pedaços da Fome”.
“Diário de Bitita”, devido ao processo de silenciamento
imposto pelo Regime Militar aos setores progressistas da sociedade,
assim como ao preconceito intelectual da época, foi publicado
primeiro na França (1982), e, anos depois, no Brasil (1986).
Por
isso a homenagem à Carolina Maria de Jesus, ao inscrever o seu nome
na pedra de fundação da biblioteca afro-brasileira. Ademais, ela
cingiu tão liricamente o seu múltiplo (mulher, proletária,
escritora e afrodescendente) no cotidiano dos favelados, que acabou
por fazer da sua escritura e da leitura os instrumentos
autenticamente populares de resistência e de luta contra todas as
modalidades de intolerância e opressão social; eternizando assim o
seu nome na história cultural brasileira.
A
biblioteca funciona nas dependências do “Grupo Ecológico e
Cultural Tio Pac” (G.E.C), situado à Rua dos Têxteis, 2.910,
Cidade Tiradentes. É mantida e administrada pelo Grupo e conta com
dois funcionários para a conservação e organização do acervo,
bem como para o serviço de atendimento (empréstimos e devolução
de livros do acervo) aos consulentes. Os funcionários foram
recrutados junto à comunidade local; a seleção e o treinamento
dos mesmos foram e são feitos por profissionais da área de
biblioteconomia.
De
um ponto de vista geral, a iniciativa chega em boa hora dado a
necessidade advinda na esteira das políticas de ações afirmativas
no Brasil, em especial a Lei 10.693/03 - que diz da obrigatoriedade
da inclusão temática da história da África e da cultura
afro-brasileira no currículo da rede ensino brasileiro – de se
manter locais públicos de conservação e circulação de obras
literárias sobre o assunto.
Especificamente,
o projeto nasce da própria necessidade do G.E.C e dos moradores da
Cidade Tiradentes de inserir a comunidade no contexto bibliográfico
e literário mais amplo e profundo da problemática da formação,
preservação e atualização da cultura afro-brasileira em todos os
níveis: música dança, religiosidade, comportamento, história,
genealogia, tendência, mobilidade, vultos, personalidades etc.
Eles
entendem, ao seu modo, que a questão da visibilidade do povo
afro-brasileiro, história e cultura, a fim da construção e
reconstrução da identidade passa tanto pela produção bibliográfica
e literária como pelo trabalho de organização, manutenção e
divulgação de um acervo das obras constituintes dessa mesma produção.
Ainda mais: que a integração dos momentos do processo de transmissão
do saber cultural e livresco – criação, produção, acervo e
leitura – é capaz de garantir a fertilização de um solo
cultural e mental afrocêntrico orgânico e inclusivo, indispensável
na construção de uma sociedade baseada na tolerância e na paz.
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