sobre o autor

João Fábio Bertonha
Brasileiro de Itatiba/SP, é doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas e professor de História na Universidade Estadual de Maringá/PR, onde também atua no mestrado. Foi bolsista de doutorado-sanduíche do Ministério das Relações Exteriores Italiano e da Capes na Itália e pesquisador visitante na Inglaterra, na França, na Bélgica, na Argentina, no Uruguai e no Canadá. Autor de vários livros e numerosos artigos sobre fascismo e imigração italiana, mantém um diálogo amplo com a sociedade por meio de colunas que escreve para revistas, jornais e sites da internet.

 

João Fábio Bertonha

Os Italianos

São Paulo: Editora Contexto, 2005

 

Afinal, quem são os italianos? Convivas barulhentos que devoram fartas macarronadas ou degustadores sofisticados de pratos refinados? Filhinhos diletos de mammas supersticiosas ou executivos competentes que criaram roupas, sapatos e objetos de design símbolos de elegância em todo o planeta? Pobres coitados vivendo sob o tacão de chefes mafiosos ou criativos autores de teorias revolucionárias?

O que sabemos é que os italianos são um povo cujas realizações, especialmente artísticas, sempre foram impressionantes. Seus artesãos, arquitetos, pintores e escultores encheram a Europa e a América com igrejas imponentes, monumentos, pinturas e esculturas. Homens como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Dante, Verdi e outros eram italianos e deixaram Itália um patrimônio invejável de obras-primas da arte e da cultura.

Difícil encontrar alguém que não se sinta encantado por esses tesouros artísticos, pelos milênios de história da península e por suas belezas naturais, como as praias e as montanhas, os lagos e os mares. Os oriundos da península também são invejados por sua culinária maravilhosa, por sua língua melodiosa e pelo seu modo próprio de viver, informal e agradável. Mesmo não sendo amados incondicionalmente pelo restante do mundo, é difícil achar alguém que não os inveje, ao menos um pouco.

Ao lado desse povo maravilhoso, de artistas, homens de gênio, músicos e amantes da arte de viver, há um outro. Um povo de pessoas pouco confiáveis, charlatões, derrotados em muitas guerras e incapazes tanto de resolver seus próprios problemas como de construir um Estado eficiente e, justamente por isso, pouco respeitado. Um povo que conseguiu sair da pobreza generalizada, mas que ainda é visto, em muitos locais, como fonte de pobres e emigrantes que um dia foi e que segue um modo de vida agradável, mas primitivo e pouco sério. Um povo, enfim, passível de ser amado, mas não admirado nem respeitado.

Como é possível que ambos os povos sejam o mesmo? O que explica que a Itália e os italianos tenham sido, e ainda sejam, tão amados e invejados pelos estrangeiros, mas, ao mesmo tempo, tão desprezados e ignorados por estes? Como os próprios italianos podem amar e se orgulhar tanto do seu país e, simultaneamente, olhar com cinismo e certa resignação, como se não pudesse ser possível que as coisas fossem levadas a sério na Itália? Como esse povo pode reunir tantas qualidades e defeitos? E, entre tais qualidades e defeitos, o que é real e o que é, simplesmente, uma imagem, construída aos olhos do estrangeiro ou dos próprios italianos? Responder a essas perguntas é o objetivo deste livro.

Pretendo, assim, estabelecer alguns elementos, imagens e realidades que definem o que é ser “italiano” hoje e as contínuas mutações da identidade italiana no decorrer do tempo. Seu eixo condutor é, pois, esse problema de definir o que é um “italiano” pelo olhar dos outros e dos próprios habitantes da península.

Nesse esforço, fica evidente que meu olhar de estrangeiro (talvez não cem por cento estranho à cultura italiana, mas, com certeza, estrangeiro) é uma vantagem, ao permitir um “olhar de fora”, que, potencialmente, revelaria mais sobre os italianos do que aquele de um historiador nativo. Anos atrás, Fernand Braudel (em A identidade da França) e Norbert Elias (em Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos xix e xx) já haviam identificado a necessidade de contemplar seus países natais de longe se quisessem realmente compreendê-los. Guardadas as proporções, o mesmo poderia ser dito aqui.

Com esse objetivo, meu enfoque é a história da Itália unificada, ressaltando sua trajetória nos últimos dois séculos. Na verdade, a opção que assumi neste livro está praticamente no meio-termo entre os dois modelos metodológicos clássicos assumidos pelos historiadores que pretendem escrever uma história da Itália, e concentra-se nos últimos séculos da vida dos italianos, mas sem esquecer o passado mais remoto.

Realmente, considero ser impossível a redação de uma história da Itália e dos italianos que coloque no mesmo plano, digamos, o povoamento da Itália primitiva e a formação do regime fascista ou a Primeira Guerra Mundial e a batalha de Lepanto. Os acontecimentos dos últimos dois séculos foram os efetivamente essenciais para a formação do povo, da cultura e do Estado italianos de hoje e, se quisermos compreendê-los, é ao conhecimento relativo a estes séculos que devemos recorrer.

No entanto, seria errôneo ignorar a importância dos séculos e dos milênios anteriores de história da península na trajetória do povo e do Estado ali existentes nos dias de hoje; e se seria ilógico, como visto, colocar no mesmo plano a Marcha Fascista sobre Roma de 1922 e a invasão ostrogoda de 489, muito mais ilógico seria ignorar completamente esse passado mais remoto no esforço explicativo da Itália de hoje. Assim, o primeiro capítulo aborda justamente os longos milênios de história da península itálica, procurando discutir, em essência, o que significava, em termos de identidade, ser um habitante da península itálica antes mesmo de existir uma Itália e um povo italiano.

O segundo capítulo retoma esse tópico da identidade nacional, procurando compreender a formação do novo Estado italiano a partir do século xix, assim como a construção da nacionalidade italiana, com todos os seus problemas e suas ambigüidades, até o presente.

No terceiro, o foco é o problema da emigração. Elemento constitutivo da vida e do cotidiano do povo italiano nos últimos séculos, a emigração foi essencial para definir o que se entende por italiano hoje e para difundir a cultura e o modo de vida dos italianos por quase todo o mundo. Razão, pois, para uma atenção especial à temática.

O quarto capítulo, por sua vez, trabalha com a história da economia italiana nos últimos 150 anos. Nesse amplo panorama, o foco é como a Itália deixou de ser um país pobre e marginal na Europa para se constituir em um país rico e moderno, com todas as implicações daí decorrentes para a auto-estima e a imagem dos italianos no mundo.

A política externa do Estado italiano é o eixo do capítulo seguinte. A princípio, a inclusão de um capítulo sobre tal tema poderia significar uma mudança de perspectiva, já que enfoca essencialmente políticas de Estado e grandes questões internacionais. No entanto, dada a importância da política externa na imagem internacional da Itália e dos italianos, tal inclusão é mais do que justificada. Isso também pode ser dito do capítulo seis e sua ênfase na política italiana e, em especial, na cultura política do país. Afinal, mesmo ao abordar um tópico essencialmente estrutural, como a política e as relações de poder no Estado, o que está realmente em foco é o modo como os italianos construíram sua maneira particular de fazer política e como tal maneira particular influencia a forma pela qual são vistos, e se vêem, como povo.

No último capítulo, finalmente, são trabalhados a cultura e o modo de vida dos italianos e, mais especificamente, a maneira peculiar de encararem a vida nos mais diferentes tópicos, como as relações familiares, a comida, a sociabilidade etc. Escrito em um estilo leve, é um excelente canal para entendermos melhor como os séculos de história da Itália influenciaram o cotidiano das pessoas que ali vivem nos dias de hoje e como esse modo de vida particular é visto, admirado ou rejeitado pelo restante do mundo.

A leitura que se apresenta aqui, portanto, é aquela particular que um historiador não-italiano dá à rica história da península e do povo que ali vive. É provável que minha interpretação da vida e da história dos italianos seja questionada por algumas pessoas, bem como que a seleção dos tópicos fosse diferente se outro historiador tivesse redigido este livro. No entanto, se lembrarmos que a História é feita de visões e perspectivas diversas, isso não nos deve incomodar, muito ao contrário.

Escrito a convite dos meus editores Carla e Jaime Pinsky, com quem mantive rico diálogo durante a elaboração deste livro, espero que possa funcionar como ponte entre dois povos e duas culturas tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes, como a italiana e a brasileira.

 

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