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Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista,
professor do DFE da Universidade Estadual de Maringá (PR);
doutorando em educação (FEUSP) |
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Delação
e denúncia:
usos
e abusos em tempos difíceis
“Então um dos Doze, chamado
Judas Iscariotes, foi até o chefe dos sacerdotes e disse: O que me
dareis se eu o entregar?"
Mateus,
26
“Que os jurados deliberem o
seu veredicto – disse o Rei, mais ou menos pela vigésima vez
naquele dia. – Não, não! – gritou a Rainha. – Primeiro a
sentença, o veredicto vem depois”.
Lewis
Carrol – Aventuras de Alice no País das Maravilhas.
A
figura do delator, dedo-duro,
alcagüete, informante, boca-mole, língua-solta, etc, sempre foi
considerado infame. O código moral do
mundo do crime e dos agitadores políticos que vivem na
clandestinidade, condena o delator com a morte. No filme “Olga”,
baseado no filme homônimo de Fernando Morais, a namorada de um
militante do partido comunista paga com a própria vida ao delatar
os companheiros de luta.
Pesquisa
realizada por um professor, meu amigo, revelou que os jovens de hoje
acham a delação algo pior do que comprar trabalho na Internet. Uma
professora me disse, também, que “eles não delatam nenhum colega
que cometeu alguma transgressão”.
Interessado
no assunto, Machado de Assis, em “Conto da escola” conta o caso
de um garoto que foi delatado pelo coleguinha por ter recebido uma
moeda do filho do professor que necessitava de uma “explicação”
de Curvelo. A delação do conto machadiano é movida pela inveja, e
não chega a ser premiada pelo professor, nem aplaudida pela turma.
No filme “Sociedade dos poetas mortos”, o aluno mais apagado
prefere se render às pressões das autoridades da escola
tradicional dedurando os colegas do grupo transgressor das normas
daquela instituição do que ficar do lado dos colegas acusados.
Há
quem diga que vivemos um “momento pedagógico” em termos de política
e de moral. Duvido. Que pode ensinar o momento político em que
vivermos: usar do direito de acusar sem provas algum desafeto disso
ou daquilo, visando benefício próprio? Um desses mais exaltados
comentou que o Deputado Roberto Jefferson deveria ser também
“premiado” em vez de castigado pelo crime de decoro parlamentar,
porque ele “com seu gesto teria prestado um relevante serviço ao
país”. Será mesmo?
Não
podemos passar por cima o fato de que o referido deputado não
denunciou o suposto esquema do mensalão por dever para com a pátria
ou ao povo brasileiro, mas sim para se safar da acusação de corrupção.
Na
verdade, foi na condição de réu que o deputado Roberto Jefferson
abriu as porteiras da delação como forma de se safar da pecha de
corrupto, chegando mesmo a se passar para os incautos ser um sujeito
ético-moral e patriota. Dizendo que não era melhor nem pior do que
ninguém, o referido deputado passou a ser admirado pela sua
sinceridade – algo que falta à boa parte dos depoentes das CPIs -
e até passou a ser comportar como se fosse um artista, oferecendo
autógrafos, ou como se fosse um
intelectual, fazendo conferências, palestras em entidades
renomadas.
Nunca
fomos uma nação verdadeiramente “moral”, mas sim do
“jeitinho” tão bem estuda por Lívia Barbosa (1992). Uma
jornalista (Bárbara Gancia) observou
que a antiga ‘lei de Gerson’ – aquela que sugere sempre se
levar vantagem em tudo – vem sendo gradativamente substituída
pela ‘lei de Jefferson’
cujo lema é: se você está
se sendo acusado, acuse; se alguém está querendo te atacar, também
ataque; se estão querendo te afogar, arraste junto quem você
puder. Ou seja, qual será o ganho moral e cultural da onda
denuncista que tomou conta do país? Em vez de lutar contra o câncer
da corrupção, criando mecanismos radicais que previnem esse mal,
será que não estamos fundando uma cultura denuncista – ou
delatorista –, que, no fundo, é um faz de conta moral ou ético?
Delação,
denúncia, e falsa moral
A
delação, o dedurismo, a alcagüetagem, acontece quando uma pessoa
entrega outra a uma instância de poder. O delator é movido por
interesses pessoais, para se safar de pressões, por vingança, ou
qualquer outro motivo sempre menos; ele está sempre convicto de que
a vítima é culpada – no mínimo, mais do que ele próprio
– e, obviamente, não se importará se ela for exemplarmente
punida. Os sentimentos que movem o dedo-duro são a inveja e o ódio;
portanto, seu gesto não é fundado na ética, mas no mero desejo de
“fazer mal” a alguém. Um dicionário jurídico considera a delação
um “produto de um ódio ou
qualquer outra paixão, quando, além
do desejo de fazer mal...” (Vocabulário Jurídico de Plácido
e Silva. Rio: Forense, v. 2, 1978: 488). O gesto do dedo-duro não
visa a obtenção de se conseguir proventos materiais,
mas provavelmente esconde um “outro tipos de ganho”: um gozo
sádico contra o delatado.
Segundo
os especialistas em ética e em direito criminal, a delação não
deve ser estimulada, mas apenas tolerada; há que ser acompanhada
por regras e adequação a cada situação específica. No momento
atual da conjuntura brasileira, há o perigo do abuso da chamada
“delação premiada”, e também há o perigo da delação
(criminosa) que se quer passar por denúncia
(regida pelas regras e adequações da justiça), a exemplo do que
ocorreu na Itália com a intenção legítima de desbaratar a
organização mafiosa.
Então,
podem existir dois usos da delação: um é de inspiração fascista
ou stalinista, porque o delator é movido no seu gesto infame tanto
para defender uma suposta “causa maior” como para se vingar de
algum desafeto. Refiro-me ao fascismo, porque fazer acusações
vazias, lembra a tática de Goebbels, ministro de Hitler, que usava
o boato para espalhar uma mentira sobre alguém, que, segundo ele, repetida várias vezes essa mentira “viraria verdade na mente das
pessoas”. Acusar sem provas, falar mal de alguém (difamar),
ou fazer fofoca sustentado apenas do desejo de ferir alguém, quase
sempre logra êxito, porque a vítima não tem o poder de limpar a dúvida
plantada no imaginário social sobre sua idoneidade moral. Veja o
caso da Escola Base, de São Paulo, ou pegue a fita “Acusação”
, que falaremos no próximo mês. Entre a acusação vazia e a vítima
jamais existe o sentimento de empatia,
isto é, de sentir o que a outra está passando. O
professor Roberto Romano
declarou que o sofrimento vivido hoje por petistas moralistas dos
tempos anteriores deveriam se lembrar do que fizeram com Ibsen
Pinheiro, Eduardo Jorge, Alceni Guerra, só pra ficar nos políticos.
Se
é verdade que as pessoas são educadas mais pelo exemplo do que
pelas palavras, o gesto deste deputado pode estar contribuindo para
gerar uma nova geração de delatores cínicos, vingativos e
oportunistas, querendo ser reconhecidos como “morais” e
“patriotas”. Hoje, uma criança, um adolescente ou adulto, se
sentindo acuado por uma acusação, pode usar o recurso da delação
e esperar ser premiada por ela.
Essa
onda já vem acontecendo nas escolas e universidades: um professor,
facilmente, pode ser delatado por um aluno que não gostou da nota
que tirou com ele; uma mãe acusou injustamente a professora de ter
batido no seu filho; um colega de trabalho não pensa duas vezes em
delatar um colega mais competente, inventando um motivo ou se
aproveitando de uma falha dele, e assim por diante. Ao que parece, não
estamos fundando uma cultura anti-corrupção, mas sim, uma cultura
da delação, do dedurismo, que conjugado com a cultura do jeitinho brasileiro, não contribui para nos tornarmos uma nação
moral, mas sim de falsos moralistas.
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