Florestan
Fernandes e a idéia de revolução burguesa no pensamento
marxista brasileiro
1.
Itinerário teórico-prático da revolução burguesa no Brasil
A
idéia de revolução burguesa é consubstancial ao próprio
desenvolvimento do marxismo no Brasil, conhecendo seus momentos de
ascensão teórica ou de declínio prático, de projeção
exclusiva no establishment
intelectual ou de concorrência com outros modelos analíticos típicos
da academia, pari-passu
aos progressos teóricos ou percalços práticos da ideologia
marxista no País. Essa noção perpassa grande parte da produção
intelectual situada no campo teórico do marxismo, alcançando seu
ponto máximo, enquanto “tipo-ideal” da conceitualização
marxista sobre o desenvolvimento capitalista brasileiro, na obra
do sociólogo Florestan Fernandes. O sociólogo paulista foi um
dos mais brilhantes representantes do marxismo acadêmico no
Brasil, elevando a interpretação marxista da história
brasileira a um plano certamente elevado de conceitualização,
sobretudo com o clássico A
Revolução Burguesa no Brasil.
Depois
do grande triunfo da “concepção marxista da História” na
academia brasileira, entre os anos 50 e 80 — movimento
coincidente com as vitórias materiais, militares e ideológicas
do “socialismo realmente existente” —, o abandono teórico
da idéia de revolução burguesa parece ter sido acelerado pela
derrocada econômica e política dos países que, entre os anos
extremos de 1917-1945 e 1989-1991, encarnaram a suposta
materialização prática das idéias marxistas, países estes que
curiosamente iniciam, ou retomam, em princípios dos anos 90, suas
próprias “revoluções burguesas” práticas. [1]
Mas, antes mesmo do “final da História” e da erosão prática
do socialismo real, [2]
a concepção da revolução burguesa como noção explicativa do
desenvolvimento capitalista no Brasil vinha sendo substituída por
novos modelos teóricos, alguns baseados na idéia gramsciana de
“revolução passiva”, outros na abordagem “bismarckiana”
da revolution von Oben e
da modernização conservadora, outros ainda, de forma mais
incisiva e original, pela afirmação de uma vertente reacionária
e mesmo autocrática da revolução burguesa no Brasil, típica do
capitalismo dependente da periferia latino-americana. Esta última
concepção, de evidente paternidade “florestânica”,
representa, na verdade, uma inversão do modelo original marxista
e uma espécie de inovação conceitual sobre as concepções
tradicionais a respeito da revolução social no Brasil, mas ela
representa, de fato, o final da parábola da idéia de revolução
burguesa no Brasil.
O
movimento dessa parábola “teórica” no Brasil não é,
evidentemente, linear e previsível como uma equação matemática,
nem, como seu equivalente bíblico, apresenta-se desprovido de
sinuosidades interpretativas ou de surpreendentes, senão
oportunas, correções de rota, algumas explicáveis pela própria
história mundial do comunismo, outras impostas pelas conhecidas
desventuras da democracia no Brasil. Do ponto de vista teórico,
em todo caso, a ascensão e declínio da idéia de revolução
burguesa não observou, no Brasil, o timing histórico de outras experiências interpretativas e exegéticas
conhecidas na história do marxismo: uma certa defasagem cronológica
na importação de conceitos e doutrinas pela elite intelectual
brasileira poderia explicar por que certas idéias, mesmo as mais
poderosas ou prometéicas, dão a impressão de se encontrar um
pouco fora de seu lugar ou deslocadas em seu tempo de realização
efetiva. [3]
De certa forma, a discussão da idéia de revolução burguesa no
Brasil intervém quase um século após os conhecidos debates teóricos
do marxismo clássico.
A
trajetória prática de uma hipotética “revolução burguesa”
no Brasil, por sua vez, não só fugiu aos padrões explicativos
desse mesmo marxismo como inovou em termos dos modelos
historicamente conhecidos de modernização social e econômica e
de transformação política. A Revolução de 1930, por exemplo,
a melhor candidata a figurar no panteão ideal de uma revolução
burguesa “concreta” no Brasil, não foi um movimento exclusivo
da classe burguesa contra uma suposta aristocracia “feudal”
nem tampouco se realizou em defesa do industrialismo capitalista
contra supostas travas nas relações sociais de produção
impostas por uma formação social de base essencialmente agrária.
As interpretações simplistas dessa Revolução, baseadas no
primeiro esquematismo de fundo marxista, já foram há muito
descartadas pela sofisticada historiografia que se desenvolveu no
âmbito universitário a partir dos anos 70. [4]
O
modelo de “modernização varguista” — que domina o Brasil
desde o final dos anos 30 até praticamente o auge do regime
militar de cunho industrializante de meados dos anos 70 — não
poderia, para sermos estritos em termos de comparabilidade histórica,
ser equiparado a uma revolução burguesa. As dúvidas e
questionamentos — inclusive por parte de representantes do próprio
marxismo acadêmico — são diversos: como e quando, exatamente,
teria sido efetivada a hegemonia burguesa na esfera política?;
quando essa classe teria transformado de forma radical, ou
decisivamente, as relações de produção no campo; em que
medida, com que extensão e sob quais condições ela teria
colocado as bases de um processo de acumulação capitalista de
base autônoma? Como se vê, os contrastes com o “modelo
ideal” de revolução burguesa, tal como enunciado na literatura
marxista tradicional — como em Nelson Werneck Sodré — ou
mesmo inovadora — como em Florestan Fernandes —, são
aparentemente enormes.
Mas,
esse tipo de situação contraditória — na qual os fatos não
se encaixam na modelização teórica marxista — não é
certamente exclusivo do Brasil, podendo igualmente ser observado
em determinadas conjunturas históricas de “transformação
passiva” de antigas sociedades tradicionais, de processos
delongados de modernização conservadora, de mudanças sociais
enquadradas num contexto de capitalismo tardio, de ausência,
enfim, de uma verdadeira revolução burguesa suscetível de
romper as alianças espúrias do ancien
régime e inaugurar uma nova era de progresso social e
incorporação cívica das camadas subalternas ao jogo político-institucional.
Foi o caso, talvez, da “revolução passiva” descrita por
Gramsci — o transformismo da experiência política que se seguiu à unificação
italiana —, da Revolution
von Oben da mais aristocrática modernização conservadora
alemã — de inspiração bismarckiana e de sustentação
junkeriana — ou ainda da transformação Meiji, que combinou
aspectos de modernidade e de tradição na ascensão do Japão à
era moderna.
Independentemente
de suas desventuras práticas ou sucessos teóricos nos países de
capitalismo “tardio”, a idéia de revolução burguesa
conheceu uma trajetória de relativo prestígio — ainda que
essencialmente acadêmica e intelectual — nos países do
capitalismo avançado, no quais, finalmente, a “revolução
burguesa” era decididamente um assunto do passado e a “revolução
proletária” um projeto sem futuro. Paralelamente, a doutrina
marxista era posta politicamente à prova nos países do
capitalismo periférico, colonial, atrasado ou dependente, nos
quais nem a burguesia nem o proletariado estavam preparados para
cumprir suas respectivas “missões históricas”. Seu relativo
sucesso enquanto força social ou ideológica nestes últimos,
inclusive no Brasil, se deve, talvez, à ausência da
“verdadeira” revolução burguesa e à falta de transformação
real das condições materiais de produção durante boa parte da
história contemporânea desses países.
Assim,
se as dificuldades práticas de atualização dessa poderosa idéia
social diminuíram seu grau de atratividade — de fato sua
necessidade histórica — nos países avançados, na periferia
geográfica do capitalismo ela permaneceu o terreno de eleição
por excelência — ainda que historicamente marginal — dos
profetas do desaparecimento inelutável deste último, considerado
teórica e materialmente inferior ao modo socialista de produção,
este bem mais racional do ponto de vista econômico e socialmente
mais justo. O marxismo da periferia, mais do que uma proposta
original de socialismo, sempre foi basicamente um
anti-capitalismo, tanto mais poderoso quanto o país em causa era
mais atrasado do ponto de vista capitalista. Marx e Engels
trataram muito pouco da problemática da transição nos países
atrasados — apenas alguns artigos de jornal, para condenar os
“bárbaros” indianos e chineses, ou os “idiotas” dos
mexicanos e espanhóis, que se opunham à marcha do capital e da
civilização, um sendo o equivalente do outro —, mas o que se
sabe é que eles condenavam irremediavelmente o despotismo asiático
ao purgatório do capitalismo europeu, não tendo sido capazes de
jamais imaginar que sociedades pré- ou semi-capitalistas pudessem
um dia encarnar os ideais elevados e progressistas de um
socialismo moral, política e materialmente superior ao sistema
que ele estava destinado a substituir.
Constitui
um dos maiores paradoxos da história do marxismo o fato de que os
únicos países a entrarem no “livro dos recordes” do
comunismo realmente existente tenham sido, todos, ou mesmo
exclusivamente, sistemas econômicos atrasados do ponto de vista
capitalista, nações que jamais conheceram uma “revolução
burguesa” prática e que preservaram, contra as recomendações
do iniciador da doutrina, sistemas políticos que mais se
assemelharam ao despotismo asiático desprezado por Marx do que
aos democráticos conselhos operários concebidos a partir das
revoluções de 1848 e da Comuna de Paris. Em todo caso,
contrariamente ao programa histórico desenhado por Marx para os
proletários e intelectuais socialistas dos países desenvolvidos
— isto é, levar a seu termo a “missão histórica” do
capitalismo burguês, para só então dar início à era
socialista —, foram os intelectuais e “proletários” dos países
menos avançados que julgaram ser melhor saltar a etapa histórica
da democracia burguesa e do capitalismo empresarial para penetrar
de imediato na democracia socialista e na propriedade estatal.
Esses
intelectuais — muito poucos proletários legítimos participaram
da aventura marxista na periferia — foram, portanto, basicamente
anti-capitalistas, falhando no entanto o movimento real do
comunismo enquanto partido de massas precisamente devido à crônica
e notória insuficiência de capitalismo real em suas formações
sociais respectivas. Em contrapartida, foram esses mesmos
intelectuais que, na periferia atrasada, produziram algumas páginas
brilhantes da teoria social contemporânea, renovando o pensamento
marxista e as ciências sociais como um todo. A idéia de
“revolução burguesa”, como em todas as outras experiências
de capitalismo tardio e de democracia retardatária, encontra-se
obviamente no centro da discussão.
Muito
embora tenham sido vários os autores dignos de serem citados em
qualquer história do marxismo acadêmico no Brasil, três podem
ser considerados como intelectuais de primeiro plano, isto é,
influentes ao longo do tempo, nesse terreno relativamente bem freqüentado
por historiadores, sociólogos, economistas e cientistas políticos:
são eles Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Florestan
Fernandes.
Caio
Prado, já definido — em mais de um sentido — como um
historiador revolucionário, foi provavelmente o mais fecundo dos
três, ao dar início a uma reflexão pioneira e inovadora sobre o
desenvolvimento histórico da sociedade brasileira e suas
possibilidades de transformação nos quadros do modo de produção
capitalista. Werneck Sodré, talvez o mais ortodoxo do grupo,
buscou fornecer armas intelectuais para a etapa da revolução
nacional capitalista no Brasil, pensada enquanto resultado de uma
aliança de classes. Florestan, por sua vez, o mais bem aparelhado
conceitualmente, foi um acadêmico integral, dedicado na maior
parte da sua vida à elaboração de um pensamento socialista
original e criador, que tenta desvendar os segredos e descobrir os
caminhos pelos quais se estabelece num país periférico do ponto
de vista da economia central uma modalidade particular de
capitalismo, dependente e autocrática. Sua trajetória política
no final da vida corresponde a uma fase de menor elaboração teórica,
durante a qual o “leninismo” instintivo do articulista de
jornal deixa de lado a finesse
terminológica dos primeiros tempos de funcionalismo sociológico
e de weberianismo acadêmico. [5]
Caio
Prado, Sodré e Florestan trabalharam na efervescência política
e intelectual de suas épocas respectivas, convivendo com outros
pensadores igualmente notáveis na maneira de interpretar o
Brasil, partilhando uma mesma vocação voltada para a transformação
do País. Mas, eles representam seguramente o que de melhor foi
produzido em termos de marxismo inovador no Brasil, buscando
respostas teóricas ou práticas às dúvidas que uma parte de
nossa elite intelectual e política legitimamente entretinha sobre
nossas chances de desenvolvimento capitalista nos escombros de uma
ordem independente não totalmente liberada das amarras e defeitos
estruturais da economia colonial exportadora.
No
pós-guerra, uma corrente “nacional-burguesa” — representada
por Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier, Celso Furtado, Ignacio
Rangel, Alberto Guerreiro Ramos — e outra “nacionalista” tout
court — como Álvaro Vieira Pinto, Cândido Mendes de
Almeida, João Cruz Costa — formularam interpretações que se
aproximaram por vezes da concepção marxista sobre a “revolução
burguesa” e chegaram mesmos a conceber projetos “burgueses”
de desenvolvimento econômico e social para o País. Mas, as
contribuições desses pensadores tinham tendência a diluir a
burguesia numa entidade obscura chamada “povo”, quando não
privilegiaram categorias quase filosóficas, tais como a
“vontade nacional”, no confronto com outras de extração bem
mais “materialista” que estavam sendo oferecidas nessa mesma
época por pensadores como Caio Prado e Werneck Sodré,
precisamente. Outros intelectuais dessa época permanecem numa
vertente “culturalista” (Manuel Diegues) ou quase
“funcionalista” (Costa Pinto), mas não deixam menos de
enriquecer o grande canal da teoria social brasileira em construção.
O sociólogo Guerreiro Ramos, por exemplo, faz referência explícita
à noção de “revolução burguesa” em sua reflexão sistemática
sobre a mudança social no Brasil, mas ele está pensando na
verdade numa simples “revolução industrial”.
Os
anos 60, num movimento paralelo ao do aprofundamento da crise econômica
e política do Brasil em fase de industrialização, assistem a um
florescimento extraordinário da produção acadêmica, sobretudo
em suas vertentes marxista e weberiana, muito embora algumas
poucas correntes universitárias de inspiração liberal tenham
continuado se desenvolver mesmo nos ambientes mais
“contaminados” pela mística da transformação social e das
reformas radicais — agrária, urbana, educacional. O exemplo de
Cuba e o aparente sucesso da industrialização socialista como
via alternativa ao capitalismo dependente e periférico, agitam o
debate acadêmico e motivam as pesquisas sobre o Estado, os empresários
e as classes sociais por herdeiros de Gilberto Freyre, de Sérgio
Buarque ou de Caio Prado. É a voga dos trabalhos monográficos ou
de amplo escopo que fazem a revisão crítica da “visão ingênua”
que tiveram seus predecessores sobre a marcha do capitalismo no
Brasil: Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Paul Singer, e
muitos outros colegas ou discípulos daqueles founding
fathers e seus continuadores na chamada “escola paulista de
Sociologia”, onde começava a pontificar, precisamente,
Florestan Fernandes.
O
que se poderia chamar de “teoria social brasileira” se inspira
essencialmente no marxismo, muito embora o ecletismo seja de
rigor, com muitas doses de weberianismo acadêmico e algumas
pitadas de historiografia francesa. A unidade de pensamento é
muito mais aparente do que real. No terreno da historiografia, por
exemplo, a escola marxista comportava tanto representantes da
corrente ortodoxa como pesquisadores “revisionistas”. No
primeiro grupo se situariam os adeptos de uma “etapa feudal”
no desenvolvimento histórico da sociedade brasileira. De uma
certa maneira, eles seguiam nesse ponto as teses da historiografia
tradicional sobre o período colonial. Pela conceitualização que
eles fazem do “modo de produção” que teria precedido o
capitalismo no Brasil, essa corrente inscreve sem qualquer equívoco
uma “etapa burguesa” no quadro da “revolução nacional”
que estaria em curso no Brasil desde o final do século XIX
(basicamente a partir do final da Abolição). O historiador
Nelson Werneck Sodré é, certamente, o representante mais típico
da interpretação marxista ortodoxa da “revolução
brasileira”.
Mas,
o verdadeiro iniciador da historiografia marxista no Brasil, Caio
Prado Júnior, era entretanto muito menos ortodoxo nesse
particular. Tendo inaugurado a interpretação materialista da
sociedade brasileira, esse decano da história econômica e social
influenciou, como veremos, mais de uma geração de pesquisadores,
desde seu pioneiro Evolução
Política do Brasil (1933), passando pela Formação do Brasil Contemporâneo (1942) e pelo História Econômica do Brasil (1945). Mas, o debate se instala
verdadeiramente a propósito de seu livro polêmico A Revolução Brasileira (1966), no qual Caio Prado nega à
burguesia brasileira qualquer “papel revolucionário” ou
anti-imperialista, como pretendia a “visão etapista”
defendida pelo PCB e pelos demais ideólogos da esquerda ortodoxa.
Fora
da historiografia, os partidários de uma “revolução
nacional” ou “burguesa” são tão numerosos quanto seus
adversários, estes recrutados nas mais diversas tendências da
esquerda marxista. Alguns, adeptos da tese do “capitalismo desde
o começo” ou da “superexploração imperialista”, situando
o crescimento e a estagnação capitalistas no contexto do sistema
internacional dominante, operam uma redução radical da autonomia
social da classe burguesa. Os que adotaram nessa época a concepção
relativamente inovadora dita do “subdesenvolvimento satelitizado”
— inaugurada por André Gunder Frank e revista pelos teóricos
da “dependência”, entre eles Ruy Mauro Marini — atacaram
com razão o falso binômio “tradicional-moderno”: não há
uma dualidade estrutural entre os setores colonial-exportador e o
industrial-capitalista, mas uma só cadeia de exploração
imperialista ligando entre elas as atividades econômicas as mais
diversas, desde o centro dominante até a periferia dominada. A
debilidade “orgânica” da burguesia “nacional” —
interpretação que tinha o assentimento do sociólogo Fernando
Henrique Cardoso — seria devida, portanto, não tanto à
natureza intrinsecamente perversa dessa burguesia, mas ao caráter
deformado, desigual e dependente do desenvolvimento do capitalismo
periférico, o que não impediu os mais afoitos de abandonar a hipótese
da “revolução burguesa” e de inscrever na agenda da história
um projeto de “revolução socialista” (como Wanderley
Guilherme ou Theotônio dos Santos, por exemplo).
Outros,
colocando mais ênfase no caráter “específico” dos modos de
produção dominantes durante as fases colonial e nacional —
identificados como sendo o “escravista” e o “dependente”
— dividiam-se também quanto ao papel social e político da
classe burguesa vis-à-vis
o poder do Estado e da potência do imperialismo. A teoria da
“dependência” por exemplo — que deriva dos conceitos de
centro e periferia já aplicados desde os anos 40 por um
economista inovador como Raul Prebisch — constituía uma espécie
de “funcional-estruturalismo” aplicado à velha teoria
leninista e luxemburguiana do imperialismo: ela buscava combinar a
análise classicamente marxista com uma abordagem macro-nacional
sobre a interação de sistemas econômicos complementares e
desiguais. Os conceitos de “burguesia” e de “Estado”
ocupam um espaço preponderante nessas análises — conduzidas, a
partir da inspiração de Florestan, por jovens sociólogos como
Cardoso, Ianni, Weffort, Cohn — mas o argumento da Revolução
burguesa está longe de se constituir em variável analítica
independente como na obra do mestre da Escola Paulista de
Sociologia: não se nega a possibilidade de uma “hegemonia
burguesa”, mas esta permanece limitada pelas “ligações
perigosas” mantidas pela elite industrial com a oligarquia e o
imperialismo (se fala mesmo de uma “internalização da dependência”
na própria estrutura social).
Os
anos 70 constituem, paradoxalmente, um período de, por um lado,
brutal repressão contra a intelligentsia
marxista dos cenáculos acadêmicos e contra seus êmulos
guerrilheiristas nas ruas das grandes cidades brasileiras e, por
outro, de disseminação das idéias marxistas nas gerações mais
jovens, a ponto da “concepção marxista da história” ter-se
tornado propriamente dominante nos cursos secundários e nos
ambientes universitários. Trata-se, na maior parte das vezes, de
um marxismo de ocasião, baseado em algumas poucas idéias mal
digeridas de leituras apressadas de vulgatas elaboradas a partir
de alguns textos de estilo stalinista de Marta Hannecker ou de
cunho “estruturalistas, como em Louis Althusser. O tipo de crítica
anti-marxista dos nouveaux
philosophes ou aquela mais antiga de intelectuais dissidentes
do marxismo real quase não aportou na terra brasílica, povoada
em grande medida de socialistas improvisados.
Mas,
ao lado desse triunfo do marxismo simplista, estudiosos de renome
continuam a produzir uma teoria social digna do nome, basicamente
preocupada em encontrar, como seus predecessores liberais de princípios
do século, explicações consistentes para as raízes do atraso
econômico e social do Brasil. Com exceção do próprio mestre
Florestan, a Escola Paulista de Sociologia — Fernando Henrique
Cardoso, Octavio Ianni, Gabriel Cohn, Paul Singer, Francisco
Weffort e muitos outros mais — não pode ser exatamente
identificada como um templo dedicado ao culto exclusivo do
marxismo. Em todo caso, esses intelectuais praticam outras
vertentes da doutrina, numa espécie de sincretismo modernizador
que não ficaria nada a dever, em termos de pot-pourri
litúrgico, à maior parte das religiões brasileiras.
A
noção de “revolução burguesa”, elevada ao panteão da
ideologia marxista nessa época, continuava a se situar no centro
das preocupações da maior parte dos estudiosos. Mas, nem todos
professam os instrumentos do culto. A recusa desse modelo pode ser
explícita, como no caso do marxista Jacob Gorender, grande
estudioso do “modo de produção escravista”: para esse antigo
ortodoxo do PCB reciclado no marxismo independente, a revolução
burguesa, levando-se em conta algumas particularidades da formação
econômica e social do capitalismo brasileiro, seria uma categoria
analítica inaplicável à história do País. [6]
O afastamento pode ser também tácito, como no caso do sociólogo
e cientista político Luciano Martins: ele preferiu passar
diretamente à tese “barringtoniana” da “modernização
conservadora” para explicar tanto a ausência da hegemonia
burguesa no Brasil como a circulação das elites no seio do
Estado. [7]
Mais recentemente, alguns sociólogos preferiram voltar ao
conceito de modo de produção para explicar alguns dos momentos
decisivos da passagem ao “Estado burguês” no Brasil. As
analogias explícitas ou implícitas em relação ao “modelo
ideal” de revolução burguesa transparece no trabalho do
principal defensor dessa vertente, Décio Saes: para esse autor, são
as classes populares (escravos e classe média urbana) que, como
no exemplo da grande revolução “burguesa” da França,
sustentam, sem esperar a liderança dos setores dominantes, os
processos de transformação do sistema político e da ordem econômica
no Brasil de 1888-1891, movimentos que, tomados conjuntamente,
conformariam uma Revolução política anti-escravista e burguesa.
[8]
Outros
teóricos, utilizando muitas vezes o mesmo tipo de conceitualização
— capitalismo “tardio” ou “dependente”, manutenção do
poder oligárquico, “incapacidade política da burguesia” etc.
— colocam a revolução burguesa no centro de seus esforços
interpretativos. Evidentemente, a concepção
“nacional-burguesa” ou “capital-funcionalista” em vigor no
final dos anos 50 — como a do já citado Guerreiro Ramos, para
quem a “revolução industrial” então em curso seria uma espécie
de equivalente histórico-funcional da revolução burguesa —
tornou-se largamente desacreditada. Em contrapartida, as contribuições
de marxistas independentes como Florestan Fernandes e Octavio
Ianni são muito mais consistentes nesse particular. Ambos autores
de uma vasta produção sociológica sobre o Brasil contemporâneo
e representantes legítimos da Escola Paulista de Sociologia,
Fernandes e Ianni aceitam plenamente o conceito e o modelo da
revolução burguesa em suas análises respectivas sobre a formação
social brasileira.
É
sobretudo a obra do primeiro — ao lado de Caio Prado e de
Werneck Sodré — que deve merecer uma atenção particular,
tendo em vista que a contribuição de Ianni apresenta a curiosa
tendência de conceber a revolução burguesa apenas do ponto de
vista do caráter do Estado e de sua organização efetiva no
Brasil. O historiador Werneck Sodré permanece provavelmente o
mais forte defensor de uma visão classicamente marxista sobre o
desenvolvimento histórico da sociedade brasileira, ainda que a
precedência histórica na elaboração de uma interpretação
legitimamente marxista do desenvolvimento econômico e social do
Brasil esteja com Caio Prado Júnior.
2.
Florestan Fernandes e a revolução burguesa na periferia
Florestan
Fernandes é, sem dúvida alguma, o representante principal do que
se poderia chamar, a falta de melhor designação, de “teoria
social brasileira” e sua obra mais importante — A Revolução Burguesa no Brasil — constitui o esforço mais
acabado empreendido na academia brasileira para elaborar uma
teoria regional do desenvolvimento capitalista na periferia da
“economia-mundo” capitalista.
Egresso
de uma das primeiras turmas de Ciências Sociais da USP, onde
recebeu aulas de mestres franceses — dos quais tornou-se
assistente —, Florestan realizou pesquisas sobre o folclore em São
Paulo e terminou, em 1947, seu mestrado pela Escola de Sociologia
e Política, com uma tese sobre a organização social dos
tupinambá. Sua tese de doutoramento, já pela USP em princípios
dos anos 50, representou uma continuidade desse trabalho, tendo
examinado a função social da guerra entre os tupinambá. Sua
aproximação ao marxismo, ainda durante os anos de estudos
universitários, bem como às correntes de pensamento socialista
se deu basicamente em função de sua própria condição social
de “oprimido”, tendo sido aperfeiçoada em leituras, em traduções
de Marx — Contribuição à Crítica da Economia Política , por exemplo — e
em contatos freqüentes com grupos de socialistas e trotskistas
dos meios jornalísticos e intelectuais.
Mas,
nessa primeira fase de sua vida acadêmica, em que atuou como
professor assistente de Fernando Azevedo e depois de Roger Bastide,
e como responsável pela cadeira de Sociologia-I na USP, Florestan
seguiu o ecletismo típico de seus mestres franceses: uma pitada
de cada teórico acadêmico — com destaque para Durkheim, Weber
e Marx — e um diálogo constante com os grandes mestres
contemporâneos: Mannheim, Freyer, Sombart, Tönnies, Linton e vários
outros expoentes das escolas européias e norte-americanas. Uma
pesquisa sobre as relações raciais em São Paulo formou a base
de seus grandes trabalhos sobre o problema da integração do
negro na sociedade de classes. Desde cedo, contudo, ele também é
levado a pensar os problemas do subdesenvolvimento e da dependência,
que era por ele chamado de heteronomia, conceito derivado de Marx
e Weber. Estava tendo início ali um pensamento original dentro do
que se poderia chamar de Sociologia Brasileira ou, de forma mais
ampla, de Sociologia Latino-Americana, bastante conectada às
contribuições econômicas “periféricas” e
“desenvolvimentistas” de Raúl Prebisch e Aníbal Pinto — da
chamada escola cepalina — e aos aportes propriamente sociológicos
de José Medina Echavarria e de Rodolfo Stavenhagen.
A
análise interpretativa dos problemas raciais e das relações de
classe no Brasil conduz Florestan ao estudo da formação econômica
e social e às especificidades da “transformação burguesa”
no País, base ulterior de seu grande trabalho sobre a “revolução
burguesa” no Brasil. Com efeito, detentor isolado do copyright
do conceito de revolução burguesa na produção sociológica
brasileira, o grande intérprete da mudança social em nosso País
não encontrou, até agora, muitos seguidores nesse campo minado
da reflexão histórico-social. O único discípulo a adotar o
conceito e a problemática da revolução burguesa na análise do
desenvolvimento histórico brasileiro, Octavio Ianni, vincula, na
verdade, essa noção ao estudo das formas assumidas pelo Estado,
mas no trabalho de Ianni o conceito designa, na verdade, o seu
contrário, isto é, a “contra-revolução burguesa”, o que é,
pelo menos, um contra-senso heurístico.
O
opus magnum
de Florestan, A Revolução
Burguesa no Brasil (1975), integra, mediante instrumentos
conceituais recolhidos nas melhores fontes da sociologia —
sobretudo em Marx, em Durkheim e em Weber —, o essencial da
produção historiográfica, sociológica e política relativa aos
diferentes aspectos do processo de modernização econômica e
social do Brasil. Trata-se, nada mais nada menos, do que
interpretar todo o processo histórico de (trans)formação da
sociedade brasileira, buscando em nosso passado dependente,
escravocrata e periférico — ou seja de capitalismo incompleto e
tardio e subordinado ao imperialismo e de insuficiente “mutação
burguesa” das estruturas de dominação política — as razões
e as raízes das deformações do período contemporâneo,
marcadas pela ditadura militar — uma “autocracia burguesa”
no entendimento de Florestan — e por um desenvolvimento econômico
desigual, retardatário e caudatário dos principais centros da
economia mundial.
Florestan
Fernandes pretendia, com seu monumental “ensaio de interpretação
sociológica”, resumir as principais linhas da evolução do
capitalismo e da sociedade de classes no Brasil. Mas, ao colocar
no centro de sua interpretação o conceito específico de
“revolução burguesa”, a summa
sociológica de Florestan não deixa de apresentar algumas
especificidades em relação a uma pretendida “filiação”
marxista, tanto de forma como de substância. Algumas características
propriamente “heterodoxas” dessa grande obra são de natureza
estilística: uma redação que se estendeu durante cerca de uma década
(1966-1974) justifica provavelmente insuficiências como a ausência
de unidade global e de uniformidade no texto, o caráter descosido
ou fragmentado de alguns capítulos e mesmo mudanças propriamente
conceituais no desenvolvimento do discurso, como a substituição
da abordagem classicamente weberiana e durkheiminiana da primeira
parte pelo enfoque mais claramente “leninista” dos capítulos
finais. A adesão de Florestan ao que ele mesmo chama de
“sociologia engajada e radical” faz com que sua análise da
“revolução burguesa” no Brasil acuse, em diversas passagens,
o dilema entre a objetividade científica e a opção política.
Essa
obra constitui, fundamentalmente, uma forma peculiar de utilização
da teoria marxista na reconstrução de processos históricos
sempre únicos e originais, no caso, a transição brasileira para
a modernidade social capitalista, que é vista, por Florestan,
segundo a ótica da revolução burguesa. Sua interpretação
desse processo permanece, ainda hoje, um marco do pensamento
sociológico brasileiro, sendo apresentada, nos muitos escritos de
seus epígonos acadêmicos, como um prova mesma da vitalidade do
marxismo aplicado à realidade social do Brasil. Entretanto, nessa
obra máxima de Florestan, o conceito de revolução burguesa não
é qualificado de maneira estrita, nem possui um estatuto teórico
muito preciso: passa-se de uma definição sócio-econômica a uma
outra essencialmente política desse fenômeno, sem que se possa
aferir a parte da “longa duração” e a da “conjuntura histórica
de transformação” — para empregar os termos braudeliano e
labroussiano bem conhecidos — na atualização brasileira desse
conceito. Para Florestan, a revolução burguesa, definida de
maneira genérica, constitui “um fenômeno estrutural, que pode
se reproduzir de modos relativamente variáveis dadas certas condições
ou circunstâncias, desde que certa sociedade nacional possa
absorver o padrão de civilização que a converte numa
necessidade histórico-social”.
Em
outros termos, o argumento de Florestan sobre a atualização histórica
da “revolução burguesa” no Brasil assume primeiramente uma
qualificação positiva (a da “emergência e consolidação do
capitalismo”) para transformar-se, no final, em seu contrário
(a “crise do poder burguês”). O equivalente histórico, no
Brasil, da conjuratio burguesa seria dado pela agregação ideológica operada
no movimento abolicionista. Florestan não adota o método
comparativo, senão indiretamente, mas parece consciente dos
dilemas e dos limites que o comparatismo coloca ao pesquisador.
Ele critica, por exemplo, os que negam a existência de uma
“Revolução Burguesa” no Brasil, “como se admiti-la
implicasse pensar a história brasileira segundo esquemas
repetitivos da história de outros povos, em particular da Europa
moderna. O sociólogo paulista estabelece, por exemplo, uma distinção
entre o modelo “clássico” de revolução burguesa — que
teria conduzido ao capitalismo independente e à democracia política
— e a revolução burguesa “periférica” — resultando no
capitalismo dependente, na dominação externa e na autocracia
burguesa —, mas, ele não diz porque o segundo processo deve ser
inserido na mesma família conceitual do primeiro.
A
revolução burguesa de Florestan Fernandes apresenta-se, assim,
como um paradigma na fronteira externa do capitalismo mundial.
Procurando estabelecer que o espécime brasileiro pertence mesmo
à família sociológica das revoluções burguesas, Florestan
identifica o conteúdo essencial desses fenômenos históricos a
um processo de “absorção de um padrão estrutural e dinâmico
de organização da economia, da sociedade e da cultura”, que
seria o da civilização capitalista moderna. O paradigma da
revolução burguesa se justificaria pelo fato que, no Brasil também
se assistiu “a universalização do trabalho assalariado e a
expansão da ordem social competitiva”, isto é, ocorreu um
simples processo de modernização capitalista.
Florestan
reconhece formalmente que o processo de modernização das
estruturas sociais, políticas e econômicas das formações
capitalistas não tem um único modelo estabelecido. Seria vão,
portanto, diz o mestre, pretender no Brasil “uma réplica ao
desenvolvimento capitalista característico das Nações tidas
como centrais e hegemônicas”. O desenvolvimento capitalista no
Brasil, a despeito das limitações internas e externas impostas
ao processo, conseguiu, ainda assim, segundo Florestan, provocar
uma “revolução econômica autêntica”. Entretanto, devido
precisamente à preservação da “dupla articulação” —
latifúndio e imperialismo —, não existe “espaço histórico
para a repetição das evoluções do capitalismo na Inglaterra,
na França e nos Estados Unidos, ou na Alemanha e no Japão”.
Ainda assim, segundo o mestre paulista, “um desenvolvimento
capitalista articulado não produz uma transformação capitalista
de natureza diferente da que se pode observar nas sociedades
capitalistas autônomas e hegemônicas. O que varia é a
intensidade e os ritmos do processo”. Florestan reconhece, em
primeiro lugar, que a “economia competitiva [da periferia] tende
a redefinir e a fortalecer os liames de dependência, tornando
impossível o desenvolvimento capitalista autônomo e
auto-sustentado”, mas é para concluir imediatamente após:
“Todavia, o desenvolvimento capitalista logrado traz consigo,
como nas sociedades centrais e hegemônicas, as mesmas tendências
de organização e de evolução da economia, da sociedade e do
Estado”.
Florestan
jamais pretende a repetição, no Brasil, do que ele chama de
“modelo democrático burguês de transformação capitalista”,
chegando mesmo a negar a existência de “determinantes
universais” nesse processo. Ele reconhece no entanto estar à
procura das “conexões específicas da dominação burguesa com
a transformação capitalista”, nos casos onde a “dupla
articulação” foi preservada. Ele propõe o conceito de
“modelo autocrático-burguês de transformação capitalista”,
que seria típico das formações dependentes do capitalismo periférico.
Mais que um conceito, trata-se de verdadeira tese sociológica, e
que se constitui no elemento crucial do modelo interpretativo
construído por Florestan para explicar a modalidade específica
de modernização capitalista no Brasil.
A
tese de Florestan possui, implicitamente, duas premissas: primo,
que a transformação capitalista apresente, em todos os lugares,
um caráter burguês; secundo,
que a dominação burguesa é inevitável, independentemente das
formas políticas específicas de seu exercício. A implicação
mais importante dessas duas proposições não estritamente
formalizadas é, entretanto, a de que este modelo de transformação
capitalista, apesar de “autocrático”, se inscreve igualmente
no quadro conceitual da revolução burguesa.
Florestan
destaca a importância primordial da transformação capitalista
como fator essencial da mudança histórica nas formações periféricas
ocidentais: o crescimento capitalista é real, apesar de
dependente. O que a periferia reproduz são as “características
estruturais e dinâmicas essenciais” do capitalismo central —
isto é, economia mercantil, competitiva, mais valia, etc. — sem
as quais ela “não seria capitalista”. A uniformização dos
princípios de modernização não exclui entretanto a existência
de “diferenças fundamentais” que decorrem do processo pelo
qual esse desenvolvimento capitalista torna-se “dependente,
subdesenvolvido e imperializado”.
Florestan
reconhece a existência dessas “diferenças fundamentais”, típicas
do capitalismo periférico, mas insiste em combinar os processos
de transformação
capitalista, de um lado, e de dominação
burguesa, de outro, como se ambos devessem permanecer
estrutural e necessariamente ligados nas diversas atualizações
históricas concretas da modernização capitalista. A tese de
Florestan sobre o “modelo autocrático-burguês de transformação
capitalista” visa transcender o paradigma histórico consagrado
sobre a revolução burguesa, representando ao mesmo tempo uma
tentativa teórica de explicar os impasses e limitações praticas
da modernização capitalista na periferia do sistema. O núcleo
da explicação sociológica estaria no “caráter retardatário
das Revoluções Burguesas na periferia dependente e
subdesenvolvida do mundo capitalista”. No caso brasileiro, por
exemplo, a “contra-revolução burguesa” de 1964 e o sistema
“autocrático” que se instala ulteriormente seriam o produto
inevitável da modernização tardia.
3.
Os intelectuais marxistas e a revolução burguesa no Brasil
Vinculados,
de uma forma ou de outra, aos combates políticos e sociais de
suas respectivas épocas históricas e atuando em contextos políticos
específicos, os intelectuais marxistas analisados neste trabalho
pensaram a questão da democracia, da revolução burguesa e do
desenvolvimento social no Brasil. Essa reflexão foi conduzida
segundo um pensamento marxista inovador e propunha, de modo geral,
uma inversão radical do tipo de capitalismo seguido até então
— considerado submisso aos interesses da oligarquia agrária e
dependente do imperialismo — e, de forma coerente com a primeira
premissa, uma incorporação das camadas subalternas ao processo
político democrático. Todos eles viam no socialismo um objetivo
razoável de organização social da produção e um princípio
legítimo de estruturação do sistema político, ainda que eles
reconhecessem a necessidade de uma lenta acumulação de forças
— consubstanciada na idéia de revolução burguesa — antes de
que se pudesse pensar em passar à “etapa superior” de
modelização da sociedade. Eles foram extremamente influentes nos
círculos intelectuais, no pensamento acadêmico de modo geral e
no próprio debate público de idéias no Brasil, desde os anos 30
até praticamente nossos dias.
Caio
Prado Jr. foi um pioneiro nesse tipo de reflexão radical sobre os
destinos econômicos do País e seu regime político, vistos como
um sistema industrial em formação e uma democracia possível,
mas devendo antes se libertar das amarras do imperialismo e do
latifúndio. Nelson Werneck Sodré atuou sobretudo nas hostes
nacionalistas — militares e civis — buscando conformar uma
agregação política de forças sociais suficiente para romper
aqueles mesmos obstáculos identificados por Caio Prado em seus
escritos históricos e econômicos. Florestan Fernandes, o mais
acadêmico dos três, foi um verdadeiro maître-à-penser
do desenvolvimento brasileiro, um tribuno de seus ideais
socialistas e um dos maiores sistematizadores da teoria social
moderna. Todos eles identificaram na chamada “burguesia
nacional” — com os qualificativos políticos que cada um lhe
atribuiu — uma força social importante, embora relativamente
pusilânime em face dos desígnios, combinados ou não, do latifúndio
e do imperialismo, mas, ainda assim, necessária e central à
tarefa de transformação econômica e social da Nação. Suas
respectivas contribuições intelectuais foram orientadas, de
certa forma, a “empurrar” — talvez contra sua própria
vontade — a burguesia nacional para um tipo de capitalismo
independente e um regime político democrático plenamente
participativo.
Uma
particularidade desse tipo de raciocínio — derivada talvez da
virtual tendência marxista em identificar uma determinada classe
social com um “devir” histórico específico — pode ser
apontada na conexão de tipo estrutural que se faz entre sistemas
econômicos e regimes políticos, como se se tratasse de um modelo
de tipo hegeliano, no qual uma determinada categoria social
encarna o “espírito” de cada época histórica. Os
intelectuais marxistas brasileiros, atribuindo, com Marx, ao
capitalismo, uma força social transformadora superior às suas
possibilidades históricas efetivas, frustraram-se amplamente ao
constatar as debilidades materiais, políticas, sociais e ideológicas
de uma classe — a burguesia — que, supostamente, deveria
encarnar as principais virtudes e ideais do modo de produção
“revolucionário”, de toda forma superior ao sistema
monocultor agrarista conhecido até então.
Qualquer
que seja o destino futuro do marxismo acadêmico no Brasil, sua
trajetória faz parte da própria história intelectual no País,
tendo ela sido profundamente marcada pelas contribuições que
ofereceram, em seus respectivos campos de atuação, pensadores
como Caio Prado, Werneck Sodré e Florestan Fernandes. Eles foram
paradigmáticos de uma certa época e plenamente representativos
de um determinado debate de idéias, assim como foram, para suas
respectivas gerações, “lideranças carismáticas” na
descoberta de “campos virgens” de exploração teórica, na
condução de pesquisas empíricas, na orientação de leituras,
na identificação de caminhos explicativos, na organização
científica dos conceitos e outros instrumentos analíticos, na
apresentação de “contribuições relevantes”, assim como na
própria mobilização política para o “bom combate”. A eles
muito deve o vigor da teoria social brasileira nos últimos
sessenta anos e sobre sua obra deve repousar, em parte, o esforço
de reconstrução de uma teoria histórico-social adaptada ao estágio
atual de transformação da sociedade nacional.
Orientações
de leitura sobre Florestan Fernandes:
Almeida,
Paulo Roberto de. Classes Sociales
et Pouvoir Politique au Brésil: une étude sur les fondements méthodologiques
et empiriques de la Révolution Bourgeoise
(Bruxelas: Université Libre de Bruxelles, 1984, 2 vols.; Thèse
présentée en vue de l’obtention du grade de Docteur en
Sciences Sociales)
———.
“O Paradigma Perdido: a Revolução Burguesa de Florestan
Fernandes”, in Maria Angela d’Incao (org.), O Saber Militante: Ensaios sobre Florestan Fernandes (São Paulo-Rio
de Janeiro: UNESP - Paz e Terra, 1987, pp. 209-229)
Fernandes,
Florestan. A Etnologia e a Sociologia no Brasil (São Paulo: Anhambi, 1958)
———.
Mudanças Sociais no Brasil
(São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960)
———.
Folclore e Mudança Social
na Cidade de São Paulo (São Paulo: Anhambi, 1961)
———.
A Sociologia numa Era de
Revolução Social (São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1963
———.
A Integração do Negro na
Sociedade de Classes (São Paulo: Dominus-USP, 1965);
———.
Educação e Sociedade no
Brasil (São Paulo: Dominus-USP, 1966)
———.
Sociedade de Classes e
Subdesenvolvimento (Rio de Janeiro: Zahar, 1968)
———.
The Latin American in
Residence Lectures (Toronto: University of Toronto, 1969-70)
———.
O Negro no Mundo dos Brancos
(São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1972)
———.
Capitalismo Dependente e
Classes Sociais na América Latina (Rio de Janeiro: Zahar,
1973)
———.
A Revolução Burguesa no
Brasil: ensaio de interpretação sociológica (Rio de
Janeiro: Zahar, 1974)
———.
Circuito Fechado: quatro
ensaios sobre o “poder institucional” (São Paulo: Hucitec,
1975)
———.
“A Revolução Burguesa no Brasil em Questão”, Contexto
(São Paulo: ano I, n° 4, 1977, pp. 141-8)
———.
A Sociologia no Brasil
(Petrópolis: Vozes, 1977)
———.
A Condição do Sociólogo (São
Paulo: Hucitec, 1978)
———.
Da Guerrilha ao Socialismo:
a Revolução Cubana (São Paulo: T.A. Queiroz, 1979)
———.
Apontamentos sobre a
“Teoria do Autoritarismo” (São Paulo: Hucitec, 1979)
———.
A Natureza Sociológica da
Sociologia (São Paulo: Ática, 1980)
———.
Poder e Contrapoder na América
Latina (Rio de Janeiro: Zahar, 1981)
———.
Reflections on the Brazilian
Counter-Revolution: essays (New York: M. E. Sharpe, 1981)
———.
“Esboço de uma trajetória”, depoimento concedido a equipe
coordenada pela Prof. Mariza Correa, em 29 de março de 1984, Boletim
Informativo e Bibliográfico de Ciências Sociais (Rio de
Janeiro: ANPOCS, n° 40, 2° semestre 1995, pp. 3-25)
Morse,
Richard M. “A Economia de Manchester e a Sociologia Paulista”,
Dados (Rio de Janeiro: n°
18, 1978, pp. 3-56)
Nascimento
Arruda, Maria Arminda do. “Arremate de uma reflexão: a Revolução
Burguesa no Brasil de Florestan Fernandes”, Revista
USP; dossiê Florestan Fernandes (São Paulo: n° 29, março-maio
1996, pp. 56-65)
Santiago,
Silviano. “A Revolução Burguesa”, Contexto
(São Paulo: ano I, n° 2, 1977, pp. 149-153)
Outros
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Almeida,
Paulo Roberto. Velhos e Novos Manifestos: o socialismo na era da globalização (São
Paulo: Juarez de Oliveira, 1999)
Aricó,
José. Marx e a América
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Fukuyama,
Francis: “The End of History?”, The
National Interest (n° 16, 1989, pp. 3-18)
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The End of History and the
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Cardoso,
F. H. e Enzo Faletto. Dependência e Desenvolvimento na América Latina (Rio de Janeiro:
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Gorender,
Jacob. A Burguesia
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“O Conceito de Modo de Produção e a Perspectiva Histórica”
in José Roberto do Amaral Lapa (ed.): Modos de Produção e Realidade Brasileira (Petrópolis: Editora
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