Por ROSANNA LAURIOLA

Rosanna Lauriola é doutora em literaturas clássicas, e autora de vários estudos e um livro sobre assuntos relacionados às literaturas clássicas. Ela é professora de Latim, Grego, e Mitologia na University of Texas em San Antonio.

 

Pandora, o mal em forma de beleza: 

o nascimento do Mal no mundo grego antigo

(Tradução: Eva P. Bueno)

 

“Há duas urnas na soleira da porta de Zeus. Elas são diferentes, tais como os presentes que elas contêm: uma urna do mal, e uma das bênçãos.

Se Zeus, que se delicia com o relâmpago misturar as duas urnas e esparramar seu conteúdo sobre o homem,

Sua vida passará por fluxos, uma vez envolta no mal, e outra na boa sorte.

Mas quando Zeus distribui da urna das tristezas,

Ele faz do homem uma derrota, e a fome do mal o levará sobre a terra brilhante,

E ele vagará, sem obter respeito nem dos deuses, nem dos mortais”

(Homero, A Ilíada, 24.527.33. Tradução de R. Lattimore)

 

Com estas palavras o herói grego Aquiles tenta consolar o velho rei troiano, Príamo, da perda do seu querido filho: houve um tempo em que Príamo havia prosperado, era senhor de suas terras e teve muitos filhos. Mas, ninguém pode esperar receber o destino de ter somente  coisas boas; no mínimo, a pessoa deve esperar receber algumas coisas boas misturadas ao mal inevitável.

Estas palavras de Homero resumem a maneira que durante o período arcaico grego as pessoas viam a vida humana, como uma mistura de coisas boas e coisas más, mas também, ainda mais importante, estas palavras apontam para duas concepções peculiares do mal, que devem ser consideradas dentro da moldura cultural da civilização arcaica grega: (1) os deuses, ou mais precisamente o líder dos deuses e deusas, Zeus, é responsável pela existência das coisas boas e das coisas más; é ele quem decide o destino humano, e, (2) o mal é inevitável.

Se a responsabilidade de Zeus se encaixa bem com a crença mais ampla e mais antiga de acordo com a qual tudo vem, e é dado pelos deuses – o mundo, as habilidades humanas, tanto os fenômenos físicos como as qualidades abstratas – então temos também o envolvimento de Zeus na vinda do mal como algo inevitável e inescapável para os seres humanos. Tal idéia espelha o conceito do mal que está profundamente arraigado nas sociedades primitivas e também nas duas principais tradições culturais as quais, apesar de significantes diferenças, modelam a moderna civilização ocidental, isto é, as tradições grega e judaica-cristã. Este conceito está centrado na mulher como responsável pela existência das dificuldades, do sofrimento, e assim, do mal no mundo. Na tradição grega antiga esta mulher é Pandora, aquela que dá origem à raça mortífera das mulheres (Hesíodo, Teogonia 590); ela também é aquela cuja criação e inevitável maldade são da responsabilidade de Zeus.

Isto é o que o antigo poeta grego Hesíodo (século VIII a.c.) diz em algumas famosas linhas de seus dois principais poemas, a Teogonia (II. 570-612), e Trabalhos e Dias (II. 53-104)[1] Em ambas passagens a criação de Pandora é o resultado do desejo de Zeus de punir a humanidade porque esta tinha se beneficiado através dos truques que Prometeu, o benfeitor divino dos seres humanos, tinha pregado em Zeus. Na verdade, quando foi feito o primeiro sacrifício aos deuses, Prometeu enganou Zeus e fez com que ele aceitasse a porção inferior dos sacrifícios dos animais (ossos cobertos de gordura), e reservou as partes comestíveis (a carne) para o consumo humano. Zeus então se vinga privando os seres humanos do fogo. Prometeu então engana Zeus novamente ao roubar o fogo do céu e dá-lo mais uma vez aos mortais. A posse do fogo é equivalente a todos os seus benefícios culturais: a habilidade de cozinhar a comida, fazer armas e ferramentas, etc. Para equilibrar o presente proibido que Prometeu dera aos homens, Zeus finalmente decide dar aos homens seu próprio presente, um presente do mal, que tem como intenção destruir o bem que Prometeu tinha dado aos homens. Pandora, a primeira mulher no cosmos grego antigo, é o presente do mal que Zeus mandou ao mundo:

“...e então [Prometeu] feriu profundamente o coração de Zeus, o alto senhor do trovão, que ficou furioso quando ele viu ao longe a luz do fogo entre os homens, e imediatamente ele lhes deu um problema para que pagassem pelo fogo.

O famoso Deus Pacífico misturou argila e lhe deu a forma de uma virgem tímida, exatamente como Zeus queria,

E Athena, a deusa de olhos de coruja,

A vestiu em roupas prateadas

E com suas próprias mãos lhe colocou um véu na cabeça,

Uma coisa complexa, bonita de se olhar.

 

Ele [Zeus] fez este lindo mal para equilibrar o bem,

Então ele a levou aos outros deuses e aos homens

...eles ficaram boquiabertos,

deuses imortais e homens mortais, quando eles viram

A arte de seduzir, irresistível aos homens.

Da sua raça vem a raça das mulheres fêmeas,

Esta raça mortífica e população de mulheres,

Uma grande infestação entre os homens mortais,

Que viviam com riqueza e sem pobreza.

Acontece o mesmo com as abelhas nas suas colméias

Alimentando os zangões, conspiradores maus.

As abelhas trabalham todo dia até o por do sol,

Ocupadas o dia inteiro fazendo pálidos favos,

Enquanto os zangões ficam dentro [da colméia] nos favos vazios,

Enchendo o estômago com o trabalho dos outros.

Foi assim como Zeus, o alto senhor do trovão,

Fez as mulheres como uma maldição para os homens mortais,

Conspiradoras do mal. E ele juntou outro mal

Para contrabalançar o bem. Qualquer um que escape ao casamento

E à maldade das mulheres, chega à velhice

Sem um filho que o mantenha. Ele não precisa de nada

Enquanto viver, mas quando ele morre, parentes distantes

Dividem seus bens. Por outro lado, quem se casa

Como é mandado, e tem uma boa esposa, compatível,

Tem uma vida equilibrada entre o mal e o bem,

Uma luta constante. Mas se ele se casa com uma mulher abusiva

Ele vive com dores no seu coração o tempo todo,

Dores no espírito e na mente, o mal incurável.”

(Hesíodo, Teogonia 567-612. Tradução de S. Lombardo)

 

Assim a mulher, criada para dar trabalho e sofrimento ao homem, parece personificar a essência do mal,[2] a origem de todo mal, a fonte e a razão do mal, e a inevitabilidade do encontro com o mal.

De todas formas, a razão última da entrada do mal no mundo é Zeus. De fato, Pandora é um instrumento nas mãos de Zeus. É ele quem decide introduzi-la como a fonte de todos os problemas. É Zeus quem cria, através de pandora, um tipo específico de mal, o mal do engano, que é atraente e bonito por fora, que parece ser algo bom (uma mocinha casta e tímida), mas que esconde coisas ruins dentro, aquela que personifica “o completo engano,” descrito maravilhosamente através do oxímoron kalòn, kakòn (literalmente: “uma coisa linda/ má”). Finalmente, é Zeus quem faz com que este lindo mal seja irresistível e incurável, de modo que ninguém possa escapar. Se você se casa ou não, ou seja, se você lida com mulheres ou não, por causa delas você encontrará o mal, de qualquer forma.

Mas de que consiste exatamente este mal trazido e personificado pela mulher?

A resposta a esta pergunta nos diz muito mais sobre como, na sociedade grega primitiva, se entendia o mal. O mal trazido e personificado primeiro por Pandora não é nada além do trabalho, e as mulheres personificam o mal porque elas são uma carga a mais para os homens. As mulheres (entende-se através poema), as mulheres livres, assim como os zangões, não trabalham, e somente consomem a renda do trabalho dos seus homens. Na visão de mundo da sociedade grega mais antiga, o trabalho não era uma maneira aceitável de ganhar-se a vida; na verdade, o trabalho era considerado uma dor, porque houve um tempo – a Idade Dourada – quando a terra espontaneamente provia os seres humanos de toda a comida que eles necessitavam, e assim eles não tinham necessidade de trabalhar, não tinham que labutar e sofrer:

“...os deuses nunca ensinaram

Como os humanos poderiam ganhar a vida. Ou

Você fazia o suficiente em um dia

Para seu sustento por um ano sem trabalho.

Você podia dependurar seu arado na fumaça,

E todo o trabalho do campo era feito pelos bois...

Mas Zeus ficou verde de raiva e foi e escondeu

A madeira de ganhar a vida [sem trabalho duro] tudo

Porque aquele esperto Prometeu

O enganou. Por isto Zeus fez a vida dos seres humanos difícil.

Ele escondeu o fogo. Mas aquele fino filho de lapetos [Prometeu] o roubou

Bem diante do nariz de Zeus...

E Zeus, trovejando ... ficou enraivecido e disse:

“filho de ‘lapetos...

Eu aposto que você está contente por ter roubado o fogo e me enganado.

Mas as coisas vão ficar difíceis para você e para os humanos

Depois disto.

Eu vou dar-lhes o Mal em troca do fogo

Um Mal para eles amarem e abraçarem”

(Hesíodo, Trabalhos e Dias 43-58. Tradução de S. Lombardo)

 

E este Mal “para amar e abraçar” é Pandora. Forçados a trabalhar, enquanto as mulheres não podem trabalhar, os homens vão ter que lidar com a vida dura, e serão responsáveis pelo próprio sustento, assim como o sustento das suas esposas e famílias. E, justamente como Zeus quer, não há maneira de escapar-se deste mal:

  • se um homem tenta escapar das mulheres e do casamento para não ser forçado ao trabalho duro e ao sofrimento, ele está destinado a uma velhice triste e solitária, sem ninguém para tomar conta dele;

  • se um homem se casa e ele tem sorte de ter uma boa mulher, de qualquer maneira ele vai ter o bem o o mal juntos para sempre, porque a mulher, em si, independentemente do seu caráter individual, é má porque ela “come” a renda do marido;

  • se um homem se casa e ele tem a má sorte de ter uma mulher que também tem uma atitude individual ruim, para ele não há maneira de escapar de todo tipo de tristeza e mal.

Este é o plano de Zeus, que espelha como a mulher é vista, e qual o antigo conceito do mal era: todas as mulheres são iguais por causa da sua natureza (desde o nascimento); portanto, a mulher é o mal na humanidade. Isto também inevitavelmente descortina os pensamentos que estão na base da estrutura social: o mundo grego antigo é uma sociedade patriarcal na qual o componente feminino não pode ser visto de outra maneira que não seja como uma fonte potencial de caos em um mundo previamente somente feito por homens.

Porque ela é responsável pela entrada do mal no mundo, Pandora é freqüentemente comparada a Eva, que também foi criada depois do homem e é a responsável pelos seus problemas, a sua perda do Paraíso. Na outra versão do mito de Pandora que Hesíodo oferece em Trabalhos e Dias, há um ato de Pandora que parece dar um paralelo à doutrina do pecado original, e conseqüentemente ao conceito de Eva. Depois de descrever como Zeus ordenou aos vários deuses e deusas que manufaturassem o “adorável mal”, e lhe dessem específicas qualidades para que ela fosse uma criatura de beleza irresistível, o poeta conta então como Zeus, através de Hermes – o deus mensageiro – mandou Pandora à Terra,[3] e comenta sobre os efeitos dela com estas palavras:

“...Antes [da chegada de Pandora] a raça humana

Tinha vivido da terra sem problema, sem trabalho

Sem doença e sem dor...

Mas a mulher tirou a tampa da jarra com suas próprias mãos

E espalhou todas as misérias que significam tristeza para os homens.

Apenas a Esperança foi deixada no jarro inquebrável,

Grudada embaixo da tampa, e não pôde voar:

A mulher fechou a tampa do jarro,

E pelo plano do dono de tudo, o que pastoreia nuvens, Zeus,

Já naquele momento milhares ou mais de outros horrores se espalhavam entre os homens,

A terra está cheia de coisas más, e o mesmo acontece com o mar”

(Hesíodo, Trabalhos e Dias 90-101. Tradução de S. Lombardo)

 

Nesta versão do mito, não é simplesmente o nascimento e a chegada de Pandora que marcam a entrada do mal no mundo. É o seu ato de abrir a jarra que provoca a “perda do paraíso.” Antes da sua chegada e da abertura do jarro, não havia problemas, não havia trabalho duro, doenças, misérias ou tristezas. Embora Hesíodo não menciona de onde a jarra vem, ou diz qualquer coisa que diga que a abertura da jarra foi feita devido a um ato de perigosa curiosidade por parte de Pandora, no tempo dos primeiros apologistas cristãos (por volta do primeiro ou segundo século depois de Cristo), a abertura da jarra por Pandora já era comparada ao episódio de Eva comendo a fruta proibida.[4] Ambas ações marcam a entrada do sofrimento e das dificuldades no mundo; ambas mulheres – Pandora e Eva – inevitavelmente são a personificação do mal.

Entretanto, uma análise mais detalhada revela importantes diferenças. Para tocar só em algumas: a criação de Pandora por Zeus foi feita para trazer o mal à vida humana, enquanto que a criação de Eva por Deus foi feita para dar uma companheira ao homem. Mais importante, Deus diz a Eva para não comer a maçã; ela sabia que era proibido, e mesmo assim ela escolheu –por assim dizer—comer a fruta ao deixar-se ser persuadida pela serpente. Como vimos acima, em nenhuma parte do texto de Hesíodo Pandora foi proibida de abrir o jarro.[5] Tudo, desde a abertura do jarro até o seu fechamento antes que a Esperança escapasse, é “de acordo com o plano de Zeus,” o que significa que Pandora não tem escolha. Apesar destas significantes diferenças, sem dúvida em ambos casos a mulher e o mal se identificam.

Na antiga Grécia o conceito do mal personificado e espalhado pelo gênero feminino, há algo mais que nos faz retornar à citação inicial desta discussão: devido à vontade de Zeus, a vida humana é caracterizada pelo mal – o mal inevitável, e por uma mistura de coisas boas e coisas más. Na verdade, Pandora não somente é o mal inevitável pelo qual Zeus é responsável, ela é também aquela que reserva para os homens um tipo de antídoto contra o mal: de acordo com os desejos de Zeus ela conserva a esperança dentro do jarro, enquanto todos os males são espalhados.

A presença da esperança na jarra de Pandora é debatida há muito tempo: porque ela é media vox, a esperança pode se tornar em uma coisa boa ou ruim, isto é, a esperança de uma coisa boa ou ruim, somente um sonho, uma ilusão. Como as ocorrências do mundo retratadas na poesia grega antiga têm principalmente um significado positivo, o conteúdo da jarra de Pandora pode significar tanto a mistura de coisas boas e más que Zeus dá como destino humano, e a mistura de coisas boas e ruins que a mulher personifica: as mulheres são o mal por excelência para os homens, já que elas foram criadas para ser este mal; mas as mulheres também podem ter uma boa atitude e assim dar aos homens o mal misturado com coisas boas, exatamente de acordo com o plano de Zeus.

Finalmente, é interessante também notar que o ponto inicial de Pandora – a entrada do Mal no mundo – é a luta entre o rei dos deuses, Zeus, contra Prometeu, que personifica, na antiga sociedade grega, um tipo cultural peculiar: o chamado “enganador”, ou “embusteiro”. O enganador é aquele que se delicia na sua habilidade de ser mais esperto que os outros, demonstrando uma ambivalência ética, já que ele pode trabalhar para o bem ou para o mal. Suas ações desviantes finalmente beneficiam a humanidade. Duas vezes Prometeu enganou a Zeus para ajudar aos homens. Não é por acidente que, nas versões posteriores do mito de Prometeu, ele é definitivamente apresentado como um benfeitor (por exemplo, no Prometeu de Aésquilos; e em Protágoras de Platão). Considerando-se que em algumas das chamadas sociedades primitivas o enganador é uma figura do mal, mas ao mesmo tempo uma entidade positiva já que ele tem um papel civilizador, parece que desde o começo da nossa história o mal é reconhecido como uma parte inevitavelmente inseparável do bem, como se o bem puro não pudesse existir sozinho.

Poderia ser que as duas urnas de Zeus, o duplo de Pandora e seu jarro, que espelham a dupla natureza dos seres humanos e da vida humana, simbolizam esta concepção existencialista que os povos antigos já tinham e tentaram explicar através dos seus mitos? Ainda mais importante, isto é realmente assim? Nós não podemos escapar do mal? O que pode ser verdade é que a promoção da civilização humana e o conseqüente progresso têm um preço que em geral toma a forma do mal. Outros temas fundamentais estão relacionados com este assunto, mas fogem do âmbito deste artigo. Entretanto, para tomarmos diretamente das palavras de Hesíodo: ainda há esperança para os seres humanos.

Em conclusão, a figura de Pandora e todos os membros do gênero feminino incorporam o conceito primordial do mal e da sua criação. Obviamente, a visão desenvolveu-se através dos séculos a um ponto em que os homens já não são meras vítimas dos planos dos deuses, e assim são forçados a encontrar o mal. Realmente, os homens são a razão do próprio mal. A evolução deste conceito começa logo no período arcaico inicial (ver, por exemplo, a Odisséia de Homero, 1.32-34), e leva à descrição do declínio da humanidade. Assim lidar com o mal, em termos da violenta passagem da selvageria à civilização (ver Hesíodo, Trabalhos e Dias 106-179) se transforma então no objeto de especulação filosófica (por exemplo em Platão, República 379c-380c., 617e 4-5), e finalmente até toma cores da nossa sociedade e problemas contemporâneos quando o dramaturgo Sófocles ( século 5 a.C) diz

“Dinheiro! Nenhuma instituição que seja tão ruim

jamais chegou a existir para a raça humana”

(Sófocles, Antigone, 295-96. Tradução de R. Blondell).

 

Bibliografia

Arrighetti G., Esiodo.Opere. Einaudi-Gallimard, Torino 1998.

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Harris S. and Platzner G., Classical Mythology. Images and Insights.Mc Graw Hill Higher Education (4th edition) 2004.

Lauriola R., Elpis e la giara di Pandora (Hes. Op. 90-104): il bene e il male nella vita dell’uomo, in “Maia. Rivista di Letterature Classiche” 52 (2000), 9-18.

Mayerson Ph., Classical Mythology in Literature, Art, and Music. The Focus Classical Library, 2001.

Vernant J.P., Mythe et pensée chez les Grecs. Paris 1985.

West M.L., Hesiod. Theogony, (Teogonia) Oxford 1976.

West M.L., Hesiod. Works and Days, Oxford 1978.

   

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versão em inglês

Pandora, the Beautiful Evil: the Coming of Evil to Light in Ancient Greek world

[1] Pode parecer surpreendente falar de deuses e sua responsabilidade pelos negócios humanos, e citar poetas como fonte, ao invés de teólogos ou filósofos, o que seria mais comum. Isto vem de uma peculiaridade da antiga sociedade grega onde, diferentemente de outras sociedades antigas, a teologia não foi desenvolvida por sacerdotes, ou explicadas em um “livro sagrado.” Este era o trabalho dos primeiros poetas, os quais, por sua vez, não elaboraram a doutrina religiosa ou os dogmas; eles simplesmente re-contaram as histórias tradicionais relacionadas aos seus deuses, isto é, aos mitos.

[2] Na Teogonia, ao dar um relato detalhado de como o mundo dos deuses e, conseqüentemente todo o universo foi criado, Hesíodo também reconta a criação de males específicos, mas os introduz como personificações divinas. O lado escuro — por assim dizer — do universo, é personificado pelos descendentes da Noite. O conceito abstrato da escuridão significando também algo mau é personificado na deusa Noite a qual, analogicamente, dá a vida a outras forças das trevas como: a morte, a traição, a velhice, a desavença, etc. (II. 211-232) . O seu aparecimento no mundo é consistente com o princípio estruturador do poema, isto é, a genealogia. Na verdade, na Teogonia Hesíodo está interessado em explicar o universo em todos os seus componentes, físicos e abstratos, positivos e negativos, através das genealogias divinas — já que tudo pode ser relacionado com os deuses.  Portanto, as forças negativas e do mal são introduzidas como entidades divinas simplesmente capazes de explicar sua existência no mundo à parte das situações concretas da vida humana onde elas operam.

[3] É interessante observar que a causa real para a entrada do mal representado por Pandora é outra figura mítica, uma divindade masculina chamada Epimeteu, o qual tinha sido advertido pelo seu irmão Prometeu a não aceitar nenhum presente de Zeus mas a mandá-lo de volta “no caso de que problemas possam advir deste presente para afetar os mortais.” Apesar das palavras de Prometeu, Epimeteu levou Pandora (Hesíodo, Trabalhos e Dias 83-89). No fim, foi Epimeteu “que foi confusão desde o início para os homens, primeiro ao aceitar de Zeus a mulher que ele tinha feito” (Hesíodo, Teogonia 512-14). Apesar de tudo, Pandora, a mulher, é considerada a catalizadora do declínio dos seres humanos. 

[4] Veja, por exemplo, Origen (séculos II e III dC), que comparou o jarro de Pandora com a fruta do Jardim do Éden, e Gregory de Nazianzus (século IV dC) que considerou Pandora um exemplo dos vários pecados mortais e re-escreveu o oxímoron de Hesíodo, “uma linda /coisa má,” e chamou Pandora “uma delícia mortal.”

[5] E, apesar do que a fonte poética principal deste mito, Hesíodo, diz, a abertura da jarra por Pandora também é vista como simbolizando uma espécie de mal relacionado ao gênero: a curiosidade feminina. O ato de Eva ao comer a maçã é interpretado da mesma forma. De fato, na mitologia grega a curiosidade é considerada principalmente em termos do “desejo de conhecimento;” ela geralmente está relacionada com a presença de uma caixa, sacola ou baú cuja abertura, ou desejo de olhar dentro é iniciado por uma proibição. Tal é a situação do mito de Eros e Psiquê (Apuleius, Metamorfose 4. 28 –6. 24) no qual Adonis (Ovid, Metamorfose 10.345 ) , e no episódio da Sacola dos Ventos na Odisséia de Homero (10.1-79). O desejo de saber o que está dentro implica na violação do que está proibido, e esta violação tem um preço alto. Estes mitos são mais apropriados para uma comparação com a história de Eva porque as conseqüências dos atos de Eva  em geral representam o preço mais alto que os seres humanos tiveram que pagar pelo conhecimento. Em Pandora não há tal curiosidade ou sincero desejo por conhecimento. E falando da “Eva má”, e do seu ato fatal, o comentário da protagonista do romance de Donna Woolfolk é pertinente: “Quanto à questão da vontade, a mulher deveria ser considerada superior ao homem... porque Eva comeu a maçã por amor ao conhecimento e ao aprendizado, mas Adão comeu a maçã simplesmente porque ela lhe pediu que o fizesse (Donna Woolfolk Cros, Pope Joan, A novel. New York: Ballantine Books, 1996. 84)

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