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Pandora,
o mal em forma de beleza:
o
nascimento do Mal no mundo grego antigo
(Tradução:
Eva P. Bueno)
“Há
duas urnas na soleira da porta de Zeus. Elas são diferentes, tais
como os presentes que elas contêm: uma urna do mal, e uma das bênçãos.
Se
Zeus, que se delicia com o relâmpago misturar as duas urnas e
esparramar seu conteúdo sobre o homem,
Sua
vida passará por fluxos, uma vez envolta no mal, e outra na boa
sorte.
Mas
quando Zeus distribui da urna das tristezas,
Ele
faz do homem uma derrota, e a fome do mal o levará sobre a terra
brilhante,
E
ele vagará, sem obter respeito nem dos deuses, nem dos mortais”
(Homero,
A Ilíada, 24.527.33. Tradução de R. Lattimore)
Com
estas palavras o herói grego Aquiles tenta consolar o velho rei
troiano, Príamo, da perda do seu querido filho: houve um tempo em
que Príamo havia prosperado, era senhor de suas terras e teve
muitos filhos. Mas, ninguém pode esperar receber o destino de ter
somente coisas boas; no
mínimo, a pessoa deve esperar receber algumas coisas boas
misturadas ao mal inevitável.
Estas
palavras de Homero resumem a maneira que durante o período arcaico
grego as pessoas viam a vida humana, como uma mistura de coisas boas
e coisas más, mas também, ainda mais importante, estas palavras
apontam para duas concepções peculiares do mal, que devem ser
consideradas dentro da moldura cultural da civilização arcaica
grega: (1) os deuses, ou mais precisamente o líder dos deuses e
deusas, Zeus, é responsável pela existência das coisas boas e das
coisas más; é ele quem decide o destino humano, e, (2) o mal é
inevitável.
Se
a responsabilidade de Zeus se encaixa bem com a crença mais ampla e
mais antiga de acordo com a qual tudo vem, e é dado pelos deuses
– o mundo, as habilidades humanas, tanto os fenômenos físicos
como as qualidades abstratas – então temos também o envolvimento
de Zeus na vinda do mal como algo inevitável e inescapável para os
seres humanos. Tal idéia espelha o conceito do mal que está
profundamente arraigado nas sociedades primitivas e também nas duas
principais tradições culturais as quais, apesar de significantes
diferenças, modelam a moderna civilização ocidental, isto é, as
tradições grega e judaica-cristã. Este conceito está centrado na
mulher como responsável pela existência das dificuldades, do
sofrimento, e assim, do mal no mundo. Na tradição grega antiga
esta mulher é Pandora, aquela que dá origem à raça mortífera
das mulheres (Hesíodo, Teogonia
590); ela também é aquela cuja criação e inevitável maldade são
da responsabilidade de Zeus.
Isto
é o que o antigo poeta grego Hesíodo (século VIII a.c.) diz em
algumas famosas linhas de seus dois principais poemas, a Teogonia
(II. 570-612), e Trabalhos e
Dias (II. 53-104) Em ambas passagens a criação
de Pandora é o resultado do desejo de Zeus de punir a humanidade
porque esta tinha se beneficiado através dos truques que Prometeu,
o benfeitor divino dos seres humanos, tinha pregado em Zeus. Na
verdade, quando foi feito o primeiro sacrifício aos deuses,
Prometeu enganou Zeus e fez com que ele aceitasse a porção
inferior dos sacrifícios dos animais (ossos cobertos de gordura), e
reservou as partes comestíveis (a carne) para o consumo humano.
Zeus então se vinga privando os seres humanos do fogo. Prometeu então
engana Zeus novamente ao roubar o fogo do céu e dá-lo mais uma vez
aos mortais. A posse do fogo é equivalente a todos os seus benefícios
culturais: a habilidade de cozinhar a comida, fazer armas e
ferramentas, etc. Para equilibrar o presente proibido que Prometeu
dera aos homens, Zeus finalmente decide dar aos homens seu próprio
presente, um presente do mal, que tem como intenção destruir o bem
que Prometeu tinha dado aos homens. Pandora, a primeira mulher no cosmos
grego antigo, é o presente do mal que Zeus mandou ao mundo:
“...e
então [Prometeu] feriu profundamente o coração de Zeus, o alto
senhor do trovão, que ficou furioso quando ele viu ao longe a luz
do fogo entre os homens, e imediatamente ele lhes deu um problema
para que pagassem pelo fogo.
O
famoso Deus Pacífico misturou argila e lhe deu a forma de uma
virgem tímida, exatamente como Zeus queria,
E
Athena, a deusa de olhos de coruja,
A
vestiu em roupas prateadas
E
com suas próprias mãos lhe colocou um véu na cabeça,
Uma
coisa complexa, bonita de se olhar.
Ele
[Zeus] fez este lindo mal para equilibrar o bem,
Então
ele a levou aos outros deuses e aos homens
...eles
ficaram boquiabertos,
deuses
imortais e homens mortais, quando eles viram
A
arte de seduzir, irresistível aos homens.
Da
sua raça vem a raça das mulheres fêmeas,
Esta
raça mortífica e população de mulheres,
Uma
grande infestação entre os homens mortais,
Que
viviam com riqueza e sem pobreza.
Acontece
o mesmo com as abelhas nas suas colméias
Alimentando
os zangões, conspiradores maus.
As
abelhas trabalham todo dia até o por do sol,
Ocupadas
o dia inteiro fazendo pálidos favos,
Enquanto
os zangões ficam dentro [da colméia] nos favos vazios,
Enchendo
o estômago com o trabalho dos outros.
Foi
assim como Zeus, o alto senhor do trovão,
Fez
as mulheres como uma maldição para os homens mortais,
Conspiradoras
do mal. E ele juntou outro mal
Para
contrabalançar o bem. Qualquer um que escape ao casamento
E
à maldade das mulheres, chega à velhice
Sem
um filho que o mantenha. Ele não precisa de nada
Enquanto
viver, mas quando ele morre, parentes distantes
Dividem
seus bens. Por outro lado, quem se casa
Como
é mandado, e tem uma boa esposa, compatível,
Tem
uma vida equilibrada entre o mal e o bem,
Uma
luta constante. Mas se ele se casa com uma mulher abusiva
Ele
vive com dores no seu coração o tempo todo,
Dores
no espírito e na mente, o mal incurável.”
(Hesíodo,
Teogonia 567-612. Tradução
de S. Lombardo)
Assim
a mulher, criada para dar trabalho e sofrimento ao homem, parece
personificar a essência do mal,
a origem de todo mal, a fonte e a razão do mal, e a inevitabilidade
do encontro com o mal.
De
todas formas, a razão última da entrada do mal no mundo é Zeus.
De fato, Pandora é um instrumento nas mãos de Zeus. É ele quem
decide introduzi-la como a fonte de todos os problemas. É Zeus quem
cria, através de pandora, um tipo específico de mal, o mal do
engano, que é atraente e bonito por fora, que parece ser algo bom
(uma mocinha casta e tímida), mas que esconde coisas ruins dentro,
aquela que personifica “o completo engano,” descrito
maravilhosamente através do oxímoron kalòn,
kakòn (literalmente: “uma coisa linda/ má”). Finalmente,
é Zeus quem faz com que este lindo mal seja irresistível e incurável,
de modo que ninguém possa escapar. Se você se casa ou não, ou
seja, se você lida com mulheres ou não, por causa delas você
encontrará o mal, de qualquer forma.
Mas
de que consiste exatamente este mal trazido e personificado pela
mulher?
A
resposta a esta pergunta nos diz muito mais sobre como, na sociedade
grega primitiva, se entendia o mal. O mal trazido e personificado
primeiro por Pandora não é nada além do trabalho, e as mulheres
personificam o mal porque elas são uma carga a mais para os homens.
As mulheres (entende-se através poema), as mulheres livres, assim
como os zangões, não trabalham, e somente consomem a renda do
trabalho dos seus homens. Na visão de mundo da sociedade grega mais
antiga, o trabalho não era uma maneira aceitável de ganhar-se a
vida; na verdade, o trabalho era considerado uma dor, porque houve
um tempo – a Idade Dourada – quando a terra espontaneamente
provia os seres humanos de toda a comida que eles necessitavam, e
assim eles não tinham necessidade de trabalhar, não tinham que
labutar e sofrer:
“...os
deuses nunca ensinaram
Como
os humanos poderiam ganhar a vida. Ou
Você
fazia o suficiente em um dia
Para
seu sustento por um ano sem trabalho.
Você
podia dependurar seu arado na fumaça,
E
todo o trabalho do campo era feito pelos bois...
Mas
Zeus ficou verde de raiva e foi e escondeu
A
madeira de ganhar a vida [sem trabalho duro] tudo
Porque
aquele esperto Prometeu
O
enganou. Por isto Zeus fez a vida dos seres humanos difícil.
Ele
escondeu o fogo. Mas aquele fino filho de lapetos [Prometeu] o
roubou
Bem
diante do nariz de Zeus...
E
Zeus, trovejando ... ficou enraivecido e disse:
“filho
de ‘lapetos...
Eu
aposto que você está contente por ter roubado o fogo e me
enganado.
Mas
as coisas vão ficar difíceis para você e para os humanos
Depois
disto.
Eu
vou dar-lhes o Mal em troca do fogo
Um
Mal para eles amarem e abraçarem”
(Hesíodo,
Trabalhos e Dias 43-58.
Tradução de S. Lombardo)
E
este Mal “para amar e abraçar” é Pandora. Forçados a
trabalhar, enquanto as mulheres não podem trabalhar, os homens vão
ter que lidar com a vida dura, e serão responsáveis pelo próprio
sustento, assim como o sustento das suas esposas e famílias. E,
justamente como Zeus quer, não há maneira de escapar-se deste mal:
-
se um homem tenta escapar das mulheres e do casamento para não ser forçado
ao trabalho duro e ao sofrimento, ele está destinado a uma
velhice triste e solitária, sem ninguém para tomar conta dele;
-
se um homem se casa e ele tem sorte de ter uma boa mulher, de qualquer
maneira ele vai ter o bem o o mal juntos para sempre, porque a
mulher, em si,
independentemente do seu caráter individual, é má porque ela
“come” a renda do marido;
-
se um homem se casa e ele tem a má sorte de ter uma mulher que também
tem uma atitude individual ruim, para ele não há maneira de
escapar de todo tipo de tristeza e mal.
Este
é o plano de Zeus, que espelha como a mulher é vista, e qual o
antigo conceito do mal era: todas as mulheres são iguais por causa
da sua natureza (desde o nascimento); portanto, a mulher é o mal na
humanidade. Isto também inevitavelmente descortina os pensamentos
que estão na base da estrutura social: o mundo grego antigo é uma
sociedade patriarcal na qual o componente feminino não pode ser
visto de outra maneira que não seja como uma fonte potencial de
caos em um mundo previamente somente feito por homens.
Porque
ela é responsável pela entrada do mal no mundo, Pandora é freqüentemente
comparada a Eva, que também foi criada depois do homem e é a
responsável pelos seus problemas, a sua perda do Paraíso. Na outra
versão do mito de Pandora que Hesíodo oferece em Trabalhos
e Dias, há um ato de Pandora que parece dar um paralelo à
doutrina do pecado original, e conseqüentemente ao conceito de Eva.
Depois de descrever como Zeus ordenou aos vários deuses e deusas
que manufaturassem o “adorável mal”, e lhe dessem específicas
qualidades para que ela fosse uma criatura de beleza irresistível,
o poeta conta então como Zeus, através de Hermes – o deus
mensageiro – mandou Pandora à Terra, e comenta sobre os efeitos
dela com estas palavras:
“...Antes
[da chegada de Pandora] a raça humana
Tinha
vivido da terra sem problema, sem trabalho
Sem
doença e sem dor...
Mas
a mulher tirou a tampa da jarra com suas próprias mãos
E
espalhou todas as misérias que significam tristeza para os homens.
Apenas
a Esperança foi deixada no jarro inquebrável,
Grudada
embaixo da tampa, e não pôde voar:
A
mulher fechou a tampa do jarro,
E
pelo plano do dono de tudo, o que pastoreia nuvens, Zeus,
Já
naquele momento milhares ou mais de outros horrores se espalhavam
entre os homens,
A
terra está cheia de coisas más, e o mesmo acontece com o mar”
(Hesíodo,
Trabalhos e Dias 90-101.
Tradução de S. Lombardo)
Nesta
versão do mito, não é simplesmente o nascimento e a chegada de
Pandora que marcam a entrada do mal no mundo. É o seu ato de abrir
a jarra que provoca a “perda do paraíso.” Antes da sua chegada
e da abertura do jarro, não havia problemas, não havia trabalho
duro, doenças, misérias ou tristezas. Embora Hesíodo não
menciona de onde a jarra vem, ou diz qualquer coisa que diga que a
abertura da jarra foi feita devido a um ato de perigosa curiosidade
por parte de Pandora, no tempo dos primeiros apologistas cristãos
(por volta do primeiro ou segundo século depois de Cristo), a
abertura da jarra por Pandora já era comparada ao episódio de Eva
comendo a fruta proibida.
Ambas ações marcam a entrada do sofrimento e das dificuldades no
mundo; ambas mulheres – Pandora e Eva – inevitavelmente são a
personificação do mal.
Entretanto,
uma análise mais detalhada revela importantes diferenças. Para
tocar só em algumas: a criação de Pandora por Zeus foi feita para
trazer o mal à vida humana, enquanto que a criação de Eva por
Deus foi feita para dar uma companheira ao homem. Mais importante,
Deus diz a Eva para não comer a maçã; ela sabia que era proibido,
e mesmo assim ela escolheu –por assim dizer—comer a fruta ao
deixar-se ser persuadida pela serpente. Como vimos acima, em nenhuma
parte do texto de Hesíodo Pandora foi proibida de abrir o jarro.
Tudo, desde a abertura do jarro até o seu fechamento antes que a
Esperança escapasse, é “de acordo com o plano de Zeus,” o que
significa que Pandora não tem escolha. Apesar destas significantes
diferenças, sem dúvida em ambos casos a mulher e o mal se
identificam.
Na
antiga Grécia o conceito do mal personificado e espalhado pelo gênero
feminino, há algo mais que nos faz retornar à citação inicial
desta discussão: devido à vontade de Zeus, a vida humana é
caracterizada pelo mal – o mal inevitável, e por uma mistura de
coisas boas e coisas más. Na verdade, Pandora não somente é o mal
inevitável pelo qual Zeus é responsável, ela é também aquela
que reserva para os homens um tipo de antídoto contra o mal: de
acordo com os desejos de Zeus ela conserva a esperança dentro do
jarro, enquanto todos os males são espalhados.
A
presença da esperança na jarra de Pandora é debatida há muito
tempo: porque ela é media vox,
a esperança pode se tornar em uma coisa boa ou ruim, isto é, a
esperança de uma coisa boa ou ruim, somente um sonho, uma ilusão.
Como as ocorrências do mundo retratadas na poesia grega antiga têm
principalmente um significado positivo, o conteúdo da jarra de
Pandora pode significar tanto a mistura de coisas boas e más que
Zeus dá como destino humano, e a mistura de coisas boas e ruins que
a mulher personifica: as mulheres são o mal por excelência para os
homens, já que elas foram criadas para ser este mal; mas as
mulheres também podem ter uma boa atitude e assim dar aos homens o
mal misturado com coisas boas, exatamente de acordo com o plano de
Zeus.
Finalmente,
é interessante também notar que o ponto inicial de Pandora – a
entrada do Mal no mundo – é a luta entre o rei dos deuses, Zeus,
contra Prometeu, que personifica, na antiga sociedade grega, um tipo
cultural peculiar: o chamado “enganador”, ou “embusteiro”. O
enganador é aquele que se delicia na sua habilidade de ser mais
esperto que os outros, demonstrando uma ambivalência ética, já
que ele pode trabalhar para o bem ou para o mal. Suas ações
desviantes finalmente beneficiam a humanidade. Duas vezes Prometeu
enganou a Zeus para ajudar aos homens. Não é por acidente que, nas
versões posteriores do mito de Prometeu, ele é definitivamente
apresentado como um benfeitor (por exemplo, no Prometeu
de Aésquilos; e em Protágoras
de Platão). Considerando-se que em algumas das chamadas sociedades
primitivas o enganador é uma figura do mal, mas ao mesmo tempo uma
entidade positiva já que ele tem um papel civilizador, parece que
desde o começo da nossa história o mal é reconhecido como uma
parte inevitavelmente inseparável do bem, como se o bem puro não
pudesse existir sozinho.
Poderia
ser que as duas urnas de Zeus, o duplo de Pandora e seu jarro, que
espelham a dupla natureza dos seres humanos e da vida humana,
simbolizam esta concepção existencialista que os povos antigos já
tinham e tentaram explicar através dos seus mitos? Ainda mais
importante, isto é realmente assim? Nós não podemos escapar do
mal? O que pode ser verdade é que a promoção da civilização
humana e o conseqüente progresso têm um preço que em geral toma a
forma do mal. Outros temas fundamentais estão relacionados com este
assunto, mas fogem do âmbito deste artigo. Entretanto, para
tomarmos diretamente das palavras de Hesíodo: ainda há esperança
para os seres humanos.
Em
conclusão, a figura de Pandora e todos os membros do gênero
feminino incorporam o conceito primordial do mal e da sua criação.
Obviamente, a visão desenvolveu-se através dos séculos a um ponto
em que os homens já não são meras vítimas dos planos dos deuses,
e assim são forçados a encontrar o mal. Realmente, os homens são
a razão do próprio mal. A evolução deste conceito começa logo
no período arcaico inicial (ver, por exemplo, a Odisséia
de Homero, 1.32-34), e leva à descrição do declínio da
humanidade. Assim lidar com o mal, em termos da violenta passagem da
selvageria à civilização (ver Hesíodo, Trabalhos
e Dias 106-179) se transforma então no objeto de especulação
filosófica (por exemplo em Platão, República
379c-380c., 617e 4-5), e finalmente até toma cores da nossa
sociedade e problemas contemporâneos quando o dramaturgo Sófocles
( século 5 a.C) diz
“Dinheiro! Nenhuma instituição que seja tão
ruim
jamais chegou a existir para a raça humana”
(Sófocles, Antigone, 295-96. Tradução de R.
Blondell).
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