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Por GRACE KEYES
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É
o Diabo um trickster?
Grace
Keyes
Tradução
de Mark Lokensgard, St. Mary's University of San Antonio
[ilustração
1: Kokopelli, “o flautista”
Satanás,
Lúcifer, o Príncipe das Trevas, e outras denominações para o
Diabo são comuns na cultura popular, mas tais pseudônimos não
escondem a imagem geralmente aceita do Diabo como um ente
sobrenatural eminentemente mau. Entre as culturas cristãs o Diabo
é a antítese do bem e o cúmulo da malícia, do pecado,
imoralidade, e a perdição. Ele é um agente do Mal. O Diabo usa
malandragem, decepção, e armas piores para cumprir seus objetivos.
Há outra figura malandra, o Trickster,
que se encontra frequentemente na mitologia indígena
norte-americana e também outras mitologias do mundo. Como o Diabo,
o Trickster é malandro,
prega peça nos outros, e pode causar eventos indesejáveis. Ele é,
como o Diabo, sobrenatural, mas não é diabo da mesma maneira que
Satanás. O que segue é uma breve comparação entre o Diabo e o Trickster com dois objetivos: 1) mostrar que o Trickster não é o mesmo diabo que se encontra no mundo cristão, e
2) mostrar que o Satanás cristão talvez seja baseado parcialmente
na idéia antiga do Trickster.
Nas
culturas cristãs o Diabo é conhecido por uma variedade de nomes.
Satanás é provavelmente o nome mais comum e é esse nome que evoca
uma imagem do Diabo como inimigo do bem e da humanidade. Outro nome, Lúcifer, indica a ambiguidade da figura porque
esse nome o liga com o primeiro dos “anjos caídos” mencionados
no livro de Isaías. A
palavra sugere luz, e se refere ao fato que antes de sua rebelião
contra Deus, Lúcifer era “filha da alva” ou “estrela da manhã”
(Isaías 14:12), ligando talvez Lúcifer com o planeta Vênus. Satanás
é também conhecido pela autonomásia o Príncipe das Trevas, o que
sugere não apenas a sua oposição ao Príncipe da Paz (Cristo) mas
também sugere a natureza de seu domínio. O “anticristo” que
aparece no livro do Apocalipse, último livro da Bíblia, representa
o adversário de Cristo que espalha o mal no fim do mundo mas cujo
destino é a derrota com a segunda vinda de Cristo. Estes termos e
outros, como Belzebu, têm raizes variadas e seus significados não
são claros, mas as várias denominações indicam um ente
sobrenatural com grandes poderes. O Diabo é o inimigo supremo da
humanidade, a representação de tudo que é mau, e a antítese de
Deus, que presumivel e ironicamente o criou.
As
semelhanças entre o Diabo e o Trickster
– sua qualidade sobrenatural, seus atos maliciosos, tramóias,
etc. – parecem superficiais, mas estas semelhanças sugerem um
relacionamento mais próximo entre os dois do que a maioria dos
cristãos aceitaria. Ao Trickster
nas culturas indígenas norte-americans falta a malícia e
imoralidade de Satanás. O Trickster
é representado como traquinas, um travesso, menos imoral do que
amoral. Como o Diabo, o Trickster
mente, engana, e causa prejuízo mas a maioria das vezes o Trickster
também entra em apuros e, mais importante ainda, o Trickster também é visto como um agente do bem e é visto como herói
cultural. Ele não é
apenas um enganador esperto e cruel, mas como mostra Joseph
Campbell, o Trickster é também “criador da humanidade e moldador do
mundo.” Como o Diabo, o Trickster
aparece na mitologia indígena sob muitas formas. A maioria das
vezes o Trickster é um
animal, mas de vez em quando aparece em forma humana. Nas lendas indígenas
norte-americanas, o Trickster
muitas vezes aparece como coiote, corvo, aranha, lebre, castor,
peru, ou outros animais conforme variações regionais ou tribais.
Contos
sobre o Trickster se encontram em lendas indígenas desde o Canadá até a
América do Sul, os quais fazem parte de uma grande tradição de
mitologia cosmogônica. No
sudoeste dos Estados Unidos o Trickster
provavelmente tem origem com os primeiros habitantes da região.
Muitos acreditam que a famosa mas enigmática figura do
Kokopelli (o corcunda tocador de flauta; ver ilustração 1) é uma
representação antiga de um herói cultural dos Anasazis, o povo
ancestral das tribos Pueblo no sudoeste dos Estados Unidos como os
Hopis. O Kokopelli talvez represente um espírito da pajelança ou
uma figura parecida ao Trickster
cujo significado não se compreende completamente. O Kokopelli tem
forma humana nas pinturas em pedra, mas muitas lendas do sudoeste
sobre o Trickster se
tratam de animais, como o Coiote.
Uma das lendas conta de como o Coiote roubou o fogo e o
presenteou aos homens. A viagem do Coiote aparece em uma pintura em
areia dos Navajos, na qual o Coiote rouba um pau em brasa do Deus do
Fogo e viaja pelos quatro cantos do mundo, para finalmente entregá-lo
aos primeiros seres humanos (ver ilustração 2). Como Prometeu, o roubo ousado do Coiote serve para beneficiar
a humanidade. A
vulnerabilidade do Coiote nesta lenda é mais uma característica
comum aos tricksters dos indígenas norte-americanos.
De fato, o Trickster como quebrador de regras muitas vezes recebe o seu
castigo, como muitas lendas demonstram (Erdoes & Ortiz). Outras
tribos indígenas dos Estados Unidos têm lendas parecidas que
mostram como o Trickster não
é só um travesso, mas também age em prol da humanidade, e por
isso é considerado um herói da cultura. O Castor e o Corvo são
dois tricksters que
participam em atos de engano mas que afinal servem aos homens.

[ilustração
2: pintura com areia; o Coiote rouba o fogo
Joseph
Campbell, no livro The Hero of a Thousand Faces [O Herói de Mil
Faces], mostra que certos temas mitológicos aparecem em muitas
culturas e por isso são provavelmente um reflexo de preocupações
comuns ao ser humano. Não é de surpreender, portanto, que algumas
lendas do Trickster entre
os indígenas norte-americanos sejam muito semelhantes a lendas com
figuras parecidas, como a do Exu (ou Edshu), um trickster
africano, por exemplo. Campbell também nota que os tricksters parecem ter uma associação com culturas de longas tradições
de pajelança, e que algumas aventuras dos tricksters talvez simbolizem o vôo espiritual do pajé em servir de
ponte entre os mundos natural e sobrenatural (Campbell 1969).
Afirmei
antes que o Trickster e o Diabo não são entes sinônimos. São mais diversos
que parecidos, porém é provável que o Diabo tenha sua origem no Trickster.
A figura do Trickster é
mais antiga que o Diabo cristão e se encontra em muitas culturas
variadas, da África até a América do Norte. Além disso, alguns
dos nomes alternativos que tem o Diabo sugerem que imagens antigas
do Diabo tinham características ligadas a figuras mais do tipo do Trickster.
O nome Belzebu, por exemplo, revela que o Diabo possivelmente
tem uma ligação a povos pre-cristãos no Oriente Próximo.
Acredita-se que os filisteus adoravam “Baalzebub”; a
palavra em si provavelmente se deriva de uma palavra assíria para
“adversário no forum”, mas no Novo Testamento, Cristo ligou
Belzebu com o Diabo (um inimigo).
A aparência do Diabo, com casco, chifre e rabo, também sugere uma
figura de cabrito que lembra o Trickster
em forma animal. Curiosamente,
a frase “a wolf in sheep’s clothing” (“lobo em pele de
ovelha”), que hoje indica uma pessoa enganadora lembra o Trickster
em forma de Coiote e tem raizes no Novo Testamento (Mateus 7:15).
Portanto, é provável que na medida que o cristianismo evoluiu, a
idéia do Diabo se tornou mais estreita, tornando-se unidimensional,
a oposição ao Bem. O Trickster,
por outro lado, é divertido, muitas vezes cômico traquinas e herói
da cultura, enganador mas também fornecedor do Bem. Na sua pesquisa
da mitologia dos indígenas norte-americanos Winnebago, Paul Radin
nota que “O Trickster é
ao mesmo tempo criador e destruidor, generoso e negador, ele que
engana os demais e que também sempre se engana.”
Diferente do Satanás, o Trickster
incorpora uma dualidade comum entre os indígenas da América do
Norte e muitas outras culturas indígenas.
Obras
Citadas
Campbell,
Joseph. 1969.
The Flight of the Wild Gander. South Bend, IN: Gateway Editions.
Campbell,
Joseph. 1972 (1949). The Hero of a Thousand Faces. Princeton, NJ:
Princeton University Press.
Erdoes,
Richard & Alfonso Ortiz, editors. 1984. American Indian Myths
and Legends. NY: Pantheon Books, 1984.
Hyde,
Lewis. 1998. Trickster
makes this World: Mischief, myth, and art. New York: North Point
Press.
Radin,
Paul. 1956. The Trickster:
A Study in American Indian Mythology. New York: Greenwood Press.
Sharp,
Jay W. N.d. “On the Trail of Kokopelli.” DesertUSA.com
(http://www.desertusa.com/mag00/apr/stories/trail_kok.html).
World
Publishing Company. S.d. The Holy Bible. Cleveland, OH: World
Publishing Company.
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