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Por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda
no Institut Catholique de Paris e Université Marne-la-Vallée
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A
invenção de Dédalo
As
chuvas do início do verão (final de junho/início de julho)
contribuíram para que os franceses pudessem aproveitar o
divertimento que os tem atraído nos últimos tempos: o labirinto. Há
uma quarentena deles espalhada por toda a França. Feitos,
geralmente, de vegetais, alguns são efêmeros, outros permanentes.
Os temas variam a cada ano, passando pelo “Mágico de Óz, Egito,
Pequeno Príncipe, Amazônia, Victor Hugo, e este ano, para
comemorar o centenário da morte: Jules Verne”. Os parques são
abertos durante o verão, e custam entre 5 e 10 euros. A aventura se
termina, normalmente, por uma peça de teatro ou outra apresentação
qualquer, sempre relacionada com o tema escolhido.
Idéias
novas a cada ano e para cada um deles não cessam de serem
inventadas. A agricultura tem divulgado o milho, um produto não
muito valorizado no país (raramente comido – mesmo os derivados;
muitos dizem que não conseguem imaginar como, no Brasil, degustamos
a espiga cozida, para eles, isso é comida de animal). Porém, entre
outros, os milharais transformados em labirinto têm divulgado o
produto com todas as suas delícias e valores nutritivos.
Essa
moda começou em Reignac-sur-Indre, próximo à cidade de Tours, no
departamento (estado) de Indre-et-Loire – centro da França, onde
o primeiro labirinto vegetal da era moderna foi aberto em 01 de
julho de 1996. Sua imagem fez a volta ao mundo, sendo uma das fotos
mais espetaculares vista do céu (Album de Yann Arthus-Bertrand –
editora La Martinière).
O
que me chamou a atenção foi o sucesso que está tendo a invenção
de Dédalo, e a maneira cultural de se divertir que leva esse povo a
se imaginar o próprio mito. Talvez, nós, brasileiros, estejamos
mais acostumados a “brincar” de Tântalo, pois quando
acreditamos que nossa fome e sede será extinta, nossos sonhos são
transformados em pesadelos e não vemos a fome zerar, nem a sede
atenuar-se; ou talvez Sísifo, sempre no mesmo trabalho sem
recompensa, e a pedra rolando montanha abaixo. Então, muito mais
com esta idéia de mitos do que com a de Dédalo, fiquei instigada a
pesquisar um pouquinho sobre tão misteriosa invenção na esperança,
talvez, de encontrar a ansiada saída.
A
história do labirinto começou, como sabemos, com a mitologia
grega, onde o arquiteto Dédalo, a pedido do rei Minos, construiu um
labirinto para aprisionar o Minotauro, filho da traição de sua
esposa Pasífae com um touro. A construção foi tão bem feita, que
ninguém conseguia escapar ao monstro. Dédalo só confiou o segredo
à Ariana, filha de Minos, que o contou ao seu amante Teseu,
provocando a cólera de seu pai, o qual mandou aprisionar Dédalo
com seu filho Ícaro. Finalmente, construindo asas, Dédalo e Ícaro
conseguiram fugir, mas a desobediência do filho o fez voar muito
perto do sol, provocando o derretimento da cera e destruindo as
asas, o que o fez cair ao mar e morrer. Teseu, por sua vez, desafiou
o Minotauro e o derrotou seguindo o conselho de Dédalo: amarrar um
fio na entrada do labirinto e levá-lo consigo para depois poder
achar o caminho de volta.
Moeris,
no Egito, também foi um labirinto muito famoso, em 4.000 a-C, sobre
o qual Herodes dizia que, em se tratando de maravilha e indústria,
era a mais bela das pirâmides. Já mais recentemente, estão
gravados na história, os percursos - intitulados “Lugares (ou
Caminhos) de Jerusalém” - nos solos das catedrais da Idade Média,
percorridos de joelhos pelos peregrinos para serem dispensados da
viagem à Terra Santa.
Considerada
uma das construções mais enigmáticas do mundo, esse edifício
milenar, que se caracteriza por sua infinidade de longos corredores
e quartos, fascina tanto quanto intriga. Os traços de uma
complexidade, freqüentemente hermética, testemunham uma vontade
inquietante de derrotar o adversário. Impresso nas paredes de
algumas grutas pré-históricas, o labirinto deve sua posteridade a
quatro construções antigas mencionadas na história; uma delas,
fora erguida na ilha grega de Lemnos e sustentada por belíssimas
colunas; outra fora edificada como túmulo de Porsena, rei de
Clusium - Etrúria, e seus sucessores; as do Egito e Creta,
permanecem as mais remarcáveis.
Construído
pelo faraó Amenemá III, o labirinto do Egito era composto de doze
palácios e três mil peças que os ligavam. A única entrada e os
incontáveis muros esculpidos impediam os visitantes de encontrarem
a saída sem a ajuda de um guia. O Labirinto de Creta ou de Gortínia,
criado por Dédalo, é indissociável da mitologia grega. O arqueólogo
Sir Arthur Evans atesta que a construção legendária era o palácio
de Cnosso. Buscas arqueológicas revelaram uma construção nas suas
passagens estreitas e sinuosas cujo percurso era, sem dúvida,
seguro para a instalação do fio de Ariana (fio condutor que
permitiu a Teseu de encontrar a saída depois de matar o Minotauro).
O
folclore mundial apoderou-se do labirinto e o apresentou como teatro
de acontecimentos épicos. Uma teoria estabelece uma correlação
entre essas construções e o mito de Atlântida, baseada nas
impressões dessa geometria original sobre os rochedos de um lado e
de outro do Atlântico, bem como no grifo encontrado em Mogor, na
Galícia. Alguns vêem aí um plano no meio do qual o templo de
Poseidon só poderia atingir após inúmeros desvios impostos pelo
caminho. A hierarquia concêntrica e as fortificações circulares
da capital de Atlântida evocam a figura do labirinto.
Na
idade média, a Igreja oculta o sentido pagão do labirinto e lhe
confere uma dimensão religiosa. Ela substituiu, progressivamente, a
imagem de Cristo à do Minotauro nos lugares de culto. Gravado nos
solos das catedrais, ele anuncia algo de sagrado e precioso. O
peregrino remonta de joelhos até o seu centro, simbolizando uma
viagem espiritual e purificadora. As idas e voltas que precedem o
acesso ao centro representam suas próprias voltas na busca da
comunhão com Deus. A peregrinação no labirinto efetua-se em três
tempos. A Expiação vem quando se chega ao Centro. O fiel se
desapega das futilidades da existência para focalizar-se em suas
emoções e pensamentos; seu espírito, acalmado, determina a Iluminação
que intervem ao Centro. A experiência mística revela-se nas
preces; a União consiste em sair do labirinto unido a Deus.
Muitos
desses labirintos acabaram sendo destruídos por representarem uma
concessão imperdoável ao paganismo. Raros conseguiram atravessar
as épocas. Na França, os labirintos de Chartres, de Amiens e de
Guingamp estão longe de ser relíquias silenciosas de um outro
tempo. Inspiram tanto admirações como interrogações. O da
catedral de Chartres, conhecido por “Caminho de Jerusalém” é
um dos maiores. Sua singularidade reside no reflexo da rosácea do
vitral em seu centro. A especificidade do labirinto não se resume
em sua forma, nem em sua função religiosa ou militar quando
segreda tesouros. Sua localização não é aleatória. Os
labirintos de igrejas indicam, em sua maioria, pontos de convergência
de forças telúricas.
No
século XVI, os italianos levaram os labirintos aos jardins. A vocação
religiosa é esquecida prevalecendo o lúdico. Dédalo transforma-se
numa era de jogos. Sua entrada nos parques de atrações desenvolve,
dando continuidade até nossos dias, um mundo turístico-comercial
estudado de perto.
Há
quem diga que o labirinto provoca a profusão e a confusão dos
sentimentos, exercendo uma espécie de posse sobre o homem que não
consegue desvendá-lo em sua integralidade. Um ponto de vista
redutor consiste a limitá-lo a um desafio arquitetural. Os
construtores da Antiguidade preferiam uma razão mais profunda, eles
tinham consciência de seu potencial artístico. Sua riqueza faz
dele uma verdadeira fonte de inspiração. Leonardo da Vinci sempre
os colocava como plano de fundo de seus quadros. O surrealismo
estuda o simbolismo do labirinto. Rabelais não o deixou de fora da
literatura, inculcando-lhe a divisa: “Faça o que quiser”,
orna-o como o “jardim de prazeres femininos” e se associa a uma
filosofia do prazer de viver, onde divertimento e aprendizagem não
são incompatíveis. Jorge Luis Borgès o valoriza como um símbolo
forte da perplexidade dos homens face aos mistérios da vida. Goethe
disse que o que o homem não sabe ou não tem nenhuma idéia,
passeia na noite através do labirinto do espírito.
Antes
de ser uma fantasia arquitetural, o labirinto é um símbolo
poderoso; uma filosofia humana, além de uma figura original, geométrica,
sagrada ou mágica. Sua existência material só constitui uma parte
de sua história. Sua
solução encontra-se em uma aventura interna, com a condição de
aceitá-la e entregar-se a ela.
O
assunto é inesgotável, e não ousaria tentar desvendar todos os
seus mistérios nessas breves linhas. Fiquemos com o que pudermos
reter, e prossigamos a investigação se acaso nos interesse.
Continuemos no caminho de Dédalo… e porque não de Tântalo e de
Sísifo? Diferenças à parte, o objetivo é chegarmos ao final e
que nos deixem, ao menos, a esperança de podermos percorrer a
trilha na confiança de chegarmos ao fim, de saciarmos nossa fome e
sede de comida, de trabalho, de lazer, de dignidade, de vida. |
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