|
Por
ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
Doutorando em
Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück – Alemanha
|
|
Auschwitz:
a “indústria da morte”
“Pela
primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa linguagem não
tem palavras para expressar essa ofensa, essa aniquilação do ser
humano”
(Primo
Levi).
Para
todos aqueles que vêem na racionalidade e no progresso tecnológico
a esperança de um mundo melhor, a lembrança de Auschwitz,
certamente, é paradoxal. A “indústria da morte”, idealizada e
organizada com o auxílio da tecnologia e da burocracia mais avançada
da época, é incomparável à
qualquer barbárie anterior registrada na história da humanidade.
Ao visitar somente o que restou de Auschwitz, 60 anos após, uma
pergunta não quer calar: como o ser humano foi capaz de tudo isso?
A própria pergunta já revela nossa crença num possível progresso
da sociedade humana rumo a uma maior humanização ou civilização.
Terrível é ter de admitir que aquilo que costumamos chamar de
civilização produziu a moderna barbárie, uma situação que nem o
mais pessimista dos filósofos alemães anteriores ao nazismo
poderia sequer imaginar ou prever.
A
existência de campos de extermínio de pessoas, como o de
Auschwitz, pode ser compreendida como a concretização extrema de
um ímpeto presente em muitas assim chamadas civilizações, ou
seja, a eliminação intencionalmente planejada de seres humanos que
estejam obstruindo interesses de grupos sociais hegemonicamente
estabelecidos. Hitler afirmava claramente, em novembro de 1937, em
seu discurso dirigido ao Ministro do Exterior e aos seus principais
líderes militares, que em seu regime não se tratava de conquistar
pessoas e sim territórios. O programa do partido nazista anunciava
a necessidade de conquistar terra para alimentar o povo e assentar o
excedente populacional alemão. A ideologia nazista, alicerçada na
idéia de que o povo alemão é superior aos demais, se encarregava
de pregar o ódio contra a democracia, o marxismo, os judeus e todos
os que não se enquadrassem nos padrões e propósitos da dominação
totalitária: os povos eslavos, os homossexuais, os deficientes físicos,
os ciganos e os opositores políticos.
Com
o objetivo de anexar territórios e abrir a passagem para o leste
europeu a ser conquistado, a Polônia precisava ser arrasada. Hitler
ordenava suas tropas para o extermínio sem piedade de homens,
mulheres e crianças de origem polonesa, alegando que, somente
assim, a Alemanha conquistaria o espaço necessário para
sobreviver, acabando com a população residente e ocupando a área
com assentamentos alemães. Como a Polônia contava com cerca de 3
milhões de judeus (10% da população do país), a construção de
um campo de extermínio neste país não foi obra do acaso. A
escolha de Auschwitz foi estratégica, tanto do ponto de vista do
isolamento das vítimas, como na perspectiva da eficiência para o
transporte, ao exterminar o inimigo no território em que ele
existia em maior número e que deveria ser “liberado” para a
ocupação nazista, com vistas ao avanço em
direção ao inimigo maior: o bolchevismo judeu. Estima-se
que para Auschwitz foram deportados, no mínimo, 1,1 milhões de
judeus (a maioria da Hungria e da Polônia), 150 mil presos políticos
poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil presos de guerra soviéticos e
mais 25 mil presos de outras nacionalidades, especialmente tchecos,
franceses, jugoslavos, russos, ucranianos e alemães.
O
plano dos nazistas previa o extermínio total dos judeus, chegando a
anunciar o genocídio de 11 milhões na Europa e estima-se que tenha
atingido, no total, 6 milhões de vítimas. A fábrica da morte em
Auschwitz foi projetada e construída, prioritariamente, para
exterminar judeus, enquanto outros campos de extermínio se ocupavam
com os demais “inimigos declarados pelo nazismo”. O “crime”
dos judeus era terem “nascido judeus” e o governo nazista se
encarregava de classificá-los e enviá-los a Auschwitz, com a falsa
promessa de que iriam ao leste para trabalhar. Paralelamente, a
“indústria da morte” em Auschwitz contribuía com setores da
indústria capitalista alemã, através do trabalho forçado, em função
do fornecimento de gás para as câmaras de extermínio e,
inclusive, através da apropriação dos bens das vítimas.
As
vítimas podiam levar até 50 Kg de bagagem, a qual era confiscada já
na chegada em Auschwitz. Roupas, calçados, instrumentos de
trabalho, objetos de uso pessoal eram simplesmente roubados,
classificados e enviados de volta à Alemanha. Os objetos de maior
valor, como dinheiro e ouro (também o ouro dos dentes das vítimas)
eram enviados diretamente ao Banco Central Alemão e não são raros
os casos em que os soldados se apropriavam, imediatamente, de parte
desses bens. Logo após a chegada, as vítimas eram obrigadas a se
despir e entrar na “sala de desinfecção” onde recebiam uma
roupa padronizada, um número em forma de tatuagem no braço e o
cabelo era cortado, armazenado e enviado para a Alemanha, como
“matéria-prima” para a indústria têxtil.
Para ilustrar isso, quando as tropas soviéticas ocuparam
Auschwitz, foram encontradas 7 toneladas de cabelo e uma infinidade
de objetos das vítimas que ainda não haviam sido enviadas à
Alemanha.
O
extermínio foi racionalmente organizado, de tal forma, que pudesse
eliminar o máximo de pessoas em menos tempo, com os menores custos
e a maior eficiência do ponto de vista operativo. A rígida divisão
do trabalho e a extrema organização da "indústria da
morte", incorporou o conhecimento de geniais arquitetos,
administradores, antropólogos, médicos, químicos, biológos,
enfim, parte do conhecimento e da tecnologia mais avançada a serviço
da destruição de seres humanos. Para Hitler e os principais líderes
nazistas, havia, entretanto, mais um ingrediente importante na
“indústria da morte”: o uso do terror como arma política.
Segundo Hitler, qualquer um que tivesse a intenção de atacar o
governo alemão iria rever sua posição ao saber do que o esperava
nos campos de extermínio.
Esse
efeito do terror sobre a sociedade os nazistas aproveitavam para dar
o passo seguinte, de tal forma, que aquilo que, até então, parecia
inimaginável à razão humana de que acontecesse, já estava sendo
assimilado como conduta na lógica do extermínio. Assim, se
sucederam os experimentos com as vítimas, usadas como cobaias para
o desenvolvimento da medicina e da indústria farmacêutica alemã.
As atrocidades mais famosas são as conduzidas pelo médico Josef
Mengele com gêmeos e liliputianos. A documentação atualmente
existente revela, no entanto, 178 diferentes tipos de experimentos médicos
realizados, incluindo crueldades como injeções no olho sem
anestesia com a intenção de mudar a cor, esterilizações,
contaminação com vírus e bactérias causadores de doenças,
amputações e retirada de órgãos.
O
nazistas demonstraram claramente à humanidade que é perfeitamente
possível estimular a ciência e utilizá-la a serviço da destruição
do próprio ser humano e pasmem: sem que os responsáveis pela produção
do conhecimento e sua utilização tenham algum peso na consciência
ou um sentimento de culpa quanto a isso. Os soldados nazistas que
estiveram em Auschwitz e que ainda estão vivos, ao serem
perguntados sobre sua responsabilidade no genocídio, respondem que,
simplesmente, procuram não pensar no que aconteceu com as vítimas,
que eles estavam cumprindo ordens e assim conseguem viver de forma
bem tranqüila com seu passado. O mesmo comportamento é verificável
no âmbito de muitas áreas da ciência contemporânea dominadas
pela razão instrumental, onde os pesquisadores sequer questionam as
conseqüências da utilização do seu conhecimento, como se o uso e
a produção do conhecimento estivessem isolados. São os efeitos
daquilo que Herbert Marcuse denominou de caráter ideológico da técnica
e da ciência, fruto do racionalismo moderno, com potencial de produção
da barbárie em patamares ainda desconhecidos.
Por
isso, a diferença entre Ausschwitz e as barbáries anteriores da
história humana não é só gradual pela sua intensidade, mas foi
produzida de maneira substancialmente diferenciada, ao incorporar,
de forma original, a racionalidade a serviço da destruição
humana, de tal forma, que o efeito comparativo se anula. Auschwitz
inaugura, assim, uma nova versão da barbárie, a qual opera como
indústria, como uma máquina, diante da qual os protagonistas
aparecem de forma invertida, seja como pseudo-vítimas, seja como
colaboradores de um processo exterminador, no qual o contato direto
com as vítimas é, parcialmente, isolado pela própria lógica da
organização.
Esse
é um detalhe passível de verificação em Auschwitz: as próprias
vítimas eram obrigadas a executar as tarefas mais degradantes ao
ser humano, seja a retirada dos corpos das câmaras de gás como sua
transferência aos fornos de cremação. As vítimas não somente
imaginavam o que, em seguida, iria acontecer com elas, como já
vivenciavam, concretamente, sua exterminação coletiva, na qual
eram obrigadas a contribuir na forma de trabalho forçado. A destruição
da humanidade das vítimas, portanto, já se dava antes da sua
destruição física. Como descreve Primo Levi, um dos sobreviventes
do Holocausto, um campo de concentração é uma grande engrenagem
projetada para transformar seres humanos em animais. Resistir à lógica
desta máquina desumanizadora é muito difícil e doloroso.
O
que aconteceu em Auschwitz mudou as noções de barbárie que a
humanidade conheceu ao longo da história e mostrou, objetivamente,
do que o ser humano é capaz. O paradoxo da civilização moderna
que Theodor Adorno, em suas obras Dialektik
der Auflärung, de 1944, e Minima
Moralia, de 1945, corretamente caracterizou de progresso
regressivo, aconteceu e continua atual em nossa geração, marcada
pelo predomínio da racionalidade instrumental. O caráter contraditório
do progresso e da civilização nos tempos modernos, brilhantemente
abordado e discutido pela tradição da Escola de Frankfurt, merece
uma atenção especial quando nos confrontamos com as brutalidades e
genocídios presentes em nosso tempo.
Auschwitz
é um exemplo para demonstrar que, se não temos como provar,
objetivamente, a vigência de um período na história em que a
exploração e a destruição humanas não tenham existido, sua
intensificação e aprofundamento são perfeitamente possíveis.
Prafraseando Adorno, como a barbárie continua em curso, o desafio
racional da nossa existência é construir a antítese na sociedade,
de tal forma que seja possível à história produzir uma síntese
mais humana do que a que temos consciência, para que genocídios
como os de Auschwitz não se repitam jamais.
|
|

|