Por NILSON NOBUAKI YAMAUTI

Professor do Departamento de Ciências Sociais (Universidade Estadual de Maringá) e Doutor em Ciência Política (USP)

 

Rapsódia em Agosto, uma canção pela paz entre os povos

 

KurosawaA primeira imagem do filme é constituída pelos teclados de um órgão que necessita de reparos. O instrumento musical está emitindo notas que soam em desarmonia. Ele representa, simbolicamente, o problema a ser solucionado.

O problema que Kurosawa irá abordar no filme é o do rompimento dos laços entre as gerações bem como o resultado disso: a perda de memória, o esquecimento do passado, o desprezo pela história e pelo legado cultural deixado pelos nossos ancestrais. Um dos personagens do filme dirá que “para a maioria das pessoas a bomba é algo que já aconteceu faz tempo. Com o passar dos anos, as pessoas tendem a esquecer até as coisas mais escabrosas. Podemos permitir isso?”

Cena do filme...Para a exposição deste problema, Kurosawa contrapõe o Japão de antes e o Japão de depois da guerra. O Japão de antes da guerra é representado por Kane, uma velha senhora de 80 anos, vítima da bomba nuclear lançada sobre Nagasaki. O Japão do pós-guerra será representado por duas gerações, a dos filhos e dos netos de Kane.

Quando os netos vão passar as férias de verão na casa da avó Kane, ficam desapontados porque  acham que ela é uma cabeça dura que não olha para o futuro, apenas para o passado. Ficam indignados por não terem nem televisão para se distrair.

Durante uma refeição, Kane diz que a comida estava deliciosa pelo fato dela estar reunida junto com os netos. Estes decidem, então, protestar dizendo que estavam ficando revoltados com a comida preparada pela avó. Explicam a ela, sem qualquer preocupação com os sentimentos que estavam ferindo, que a comida dela era uma gororoba incompatível com o paladar deles. A avó ouve tudo em silêncio e fica desolada. Os netos saem dando risadas contentes por terem conseguido o que queriam. A neta mais velha, Tami, iria passar a preparar as refeições dali em diante.

Estendendo a análise, a segunda geração do pós-guerra não tem a mínima preocupação com os sentimentos da geração que viveu os horrores da guerra. Existe uma incompatibilidade que parece intransponível. Kane representa a dor daqueles que viram a explosão nuclear diante de seus olhos. Os netos representam a geração que venera a cultura e idolatra os ícones da nação responsável pelo lançamento da bomba nuclear. Os netos representam uma geração absorvida pelos valores da sociedade de consumo, pelos princípios de sociabilidade disseminados por relações de mercado e de produção capitalistas. A segunda geração do pós-guerra foi, em suma, seduzida e conformada pela cultura de massa norte-americana.

Dominados pela racionalidade instrumental, os netos de Kane querem convencer a avó a viajar para o Havaí a fim de visitar um irmão, Suzujiro, que está doente. Ele emigrou para o Havaí, antes da Segunda Guerra, e tornou-se cidadão norte-americano. Sem ter a mínima consideração pelos sentimentos da avó, os netos demonstram preocupação, apenas, com as férias de verão que poderiam desfrutar nas praias aprazíveis do arquipélago estado-unidense — se a avó aceitasse o convite feito pelo parente nipo-americano.

Os filhos de Kane, — Tadao e Yoshie —, que haviam ido visitar o tio doente no Havaí, acham, também, que a mãe é antiquada, atrasada e com uma moral demasiadamente rígida. Dizem que foi uma falta de consideração ela não ter aceito o convite do irmão para visitar o Havaí junto com os netos. Tadao e Yoshie representam a primeira geração do pós-guerra; representam o Japão que enriqueceu e se modernizou graças aos laços políticos e econômicos mantidos com os Estados Unidos. Tadao implora à mãe para que ela aceite o convite. Ele sabe que os laços com o parente, que se tornou milionário plantando abacaxis, pode lhe render um bom emprego no futuro.

Para o Japão que se tornou a segunda potência econômica mundial, graças à aliança com os Estados Unidos, tratar do assunto do holocausto nuclear é, no mínimo, inconveniente. Durante a visita que fez ao tio milionário de Havaí, Tadao escondeu o fato de o avô ter morrido vitimado pela bomba de Nagasaki. Ele achou que o assunto da bomba poderia provocar constrangimentos e, principalmente, prejudicar os interesses que tinha em vista.

Kane fica indignada ao ouvir os filhos dizendo, preocupados, que o assunto da bomba poderia ter ferido as suscetibilidades de seu primo havaiano Clark, herdeiro dos negócios do pai. Yoshie, filha de Kane, avisa que “Os americanos não gostam de ser lembrados da bomba”. Ela teme, também, o rompimento de relações com os parentes norte-americanos.

Neste momento, através da boca de Kane, Kurosawa faz uma crítica ao Japão do pós-guerra, ao Japão que renegou o seu passado, a sua cultura e a sua memória: “Homens miseráveis! O que se passa em suas cabeças? Parecem mendigos! O que há de errado em falar a verdade? Tolos! Eles jogaram a bomba, e não gostam de ser lembrados disso? Não precisam ficar lembrando, só não aceito que finjam ignorar”. Em um outro momento do filme, o cineasta mostrou que muitos países, — inclusive a China, que sofreu o holocausto imposto pelo Exército Imperial do Japão —, haviam enviado monumentos para reverenciar as vítimas do holocausto de Nagasaki, menos os Estados Unidos. Kane prossegue: “Eles alegam que jogaram a bomba para acabar com a guerra. Isso foi há 45 anos e a guerra não acabou! A guerra continua matando gente.”

Kurosawa sabe que um povo não tem futuro se romper suas conexões com o passado. Kane representa o Japão que existia antes da guerra. Ela coloca o respeito às pessoas acima dos bens materiais. Kane representa o Japão que tinha tempo para a fruição das coisas belas da vida como a luz azulada e suave da lua cheia. Kurosawa sonha com a utopia da reaproximação do Japão do pós-guerra com a cultura e, mais especificamente, com os valores legados pelos ancestrais, consagrados durante milhares de anos de experiência de vida prática e simbólica e transformada em sabedoria. E, inclusive, deseja que as gerações do pós-guerra não esqueçam os horrores que foram provocados pela bomba atômica.

O primeiro momento da resolução do problema

Os netos vão ao centro da cidade de Nagasaki para fazer compras e decidem aproveitar a ocasião para visitar a escola onde o avô lecionava quando a bomba explodiu. Eles, tanto quanto os pais, nunca se interessaram em saber o que aconteceu na guerra. A bomba de Nagasaki era tida apenas como uma fábula assustadora. Nunca refletiram sobre o seu significado. Por isso, nunca poderiam ter compreendido os sentimentos de suas vítimas.

Ao visitar os monumentos do holocausto, os netos de Kane reconhecem o passado de seu país e percebem o drama vivido pelos seus avós. A neta mais velha lembra que a avó estava grávida, com um filho pequeno, quando a bomba levou seu marido deixando marcas profundas em seu corpo e em sua alma.

Os netos reconhecem o drama vivido pela avó e temos aqui o primeiro momento da resolução do problema levantado no início do filme. Um deles estranha o fato de muitos países terem instalado monumentos no local da explosão e os Estados Unidos não terem instalado nenhum. A mais velha conclui: o que você esperava? Foram eles que jogaram a bomba. Nesse instante eles passam a compreender as razões de a avó não querer viajar para o Havaí para conhecer os parentes norte-americanos: “A vovó não gosta dos Estados Unidos. Afinal, o vovô foi morto pela bomba.”

Quando os netos retornam, constrangidos, para a casa da avó, passam a respeitar os seus hábitos e sentimentos. Ouvem dela, com atenção e respeito, o relato da terrível experiência. Kane se posta no mesmo lugar em que estava, junto com o irmão caçula, Suzukichi, quando ouviu a sirene de alerta tocada para avisar a população de Nagasaki do ataque aéreo iminente. Ela conta que olhou em direção às montanhas e viu, de repente, o imenso clarão no céu. E surgiu, então, um grande olho que mirou ferozmente para Kane e seu irmão. Os dois ficaram olhando para o céu avermelhado, paralisados. Feito o relato, a avó revive o drama. Ela  vê, novamente, o intenso e infernal clarão e o grande olho entre as montanhas, o olho mais terrível que ela já viu em oitenta anos de vida. Cabe aqui uma interpretação. Para os japoneses, em razão de uma formação de superego extremamente rígida, o ambiente externo é constituído por milhões de olhos que vigiam e fiscalizam cada indivíduo durante 24 horas por dia. Daí, certamente, a representação da explosão nuclear feita por Kurosawa na forma de um olhar gigantesco. O olhar externo é a coisa mais terrível que existe para os japoneses.

À noite, feita a purgação do trauma, feita a reconciliação entre presente e passado, aparece no lugar do grande olho a lua cheia com a sua luz azulada e deslumbrante. O neto mais novo diz que a lua também nos olha, mas não é assustadora. A avó acrescenta que o olhar da lua é suave.

Os netos passam a se interessar pelo passado, também, da família. A avó conta-lhes histórias sobre seus irmãos, algumas na forma mítica. Os netos, racionais ao extremo, não conseguem assimilar a forma como as gerações de antigamente explicavam os fatos, inclusive para exorcizar o medo. Eles sentem arrepios ao ouvir as histórias narradas pela avó a respeito do espírito das águas que, segundo ela, havia salvo o seu irmão caçula de um afogamento na lagoa. Kane conta que espreitou o espírito das águas. Tratava-se de um menino muito magro com os braços e pernas muito finos. Incrédulo, o neto mais velho, Tateo, questiona: como um menino tão esquelético poderia ter salvo um outro de afogamento? A explicação da avó não é racional, não é logicamente consistente, e os netos estão crescidos demais para acreditarem em contos da carochinha.

Kurosawa questiona a sacralização da razão demonstrada pela geração do pós-guerra. Para isso, ele recorre a uma cena em que o neto mais novo veste uma fantasia pavorosa, que ele mesmo criou, para assustar sua irmã e seus primos. Na noite escura, ele aparece na janela e consegue fazer todos saírem correndo, gritando apavorados. Quando descobrem quem era o monstro correm atrás dele, agora sem medo. O processo era o mesmo para os nossos ancestrais. A explicação mítica tinha essa e outras funções, inclusive cruciais para a sobrevivência da comunidade, que nossa exacerbada racionalidade só pode compreender como conto da carochinha. Os netos, se bem que racionais, embora não acreditassem em entidades sobrenaturais, morreram de medo ao acharem que tinha aparecido um de verdade bem à sua frente.

De qualquer forma, as histórias contadas pela avó, consideradas assustadoras e escabrosas, acabam fascinando e encantando os netos. Inclusive porque abalam a obstinada racionalidade deles exaltando sentimentos absolutamente humanos, celebrando paixões, decantando a magia, irradiando o mistério, a poesia e a sedução mística. As histórias contadas pela avó enaltecem o universo mítico que vem sendo dessacralizado pelo Japão moderno.

Em uma outra cena, absorvidos que foram pelos símbolos e pela racionalidade do Japão de pós-guerra, os netos não compreendem um comportamento muito estranho da avó. Kane recebe a visita de uma senhora que perdeu o marido da mesma forma que ela, às 11:02 do dia 9 de agosto de 1945. As duas ficam mais de uma hora sentadas, uma de frente para a outra, em total silêncio. Mais tarde, quando um dos netos pergunta a razão do estranho comportamento, Kane explica que ela e a amiga estavam conversando. O neto retruca lembrando que a amiga partiu sem terem trocado uma palavra. A avó sentencia que existem pessoas que se comunicam permanecendo no mais absoluto silêncio.

Após reatar os laços com o passado, a segunda geração do pós-guerra, representada pelos netos de Kane, passa a questionar a atitude da primeira geração representada pelos seus pais. Acham que eles são calculistas e maquiavélicos, preocupados apenas em atingir seus interesses materiais sem se importar com as pessoas que estão ao seu lado, utilizando-as apenas como instrumentos para a conquista de seus objetivos mesquinhos. Os netos notam que seus pais, movidos por interesses de ordem financeira, escondem o passado de seu país em consideração aos Estados Unidos. 

A resolução do problema

Ao assinalar, através da fala de um personagem, que as pessoas esquecem tudo muito rapidamente, inclusive as coisas mais escabrosas, Kurosawa não quis propor a versão nipônica do remember Pearl Harbour.

Clark, sobrinho norte-americano de Kane, vai ao Japão e diz à sua tia que desconhecia o fato de o marido dela ter sido vitimado pela bomba de Nagasaki. E, atuando como personagem que representa os Estados Unidos, pede desculpas a ela reconhecendo que cometeram um erro. Tendo como cenário de fundo uma lua cheia radiante postada acima das montanhas, no mesmo lugar de onde se viu a terrível explosão, a vítima da bomba troca um aperto afetuoso de mãos com o sobrinho norte-americano dizendo carinhosamente: “Não tem problema. Muito obrigada.”

Depois de presenciarem a cena de reconciliação, os netos cantam uma canção entoando os seguintes versos, acompanhados pelos acordes do órgão finalmente reparado: “E o garoto viu uma rosa. Uma rosa no meio do gramado brotando com toda a sua inocência. Tudo, então, lhe foi revelado. Houve, sim, uma incessante fascinação pela cor escarlate da rosa no meio do gramado”. Após a reconciliação, o vermelho que se seguiu à explosão da bomba nuclear, transmutou-se em vermelho de uma bela rosa de jardim.

A frase que fundamenta a reconciliação e o entendimento entre os povos aparece na capela construída para reverenciar a memória das vítimas da bomba: “Vamos todos nos encontrar de novo no além”.

Na parte final do filme, após o conserto do órgão, após a reconciliação entre presente e passado, após a reconciliação entre os povos, as três gerações revivem o holocausto nuclear de uma forma psicodramática, lavando as suas almas numa forte tempestade. As três gerações aparecem na tempestuosa, porém bela, dramatização com os seus laços finalmente reatados.

Conclusões

Kurosawa não aponta os Estados Unidos como culpados pelo holocausto nuclear. Para ele, “A guerra é a culpada. As pessoas fazem qualquer coisa para ganhar uma guerra.” Em certos momentos, o cineasta parece sugerir que o povo pode ser manipulado pela ignorância. Se tomarmos o personagem Clark como representação do povo norte-americano, e se considerarmos que ele desconhecia o fato de o tio ter sido vitimado pela bomba nuclear, podemos concluir que a ignorância exime o povo de culpa pelas deliberações de seus governantes.  Afinal, a decisão de jogar a bomba sobre civis não foi tomada através de um amplo referendo popular. Em O contrato social, Rousseau localizou na representação política uma das raízes dos males da humanidade. Aplicando a tese rousseauniana, enquanto delegarmos a tomada de decisões a uma pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas, as guerras e os holocaustos poderão continuar sendo inevitáveis.

No filme Sonhos, Kurosawa não culpou a guerra mas a decisão dos comandos militares que, sob a justificativa de amor à Pátria, fizeram milhões de soldados japoneses morrerem como animais. Neste mesmo filme, após um acidente nuclear que está prestes a destruir a humanidade, um personagem assinala: “A estupidez do homem é inacreditável”.

Rousseau não concordaria com esse ponto de vista porque em seu julgamento o homem é, naturalmente, bom. Nesse caso, o problema não estaria nem na perversidade e nem na estupidez do homem. Em A origem da desigualdade entre os homens, observamos que um fato histórico, — o desenvolvimento da metalurgia e da agricultura —, desencadeou a propriedade privada da terra. E a propriedade tornou-se a caixa de Pandora que levou à perdição da humanidade. Marx tomou essa idéia como princípio de sua teoria. As fontes da alienação do homem são históricas e estruturais. A apropriação privada dos meios de produção alienou o trabalho e as relações sociais. Em uma sociedade estruturalmente desalienada, as pessoas poderiam sublimar os seus instintos de destruição através do trabalho de criação e através de relações sociais determinadas pelos sentimentos de afeto e de solidariedade e não mais pela racionalidade instrumental e competitiva, não mais pela lei de seleção sócio-natural imposta pela economia de mercado. Sob uma perspectiva marxista, eliminada a fonte da alienação do homem, as guerras deixariam de existir.

Na verdade, de acordo com a análise marxista, a guerra constitui um dos paliativos para as contradições geradas pelas relações capitalistas de produção. Essas relações de produção possibilitam um desenvolvimento fantástico da capacidade de produzir riquezas, mas travam a possibilidade de distribuir a riqueza produzida. A destruição de forças produtivas alivia temporariamente a contradição. Hoje, a elite dominante nos Estados Unidos está vendo na guerra a solução para os impasses vividos pelo capitalismo. Elegeu Bush para reativar a indústria da guerra.

Aos 80 anos, Kurosawa revelou em Rapsódia de Agosto que já estava sendo apossado pela alma de uma criança. Com essa alma pura, queria mais é sonhar, enxergando as coisas sem lançar sobre elas um olhar demasiadamente crítico. Sob o olhar infantil do cineasta, tudo é equacionado de uma forma bonita e maravilhosa. Porém, embora puro, seu olhar não é politicamente ingênuo.

Quais ações poderiam contribuir para a contenção de guerras e a precipitação de novos holocaustos? Kurosawa faz a defesa de um entendimento entre os povos, de um internacionalismo pacifista, que me parece politicamente conseqüente. Acredito que na era da globalização não há mais espaço para nacionalismos estreitos no plano político e ideológico, embora ainda possa haver no plano econômico. Existem sinais de que o fortalecimento de uma sociedade civil de caráter internacional, como germe de uma democracia institucionalmente global, parece ser uma agenda importante, no plano político, para impedir a eclosão de novas guerras e novos holocaustos.

Kurosawa nos indica, ainda, uma outra perspectiva. Ele reforça a tese de que não há futuro para um povo que rompe os laços com o passado; defende a tese de que não haverá paz para a humanidade se os terrores da guerra forem apagados da memória das gerações mais novas. E ele, com mais de 80 anos, como pacifista declarado, sabe que a perda de memória é um problema perigoso. Sabe que a humanidade pode reviver os mesmos horrores do passado, se as gerações do pós-holocausto nuclear não souberem avaliar o significado concreto da explosão de uma bomba atômica sobre a cabeça de centenas de milhares de civis.

Mas a questão é posta pelo cineasta de forma mais complexa. Enquanto a humanidade conviveu na forma de comunidades tribais, a história era preservada através de narrações míticas transmitidas de uma geração para outra. Kurosawa salienta a importância da preservação dos laços entre as gerações para que as experiências vivenciadas pelos ancestrais, — transformadas em valores éticos e morais, em conhecimento, em sabedoria, em visão de mundo —, sejam transmitidas como uma herança valiosa para as gerações subseqüentes. Afinal, esse tesouro sagrado, essa herança que recebemos de nossos ancestrais, e que denominamos cultura, é que nos deveria distanciar cada vez mais do reino selvagem dos animais regidos exclusivamente pelos instintos de sobrevivência. A transmissão da herança cultural no distancia, sob um certo sentido, da barbárie.

Nas sociedades modernas, as exigências de um mundo do trabalho condicionado pelo fenômeno da globalização, o predomínio da racionalidade de tipo instrumental nas relações intersubjetivas, a supremacia de princípios utilitaristas na orientação de comportamentos, a desagregação da família determinada pela falta de uma fonte regular de renda para os progenitores, o afrouxamento dos laços dentro da família nuclear provocado pelo conflito entre gerações, são alguns dos fatores que dificultam a transmissão dos valores fundamentais que sedimentaram o que hoje denominamos humanidade.

No filme Rapsódia em Agosto, observamos que os estímulos do Japão moderno, o fascínio produzido pela sociedade do prazer e do consumo, levam pais e filhos a renegar os valores culturais do passado, levam as gerações do pós-guerra a repudiar o tesouro de ordem simbólica acumulado pelos seus ancestrais.

No mundo moderno, a veneração que dedicamos à ciência, a nossa admiração pelas conquistas fantásticas da tecnologia, a ansiedade produzida pelo que o futuro nos reserva, a velocidade estonteante das transformações que ocorrem dentro do furacão revolucionário em que estamos inseridos, nos faz sentir que tudo o que é velho deve ser descartado e nos leva a concluir que todos aqueles que são velhos devem receber o mesmo tratamento, de forma implacável.

Ostentando títulos acadêmicos, após dedicar a vida toda ao estudo de um pensador, de uma única obra, de um minúsculo fragmento da realidade, percebemos que não adquirimos uma pequena fração da sabedoria que tinham os homens das comunidades tribais. A ciência positiva não nos permitiu conquistar a sabedoria revelada por um Dersu Uzala, a sabedoria atingida, repentinamente, pelo velho burocrata do filme Viver. Resultado: incultos, acumulando uma imensa quantidade de informações desconexas, produzindo conhecimentos instrumentalizáveis pela máquina monstruosa de criar laranjas mecânicas, estamos nos transformando em bárbaros cada vez mais crentes de que o homem é, de fato, o lobo do homem e merece ser destroçado. Uma situação perfeita para uma nova experiência de destruição nuclear, só que agora, em termos tecnológicos, muito mais eficaz que a de Hiroxima e Nagazaki.

Kurosawa era, enfim, um pacifista. Sua mensagem de alerta é endereçada à humanidade e não às elites ou às classes dominantes. Sua crítica é dirigida mais à maldade do homem e à guerra, do que à forma de ordenamento sócio-estrutural das relações entre os homens. Ele revelou em alguns de seus filmes suas preocupações com as desgraças universais do gênero humano. Refletiu sobre as razões da infelicidade humana sem filiar-se a uma corrente teórica ou a um projeto político específicos. Em Os sete samurais, pudemos notar a tese leninista sobre o papel do partido na organização das massas. Em Cão danado e O idiota, a tese rousseauniana de que o homem é bom, a sociedade é que o corrompe. Em Dersu Uzala, a reafirmação da tese de Rousseau a respeito da bondade natural do homem ainda não corrompido pela sociedade de classes. Em Ran, pudemos observar a idéia hobbesiana e conservadora de que a perversidade é inerente ao gênero humano. E em Viver, sem questionar de forma mais conseqüente as condicionantes sociais, o diretor japonês nos mostra a possibilidade de o indivíduo libertar-se de sua condição de alienação a partir de uma mudança solitária de atitude perante a vida. Em suma, Kurosawa exprimiu em seus filmes um notório amor pela humanidade sem demonstrar certeza sobre as fontes de sua infelicidade e sem defender qualquer projeto político de emancipação do homem. Dava, apenas, o melhor de si como artista, sem a pretensão de propor transformações revolucionárias da sociedade.

Por isso, para o espectador desatento, Rapsódia em Agosto pode parecer uma água com açúcar deliciosamente piegas. Todavia, se prestarmos um pouco mais de atenção, verificaremos que se trata de um filme que nos conduz a reflexões politicamente cruciais, sobretudo se considerarmos o momento histórico que estamos atravessando dominados por uma grande perplexidade.

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

 

clique e acesse todos os artigos publicados...

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2005 - Todos os direitos reservados