Por JOSÉLIA GOMES NEVES

Professora, filiada ao Partido dos Trabalhadores de Rondônia é membro da Tendência Movimento PT

 

O Partido dos Trabalhadores: 

sonhos, decepções e reconstruções

 

Tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul...

Belchior

 

O contexto político em que vivemos atualmente no Brasil – considerando as recentes e explosivas denúncias de ligações e transações financeiras ilícitas, entre o PT, órgãos do Governo Federal, parlamentares e empresários, tem provocado uma inquietação, um mal estar muito grande em mim, um sentimento que procura me convencer de que a construção histórica do qual somos herdeiros parece que não tem mais como se viabilizar. Perdemos a razão de ser? Tenho, ás vezes a impressão de estar presente em um debate permanente e exaustivo – promovido pelas pessoas próximas a mim, pela mídia e por mim mesma mediante as perguntas que me são feitas, que me faço e que nem sempre tenho condições de responder, já que não disponho dos elementos satisfatórios para construir essas respostas. Ainda faz sentido o PT?

Tudo que é sólido se desmancha no ar? Esta sensação de déjà vu me remete ao ano de 1989 quando os pensadores do capitalismo decretaram o fim da história, a morte da utopia e do sonho socialista – segundo eles, pulverizados nos escombros do muro de Berlim. Lembro o sentimento de desânimo e pessimismo que assolou todas as esquerdas. Ainda há lugar no mundo para a utopia? Em 1992, Paulo Freire publicou a Pedagogia da Esperança um reencontro com a Pedagogia do Oprimido e foi por meio da leitura desta obra que consegui repensar a situação e principalmente com ele questionar o discurso cínico da nova (des) ordem mundial que tentava nos proibir de sonhar com uma sociedade inclusiva. Paulo Freire reconhecia as fragilidades do chamado socialismo real, entretanto apontava o calcanhar de Aquiles das forças que se autodeclaravam vencedoras: Que excelência é essa que consegue conviver com mais de um milhão de habitantes do mundo em desenvolvimento, que vivem na pobreza, para não falar em miséria? Que excelência é essa que não se comove com o extermínio de meninas e meninos nos grandes centros urbanos brasileiros; que proíbe que 8 milhões de crianças populares se escolarizem, que expulsa das escolas grande parte das que conseguem entrar e chama a tudo isso modernidade capitalista?(FREIRE, 1993, p.96). Para ele o nome que traduz o desejo e a luta pela utopia pode até não ser mais expresso no termo socialismo, mas a idéia de lutar por um mundo melhor permanece, porque na condição de seres humanos, nunca estamos prontos, somos seres inconclusos, cuja única vocação é ser mais. Sobre a questão, Eric Hobsbawm em seu livro Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991 analisa que: Vivemos num mundo conquistado, desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico do desenvolvimento do capitalismo, que dominou os dois ou três últimos séculos.(...) ele não pode prosseguir ad infinitum. O futuro não pode ser uma continuação do passado... (HOBSBAWM, 1995, p. 562). Estas reflexões dialogam com minhas perplexidades.

A dificuldade de compreender e interpretar adequadamente a atual situação provoca essa necessidade de escrever, ler, dialogar, buscar nestes mecanismos argumentos honestos que possam permitir uma releitura dos acontecimentos que sem dúvida problematizam e exigem uma reatualização do pensamento petista. Avalio esta reação como uma presença da esperança freireana: Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por um imperativo existencial e histórico, porque nega a lamentação inicial, que embora seja necessária, deve passar deste estágio e avançar sob pena de produzir uma imobilização frente aos fatos, além de alimentar a perigosa crença presente no discurso fatalista do senso comum de que as coisas são assim mesmo, todo político é corrupto, e para ser mais contemporânea: Somos todas e todos Robertos Jefersons.

O exercício e a decisão de não aceitar fazer parte deste coro, permite a busca de novas ressignificações políticas, que a meu ver, passam necessariamente por uma auto-avaliação no âmbito do Partido dos Trabalhadores – este momento exige de nós, filiados e filiadas maturidade para enfrentar nossas contradições. Ter coragem de investigar as acusações, encaminhar as punições adequadas e, sobretudo denunciar possíveis injustiças. O que não podemos é assumir a posição licenciosa de passar a mão na cabeça de companheiros/as implicados, mas também não podemos patrocinar em nome de uma suposta posição ética, uma ação de caça as bruxas. Daí que um comportamento esperado, em nome do projeto maior – as propostas que construímos nestes 25 anos, seja o reconhecimento pessoal ou coletivo dos erros, por parte daqueles/as que porventura tenham algo a dizer e a assumir diante do Partido e da sociedade brasileira.

Não cabe neste momento abafar, “administrar” – prática que para algumas de nossas lideranças, tem significado suplantar, escamotear, esconder debaixo do tapete fatos suspeitos ou constatados. A superação dos conflitos só será possível se tivermos capacidade para explicitá-los, pagarmos o que tivermos que pagar e assim talvez, teremos uma chance de resgatar nosso projeto utópico e passarmos a limpo nossa história. A negação dos erros, a arrogância farisaica e a crença na memória curta do nosso povo nos iguala ao que tem de pior do conservadorismo das elites políticas do nosso país. Neste sentido, perderemos uma chance histórica de nos reinventar e continuar representando de forma legítima e inequívoca uma alternativa para o conjunto da sociedade brasileira, o que implicará diretamente no sério risco de comprometermos a reeleição do companheiro Lula, tendo em vista a agenda eleitoral de 2006. Nosso silêncio pode ser interpretado como um consentimento à chantagem feita pelo sociólogo e ex-presidente tucano.

Pouco entendo de economia, mas fico profundamente incomodada com os comentários que os capitalistas brasileiros e em particular os banqueiros nunca lucraram tanto como no Governo Lula. Entretanto, paradoxalmente, observo que neste mesmo governo muitos capitalistas comumente tem aparecido nos noticiários, algemados e nas páginas (não) policiais dos grandes jornais, como o recente caso da loja de granfinos, a Daslu. Ações desta natureza promovem e promoverão impactos que precisam ser antecipadamente pensados; uma coisa é prender pobre, sem-terra, políticos corruptos, outra é mexer nas maracutaias da burguesia, que certamente produzirão mecanismos de reação. É necessário ter clareza do que significa estas práticas fraudulentas e sua relação com os problemas do nosso povo. Eduardo Galeano em seu livro As veias abertas da América Latina, nos ajuda a compreender estas implicações: A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema. Do mesmo modo, e simetricamente, o bem estar de nossas classes dominantes – dominantes para dentro, dominadas de fora – é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga (GALEANO, 2002, p. 14).

A nossa capacidade de auto-avaliação, reconstrução e reinvenção, fundamentadas na perspectiva de lutar para viver em um mundo menos feio e uma sociedade menos arestosa, no dizer de Paulo Freire, nos anima apesar de tudo. Este processo possibilita a aprendizagem de importantes lições que precisam ser levadas em conta, considerando os episódios que estamos vivenciando atualmente. Entendemos que há necessidade de revermos nosso programa político, refletirmos sobre o conceito de governabilidade – em nome da governabilidade na maioria das vezes, negociamos sonhos e negamos nosso compromisso com a transformação social, em função disso, acabamos por produzir ações paliativas, inconsistentes e principalmente distanciadas das promessas que permitiram nossa chegada até aqui: É desejo dessa gente querer um Brasil mais decente, ter direito a esperança e uma vida diferente. Como Perry Anderson, acreditamos que: Idéias que não sejam capazes de chocar o mundo não serão capazes de sacudi-lo. (ANDERSON, 2003,p. 92). Prosseguimos, afirmando cotidianamente o Partido dos Trabalhadores como possibilidade e viabilidade política porque Precisamos da utopia como do pão para a boca.  (SANTOS, 2001, p.43). E se para impedir a construção da utopia, a direita - celebrando a exclusão, inventa o Fórum de Davos, nós respondemos com o Fórum Social Mundial: um novo mundo é possível!

 

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Referências Bibliográficas

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. 42. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

ANDERSON, Perry. Idéias e ação política na mudança histórica. IN: Revista Margem Esquerda: ensaios marxistas. São Paulo: Boitempo, 2003.

SANTOS, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

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