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Por MÁRIO MAESTRI
Mário
Maestri, 57, é doutor em História pela UCL, Bélgica, e
professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. |
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Uma
Defesa do Quilombo
No
início dos anos 1500, viviam no litoral brasílico em torno de
seiscentos mil americanos, sobretudo aldeões de língua
tupi-guarani. Os colonizadores lusitanos ocuparam as terras litorâneas;
eliminaram, escravizaram ou assimilaram as populações nativas;
impuseram economia escravista e latifundiária voltada à produção
de mercadorias. Por três séculos e meio, a produção escravista
colonial regeu a sociedade colonial e imperial brasileira, impondo
duríssimas condições de existência aos trabalhadores
escravizados, primeiros americanos, a seguir africanos e
afro-descendentes.
Os
trabalhadores feitorizados serviram-se de diversos meios para
oporem-se, em forma consciente, semi-consciente e inconsciente à
exploração escravista, destacando-se entre eles a resistência na
execução do trabalho; a apropriação de bens por eles produzidos;
o justiçamento de escravistas e prepostos; o suicídio; a fuga; o
aquilombamento; a revolta; a insurreição. O cativo resistiu
ininterruptamente, mesmo quando se acomodava à escravidão.
A
principal forma de resistência do cativo à escravidão foi a oposição
ao trabalho escravizado, através do corpo mole, da sabotagem
das ferramentas, do auto-ferimento, etc. O profundo
desamor ao trabalho feitorizado impôs a necessidade de que o
produtor direto fosse estreitamente vigiado, durante a produção,
ou duramente castigado, quando não cumpria suas tarefas, ensejando
gastos não-produtivos com o controle e a vigilância que oneravam
duramente essa forma de produção, como apontado por Jacob Gorender,
no clássico O escravismo colonial.
Uma
não menos significativa forma de oposição à escravidão foi a
fuga, através da qual o cativo libertava-se das amarras que o
prendia ao escravizador, criando as condições para um exercício
autonômico de sua força de trabalho. Se a oposição incessante ao
trabalho e as outras formas de resistência
minaram a produção escravista, foi a fuga dos cativos,
concentrados na Centro-Sul, durante o auge da cafeicultura, que
assentou o derradeiro golpe à instituição, como desvelado no magnífico
estudo de Robert C. Conrad, Os últimos anos da escravidão no
Brasil.
As
fugas foram uma hemorragia incessante na produção escravista.
Fugiam trabalhadores escravizados, de ambos os sexos, crianças,
jovens, adultos ou já idosos; fugiam cativos das cidades, das residências,
das embarcações, das chácaras, das fazendas, das olarias, das
charqueadas. Fugia o cativo crioulo, que não conhecia outra vida
que a vivida no jugo da escravidão, fugia o africano apenas ou há
muito chegado ao Brasil, que vivera em liberdade no Continente
Negro. Fugia o cativo doméstico, o trabalhador do eito, o ganhador
especializado. Os fujões escapavam em grupos ou aos pares, mas
sobretudo sozinhos, para visitar amigos e parentes; para viver como
negros livres libertos nas cidades e nos campos; para procurar a
proteção de acoitador cúmplice; encontrar o abrigo em um
ermo do interior. A documentação referente à sociedade escravista
está prenha de registros dessa vontade incessante de liberdade e, não
raro, da dura vontade de mantê-la, mesmo pela força. Ali onde era
possível, os cativos fugiam para além das fronteiras do Brasil,
onde comumente se reconhecia a sua liberdade.
Apenas
o desconhecimento, até há poucos anos, do caráter hegemônico da
escravidão no Brasil e da dominância da oposição entre
escravizador e escravizado, impediu a correta avaliação e
releitura de nosso passado a partir daquela contradição. E isso
apesar dos trabalhos germinais de Benjamin Péret, “Que foi o
quilombo de Palmares?” ,
de 1956, de Clóvis Moura, Rebeliões da senzala:
quilombos, insurreições, guerrilhas ,
de 1959, de Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia ,
de 1966, entre outros.
Até
hoje, não contamos com estudos gerais sistemáticos sobre a fuga de
cativos no Brasil, possíveis de serem realizados apenas a partir do
cruzamento de múltiplas fontes. Tentar por exemplo estimar a incidência
dessas ocorrências através dos anúncios de jornais pagos pelos
proprietários de fujões é uma quase inocência historiográfica.
Por inúmeras razões, apenas uma parte dos escravistas utilizava-se
desse recurso. Nem mesmo as listas de cativos fugidos expressam
plenamente a dimensão do fenômeno. Em geral, elas não abarcam as
perdas dos proprietários de poucos cativos, as fugas de breve duração,
os fujões já presos ou sem título de propriedade, etc.
Praticamente
todas as estimativas isoladas, ainda que baseadas em uma documentação
lacunar, sugerem que, nos períodos de normalidade institucional,
de dois a cinco por cento da população escravizada encontrava-se
fugida, o que permite uma idéia aproximativa da forte pressão da
fuga – assim como a da possível fuga – sobre a produção
escravista, através dos gastos necessários de vigilância, das
jornadas de trabalho jamais recuperadas, da perda de capitais
investidos, da desvalorização do preço do cativo capturado, etc.
São muito raros os momentos em que a ordem capitalista conheceu uma
atividade grevista sistemática de tamanha dimensão.
Não
possuem base documental as tentativas da historiografia
neo-patriarcal de minimizar a importância da fuga e de transformá-la
em mera resistência cultural; em ação transitória do
cativo crioulo, para forçar o escravista à “negociação”; em
reação do africano insatisfeito com o meio hostil, pois ainda desconhecido;
em recurso do cativo querendo “descansar” um pouco, etc. Todos
esses fujões sempre vivamente dispostos a retornar ao regaço paternal
do negreiro, já que “ansiosos” pelo trabalho no eito e
pelas raras horas concedidas por alguns escravistas para
“atividades autônomas”.
Nessas
apresentações apologéticas do cativeiro colonial, a resistência
transforma-se em uma vontade política singular do cativo de
“transformar a escravidão no seio da escravidão”, e não em
sua superação, ainda que através da emancipação individual.
Essa proposta, que exigiria do cativo nível de consciência impossível
para a época, se realmente procedesse, tornaria desnecessários os
ingentes gastos de vigilância em feitores, em homens do mato, em
tropas municipais e regionais e, sobretudo, dispensaria a intimidação
terrorista a que a população escravizada foi submetida. Por
necessidades estruturais da sociedade negreira, e não por ruindade
dos escravistas, era habitual cativos condenados, além
das penas de morte ou de prisão, a até mil e quinhentas
chicotadas, como Solimar Oliveira Lima assinalou em
seu magnífico estudo Triste pampa: resistência e
punição de escravos em fontes judiciárias no RS, referente ao Rio
Grande do Sul, região do Brasil já apresentada como terra
de amos afáveis.
Ao
igual de outras regiões da América, desde o início do cativeiro,
nos campos mas também nas cidades do Brasil, um grande número de
cativos fugia à procura de um ermo qualquer do interior, de um
abrigo nas escarpas de uma serra, no coração de uma ilha, nos
embrenhados de um mangue ou na profundeza de uma floresta. Através
do exercício da antiga sabedoria dos oprimidos de que se “deus é
grande, o mato é ainda maior”, os cativos fugidos procuravam
formar uma comunidade de produtores livres em um espaço geográfico
e social que, por suas características, estivesse longe do braço
pesado do negreiro. No Brasil, essas comunidades foram conhecidas no
passado sobretudo como mocambos ou quilombos.
No
novo espaço de liberdade, o trabalhador escravizado escapado
usufruía dos produtos de seu esforço, empregado na agricultura, no
artesanato, na caça, na coleta, no extrativismo, na pesca, na
rapinagem, etc. Em forma mais ou menos sistemática, as mais
diversas regiões do Brasil escravista conheceram quilombos. Não
temos igualmente estimativas sobre o número de minúsculos,
pequenos, médios e grandes quilombos, formados durante o passado
escravista brasileiro. Entretanto, ele possivelmente se eleva às
dezenas de milhares.
A
importância quantitativa e a extensão geográfica das fugas e dos
aquilombamentos influenciou profundamente a história política,
social, econômica, demográfica, etc. do Brasil. Porém, apenas nos
anos 1970 e 1980, o estudo das comunidades de cativos fugidos
conheceu importante impulso, desenvolvendo-se então pesquisas sobre
os principais quilombos e levantamentos, mais ou menos exaustivos,
da incidência desse fenômeno em praticamente todas as regiões do
Brasil.
Esses
valiosos estudos centraram-se na identificação e descrição política,
social e econômica do quilombo, considerado porém mais comumente
em forma isolada, no que se refere ao espaço e ao tempo. Foram
raras e limitadas as tentativas de análises diacrônicas e sincrônicas
sobre a determinação pelos quilombos da história rural
brasileira, da povoação do interior, da fronteira agrícola, da
formação de comunidades caboclas de origem africana, da influência
dos padrões do português falado no Brasil etc.
Em
fins dos anos 1980, com a maré neoliberal, sob a
ditadura da “história das mentalidades”, da “história
da vida quotidiana”, da “história cultural”, etc., os estudos
sobre a sociedade escravista, em geral, e das formas de resistência
do trabalhador escravizado, em particular, recuaram
significativamente em prol de campos historiográficos mais amenos e
menos conflituosos. No mesmo sentido, dominaram os estudos
escravistas as interpretações neo-paternalistas sobre o
escravismo, não raro de conteúdo linearmente apologético, que
terminaram construindo cenários quase bucólicos e idílicos, onde
a visão da oposição e da luta entre escravista e cativo cedeu
lugar à proposta de uma verdadeira complementaridade e identidade
de interesses entre o senhor e seu escravo.
No
relativo aos poucos estudos sobre os quilombos neste último período,
impôs-se fortemente a substituição da sua compreensão como
resistência do trabalhador à escravidão pela apresentação das
comunidades de cativos fugidos como forma de resistência cultural
ou como recurso para forçar os escravistas à negociação no
interior da escravidão. Também foi empreendida assimilação do
quilombo à economia dos pequenos plantadores, dos cativos com
direito a hortas, etc., que praticamente diluiu a essência e
singularidade do fenômeno como forma de resistência à escravidão.
A
passada ênfase historiográfica sobre o quilombo e uma maior
organização da comunidade negra ensejaram que, quando da
Constituinte de 1988, fosse aprovado o
dispositivo constitucional provisório – artigo 68 –
determinando o reconhecimento da propriedade da terra ocupada pelos
“remanescentes das comunidades dos quilombos”. A necessidade de
mapear e comprovar a existência de tais comunidades e, a seguir, a
proposta de ampliar os contemplados pela determinação, não através
da extensão da abrangência da Lei, mas com interpretação casuística
da mesma, ensejaram o renascimento do interesse pelos quilombos e o
debate sobre a sua essência.
***
Adelmir
Fiabani defendeu, em 16 de novembro de 2004, no Programa de Pós-Graduação
em História da UPF, a dissertação de mestrado “Mato, palhoça e
pilão: o quilombo, da escravidão às comunidades remanescentes.
[1532-2004]”, que tive o privilégio de orientar, que acaba de ser
lançada, sob forma de livro, pela Editora Expressão Popular – expressao.popular@uol.com.br
–, com pequenas modificações sobretudo de forma – Mata,
palhoça e pilão: o quilombo, da escravidão às
comunidades remanescentes [1532-2004]. [São Paulo: Expressão
Popular, 2005. 424 pp.]
Participaram
da banca examinadora do trabalho os professores doutores Théo
Loubarinhas Piñeiro, da UFF, e Fernando Camargo, da UPF, que
acordaram ao mesmo a nota máxima, recomendação para publicação
e ressaltaram a sua valiosa contribuição à retomada dos estudos
sobre as comunidades dos trabalhadores escravizados, sobre a questão
dos remanescentes dos quilombos e sobre o mundo rural brasileiro, no
passado e no presente.
Na
primeira parte do trabalho “Quilombo na historiografia: uma
genealogia crítica”, Adelmir Fiabani apresenta ampla revisão crítica
da historiografia sobre o quilombo, desde as épocas coloniais e
imperiais e, portanto, produto da pena – num sentido não apenas
figurado – de autores contemporâneos e em geral apoiadores da
ordem escravista, até os dias de hoje. Essa
parte do trabalho permite conhecimento bastante exaustivo do
fenômeno e das evoluções, permanências e tentativas de superações
das visões dominantes sobre ele na cultura historiográfica
luso-brasileira e brasileira.
Baseado
sobretudo nesse amplo material,
a segunda parte de Mato, palhoça e pilão,
“O quilombo no Brasil: uma tentativa de análise sintética”,
desenvolve ensaio de interpretação estrutural do fenômeno, através
da definição de suas determinações essenciais, após apresentar
as diversas tentativas de periodização e de sistematização sobre
o quilombo realizadas sobretudo nos últimos anos. Se a primeira
parte de trabalho restaura as descrições e avaliações dos
quilombos nos últimos séculos, criando um muito útil instrumento
de pesquisa, a segunda apresenta sólida base para reflexão
categorial sobre o fenômeno.
Finalmente,
na última parte, “Quilombo e antropologia: novos significados”,
apoiado solidamente na definição das determinações essencial do
fenômeno empreendida na segunda parte, Adelmir Fiabani abraça a
abordagem “antropológica” do quilombo, realizada sobretudo –
mas não apenas – após a aprovação do dispositivo
constitucional transitório que, nos casos extremos, sob o pretexto
de ampliar a abrangência daquela determinação para toda e
qualquer comunidade da cidade e do campo com alguma origem
afro-descendente, empreende uma clara dissolução da objetividade
dos fatos históricos, necessariamente ancorados na materialidade e
na temporalidade dos acontecimentos, para defini-los como produtos
da subjetividade humana, em uma verdadeira, como define
o autor, “recriação da tradição”, através de negação
e desrespeito da história.
Mato, palhoça e pilão: o quilombo, da escravidão às comunidades
remanescentes [1532-2004],
de Adelmir Fabiani, constitui poderoso instrumento de informação
sobre as comunidades autônomas dos trabalhadores escravizados
fugidos e as visões lançadas sobre elas nos últimos séculos. O
trabalho apresenta-se, igualmente, como forte defesa da necessidade
inarredável de respeito à integralidade da história das classes
trabalhadoras hegemônicas no passado escravista, principais
ancestrais do mundo do trabalho do Brasil. História que constitui
instrumento fundamental para a segura superação das crescentes
contradições atuais entre o mundo do trabalho e o mundo do
capital.
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