O Vestígio e a Aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo

Jurandir Freire Costa

Rio de Janeiro: Garamond, 2004, 244p. 

(Coleção - A lei do desejo)

email: editora@garamond.com.br 


 

Os textos aqui reunidos analisam a chamada crise de valores do contemporâneo a partir de fenômenos como o culto ao corpo e à aparência, o consumismo e a cultura da imagem. São textos marcados ao mesmo tempo pela erudição, pelo rigor e pela ética. Embora pontuado pela filosofia, pelas ciências sociais e pela psicanálise, este não é um livro só para acadêmicos ou especialistas. A escritura de Jurandir Freire, clara e por vezes poética, torna seu pensamento acessível a todos os que se interessam pelas grandes questões da existência humana e pelos impasses do mundo de hoje.

Ainda que perplexo, como todos nós, frente aos fenômenos do contemporâneo, o autor não se inclui em nenhum momento entre aqueles que, de forma pessimista e catastrofista, alimentam a idéia de que nossa época destruiu totalmente os valores éticos e morais forjados pela civilização humana. Tampouco carece de crítica ao pensamento que encontra a essência do humano num âmbito ideal, além dos desejos e aspirações materiais. Nas nossas preocupações, atitudes e sentimentos relacionados ao corpo, ao consumo e à imagem subjazem, segundo Freire, a pequenez e a grandeza do humano: “Refletir sobre destradicionalização não é dotar o passado da aura que o magnifica, nem reduzir o presente às ruínas do que passou. Os valores, tradicionais ou não, são deste mundo.”

Sem concessões ao meio termo ou ao lugar-comum, Freire navega entre o que Walter Benjamin chamou de vestígio – “o aparecimento de uma proximidade, por mais distante que esteja daquilo que a suscita – e a aura – o aparecimento de uma distância, por mais próximo que esteja aquilo que a suscita”. E segue com grande sensibilidade a recomendação de Bergson: “Onde houver uma contradição, faça uma redescrição! Mude a perspectiva de observação, troque as premissas dos raciocínios, explicite os acordos tácitos que fundam as conclusões consensuais e, por fim, submeta a sua opinião à dos outros. No mínimo, o que parece sem sentido ganha um novo sentido; no máximo, recuperamos o tônus da vontade de sentir, pensar, julgar e agir em liberdade”. O resultado é uma análise lúcida, questionadora, profunda e engajada, características que marcam a obra de Jurandir Freire Costa, um dos mais importantes pensadores brasileiros da atualidade.

 

sobre o autor

Jurandir Freire Costa nasceu num pequeno vilarejo de Pernambuco em 1944. De lá saiu aos 15 anos e foi para Recife, onde formou-se em Medicina. Logo depois viajou para Paris, iniciando sua formação psicanalítica, no internato em Psiquiatria e um trabalho em Etnopsiquiatria na École Pratique des Hautes Études. Voltou ao Brasil e fixou residência no Rio de Janeiro, cidade na qual terminou sua formação psicanalítica. É membro do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), no Instituto de Medicina Social (IMS), onde desenvolve suas pesquisas e orienta dissertações de mestrado e teses de doutorado. Ele não se considera um Dom-Quixote numa sociedade programada para outro tipo de sucesso ("Não somos filhos de economistas e sim do sonho alucinado de Rousseau e Diderot"). É um dos maiores pensadores que o Brasil tem atualmente. Tal percurso de vida faz com que Jurandir observe o mundo com certo relaxamento, o que explica sua simpatia à relativização e à não-universalização dos valores. É esse caminho pessoal que marca seu intenso envolvimento ("meio militante e intempestivo", diz ele) e a impossibilidade de adotar o "tom exato da discussão acadêmica" quando discute suas idéias. Preocupado em entender as circunstâncias do exercício da psicanálise no Brasil, Jurandir dirige sua atenção principalmente para a pesquisa sobre a violência contra as minorias de qualquer ordem. Mas também já voltou sua atenção para as psicoterapia de grupos, as instituições psiquiátricas, as questões éticas contemporâneas, a redescrição de pressupostos psicanalíticos através do viés da filosofia pragmática, já analisou a identidade homoerótica e as teorias psicanalíticas que tentam dar conta dela, pôs em cheque o ideário do amor romântico contemporâneo, entre tantos outros assuntos de seu interesse.

Ele tem participado ativamente da vida social do país através do seu referencial teórico - a psicanálise - e considera que esta pode também contribuir para aquilo que ele chama de "mal-estar social" que vivemos. 

Tem trabalhado com a filosofia pragmática, através das contribuições de Richard Rorty, Donald Davidson entre outros. Mas é em Hannah Arendt que se encontra sua autora preferida. Atualmente, além das contribuições de Freud e Lacan, tem trabalhado com a perspectiva de Winnicott na psicanálise e suas contribuições às questões do corpo, seu atual tema de pesquisa.

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Fonte: http://www.jfreirecosta.com/2.html

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