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Por JUN IWATA
Jun
Iwata é professor de inglês na Mukogawa Women's University em
Nishinomiya, Japão; doutorando em literatura americana, e está
escrevendo sua tese sobre Saul Bellow
Deaths under Sadly Blue
Skies: A Personal Testimony
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A
morte em dias de céu azul e triste:
um
testemunho pessoal
[Tradução:
Eva P. Bueno]
Quando
uma bomba atômica foi jogada na cidade de Hiroshima e explodiu a
uma altura de 570 metros acima do solo, eu tinha seis anos de idade,
e morava na prefeitura de Yamaguchi, que fica ao lado de Hiroshima.
Como se sabe, todos os homens adultos daquelas cidades tinham sido
forçosamente recrutados e despachados para outros lugares para
participar naqueles últimos dias de desesperada luta; por esta razão,
uma grande parte das vítimas em Hiroshima eram bebês, crianças,
adolescentes, donas de casa, e velhos. 140.000 pessoas foram mortas
instantaneamente pela bomba, e o número dos mortos se calcula que
eventualmente totalizou 250.000 (de acordo com o relatório oficial
feito pela cidade de Hiroshima em 1950). Centenas de feridos
morreram anualmente de doenças causadas pela radiação nos vários
anos seguintes.
No
dia 6 de agosto de 1945, às 8:15 da manhã, uma enorme bola de
fogo, muito mais brilhante que o sol, com a extrema temperatura de
calor de quase 10 milhões de graus Celsius no seu centro, e com a
pressão explosiva várias centenas de milhares de vezes mais forte
que a pressão normal do ar, explodiu e arrasou a parte central de
Hiroshima. A explosão aplainou a cidade de Hiroshima em um raio de
5 km, matando instantaneamente todas as criaturas vivas dentro de um
raio de 8km. Onde os raios de calor bateram diretamente, a superfície
de tudo derreteu no momento – madeira, cimento, aço, e até mármore
– se tornaram líquidos com o extremo calor. Algumas pessoas
simplesmente evaporaram, deixando nas calçadas ou nos degraus de
pedra somente suas sombras, a única marca da sua efêmera existência
neste mundo. Algumas pessoas foram torradas como carvão. Algumas
cambalearam até os rios com as peles dos seus rostos despencando,
quase caindo completamente; outros se arrastaram com a pele das suas
costas caindo aos pedaços. Quase todos aqueles feridos morreram
assim que chegaram a um rio e beberam da água. Milhares de corpos
inchados flutuaram rio abaixo, e este ficou literalmente coberto de
cadáveres que se tocavam, ombro a ombro.
Nós
soubemos mais tarde, através de vários meios, sobre estes
incidentes infernais e sobre todas aquelas mortes. Eu soube sobre
alguns destes horrores pessoalmente, porque os vi com meus próprios
olhos. Mesmo depois de tantos anos eu não posso olhar para aqueles
lugares onde aconteceram aquelas coisas horríveis sem sentir uma
dor no coração. O que eu sinto é descrito muito bem num trecho de
um famoso romance baseado em fatos, Chuva
Negra, de autoria de Masuji Ibuse:
Eu
notei que estava chegando ao lugar que eu nunca mais queria ver.
Havia um poço com água usada para combater fogo, bem ao lado da
estrada, e três mulheres estavam flutuando na água do poço,
mortas, quase nuas, com as faces voltadas para baixo, mas com a
cintura acima da superfície. Das nádegas de uma dela, os
intestinos haviam saído em uma extensão de mais de um metro, e
estavam inchados como um tubo fino que tivesse sido enchido de ar até
chegar a uns 10 cm de diâmetro. Assim como se fossem um balão
circular em cima da água, os intestinos da mulher se moviam ao
vento pra lá e pra cá.
Quando
eu tinha pouco mais de 6 anos de idade, eu também fui forçado a
ver uma cena similar, a confrontar um horror como este com meus próprios
olhos. Mas aquele incidente aconteceu muito mais tarde que aquelas
tragédias em Hiroshima e Nagasaki.
Quando
as atrocidades infernais aconteceram em Hiroshima, eu era um aluno
de primeiro ano primário, e estava brincando no pátio, mas perto
da nossa casa de refúgio para evitar ser atacado por balas de
metralhadora vindas do ar. Naquele tempo, e já por vários meses,
muitos aviões B-29 circulavam, com grandiosidade e mesmo
solenidade, acima das nossas cabeças dia e noite, porque as forças
armadas japonesas tinham perdido o controle do ar há muito tempo.
Por mais ou menos quatro meses depois de minha entrada na escola
primária, nós éramos avisados por sirenes quase todos os dias, e
tínhamos que voltar para nossas casas imediatamente, porque um
ataque aéreo era iminente.
E
finalmente, aproximadamente um mês antes do ataque a Hiroshima, no
meio de uma noite nós tivemos um grande ataque aéreo com bombas
incendiárias. O nosso pai, que era o capitão de uma balsa
cargueira, estava sempre de plantão. Os membros da nossa família
– minha mãe com um bebê amarrado nas costas, o meu irmão mais
velho e eu – nos refugiamos rapidamente em uma montanha localizada
a cinco minutos de distância a pé, da nossa casa. As forças
armadas japonesas tinham um modesto posto de defesa contra aviões
nesta montanha.
Quando
nós chegamos ao largo caminho de terra, depois de subirmos um
trecho íngreme cheio de vegetação, nós fomos subitamente jogados
al longe por um vento muito forte, e eu me encontrei caído de
costas contra a minha mochila. Sem saber o que tinha nos acontecido,
eu olhei à minha volta e vi que meu irmão estava tentando lutar
contra o fogo na sua roupa e nos seus braços, e minha mãe
desesperadamente tentando ajudá-lo. Estranhamente, naquele momento
me pareceu que os fogos no meu irmão pareciam que o estavam
acariciando. Eu não pude mover-me; calmamente olhei para cima e vi
que as grossas folhas de verão estavam devagarinho começando a
pegar fogo acima da minha cabeça, contra o céu escuro. Eu não
podia ouvir nada. Eu conscientemente pensei que tudo me fazia sentir
como se eu estivesse muito tranqüilamente deitado na minha cama.
O
que aconteceu foi que um grande grupo de bombas incendiárias tinha
caído a cinco metros de nós. Nós soubemos disto quando
re-visitamos o lugar no outro dia, curiosos para saber exatamente o
que tinha acontecido. Nós ainda pudemos ver um buraco enorme e
fundo no meio da estrada. Esta foi a minha primeira experiência de
quase morrer, e eu não tive medo.
Aquela
noite, nós assistimos, cobertos pelas grandes árvores, uma enorme
formação de aviões B29 flutuando lindamente nas luzes dos
refletores, de vez em quando despejando pontinhos luminosos de
bombas que saíam das suas fuselagens. As bombas caíam ao chão
fazendo um rastro com linhas horizontais brancas como aquelas de uma
página de caderno iluminado contra o negro do céu da noite.
A
nossa casa, localizada ao pé da montanha, pegou fogo imediatamente
e queimou num instante. Eu, como era um menino curioso, vi a minha
casa queimando e achei que ela era bonita, com suas linhas brancas e
claras mostrando a armação da nossa casa como uma pintura
desenhada a fogo. Eu não estava com medo, nem triste, porque todos
os vizinhos também perderam suas casas no mesmo ataque aéreo.
Depois
deste incidente, nós recebemos ordens de nos juntarmos todos em uma
casa de refúgio em grupos de duas ou três famílias, e desde então
passamos a viver juntos, compartindo os poucos quartos. Para mim,
foi uma alegria morar com meus amigos da vizinhança e seus pais
debaixo do mesmo teto, embora nós tivéssemos só um pouco de
comida racionada.
E
assim que começamos a viver nestas circunstâncias, o fim do mundo
veio no dia 6 de agosto em Hiroshima. Na tarde ou no começo da
noite nesse mesmo dia, vários dos pais e um par de velhinhos se
juntaram em um canto de uma sala e começaram a falar animadamente,
em voz baixa, sobre alguma coisa muito séria. Como eu era muito
curioso, eu fui para perto deles, e escutei do que estavam falando.
Tudo
o que eu pude ouvir foi que uma nova e horrível bomba tinha sido
jogada em Hiroshima aquela manhã, e que um enorme número de
pessoas tinha morrido imediatamente. Mas, de acordo com algumas
informações, o alvo inicial teria sido a nossa própria cidade,
Shimonoseki, ou Kokura, uma cidade vizinha separada da nossa por um
canal marítimo. Ambas cidades têm muitas fábricas e uma população
considerável, além de pessoal das forças armadas.
Então,
nós pensamos, muito provavelmente logo o inimigo vai jogar outra
bomba em nós ou em Kokura. Nos disseram que a nova bomba parecia um
balãozinho oscilando e descendo vagarosamente no céu limpo, e de
repente o balãozinho virou um sol brilhante que queimou e explodiu
tudo. Então alguém chamou esta bomba de “bomba-balão”. Todos
os que estavam ouvindo assentiram com a cabeça, concordando, porque
nós, mesmo as crianças, sabíamos que as forças aliadas e nós
japoneses estávamos competindo para inventar uma bomba-balão muito
destruidora. E com esta informação sobre Hiroshima, nós tínhamos
que admitir que tínhamos perdido a competição. Assim, nós também
pensamos, agora é só uma questão de tempo para todos nós
morrermos juntos, talvez dentro de um ou dois dias.
Eu
memorizei o nome, “bomba balão” e queria muito ver uma caindo
do céu azul. Eu entendia muito bem que o momento que eu visse uma
bomba balão seria também o momento da minha morte, mas eu não
sentia nenhum medo. Naquele tempo, todos os jornais disponíveis
insistiam que nós, cem milhões de japoneses, devíamos lutar
contra o inimigo mau até que último de nós estivesse morto, se as
forças inimigas descessem na nossa sagrada ilha pátria. E todos os
japoneses pareciam estar de acordo com esta idéia, incluindo eu
mesmo! Eu me lembro que eu não tinha medo de morrer, desde que
eu morresse com meu pai e minha mãe, com meu irmão e com todos os
nossos conhecidos, todos japoneses. Eu corri para a janela mais próxima
através da qual eu podia olhar para o céu, e eu fiquei lá um
longo tempo, esperando que o balão aparecesse. Eu ainda me lembro
perfeitamente e nunca esquecerei este momento, em que eu pensei pela
primeira vez que a minha morte estava para chegar em um instante.
A
partir do dia do bombardeio de Hiroshima, a nossa conversa na
comunidade se concentrou em quando
e como nós seríamos mortos. Nós não tínhamos nenhuma dúvida que
seríamos mortos, mas quando e como? Provavelmente com uma outra
bomba balão? Com metralhadoras ou com espetadas de baionetas? A
maneira que eu mais detestava era ser morto com uma baioneta, que eu
imaginava que me daria uma dor terrível. Mas, mesmo naqueles
momentos, eu devo confessar que tinha a esperança que houvesse uma
pequena possibilidade que nós pudéssemos sobreviver nem que fosse
pela misericórdia do vencedor, ou por qualquer outro golpe de
sorte. Entretanto, aquela leve esperança desapareceu completamente
logo, apenas 3 dias depois da atrocidade em Hiroshima.
Outra
bomba atômica foi jogada em Nagasaki, matando 73.884 pessoas
instantaneamente, e ferindo 74.909 seriamente. A cidade de Nagasaki
tinha fábricas pesadas, tais como estaleiros. Entretanto, Nagasaki
também era conhecida como um lugar com muitos cristãos e com
lindas igrejas cristãs. Assim como Hiroshima, Nagasaki também está
localizada relativamente perto de nossa cidade. Embora eu era
somente uma criança, quando eu ouvi as notícias da nova bomba atômica
jogada em Nagasaki, eu pensei comigo mesmo, “Por que Nagasaki? Já
chega disto! As Forças Aliadas devem estar planejando eliminar
todos os japoneses, exatamente como o nosso governo e todos os
nossos jornais dizem”. Mais tarde, ouvimos dizer que a segunda
bomba atômica deveria ter sido jogada em Kokura, a cidade vizinha
à nossa, a não ser que o tempo não estivesse bom para o
bombardeio. E o tempo em Kokura estava ruim naquele dia. Nós fomos
salvos pelo mau tempo.
De
fato, na ocasião do ataque atômico a Nagasaki, com os mesmos horríveis
resultados que em Hiroshima, todos os adultos na nossa comunidade
ficaram como que paralisados. Mas, na verdade, o incidente em
Nagasaki nos impressionou tão profundamente que todos nós
japoneses que passamos por aquela experiência ainda nos lembramos e
cantamos uma canção chamada “Os sinos das igrejas de Nagasaki”.
A
canção conta a história verdadeira de um doutor de radioterapia,
e cristão devoto, que tinha sido batizado com o nome de Paul. Ele
foi ferido seriamente no ataque quando ele estava trabalhando no
hospital. No mesmo instante, sua jovem esposa, também cristã, foi
morta na cozinha da casa, e dela só restou o seu amado rosário,
que ela usava no pescoço. O doutor, também muito doente, embora
ele tivesse perdido sua esposa em um dia de céu limpo, ainda tentou
e continuou trabalhando o mais que pôde cuidando dos outros feridos
pela bomba. Ao mesmo tempo, ele tinha que cuidar dos seus filhos –
dos filhos dele e da esposa – um menino e uma menina, que haviam
sobrevivido ao bombardeio. Ele morreu não muito tempo depois do
ataque atômico, devido a demasiada exposição a radiação e
devido ao excesso de trabalho, e deixou sozinhos os dois filhos. Sua
esperança, a canção diz, é ir para o céu e encontrar sua
adorada esposa que morreu tão jovem, respondendo ao chamado do seu
Deus. Os sentimentos tristes e profundos deste doutor estão
cristalizados na letra de uma canção dedicada a ele num filme de
1950, feito para comemorar sua vida de devoção. A canção diz,
“Eu nunca soube antes, que somente ao ver um céu límpido eu
poderia me sentir tão triste e solitário. Minha amada esposa se
foi, deixando para nós somente o seu rosário; ela está lá, no límpido
céu”. Esta letra então certifica que, de fato, as duas bombas
foram jogadas em dias de céu azul.
O
fim da guerra chegou abruptamente, com a declaração feita pelo
nosso sagrado imperador através das ondas vacilantes e chiadas do rádio,
no dia 15 de agosto, novamente em um dia de sol. De repente, nós
todos estávamos livres para irmos mais uma vez brincar. E assim,
imediatamente voltamos ao porto para nadar todos os dias, como o fazíamos
antes que os ataques aéreos se tornaram muito freqüentes e
perigosos.
Havia
uma pequena enseada usada pelos pescadores, e protegida das ondas
mais fortes por uma amarração. Dentro da estreita enseada, a água
era calma. Lá fora era como um rio rápido e caudaloso, porque o
nosso estreito canal marítimo é conhecido por sua corrente rápida
e por sua importância no tráfego marítimo. Portanto, centenas de
minas tinham sido colocadas e espalhadas pelo canal. Mas, desde que
nós crianças ficássemos dentro da amarração, era seguro e
divertido. O único problema era que este pequeno porto que parecia
um poço sugava para dentro tudo o que passava a mar aberto e trazia
para dentro do nosso refúgio.
O
que acontecia então quando nadávamos era que muitos cadáveres
inchados flutuavam dentro da amarração durante a maré alta. Eles
vinham pela entrada, quase todos marinheiros, vinham entrando com as
caras pra baixo, como se estivessem envergonhados de si mesmos;
quase todos os corpos estavam nus, e eram de homens jovens. Quando
eles chegavam perto de nós, nós nadávamos pra longe e ficávamos
a observá-los em silêncio. Com o tempo, mais e mais cadáveres
começaram a vir ao nosso espaço protegido, e então gradativamente
o número de nadadores diminuiu. Eu ainda acho muito esquisito, mas
eu nunca vi ninguém cuidando daqueles corpos, embora eu sei que
muitas pessoas os viram; havia muitas casas de pescadores viradas
para a entrada do porto, com as janelas abertas em direção ao mar.
Aquelas pessoas devem ter estado muito ocupadas cuidando da própria
vida naqueles dias, logo depois do fim da guerra. Isto deve explicar
porque ninguém se importava com os corpos dos mortos.
Uma
manhã, eu fui nadar mais cedo que de costume. Fui sozinho, usando
somente minhas cuecas e sandálias de madeira. Eu estranhei, porque
não havia nenhum outro menino para nadar comigo, e não havia
nenhum pescador por perto. Ninguém. Quando eu estava a ponto de
mergulhar na água, eu vi o corpo de um jovem vindo pela entrada.
Ele estava de bruços como os outros que eu tinha visto antes, com
as costas acima da cintura fora da água devido ao inchaço
provocado pelo gás no seu corpo. Eu fiquei observando-o por um
tempo, sentindo-me um pouco envergonhado, porque eu achava que tinha
a obrigação de notificar alguém para que o corpo do pobre rapaz
fosse cuidado. Eu me lembro de ter ficado em pé, e tentado pensar
no que fazer, porque eu era o primeiro a encontrar o corpo desta
vez. Eu tinha que fazer alguma coisa.
Então
de repente eu ouvi um som de uma batida vindo das costas do cadáver,
mas eu não pude ver nada. Em seguida, ouvi o barulho de uma pedra
batendo contra a água; eu conhecia aquele som muito bem. E então
eu ouvi o horrível som de uma pedra batendo contra as costas do
homem morto; eu olhei e vi a pedra afundando no corpo, deixando um
buraco feio, uma abertura, bem no meio das costas.
Eu
não podia acreditar! E um segundo mais tarde, outra e mais outra e
mais outra pedra, todas atiradas com precisão, atingindo o corpo,
despedaçando ainda mais aquela pele já tão frágil. Eu fui
subitamente tomado de uma raiva extrema, e fiquei quase louco, começando
a correr por todo lado, tentando agarrar este invisível atirador de
pedras. Eu não me importava naquele momento – ou melhor, eu
esqueci – como eu era pequeno e não sabia brigar. Para minha
tristeza, eu vi que não podia nem saber direito de onde vinham as
pedras. Elas foram todas atiradas muito rapidamente. Eu procurei e
procurei por todos os cantos e esconderijos. Eu queria tanto agarrar
quem estava fazendo uma coisa tão horrível. De repente, a
saraivada de pedras parou tão abruptamente como tinha começado. Eu
vi que não podia fazer nada, e não podia pedir a ajuda de ninguém.
Cabisbaixo, comecei a arrastar meus pés em direção a minha casa.
Eu
certamente senti, naquele momento, que uma parte inocente e
importante de meu ser se havia perdido para sempre naquele dia
quando eu vi o jovem morto sofrendo sua última humilhação. De
volta para casa, eu aos poucos entendi que minha extrema raiva ao
atirador de pedras era a mesma raiva contra o que tinha acontecido
em Hiroshima e Nagasaki. Deve ter havido alguma coisa muito errada e
má escondida por trás de todas estas misérias, incluindo minha própria
morte. Foi um tipo de revelação muito triste para mim, mas naquele
momento, eu não tinha uma consciência clara, ou uma idéia clara
do que fazer com a raiva que eu tinha acabado de reconhecer. Eu
tinha quase sete anos de idade, naquele dia, sessenta anos atrás.
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