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Por EVA PAULINO BUENO Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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A
guerra continua, por outros meios, em Okinawa
Sempre
que juntamos as palavras “Japão” e “1945”, nos lembramos
dos bombardeios atômicos a Hiroshima e Nagasaki. Entretanto, antes
do ataque de agosto de 1945, outro aconteceu em outra região do Japão,
no qual um terço da população civil pereceu durante o ataque
americano à ilha. No total, embora haja alguma discrepância nos números
dados pelos diferentes pesquisadores, pelo menos 12.000 soldados
americanos, 107.000 soldados e recrutas forçados japoneses, e 100.000 civis morreram na campanha de 83 dias.
Os civis – cujo envolvimento na guerra vinha do simples fato de
morarem na ilha – morreram queimados pelas bombas, ou por suicídio,
ou se refugiaram nas grutas nas montanhas e lá morreram asfixiados
quando as entradas das grutas foram destruídas por bombas. Antes de
Hiroshima, Okinawa se destacava como o lugar onde mais perda de vida
e destruição haviam ocorrido. Com o bombardeio de Hiroshima, e de
Nagasaki depois de alguns dias, o foco passou a essas duas cidades,
que se transformaram em símbolo da vitimização da população
civil e de destruição do meio ambiente através do poder atômico.
Mas, neste momento em que lembramos o aniversário do fatídico
ataque a Hiroshima e Nagasaki há sessenta anos, é importante não
esquecermos Okinawa, por várias razões.
A
mais importante delas é que Okinawa continua carregando as marcas e
os traumas, não só da invasão e da luta sangrenta de 1945, mas
também de sua história e relação de território sujeitado ao Japão.
De uma certa maneira, embora a guerra tenha acabado em 1945, para os
habitantes de Okinawa ela ainda continua, de forma diferente, nos
dias atuais, devido às mesmas razões históricas e políticas que
levaram soldados japoneses a matarem, eles mesmos, com suas próprias
mãos, os civis de Okinawa, e a instruírem até as crianças como
cometer suicídio usando granadas de mão, cordas, e outros meios.
Tudo, menos cair nas mãos dos americanos, que os soldados japoneses
pintavam como verdadeiros monstros.
*
Um
grupo de ilhas ao sul do Mar da China, a região que hoje em dia
conhecemos como Okinawa, se encontra em uma localidade ideal para
desenvolver o comércio com as nações vizinhas.
De fato, as ilhas componentes deste arquipélago, uma vez formaram
um reino independente que comercializava com o Japão, a China, e as
Filipinas. O nome deste próspero reino era Ryūkyū.
Entretanto, em 1609 japoneses ligados ao clan Satsuma, vindo da região
de Kagoshima, invadiram o reino, e passaram a construir os castelos
cujas ruínas podem ser vistas até hoje em dia. Embora estes nobres
japoneses não eram oficialmente os governantes do arquipélago, em
realidade eles dominaram todos os setores da vida pública até
1879, quando houve a restauração Meiji. Esta restauração,
devemos lembrar, foi um dos resultados da chegada dos poderes
ocidentais e a “abertura dos portos” japoneses pelos Estados
Unidos. É possível dizer-se que uma das primeiras lições que o
Japão obteve dos Estados Unidos foi a da expansão territorial;
assim, sua primeira tentativa de expansão afetou imediatamente o
arquipélago: o reino Ryūkyū foi abolido, Okinawa passou a
ser parte do território japonês, e a funcionar como uma espécie
de barreira – ou “pára-choques” – entre o território do
Japão e os poderes estrangeiros. Mas a anexação não ocorreu sem
luta: a China protestou a anexação, e o último rei de Ryūkyū
foi mandado a Tokyo, onde foi acusado de traição e executado.
Okinawa, “admitida” ao território japonês desta forma, nunca
foi considerada parte integrante do país, e esta situação
continua custando muito aos habitantes do arquipélago.
As
razões para a discriminação e para o uso de Okinawa como escudo e
material de barganha são muitas. Uma delas, e eu creio que é a
principal, é o fato do povo de Okinawa ser diferente do japonês.
Consideremos a questão lingüística. O povo de Okinawa fala 6
outras línguas além do japonês: Anami, Miyako, Okinawan, Kunigami,
Yaeyama, Kunaguni. Racialmente, a população é constituída do
produto da miscigenação, por muitos séculos, entre os povos da
Malásia, China, Coréia, e Japão, e os autóctones. A distância física
do Japão, a proximidade a outras nações, a diferença étnica,
lingüística e cultural, tudo contribuiu para o que aconteceu em
Okinawa em 1945, quando os americanos invadiram o arquipélago no
fim da Segunda Guerra Mundial. Okinawa, o entreposto mais longínquo
desta nação que havia se fechado ao mundo exterior, sempre ocupou
a posição de “quase gaijin” – ou seja, “quase
estrangeira.”
Ora, é muito mais fácil fazer guerra e fazer barreira com o sangue
dos outros. Para o Japão imperial, que havia ordenado a invasão,
sujeição, destruição de tantos outros países asiáticos,
Okinawa e seus habitantes serviam muito bem para os propósitos de
“manter os americanos ocupados” enquanto, no Japão propriamente
dito, as forças armadas se reorganizavam.
O
sacrifício de vidas de pessoas de Okinawa na mão dos próprios
japoneses não deveria surpreender a ninguém, no clima político de
1945.
*
Depois
da segunda guerra mundial, quando o Japão assinou a sua rendição
aos Estados Unidos, o território de Okinawa passou a ser possessão
americana. Por quê? Por dois fatores básicos. O principal deles
era o interesse dos Estados Unidos em manter um contingente militar
estacionado na Ásia, e o outro, o interesse do Japão em manter
relações amigáveis com os Estados Unidos, os quais ofereceriam
proteção militar ao Japão já que este havia renunciado à
guerra.
O povo de Okinawa não foi consultado.
O
território de Okinawa continuou em posse dos Estados Unidos até
1972, quando reverteu ao domínio japonês. Mas isto não quer dizer
que a presença militar americana no arquipélago cessou de existir:
ainda hoje há mais de 50.000 soldados americanos em Okinawa. Esta
presença massiva foi amplamente justificada pelas atuações
militares americanas na região, a guerra da Coréia e a guerra do
Vietnam, especialmente, durante as quais Okinawa era uma base
importante. Mais uma vez, o povo de Okinawa não foi consultado.
*
Em
1995, um grupo de três soldados americanos violentou uma menina de
12 anos em Okinawa. A população, enraivecida pela tentativa dos
militares americanos de varrer este assunto debaixo do tapete, foi
às ruas e protestou. Os militares foram presos, julgados, e
condenados. Este episódio desencadeou outras formas de tomada de
posição, e alguns passos foram tomados para aliviar a carga de
Okinawa na sua tarefa de “hospedar” os militares americanos.
Esta carga compreende, além da presença de soldados de outro país
no território deles, outros tais como poluição sonora e
ambiental. O povo de Okinawa delineou seu pedido, que incluía o
retorno de parte da terra usada para as bases americanas, a diminuição
do barulho causado pelos aviões, e tomada de medidas para o
retreinamento dos soldados estacionados em Okinawa, para que eles não
mais cometessem atrocidades contra a população das ilhas. Em
resposta a estes pedidos, alguns passos foram tomados, tais como o
envio de alguns aviões para o Japão. No entanto, a questão da
presença de tantos soldados e do conseqüente impacto social,
ambiental, moral e cultural na terra de Okinawa continua. De vez em
quando, incidentes envolvendo soldados e a população local indicam
que esta convivência forçada é potencialmente nociva.
Por
outro lado, temos a questão da desestabilização do sistema político-ecológico
do arquipélago: os donos das terras usadas pelos Estados Unidos são
pagos por este uso. Este dinheiro, especialmente na região mais
pobre do Japão, constitui muitas vezes a maior fonte de renda dos
proprietários. Se os Estados Unidos saíssem de Okinawa de um
momento para o outro, e o Japão não tomasse providências reais
para re-estabelecer o sistema econômico do arquipélago, haveria
grandes problemas para toda a comunidade. As chances do Japão
utilizar seu tempo, recursos, pessoal, para assistir Okinawa, não são
muito boas, pelas razões históricas mencionadas acima. Certas
percepções racistas não desaparecem por mágica. Mas há sinais
que algumas coisas estão mudando.
Ultimamente,
um pequeno grupo, composto principalmente de jovens – tanto do Japão
como de Okinawa – tem se manifestado advogando a libertação do
Reino de Ryūkyū de todas as suas amarras coloniais. O
território do arquipélago voltaria então a ser uma entidade política
independente, não mais ligada ao Japão. Desta maneira, o tratado
entre o Japão e os Estados Unidos, dando a este último a opção
do uso de Okinawa, estaria desfeito. Ryūkyū então poderia
entrar em acordos diretos com os dois países, acordos estes que
seriam feitos de maneira a beneficiar o arquipélago, de acordo com
o desejo dos próprios cidadãos de Okinawa, e não segundo os desígnios
estabelecidos em Tóquio e Washington. (Ver Yoshiro Takeshita,
especialmente, sobre este assunto.).
Ainda
é cedo para saber se estes movimentos em direção da independência
de Okinawa vão dar frutos concretos. Enquanto nada acontece na
arena política, o povo e a terra de Okinawa continuarão sendo
testemunhas de que a segunda guerra mundial pode ter terminado em
1945, mas algumas feridas ainda continuam abertas, e um povo
continua carregando um fardo pesado, herança daquela guerra.
Referências
bibliográficas
Brooke,
James. “Okinawa
Suicides and Japan's Army: Burying the Truth?” The
New York Times, June 20,
2005
Fuqua,
Jacques. “Understanding Okinawa's Role in the U.S.-Japan Security
Arrangement.” http://www.indiana.edu/~japan/Digests/okinawa-pfv.htm
(10 de julho de 2005).
Kerr,
George H. Okinawa: The History of an Island People, rev. ed.
Rutland, Vt.: Charles E. Tuttle Company, 2000.
Sarantakes,
Nicholas Evan. Keystone: The American Occupation of Okinawa and
U.S.-Japanese Relations. College Station, Tex.: Texas A&M
Univ. Press, 2000.
Takeshita,
Yoshiro.
“The Independence of Ryukyu Kingdom!!
How to deal with "the problem of the US bases in Okinawa."
Tradução ao inglês por Furukawa,
Hiroshi, e Ogura, Keiko. http://www004.upp.so-net.ne.jp/teikoku-denmo/english/history/ryukyu.html (15
de julho de 2005)
“The
Battle of Okinawa.” http://www.globalsecurity.org/military/facility/okinawa-battle.htm
(13 de julho de 2005)
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