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Fukuyama
e a Crise do Estado na Era da Globalização
Em
seu novo livro, Francis Fukuyama, o autor de “O fim da história”,
demonstra que a obsessão neoliberal pelo Estado mínimo vem se
transformando numa grave ameaça á segurança de todos os países
do mundo, inclusive para os desenvolvidos.
Se
existe um consenso sobre as conseqüências da globalização da
economia e do novo paradigma tecnológico, este se refere ao
enfraquecimento do Estado nacional. A abolição seletiva das
fronteiras nacionais, com prioridade absoluta para o capital, tem
conseqüências que ainda estão apenas se esboçando, mas já geram
enorme preocupação.
Nas
palavras de Manuel Castells:
“A
capacidade instrumental do Estado-Nação está comprometida de
forma decisiva pela globalização das principais atividades econômicas,
pela globalização da mídia e da comunicação eletrônica e
pela globalização do crime”. (CASTELLS, 2002: 288).
Esse
efeito na verdade está em perfeita sintonia e decorre do pensamento
dominante, que vê o Estado como o responsável por praticamente
todas as mazelas de qualquer nação, ao mesmo tempo em que
preconiza seu desmonte de forma indiscriminada.
Mas
o problema é que o enfraquecimento do Estado tem conseqüências sérias,
principalmente se em seu lugar, resta apenas o domínio do interesse
privado, local e global. Jeremy
Rifkin, em tom sombrio, já se referia a isso em 1995:
“Em
um número crescente de nações industrializadas e emergentes, o
deslocamento tecnológico e o desemprego estão levando a um dramático
aumento de criminalidade e de violência aleatória, dando um
claro presságio dos tempos de instabilidade que estão por
vir”.(RIFKIN, 1996:231).
Já
para Gilberto Dupas, o Estado modelado a partir das duras experiências
das guerras mundiais, significava uma garantia de estabilidade que
transcendia em muito os aspectos meramente econômicos. A partir da
citação:
“Até
o final dos anos 60, o keynesianismo foi à ideologia oficial do
compromisso de classe, sob a qual diferentes grupos podiam entrar
em conflito nos limites de um sistema capitalista e democrático
(...) A crise do keynesianismo é uma crise do capitalismo democrático.
(Przworski & Wallerstein, 1988)”. (DUPAS, 2001:110).
Dupas
conclui que:
“De
fato, o keynesianismo manteve, desde o pós-guerra, a expectativa
de que o Estado poderia harmonizar a propriedade privada dos meios
de produção com a gestão democrática da economia (...) O
Estado provedor de serviços sociais e regulador do mercado
tornava-se mediador das relações – e dos conflitos –
sociais”. (DUPAS, 2001:110).
Mas
para todos esses autores, o problema da crise do Estado-Nação,
ainda fica restrito ao próprio país, seu povo, sua economia e suas
instituições. Francis Fukuyama no entanto, amplia de forma dramática
essa visão crítica.
Já
no prefacio de seu novo livro “Construção de Estados”, ele
afirma que: “Estados fracos ou fracassados constituem a fonte de
muitos dos problemas mais graves do mundo, da pobreza a AIDS, drogas
e terrorismo”. (FUKUYAMA, 2004:9).
E
mais adiante, chega à verdadeira preocupação:
“O
colapso ou a debilidade do Estado já criou grandes desastres
humanitários e de direitos humanos durante a década de 1990 na
Somália, no Camboja, na Bósnia, em Kosovo, no Haiti, e no Timor
Leste. Durante algum tempo, os Estados Unidos e outros países
puderam fingir que esses problemas eram apenas locais, mas o dia
11 de setembro provou que a fraqueza do Estado também constituía
um enorme desafio estratégico”. (FUKUYAMA, 2004:11).
Embora
restrinja o problema aos países pobres, reconhece que boa parte
dessa situação se deve a aceitação universal do “consenso de
Washington”, segundo ele, um “pacote” de medidas,
“sugeridas” pelo FMI, Banco Mundial e Governo dos EUA, cuja ênfase
é a drástica redução do grau de intervenção estatal nas
atividades econômicas.
Segundo
Fukuyama, esse “pacote” passou a ser conhecido como
neoliberalismo pelos seus “detratores” na América Latina. A
impressão que passa é de que o autor afirma que economistas sérios
acreditaram que seria perfeitamente possível separar as questões
econômicas de suas conseqüências políticas e sociais.
Sua
premissa é de que
“não
havia nada de errado no consenso de Washington em si: os setores
estatais dos países em desenvolvimento eram, em muitos casos,
obstáculos ao crescimento e só poderiam ser corrigidos em longo
prazo com a liberalização econômica. Na verdade, o problema era
que, embora os Estados precisassem ser reduzidos em determinadas
áreas, ao mesmo tempo precisavam ser fortalecidos em outras”.(FUKUYAMA,
2004:19/20).
Em
outras palavras, o Estado mínimo dos neoliberais só devia ser
“fraco” onde pudesse atrapalhar o funcionamento infalível dos
mercados. Mas devia ser “forte” o suficiente para garantir o
“cumprimento das leis”. O que na prática significa: Manter a
ordem e garantir a propriedade privada.
Fukuyama
reforça essa impressão:
”Ele
[Milton Friedman] observou que, uma década antes,
teria três palavras para os países que faziam a transição
do socialismo: ‘privatizar, privatizar e privatizar’. ‘Mas eu
estava errado’. ‘Acontece que o domínio da lei é
provavelmente mais fundamental que a privatização’ (Entrevista
com Milton Friedman, Gwartney e Lawson em 2001)”.(FUKUYAMA,
2004:36).
Como
é duvidoso que Friedman esteja se referindo a leis trabalhistas ou
de proteção social, é fácil imaginar o que ele de fato quer
dizer. Com o fim da autoridade absoluta do Estado, enfraquece-se
também a tão útil ação da polícia, dos serviços de vigilância
interna, das prisões, etc. Sem os "muros" das fronteiras,
surgem os problemáticos fluxos de imigrantes e refugiados...
Mais
adiante, Fukuyama escreve:
“A
era pós-Guerra Fria começou sob o domínio intelectual dos
economistas, que defenderam fortemente a liberalização e um
Estado menor. Dez anos depois, muitos economistas concluíram que
algumas das variáveis mais importantes que afetam o
desenvolvimento não eram econômicas, mas estavam ligadas a
instituições políticas”. (FUKUYAMA, 2004:39).
Depois
de apontar essa notável “descoberta”, o autor passa a discutir
quais deveriam ser os meios de se classificar os Estados e
principalmente, maneiras de construí-los de modo a se encaixarem no
infalível consenso de Washington. É onde o autor entra em uma
seara das mais perigosas.
Isso
porque não fica nem um pouco claro, o que “deve acontecer” com
os países que, depois de fracassarem miseravelmente sob os
conselhos das instituições financeiras internacionais, não
aceitarem as novas receitas, segundo as quais, deverão doravante
“construir” seus Estados nacionais.
Fukuyama
lembra que:
“Algumas
pessoas gostam de traçar uma distinção clara entre as intervenções
em nome dos direitos humanos e aquelas para evitar ameaças à
segurança de outros países e dizem que somente as primeiras
constituem base legítima para violação da soberania”.
O
problema seria que:
“Esta
distinção é questionável, porque pressupõe que a autodefesa
seja, de alguma forma, menos legítima que a defesa de
terceiros”. Mas esclarece, de forma um tanto quanto dúbia, que:
“Esta questão não deve ser interpretada como um sumário da
guerra do governo Bush contra o Iraque”. (FUKUYAMA, 2004:130).
Na
prática, a conclusão é óbvia: Em um mundo globalizado, é muito
difícil que as crises geradas por “Estados fracos ou
fracassados” não tenham conseqüências para vários outros países.
Nesse caso a soberania das nações deve ser vista como um conceito
“relativo”.
Caso
um Estado não demonstre capacidade de controlar possíveis ameaças
a “ordem global”, deve ser “reconstruído” conforme um novo
conjunto de normas e diretrizes, a serem estabelecidas pelos sábios
da economia de mercado. É um interessante ressurgimento da noção
da “missão do homem branco”, tão cara aos sistemas coloniais
do passado.
Mas
o que parece embutido nas propostas de Fukuyama é um claro abandono
dos ideais da própria globalização em termos de um projeto comum
para toda a humanidade. Assim, a “aldeia global” é apenas para
os ricos e bem sucedidos. Para os pobres, recria-se o bom e velho
Estado, encarregado de fazer “cumprir as leis”.
Não
parece ser outra a conclusão no último capítulo de seu livro,
muito apropriadamente intitulado: “Menor porém mais forte”:
“Para as sociedades individuais e para a comunidade global, o
enfraquecimento do Estado não é um prelúdio para a utopia, mas
sim para o desastre”.(FUKUYAMA, 2004:156).
A
solução:
“Os
países precisam ser capazes de construir instituições estatais
não apenas dentro de suas próprias fronteiras, mas também em
outros países mais desorganizados e perigosos. No passado, eles
teriam feito isso simplesmente invadindo o país e anexando-o
administrativamente ao seu império”.
Mas
o problema é que:
“Hoje,
insistimos que estamos promovendo a democracia, o autogoverno e os
direitos humanos e que qualquer esforço para governar outras
pessoas é meramente transicional e não implica ambições
imperiais”.
Portanto
“...
a arte de construção de Estados será um componente essencial de
poder nacional, tão importante quanto à capacidade de utilizar
as forças militares tradicionais para a manutenção da ordem
mundial”. (FUKUYAMA, 2004:137).
Em
outras palavras, a comunidade global não passa de uma utopia, as
fronteiras só devem desaparecer para as corporações globais e o
capital financeiro. Para os povos em geral, a questão se limita a
criar novos Estados que cumpram suas funções “primordiais”, ou
seja, de manter os conflitos gerados pela própria globalização,
sob estrito controle.
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