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Por
LUIZ ALBERTO MONIZ
BANDEIRA
Luiz Alberto Moniz
Bandeira é cientista político, professor titular de História da
Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília
(aposentado) e autor de mais de 20 obras, entre as quais
Brasil, Argentina e Estados Unidos:conflito e integração na
América do Sul(Da Tríplice Aliança ao Mercosul), De Marti a
Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina, e Relações
Brasil-EUA no contexto da globalização, cujo vol. I é
Presença dos Estados Unidos no Brasil e o vol. II,
Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente. |
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Os
Estados Unidos e a arte da tortura*
Quando
a mídia internacional divulgou vídeos e fotos mostrando as
torturas, humilhações sexuais e outros abusos e violações dos
direitos humanos a que os prisioneiros iraquianos eram submetidos na
prisão de Abu Ghraib, a revista "Stern", da Alemanha, na
capa da uma edição publicou como título, sobre o retrato de
George W. Bush: "Moralisch Bankrott" (bancarrota moral).
O
famoso Seymour M. Hersh, da "New Yorker", revelou que
esses abusos e torturas na prisão de Abu Ghraib e também no campo
de concentração em Guantánamo, desrespeitando a Convenção de
Genebra, não decorreram de inclinações criminosas de alguns
poucos soldados do Exército americano, mas de uma decisão aprovada
pelo secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, com o objetivo de
extrair dos prisioneiros mais informações sobre Al Qaeda e a
resistência no Iraque. E o Departamento de Justiça, em agosto de
2002, admitiu em memorando à Casa Branca que torturar terroristas
da Al Qaeda, no exterior, "pode ser justificado"; que as
leis internacionais contra tortura "podem ser inconstitucionais
se aplicadas a interrogatórios" na guerra contra o terrorismo;
e que a necessidade de autodefesa "podia prover justificativa
que eliminaria qualquer responsabilidade criminosa".
E
provavelmente foi prevendo o emprego de tais métodos que George W.
Bush retirou a assinatura dos EUA do tratado criando a Corte Penal
Internacional, para crimes de guerra e contra os direitos humanos, e
fez intensa campanha por meio de pressões e chantagem sobre outros
países, de modo que não entregassem soldados americanos ao seu
julgamento, privilégio que nenhuma outra nação procurou obter.
Os
métodos de tortura empregados em Guantánamo e em Abu Ghraib não sãos
novos. São similares aos consubstanciados no manual de treinamento
"Kubark Counterintelligence Interrogation July 1963",
elaborado para o Vietnã, e em outro manual -"Human Resource
Exploitation Training Manual 1983"-, que se destinara a ensinar
aos serviços de segurança da América Central -Nicarágua, El
Salvador e Honduras- a extrair informações dos suspeitos de
subversão. Esse manual foi usado em numerosos países
latino-americanos como instrumento de instrução pela CIA e pelos
boinas verdes, das Forças Especiais de Operação, entre 1983 e
1987, e se tornou objeto de críticas no Comitê de Inteligência do
Senado americano, em 1988, devido aos abusos e violações aos
direitos humanos cometidos pelos militares de Honduras, treinados
pelos norte-americanos.
Em
março de 1992, foi enviado ao então secretário da Defesa, Dick
Cheney, um relatório de investigação realizada internamente no
Pentágono sobre os manuais de contra-inteligência e interrogatório
usados pelo Comando Sul (Southcom) através da América Latina e que
afiguravam conter material "objetável". Os investigadores
traçaram as origens das instruções sobre o uso de espancamento,
confinamento, execuções simuladas e aplicação do soro da verdade
até o Project X, um programa executado pelas unidades da inteligência
militar do Exército americano na década de 1960.
Os
oficiais latino-americanos que cursaram a Escola das Américas entre
1966 e 1976 foram treinados de acordo com o programa do Project X,
apresentado como "pacote de treinamento para prover técnicas
de contra-insurgência aprendidas no Vietnã e nos países da América
Latina". Esse treinamento foi suspendido em virtude da comissão
de inquérito no Congresso e por temer o governo de Carter que
contribuísse para a violação dos direitos humanos. Mas foi
restaurado, em 1982, pelo presidente Reagan.
Diante
da repercussão altamente negativa que os escândalos de Abu Ghraib
produziram, a CIA anunciou a suspensão das técnicas "stress
and duress" de interrogatório, ou seja, das técnicas de
tortura aprovadas novamente pela Casa Branca e que resultaram na
morte de prisioneiros. E o escândalo foi abafado, com a condenação
de alguns soldados a penas leves, sem alcançar os maiores responsáveis
na cadeia de comando.
Contudo
a general Janis Karpinski, responsável pela prisão de Abu Ghraib,
disse a BBC, revelou, depois de afastada do cargo, que ouviu de um
comandante da inteligência militar, general Geoffrey Miller, que os
prisioneiros deveriam ser tratados "como cães", e alegou
que ela e seus soldados estavam a servir como "bodes expiatórios"
para abusos ordenados por outros. Mas os prisioneiros continuaram
enclausurados, sem nenhuma acusação e julgamento, limitado até o
acesso da Cruz Vermelha, tanto em Guantánamo como em Abu Ghraib e
quartéis em outras países, para onde foram sigilosamente
transferidos.
A
CIA e o Pentágono mantêm prisões clandestinas na Tailândia,
Qatar e Afeganistão, entre outros países, e esconderam da Cruz
Vermelha centenas de prisioneiros, por ordem do próprio Donald
Rumsfeld. Durante a audiência de confirmação, o secretário da
Justiça, Alberto Gonzalez, confirmou que a CIA não estava proibida
de usar tortura ou qualquer método desumano, desde que fosse fora
dos EUA. Muitos prisioneiros foram entregues a outros países, como
Egito, Síria, Arábia Saudita, Jordânia e Paquistão, em
conformidade com o programa de "rendition" aprovado pela
Casa Branca, de modo que fossem torturados e a CIA pudesse receber
depois as informações.
O
professor Scott Horton, especialista em direito internacional da
escola de direito da Universidade de Nova York estimou que cerca de
150 pessoas tenham sido transferidas para outros países e
torturadas desde 2001. O deputado Ed Markey (democrata) disse que um
número mais preciso é difícil de obter, pois a CIA se recusava a
dar informações. Nem a Convenção Contra a Tortura, ratificada
pelos EUA em 1994, nem as leis internas Washington respeita. E busca
redefinir o conceito de tortura, com o uso de termos como
"manipulação ambiental" ou "manipulação
sensorial", para justificar as suas técnicas de interrogatório.
Não
sem razão, no relatório de 2005, a Anistia Internacional comentou
que as flagrantes violações dos direitos humanos e das leis
humanitárias, "na guerra contra o terror", tornam uma
zombaria a pretensão de George W. Bush de apresentar os EUA como
campeões globais dos direitos humanos.
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